Algar Covão de Ervilha e Algar Zé Alves
Cabeça Gorda, Serra dos Candeeiros, União de Freg. do Arrimal e Mendiga
e Valverde, Planalto de Santo António
21 de Junho de 2017
Coordenação - Alexandre Leal (NEL) Marco Dias (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Marco Dias (NEL)
O dia acordou com temperaturas menos escaldantes, e estavam "prometidas" temperaturas máximas abaixo do terror que se tinha vindo a verificar nos últimos, e terríveis, dias, o que não deixava de ser uma óptima notícia atendendo às condições secas e ásperas que normalmente se fazem sentir na Cabeça Gorda. Confesso também que as minhas condição físicas e cognitivas estavam um pouco abaixo do ideal (noites mal dormidas graças à minha "pequena" cadelinha que me teimava em acordar de 10 em 10 minutos) embora sem comprometerem a prestação.
Os objectivos estavam traçados, fazer uma primeira abordagem a um algar que tinha "descoberto" dois dias antes ao navegar pelo GoogleMaps, o Algar Covão de Ervilha, localizado a uns meros 300 metros do local onde costumo parar o carro e onde marquei o encontro com o Marco, e posteriormente, como objectivo principal, descer o Algar da Cabeça Gorda. Como se verá, esta tarefa tem-se mostrada particularmente complicada de realizar.
Com o encontro marcado para as 10h00m, a minha chegada por volta das 9h30m deu-me tempo para organizar o equipamento e fazer um reconhecimento pela zona onde pensava estar localizado o algar por forma não só a identificar o local concreto do poço de entrada como verificar as exigências de equipagem.
Tarefa que se veio a revelar bastante mais fácil do que o antecipado. Cerca de 100 metros pela estrada acima (do local onde havia estacionado para o efeito) deparei-me com um trilho (marcado) que seguia para a direita, e uns 30m mais à frente lá estava a grande laje que cobria a abertura do algar.
Na face que podemos ver na fotografia à esquerda encontra-se um spit solitário. Feita a aproximação com uma amarração natural (AN) em volta de um eucalipto no terreno contíguo, ponderei a colocação de um segundo ponto de segurança, mas, e atendendo à reduzida profundidade do poço e à qualidade da laje, bem como a colocação do spit, decidi por equipar a corda com base neste ponto único (reforçado pela AN na árvore), utilizando uma manga de roço para proteger a corda na face de rocha da cabeceira do poço.
E num instante estava na base do poço, no centro de uma sala com uma dimensão bem interessante. E com os pés bem acentes num misto de pedra e matéria orgânica sou assaltado pelo odor forte e muito particular de um corpo em decomposição já algo "maturado". Mais um corpo a juntar-se à legião de ossadas que se encontrava espalhada por toda esta sala, para além do lixo que pontualmente se encontrava.
No que à génese do algar diz respeito, e analisando a sala e a forma do poço de entrada, facilmente concluímos que estamos perante um algar de abatimento, fenómeno aliás que contribuiu de forma indelével para a natureza conturbada e tortuosa que a cavidade assume desde este ponto, com o consolidar de um enorme caos de blocos que preencheu todo o espaço a que conseguiu chegar.
Como resultado temos um desenvolvimento bastante maior do que antecipava, com muitas passagens apertadas que dão acesso a pequenos nichos ou pequenas zonas interligadas por outras passagens e muitos buracos e buraquinhos entre blocos, sem que no entanto fosse possível identificar qualquer forma clara de progressão para além desta zona de caos.
No que à génese do algar diz respeito, e analisando a sala e a forma do poço de entrada, facilmente concluímos que estamos perante um algar de abatimento, fenómeno aliás que contribuiu de forma indelével para a natureza conturbada e tortuosa que a cavidade assume desde este ponto, com o consolidar de um enorme caos de blocos que preencheu todo o espaço a que conseguiu chegar.
Como resultado temos um desenvolvimento bastante maior do que antecipava, com muitas passagens apertadas que dão acesso a pequenos nichos ou pequenas zonas interligadas por outras passagens e muitos buracos e buraquinhos entre blocos, sem que no entanto fosse possível identificar qualquer forma clara de progressão para além desta zona de caos.Num dualismo quase paradoxal encontramos no meio desta paisagem de génese violenta zonas de admirável beleza de crescimento lento e sustentado, com particular incidência para a presença de cristais brilhantes e concreções cristalinas, mas também por bonitas bandeiras e estalactites adornadas por pequenas concreções excêntricas.
Já perto do final do tempo dedicado a esta primeira actividade de exploração da cavidade, quando examinava uma pequena passagem perto da sala de entrada, ainda que num ponto oposto ao de ingresso na zona caótica, senti um ténue sopro fresco, o primeiro que sentira na cavidade.
Com o Marco já a caminho da corda forcei a minha passagem pelo espaço confinado e com uma forma anatomicamente muito pouco favorável (foi necessário retirar algum material que tinha preso e "respirar um pouco menos"). Do outro lado um pequenos nicho que dava acesso a uma outra passagem vertical de não mais de 150cm, parcialmente bloqueada por um bloco caído. O sopro, esse parecia vir desta passagem mas como referi era bastante ténue. Qualquer progressão, se possível, passaria inevitavelmente pela remoção do bloco e muito possivelmente pelo alargamento da própria passagem, tarefa que pessoalmente, atendendo às poucas evidências de possível progressão, me parece injustificável.
Não deixa, no entanto, de ser um ponto de interrogação válido e legítimo.
Como nota final salientar as dificuldades que o sector caótico vai criar em sede de levantamento topográfico, atendendo em especial à pouca experiência nestas matérias. Vai ser complicado.
Com o tempo alocado a esta tarefa já largamente ultrapassado estava na altura de regressar à superfície e subir ao cabeço até à próxima cavidade, o Algar da Cabeça Gorda.... ou não.
Junto aos carros e a preparar a ida para a próxima cavidade refere o Marco que tem uma cavidade no GPS ali perto que gostava de ir ver, um algar com uma grande laje por cima... Estranhei mas a existir seria mais um ponto a juntar ao cadastro do Cabeço, e lá nos metemos no carro, com o Marco a liderar.
O problema é que o "já ali" do Marco apontava para a serra do outro lado do vale, e a 2km de distância (em linha reta)... foi o fim dos tempos, mas já estávamos a fazer uma actualização ao plano de ataque. Iríamos ver este "Algar Unknown", que mais tarde identificámos como Algar Zé Alves (ou Algar d´Alves), depois almoçávamos e voltávamos à carga à Cabeça Gorda na parte da tarde. Até nem parecia um mau plano... seria sempre uma coisa rápida. YEAH RIGHT!!!
A minha atenção para o detalhe e pensamento sistemático, esse, já estava por esta altura algo comprometido pelo que recaiu sobre o Marco a tarefa de coordenação e equipagem. Lembro-me de a certo momento lhe ter perguntado se ele não levava qualquer kitbag com equipamento, sem que me tivesse "apercebido" que também eu não estava a levar qualquer equipamento adicional, em particular corda, que ficara no carro.
Em nossa defesa devo dizer que fiquei com a ideia que o buraco teria uns 20 e poucos metros e pouco mais... Pois, não!
A equipagem na cabeceira do poço foi uma equipagem reforçada atendendo ao estado dos parabolts cravados na parte inferior da enorme laje. Com um ponto de aproximação feito com recurso a uma AN, equipou-se o ponto principal nos parábolas, em Y, reforçado com a utilização de um spit encontrado directamente sobre a estreita abertura do algar, tendo sido colocada uma manga de roço para proteger a corda nas zonas mais "agrestes".Com o Marco a liderar a descida não tardou a chegar a notícia, em tom urgente e com grande drama (e algumas obscenidades pelo meio), que havia uma "enorme" cobra numa plataforma a meio do poço, o que fez, aliás, com que o Marco descesse o resto da vertical em passo um pouco mais acelerado.
Ao descer confirmei a presença da pequena cobra que se tentava esconder por entre os blocos e pedras que aí se encontravam relativamente estáveis. Na subida trataríamos de a capturar e levar para a superfície.A descida do último troço do poço de entrada foi feita com alguns cuidados por forma a reduzir ao mínimo o roço que se fazia sentir num poço cerca de 2 metros abaixo da plataforma supra mencionada. Poderia ter colocado logo uma manga mas... tinha ficado no carro, bem como outra corda que viria a ser necessária para equipar o pequeno poço que o Marco entretanto já tinha identificado na sequência de uma pequena "janela".
A "janela" dava para uma sala recheada de formações lindíssimas, com um pequeno gour na sua base. Deste ponto de vantagem sobre a sala, uns 4 metros acima do chão, era visível uma possível continuação junto à parede da direita algures em frente. Apertado, certamente, mas parecia possível a progressão por esta via. Por outro lado não nos era possível ver directamente para baixo de nós, local chave que veio a revelar uma passagem para outro poço, mas isso viria depois. Agora era preciso resolver uma questão prévia, a falta de corda.![]() |
| Fotografia por Marco Dias, do outro lado da "Janela". |
Solução era simples, lá foi o Alexandre corda acima até ao carro para trazer o kit bag com as duas cordas mais pequenas... sim, deixei a de 60m lá em cima (o que se veio a revelar "trágico", tendo no impedido de descer os últimos dois poços) e na descida acabei por colocar uma manga de roço no ponto crítico. Numa próxima saída será colocado um spit nesse ponto, por forma a criar um fracionamento que evita totalmente qualquer problema e torna a descida mais rápida e segura.
E a partir daqui foi um teste ao nosso engenho e capacidade de improvisação, mas também muita diversão (ainda que em termos físicos as coisas já haviam estado melhor), até porque a cavidade é em si muito bonita, com um desenvolvimento muito interessante, com uma série de poços de pequena dimensão num contexto de formações e cristais que lhe emprestam uma beleza muito especial.
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| Fotografia por Marco Dias |
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| Marco improvisando um fracionamento. |
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| Quarto poço, que apresenta também uma passagem lateral para a direita, e ligeiramente para cima desta posição... |
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| Fotografia por Marco Dias. |
Para o efeito havia trazido um saco de plástico quando subira para ir buscar o kit-bag com as cordas, que colocaria depois na ponta da longe para transportar sem grandes problemas. E neste ponto tudo correu de feição. Ela estava relativamente calma e letárgica (o que seria aliás de esperar) e rapidamente a coloquei dentro do saco, que fechei com recurso ao cordino que prende a chave #13. Por sorte apercebi-me atempadamente que o saco tinha um pequeno buraco no fundo, pelo que foi preciso improvisar uma forma de o fechar, tendo utilizado um outro cordino que tinha no kit-bag.
E com calma e alguma atenção para evitar embates escusados lá fomos subindo até à superfície.
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| Fotografia por Marco Dias. |
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| Fotografia por Marco Dias. |
Com o trabalho feito, e porque a hora já ia mais adiantada do que o esperado lá fomos nós a caminho do Cantinho do Francisco para repor as forças... e sim, lá ficou o Algar da Cabeça Gorda para outro dia!
Quarta-feira há mais, mas desta feita na zona do Cabeço das Pombas ;).
Um abraço,
Alexandre Leal




























