domingo, 24 de abril de 2016

Algar da Cheira

Vale Florido, São Bento

24 de Abril de 2016




Equipa - Alexandre Leal




Terceira saída de campo ao Algar da Cheira. O dia prometia um tempo seco e quente, e antes que a soalheira se fizesse sentir lá parti com os dois kitbags com destino na mira.

Primeiro objectivo re-equipar a cabeceira do poço, colocando um spit para "substituir" o que se apresentava mais saliente. Não que o outro spit existente não merecesse ser também substituído, o que poderá ser já na próxima saída, uma vez que se apresenta, também, bastante saliente. De ponderar no entanto a utilização de uma anilha adaptada que permita dar estabilidade e pontos de contacto (e assim maior segurança) com a plaqueta.

O segundo objectivo que tinha traçado passava pela tentativa de desobstrução de um ponto mais apertado no sector das estreitezas, por forma a aceder ao que parece ser uma zona ligeiramente mais ampla (em termos verticais, ainda que de ordem relativa).

Pois bem, este objectivo passou para segundo plano. Ao fazer uma breve inspecção ao "poço" (pequena via de progressão de sentido vertical) detectado na saída anterior, manteve-se a sensação de sopro, de pequena corrente de ar, razão pela qual decidi apostar, em primeiro lugar, na sua desobstrução.

O espaço apresentava-se algo confinado, com um acesso apertado que dificultou a remoção do material resultado da desobstrução, em particular os blocos de maior dimensão (e peso).

O primeiro passo foi a retirada de blocos soltos que se encontravam a entulhar a base do pequeno nicho de onde abria a passagem a intervencionar. Em seguida aumentei o espaço disponível através da retirada de uma quantidade considerável de terras (e pequenas pedras) o que permitiu não só uma maior amplitude de movimentos como atacar os blocos de calcite que impossibilitavam a progressão. O Little Mike foi aqui imprescindível.  

Foi um trabalho árduo, de insistência, delapidando, passo a passo, os blocos. Atacando os blocos em primeiro lugar junto à base, que apresentavam uma consistência e uma resistência bem menor, devido à  maior infiltração de lamas nos vários estratos da calcite,  lá fui abrindo  caminho. 


O grande bloco, e último grande obstáculo, que se apresentava na diagonal sobre a passagem foi, lentamente e com grande cuidado, retirado para o espaço criado pela a remoção das terras. Restava eliminar o resquício do bloco que o suportava e continuava a impedir a  passagem. Nada que o "Mauler" não fizesse em tempo record.

E o caminho estava aberto...



Quando comparado com a abertura aquando da sua descoberta na saída anterior as diferenças são notórias, tendo em atenção no entanto que o maior trabalho até se encontra fora no ângulo da objectiva.
Imagem retirada aquando da descoberta da passagem.

Sempre com "um olho" no bloco que ainda se encontrava "entalado" sobre a passagem ao nível de ingresso a este nicho fiz um primeiro teste à possibilidade de passagem, tendo descido até ao nível  do peito sem quaisquer constrangimentos de maior. Na próxima saída a descida ao nicho seguinte está garantida, bem como o ataque a zona seguinte da passagem vertical que continua, ainda que com um diâmetro bem mais apertado. Vai exigir um trabalho duro, embora qualquer análise se encontre prejudicada até ao momento que possa avaliar a consistência da base do referido nicho, ainda uma incógnita.



O volume de materia retirada foi significativa, tanto em termos de terras como em termos de blocos, na maioria calcite formada sobre terra, alguns dos quais com 10 ou 15kgs.


O trabalho fez mossa e ter levado apenas uma garrafa de 0.5l de água não ajudou. Ponderado o desgaste a decisão tomada foi de regresso à superfície....











... E sol fazia-se sentir. O termómetro do carro marcava 30º (termoacumulador desgraçado) mas a garrafa de litro guardada na bagageira manteve-se estranhamente  fresca. Um maná dos céus.

Foi beber e descansar um pouco, antes de desequipar e pôr-me a caminho.... de uma bela sopa da pedra e uma bifada do Bigodes, para repor as forças.




"There´s no rest for the Wicked"... para a semana os trabalhos continuam.


Um abraço,
Alexandre  Leal 

domingo, 10 de abril de 2016

Algar da Cheira

Vale Florido, São Bento

08 de Abril de 2016




Equipa - Alexandre Leal





Como estava prometido lá voltei à Cheira para continuar os trabalhos de exploração deste belo algar. Os objectivos para esta saída eram, muito concretamente, dois. Avaliar, e começar a desobstrução, de um pequeno poço situado sensivelmente a meio do desenvolvimento da cavidade, e que resultou, como veremos abaixo, na identificação não de um mas de duas potenciais vias de progressão vertical situadas de forma contígua, num espaço que não dista mais de quatro ou cinco metros, e continuar a exploração do sub-nível de estreiteza situado perto da zona terminal.

Equipado com as minhas fieis ferramentas (Big Mike, Little Mike & Mauller) lá equipei o poço de entrada, que nunca me deixa de surpreender pela sua enorme beleza (e com a luz e o ângulo certo torna-se mágico), e preparei-me para a breve descida. Neste ponto devo dizer que, e por uma questão de precaução e redução de risco, deverei re-equipar os dois pontos de segurança na cabeceira, dois spits de 8mm, que se encontram demasiado saídos. Um dos quais, mais em concreto, não permite sequer qualquer contacto da plaqueta com a rocha, ficando completamente "no ar", com a consequente instabilidade e possibilidade, muito real, do parafuso se ir soltando com a vibração e oscilação.  Já no fundo do poço identifiquei a primeira Salamandra (Salamandra salamandra) encontrada no algar, que não se fez rogada em sair do esconderijo para averiguar esta fonte estranha de luz andante, para rapidamente perder o interesse e voltar para zonas mais escuras...




Era tempo de deixar o KitBag de equipagem e o arnês, com toda a parafernália e equipamento, para trás e começar os trabalhos.


Topografia retirada do site do Nalga: https://nalga.wordpress.com/2012/08/05/as-grutas-do-planalto-de-sto-antonio/
Arte final por Vitor Amendoeira.

O bloco alvo da operação encontra-se ao centro da fotografia,
coberto pelo pó branco resultado do desgaste.
Um facto bastante interessante foi sendo revelado à medida que ia progredindo pela cavidade, e prestando uma especial atenção às paredes, e muito em particular à parede que ficava à minha direita, e que posso mesmo referir como constituindo um padrão. Com efeito, tornou-se aparente a existência, em múltiplos pontos, de pequenas fracturas ou buracos no enfiamento da parede, na sua base ou muito perto desta. Na sua maioria de pequena ou muito pequena dimensão, mas bastante consistentes. Rapidamente dei com o primeiro ponto a investigar, um pequeno buraco, de diâmetro bastante reduzido, que se abria "protegido" por um pequeno caos de blocos caídos (alguns dos quais de grande dimensão, situado junto à parede Sul, entre as estações 8 e 9 da topografia. Após um trabalho prévio de remoção de blocos soltos, tanto à superfície como um pouco mais abaixo (que consegui arrumar para o lado), o grande impedimento para uma melhor análise do potencial desta "passagem" residia num bloco que o obstruía parcialmente. Depois de uma tentativa frustrada de remoção via "Big Mike" tive que recorrer ao "Little Mike" e "Mauler" para o desbastar e/ou partir o suficiente para ter uma melhor perspectiva, ou mesmo começar a alargar a passagem. O facto do bloco ser cristalizado, basicamente calcite, e não obstante ser um aglomerado constituído por vários estratos (em alguns casos separados por um estrato de argila),  o que dificultou, e de que maneira, a tarefa. Quebradiço mas muito rijo, ofereceu grande resistência.

Aquele plano direito que se pode ver aqui, resultou do seccionamento de um
estrato.
A profundidade do buraco em si não é de fácil apreensão. Não obstante aparentar ser pouco profundo, a verdade é que se apresenta parcialmente obstruído com terras, deixando em aberto, em ângulo difícil de perceber, uma pequena passagem que aparenta seguir por mais uns metros. Em qualquer dos casos não foi sentida qualquer aragem ou sopro na altura em questão. Não obstante tal facto não se pode afastar qualquer hipótese, razão pela qual se deixa em aberto a continuação dos trabalhos neste ponto.






De maior diâmetro e curvando para a direita. Bastante promissor.
Sensivelmente a quatro ou cinco metros  um outro pequeno nicho na base da parede chamou-me atenção. Retirando uns blocos ,e encolhendo-me lá para dentro, encontrei uma outra abertura, em rampa no sentido descendente, com um diâmetro um pouco maior e com uma pequena corrente de ar. Reduzida é certo mas que se fazia notar de forma ligeira. Foram retirados mais uns quantos blocos no sentido de sanear o ponto, exigindo-se ainda a retirada  de um bloco de maiores dimensões por questões de segurança. Este ponto parece-me ser bastante promissor.

Com o primeiro objectivo cumprido estava na altura de fazer uma pequena pausa para repor energias e hidratar. Coisa rápida que a estreiteza chamava, e o apelo é forte...







Com o "Little Mike" na mão lá me meti pela passagem fora, com o objectivo de ir um pouco mais à frente, tanto na zona mais afastada como principalmente na zona lateral, que deverá apontar para sul. Em ambos os casos foram feitos progressos, ligeiros é verdade que as condições não são fáceis, o esforço físico é relevante e a margem de erro é nula (em especial trabalhando a solo). Quando ao sector mais afastado não foi sentido qualquer sopro ou corrente mas existe ainda claramente margem para progresso. Já no sector lateral as hipóteses são bem mais optimistas. Após uma breve desobstrução (ainda que na altura tenha parecido ter demorado uma eternidade) de uma camada de argila que bloqueava parcialmente a passagem, consegui progredir um pouco mais até chegar a uma zona que apresentava já algumas pequenas formações, tanto estalagmites como estalactites, e que impossibilitaram  maior progressão, não sem que permitisse perceber que mais à frente, diria uns três ou quatro metros (embora a posição e as condições não o permitam afirmar com muita certeza), o espaço disponível parecesse aumentar em altura. Fiquei com a sensação, mas não mais do que isso, que por detrás de uma zona mais levantada, o chão baixava, sendo nesta altura um verdadeiro ponto de interrogação. Um poço seria um extraordinário  achado, ainda que atento às dimensões da área e forma de ingresso, um verdadeiro desafio à sua equipagem e exploração.

Aqui fica o video que relata esta parte dos trabalhos, e que mais uma vez permite ficar-mos com uma ideia bem aproximada das dimensões reduzidas deste sub-nível.





Um algar que promete muito trabalho ainda...



Ainda com lama por todo o lado...

Até à próxima num qualquer buraco
(e o mais certo é ser este)
Alexandre Leal