segunda-feira, 26 de junho de 2017

Algar Covão de Ervilha e Algar Zé Alves

Cabeça Gorda, Serra dos Candeeiros, União de Freg. do Arrimal e Mendiga

e Valverde, Planalto de Santo António

21 de Junho de 2017




Coordenação - Alexandre Leal (NEL) Marco Dias (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Marco Dias (NEL)






O dia acordou com temperaturas menos escaldantes, e estavam "prometidas" temperaturas máximas abaixo do terror que se tinha vindo a verificar nos últimos, e terríveis, dias, o que não deixava de ser uma óptima notícia atendendo às condições secas e ásperas que normalmente se fazem sentir na Cabeça Gorda.  Confesso também que as minhas condição físicas e cognitivas estavam um pouco abaixo do ideal (noites mal dormidas graças à minha "pequena" cadelinha  que me teimava em acordar de 10 em 10 minutos) embora sem comprometerem a prestação. 

Os objectivos estavam traçados, fazer uma primeira abordagem a um algar que tinha "descoberto" dois dias antes ao navegar pelo GoogleMaps, o Algar Covão de Ervilha, localizado a uns meros 300 metros do local onde costumo parar o carro e onde marquei o encontro com o Marco, e posteriormente, como objectivo principal, descer o Algar da Cabeça Gorda. Como se verá, esta tarefa tem-se mostrada particularmente complicada de realizar.

Com o encontro marcado para as 10h00m, a minha chegada por volta das 9h30m deu-me tempo para organizar o equipamento e fazer um reconhecimento pela zona onde pensava estar localizado o algar por forma não só a identificar o local concreto do poço de entrada como verificar as exigências de equipagem.

Tarefa que se veio a revelar bastante mais fácil do que o antecipado. Cerca de 100 metros pela estrada acima (do local onde havia estacionado para o efeito) deparei-me com um trilho (marcado) que seguia para a direita, e uns 30m mais à frente lá estava a grande laje que cobria a abertura do algar.

Na face que podemos ver na fotografia à esquerda encontra-se um spit solitário. Feita a aproximação com uma amarração natural (AN) em volta de um eucalipto no terreno contíguo, ponderei a colocação de um segundo ponto de segurança, mas, e atendendo à reduzida profundidade do poço e à qualidade da laje, bem como a colocação do spit, decidi por equipar a corda com base neste ponto único (reforçado pela AN na árvore), utilizando uma manga de roço para proteger a corda na face de rocha da cabeceira do poço.

E num instante estava na base do poço, no centro de uma sala com uma dimensão bem interessante. E com os pés bem acentes num misto de pedra e matéria orgânica sou assaltado pelo odor forte e muito particular de um corpo em decomposição já algo "maturado". Mais um corpo a juntar-se à legião de ossadas que se encontrava espalhada por toda esta sala, para além do lixo que pontualmente se encontrava.

No que à génese do algar diz respeito, e analisando a sala e a forma do poço de entrada, facilmente concluímos que estamos perante um algar de abatimento, fenómeno aliás que contribuiu de forma indelével para a natureza conturbada e tortuosa que a cavidade assume desde este ponto, com o consolidar de um enorme caos de blocos que preencheu todo o espaço a que conseguiu chegar.

Como resultado temos um desenvolvimento bastante maior do que antecipava, com muitas passagens apertadas que dão acesso a pequenos nichos ou pequenas zonas interligadas por outras passagens e muitos buracos e buraquinhos entre blocos, sem que no entanto fosse possível identificar qualquer forma clara de progressão para além desta zona de caos.














Num dualismo quase paradoxal encontramos no meio desta paisagem de génese violenta zonas de admirável beleza de crescimento lento e sustentado, com particular incidência para a presença de cristais brilhantes e concreções cristalinas, mas também por bonitas bandeiras e estalactites adornadas por pequenas concreções excêntricas.




Já perto do final do tempo dedicado a esta primeira actividade de exploração da cavidade, quando examinava uma pequena passagem perto da sala de entrada, ainda que num ponto oposto ao de ingresso na zona caótica, senti um ténue sopro fresco, o primeiro que sentira na cavidade. 

Com o Marco já a caminho da corda forcei a minha passagem pelo espaço confinado e com uma forma anatomicamente muito pouco favorável (foi necessário retirar algum material que tinha preso e "respirar um pouco menos"). Do outro lado um pequenos nicho que dava acesso a uma outra passagem vertical de não mais de 150cm, parcialmente bloqueada por um bloco caído. O sopro, esse parecia vir desta passagem mas como referi era bastante ténue. Qualquer progressão, se possível, passaria inevitavelmente pela remoção do bloco e muito possivelmente pelo alargamento da própria passagem, tarefa que pessoalmente, atendendo às poucas evidências de possível progressão, me parece injustificável. 

Não deixa, no entanto, de ser um ponto de interrogação válido e legítimo.

Como nota final salientar as dificuldades que o sector caótico vai criar em sede de levantamento topográfico, atendendo em especial à pouca experiência nestas matérias. Vai ser complicado.

Com o tempo alocado a esta tarefa já largamente ultrapassado estava na altura de regressar à superfície e subir ao cabeço até à próxima cavidade, o Algar da Cabeça Gorda.... ou não.




Junto aos carros e a preparar a ida para a próxima cavidade refere o Marco que tem uma cavidade no GPS ali perto que gostava de ir ver, um algar com uma grande laje por cima... Estranhei mas a existir seria mais um ponto a juntar ao cadastro do Cabeço, e lá nos metemos no carro, com o Marco a liderar.

O problema é que o "já ali" do Marco apontava para a serra do outro lado do vale, e a 2km de distância (em linha reta)... foi o fim dos tempos, mas já estávamos a fazer uma actualização ao plano de ataque. Iríamos ver este "Algar Unknown", que mais tarde identificámos como Algar Zé Alves (ou Algar d´Alves),  depois almoçávamos e voltávamos à carga à Cabeça Gorda na parte da tarde. Até nem parecia um mau plano... seria sempre uma coisa rápida. YEAH RIGHT!!!

E lá fomos nós, serra acima (outra, do outro lado do vale), pelo meio de pedreiras (o meu carro ainda está mais cinzento do que preto) até ao ponto marcado no GPS. Por sorte nossa havia um excelente ponto para estacionar os automóveis a menos de 10m do "buraco". Tudo parecia correr em nosso favor.

A minha atenção para o detalhe e pensamento sistemático, esse, já estava por esta altura algo comprometido pelo que recaiu sobre o Marco a tarefa de coordenação e equipagem. Lembro-me de a certo momento lhe ter perguntado se ele não levava qualquer kitbag com equipamento, sem que me tivesse "apercebido" que também eu não estava a levar qualquer equipamento adicional, em particular corda, que ficara no carro.

Em nossa defesa devo dizer que fiquei com a ideia que o buraco teria uns 20 e poucos metros e pouco mais... Pois, não!

A equipagem na cabeceira do poço foi uma equipagem reforçada atendendo ao estado dos parabolts cravados na parte inferior da enorme laje. Com um ponto de aproximação feito com recurso a uma AN, equipou-se o ponto principal nos parábolas, em Y, reforçado com a utilização de um spit encontrado directamente sobre a estreita abertura do algar, tendo sido colocada uma manga de roço para proteger a corda nas zonas mais "agrestes".

Com o Marco a liderar a descida não tardou a chegar a notícia, em tom urgente e com grande drama (e algumas obscenidades pelo meio), que havia uma "enorme" cobra numa plataforma a meio do poço, o que fez, aliás, com que o Marco descesse o resto  da vertical em passo um pouco mais acelerado.

Ao descer confirmei a presença da pequena cobra que se tentava esconder por entre os blocos e pedras que aí se encontravam relativamente estáveis. Na subida trataríamos de a capturar e levar para a superfície.

A descida do último troço do poço de entrada foi feita com alguns cuidados por forma a reduzir ao mínimo o roço que se fazia sentir num poço cerca de 2 metros abaixo da plataforma supra mencionada. Poderia ter colocado logo uma manga mas... tinha ficado no carro, bem como outra corda que viria a ser necessária para equipar o pequeno poço que o Marco entretanto já tinha identificado na sequência de uma pequena "janela".

A "janela" dava para uma sala recheada de formações lindíssimas, com um pequeno gour na sua base. Deste ponto de vantagem sobre a sala, uns 4 metros acima do chão, era visível uma possível continuação junto à parede da direita algures em frente. Apertado, certamente, mas parecia possível a progressão por esta via. Por outro lado não nos era possível ver directamente para baixo de nós, local chave que veio a revelar uma passagem para outro poço, mas isso viria depois. Agora era preciso resolver uma questão prévia, a falta de corda.
Fotografia por Marco Dias, do outro lado da "Janela".


Solução era simples, lá foi o Alexandre corda acima até ao carro para trazer o kit bag com as duas cordas mais pequenas... sim, deixei a de 60m lá em cima (o que se veio a revelar "trágico", tendo no impedido de descer os últimos dois poços) e na descida acabei por colocar uma manga de roço no ponto crítico. Numa próxima saída será colocado um spit nesse ponto, por forma a criar um fracionamento que evita totalmente qualquer problema e torna a descida mais rápida e segura.

E a partir daqui foi um teste ao nosso engenho e capacidade de improvisação, mas também muita diversão (ainda que em termos físicos as coisas já haviam estado melhor), até porque a cavidade é em si muito bonita, com um desenvolvimento muito interessante, com uma série de poços de pequena dimensão num contexto de formações e cristais que lhe emprestam uma beleza muito especial.

Fotografia por Marco Dias









Marco improvisando um fracionamento.
Quarto poço, que apresenta  também uma passagem lateral
 para a direita, e ligeiramente para cima desta posição...
Fotografia por Marco Dias.
... mas ao quarto poço já não havia corda. Quer dizer, haver havia, e logo duas cordas de 60m (contando com a que o Marco também havia  trazido) mas estavam nos carros, o que manifestamente se tornava relativamente incómodo de utilizar. Era chegada a altura de subir e abraçar a tarefa seguinte, o salvamento da pequena "grande" cobra avistada pelo Marco.

Para o efeito havia trazido um saco de plástico quando subira para ir buscar o kit-bag com as cordas, que colocaria depois na ponta da longe  para transportar sem grandes problemas. E neste ponto tudo correu de feição. Ela estava relativamente calma e letárgica (o que seria aliás de esperar) e rapidamente a coloquei dentro do saco, que fechei com recurso ao cordino que prende a chave #13. Por sorte apercebi-me atempadamente que o saco tinha um pequeno buraco no fundo, pelo que foi preciso improvisar uma forma de o fechar, tendo utilizado um outro cordino que tinha no kit-bag.



E com calma e alguma atenção para evitar embates escusados lá fomos subindo até à superfície.

Fotografia por Marco Dias.

Fotografia por Marco Dias.
Para reduzir o stress ao máximo foi libertada com a celeridade possível, após um rápido check-up da sua condição. De facto apresentava um pequeno ferimento na zona do ventre (sensivelmente 15cm acima da cloaca), que, com um elevado grau de certeza, terá resultado de uma queda de 10 ou 12m, embora tais danos não parecessem afectar a sua condição ou capacidade de locomoção. O calor que se fazia sentir rapidamente lhe deu a energia necessária para fazer sobressair a sua personalidade forte. Era a altura de a soltar numa zona segura e afastada da abertura do algar.

Com o trabalho feito, e porque a hora já ia mais adiantada do que o esperado lá fomos nós a caminho do Cantinho do Francisco para repor as forças... e sim, lá ficou o Algar da Cabeça Gorda para outro dia!

Quarta-feira há mais, mas desta feita na zona do Cabeço das Pombas ;).


Um abraço,
Alexandre Leal





sexta-feira, 9 de junho de 2017

Gruta da Pedreira I, Algar da Cabeça Gorda e Algar da Figueira

Cabeça Gorda, Serra dos Candeeiros, Alqueidão

01 e 07 de Junho de 2017




Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), José Leal (07 de Junho de 2017)







No passado dia 01 de Junho rumei à Serra dos Candeeiros para terminar a topografia da Gruta da Pedreira I, tendo aproveitado para fazer um périplo pelo cabeço ao jeito de prospecção.

O dia convidava ao "passeio", e sem grandes pressas lá foi subindo o cabeço pela esquerda do trilho principal, em direcção ao Algar das Figueiras, para depois descer para o flanco norte na zona do Marco. 

Como ja referi numa outra ocasião esta é uma zona muito complicada em termos de percepção  e avaliação de possibilidades ou localização de aberturas. O terreno encontra-se muito marcado pelas múltiplas prospecções e avaliação do potencial da zona para a abertura de pedreiras, a que se junta as que foram efectivamente exploradas, algumas (muitas?) de forma ilegal (ainda que, aparentemente, por muito pouco tempo). Grandes quantidades de pedra amontoada ao longo de rasgos feitos da terra, e muita pedra simplesmente revolvida e colocada de forma a chamar a atenção do olho para logo a seguir se revelar infrutífera.  

Não raras vezes, no meio dos caos de blocos de variada dimensão, se vê um que pelas suas características chama a atenção, por vezes apresentando algumas concreções. Mas são pequenos tesouros num mar de desordem, que impossibilitam tirar conclusões ou identificar o local de origem, até porque fico com a ideia, com a percepção, da possibilidade de existência de uma quantidade relevante de pequenos "buracos", coisas de 1 ou 2 metros, na maioria dos casos tapados à superfície ou parcialmente colmatados por terras, e que paradoxalmente apenas acabam por ver a luz do dia exactamente graças as estas "dragagens". 

A verdade é que o caminho que me levou até à Gruta da Pedreira I nada revelou de minimamente interessante, pelo que aí chegado foi colocar mãos ao trabalho... literalmente mãos ao trabalho porque havia perdido as luvas na saída anterior (e não me havia lembrado de comprar outras), o que, atento às características da cavidade, em particular neste troço, onde as "couves-flor" deram lugar a presença de cristais, não facilitou o trabalho.

A Gruta da Pedreira I é uma pequena cavidade, com cerca de 37m de um desenvolvimento "atribulado" e complicado de topografar, com vários níveis sobrepostos, com ramais em sentidos divergentes do ponto de vista da entrada inferior, e uma entrada ao nível da superfície que se encontra sobranceira à parte final da rampa de entrada. Vai ser "interessante" organizar a arte final por forma ser perceptível ao nível da planta.

Croqui - Perfil Desdobrado.
Croqui - Planta
Base da antecâmara do nicho terminal - Ramal 2

Olhando agora para baixo é visível aqui o acesso ao Nicho Intermédio (a que se consegue aceder), que na sua base apresenta uma outra fractura para o designado Nicho Terminal do Ramal 2, que aparenta não ter
qualquer via ou forma de progressão.
  
Com o trabalho de topografia concluído tracei um périplo de regresso ao carro pela vertente Este do cabeço, relativamente perto do seu topo, no sentido de uma abordagem de prospecção a este sector, atento, aliás, ao facto de ter indicações de uma possível abertura numa zona assinalada (de forma algo vaga, diga-se). 

Por esta altura o calor apertava, e urgia hidratar bem como repor energias. Para o efeito aproveitei uma zona com blocos de maior dimensão, com uma vista panorâmica para o vale, e ataquei os frutos secos como gato a bofe, regados por uma bebida energética já a atirar para o morna. Enfim, não era o ideal mas era o que havia e ajudou... 


Também neste sector a busca se mostrou infrutífera, não tendo sido identificados quaisquer cavidades ou pontos de interrogação. 

Ao contrário da zona superior do cabeço, este sector apresenta-se com mais vegetação, e com uma vegetação mais densa em determinadas zonas, e menos tocado pelo "engenho" humano. Havia marcas, perturbações, mas em número bastante mais reduzido. O resultado, esse foi o mesmo, nada. Devo referir, no entanto, que as zonas a vegetação se mostrava mais densa não foram batidas, pelo que não se deve considerar esta zona como efectivamente verificada, sendo útil uma prospecção mais cuidada e sistemática.

Já perto da zona dos moinhos, e porque a hora o permitia, acabei por ir dar uma vista de olhos ao Algar da Cabeça Gorda (designação utilizada pelos locais que aí me foram mostrar). Para espanto meu a chapa utilizada para obstruir a abertura do poço estava chegada para o lado e no seu lugar um bloco tapava por completo o acesso ao Algar.  

Com os meios à disposição, sim porque tinha levado comigo o equipamento de desobstrução, lá coloquei as mãos ao trabalho, e debaixo da torreira do sol lá me "atirei" ao bloco. 

A torna, o "Mauler" e o "Big Mike" não paravam, e em menos de três tempos já tinha saltado uma "lasca" bem interessante... diria que um 1/5 do bloco jazia ao lado, "moribundo" e ansiando por companhia. 

E com um telefonema súbito tudo mudou... A actividade foi tempestivamente interrompida, o material arrumado e um rápido retorno a Lisboa para uma Consulta de Urgência com a Vet da minha menina...


... Mas uma semana depois estava de volta ao Cabeço, desta feita com o Leal sénior a acompanhar. O dia prometia uma temperatura bem alta, e não "desiludiu". 

Pela altura que gentilmente colocava-mos os kit-bags e o restante material na rocha adjacente ao "buraco", já o calor apertava, e a reduzidíssima humidade (qual humidade?!?!) não tornava as coisas mais fáceis.  

Os objectivos traçados eram dois: 

-Terminar a desobstrução do bloco que impedia o acesso ao poço de entrada do Algar da Cabeça Gorda, fazer uma abordagem e análise ao poço, em particular uma estimativa mais aproximada da sua profundidade e características, e se possível ou viável descer até à sua base.

- Topografar o Algar da Figueira.

No que concerne ao primeiro objectivo, e antes de retomar os esforços de desobstrução, era necessário equipar a aproximação e a cabeceira do poço, o que exigiu, atento ao estado dos spits aí colocados, algum trabalho de limpeza. Antecipando tal facto (até porque os spits estão colocados, todos, na vertical, e não são propriamente novos) havia levado algum material que me permitiu reduzir o tempo perdido com esta tarefa e rapidamente passar à acção. 

Neste âmbito, e tal como previsto, os trabalhos foram relativamente rápidos, e numa vertigem assustadora o que restava do bloco (cerca de metade do seu volume original) fez-se ao abismo numa estrondosa queda livre. O som do impacto, bem ao longe mas ali tão perto, ribombou pelas paredes do poço acima acompanhado com um eco imponente. A queda, essa, era grande... 

O DistoX havia marcado 42m numa saída anterior, mas, e atento às características do poço e sua dimensão, tal medição apresenta uma margem relevante de incerteza. 

Devo dizer que a forma como a cabeceira se encontrava equipada (com dois spits - cravados algo juntos- a cerca de 10 ou 15 cm da borda do poço) exigiu alguns cuidados extra por forma a reduzir o risco de roço da corda. A solução encontrada foi a colocação de uma manga de roçamento meio aberta, por forma a proteger o Y, e a utilização de um spit por mim cravado em saída anterior, na parede oposta e já na vertical, para a colocação de um pequeno desviador. 

Não era a equipagem ideal, mas para ora era a suficiente. Numa próxima saída o poço será equipado com um Y na vertical, por forma a ficar centrado e evitar ao máximo o risco de roços, o que importa a colocação de um spit na parede oposta ao já colocado (ficando assim por baixo dos dois spits que agora equipam a cabeceira).

Com base nas imagens anteriormente captadas pela GoPro estava à espera de um poço com um diâmetro mais reduzido. Cerca de metro e meio mais abaixo alargava sensivelmente para a minha direita,  mantendo contacto com a parede à minha frente.  Na verdade mantinha-se relativamente estreito nesta secção do poço, abrindo no entanto cerca de um metro para a minha esquerda para dar acesso a secção da vertical bastante mais ampla, numa configuração longitudinal.

Visão para a minha direita...
... e para a minha esquerda abria!!!

Apresenta-se assim como uma fractura longitudinal de grande profundidade.


Para cima a luz da saída.

 Lá bem ao fundo, fora da capacidade de captação da câmara, era visível uma plataforma na zona de maior amplitude, que me parecia ter uma ligeira inclinação no sentido do que parece ser a continuação do poço, algures por baixo de mim, mas agora com um diâmetro mais reduzido, que se poderá aproximar do diâmetro existente  nesta secção do poço onde me encontrava, embora esta análise seja claramente prejudicada pela fraca visibilidade daquelas profundezas.

A imagem que tinha à minha frente corroborava a sensação que sempre me acompanhou. Este poço terá mais do que os 42m marcados no DistoX, o que poderá ser efectivamente correcto SE este for algar  denominado como "Cabeça Gorda", que aparece mencionado na obra "Grutas e Algares de Portugal", do Christian Thomas, como tendo 61m de profundidade.

Com o objectivo principal concluído, e porque não tinha comigo o equipamento necessário para equipar o resto da vertical (deverá ser necessário a colocação  pelo menos um fracionamento, possivelmente dois) e este é um trabalho para ser feito por uma equipa operacional (isso e o raio das luvas que faltavam - ainda hoje estou com mão direita esfolada e com uma queimadura? que teima em criar bolha) inverti e ascendi à superfície para desequipar e rumar ao próximo ponto da ordem de trabalhos, o Algar da Figueira.



... poderia, e deveria,  ter sido fácil e rápido dar com o "buraco" se ao menos tivesse olhado para o ponto no GPS!! Mas não... com todo o equipamento às costas lá nos colocámos a subir a encosta no sentido em pensava correcto, pois mentalmente estava a localizar o Algar um pouco mais acima do ponto em que me encontrava. 

Claro está acabámos por subir para logo a seguir descer, depois de confirmar o erro e ver a luz (leia-se ligar a App no Iphone e seguir as indicações), e finalmente lá estava ele, em toda a sua verde e envergonhada glória, escondido sob os ramos luxuriantes de uma figueira que se teima em agarrar à vida nas paredes do buraco, e que aparentemente (como me foi informado posteriormente. Obrigado Florbela) alberga ou é utilizado como zona de nidificação de Gralhas de Bico Vermelho, facto que desconhecia em absoluto. 

Neste ponto de realçar não ter encontrado, in loco, qualquer indício da presença da espécie, ou mesmo de vestígios/resquícios de ninho, embora tal não seja, em si, uma análise muito relevante uma vez que, desconhecendo a sua presença, não estava particularmente sensível para esse facto.

Também aqui a equipagem exigiu a limpeza de um spit, utilizado como segundo ponto de segurança na aproximação à cabeceira, em conjunção com um parabolt de M8.

A exploração desta pequena cavidade (exploração, uma vez que não tinha qualquer conhecimento do seu desenvolvimento e das suas características) foi rápida e orientada para o levantamento dos dados topográficos, que não ofereceu grandes dificuldades, ainda que isto de topografar a solo é sempre mais complicado, especialmente nos troços verticais.

Zona terminal da cavidade, onde foi colocada a
primeira estação topográfica.
Chalcides striatus

Bufo spinosus




Perfil
Planta



  

















Com os trabalhos concluído e os objectivos cumpridos, e porque o calor não dava tréguas, estava na altura de arrumar o equipamento, pegar no carro e rumar ao Cantinho para dar aprovar ao Leal um dos famosos "Molhinhos"... e que bem que soube. De notar, e não é de somenos importância, que de volta está a "Perdiz", um picante particularmente corrosivo ;).

E para a semana há mais.

Um grande abraço,
em particular a quem semana após semana se aventura na escuridão,
para iluminar um pouco mais deste nosso espaço desconhecido.
Alexandre Leal