Algar da Arroteia
Chão das Pias, Planalto de Santo António
23 de Setembro de 2017
Coordenação - Marco Dias (NEL) Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Marco Dias (NEL), Alexandre Leal (NEL), António Fael (NEL),
Pedro Galvão (NEL), Luís Galvão (NEL).
Eram já cerca das 11h00m quando finalmente abro as hostilidades e deixo o P45 para começar a receber o equipamento, uma bobine de 150m e outra de 100m de cabo elétrico, que pelo peso deverá ser constituído 99,999% de chumbo, e a bomba submergível, bem como o material para a sua montagem.
Enquanto isso tivemos tempo para testar o sifão2, que tinha descido cerca de 50cm (e não os 150cm que se chegou a pensar), permitindo avançar um pouco mais e testar o fundo, que de facto dia descendo ligeiramente para a frente. Quando a água "acalmou" um pouco aproveitei para filmar umas imagens com a câmara submergida com o objectivo de captar a dimensão desta zona e, se possível, eventuais vias de progressão. Objectivo que mais tarde, já em casa, se mostrou plenamente conseguido.
Mais um compasso de espera e como que por artes mágicas a ferramenta lá apareceu para o Marco esgalhar um ponto de fixação com recurso a uma varão roscado, tendo de seguida voltado à superfície, não sem antes deixar algumas instruções ao Pedro no que diz respeito à ligação da bomba ao quadro.
Pedro Galvão (NEL), Luís Galvão (NEL).
A Campanha do Algar da Arroteia 2017 não tem parado nem mesmo abrandado o seu ritmo alucinante. Nas últimas semanas foram executados com sucesso vários objectivos, nomeadamente o levantamento dos dados topográficos com vista a produção de uma topografia actualizada desta clássica portuguesa, a verificação de alguns pontos de interrogação que necessitavam de ser esclarecidos ou vistos melhor, e um combate sem tréguas na ponta de exploração, com o enfoque no Sifão2, anteriormente designado como o "Lago".
Os dados topográficos recolhidos e o tratamento já feito, nomeadamente com a implantação da imagem 3d numa imagem de satélite, deu-nos uma imagem mais correcta da cavidade, e sobretudo da sua orientação e desenvolvimento, bem diferente da imagem que a topografia do Christian nos dava. Facto, aliás, que nos permitiu traçar alguns cenários de progressão, e do seu grande potencial em termos de desenvolvimento caso se consiga atingir uma falha a que parece estar apontada.
Na frente... bem, na frente os trabalhos têm sido de persistência e tenacidade não obstantes os constantes contratempos e revezes. A cavidade não nos tem facilitado a vida, e não obstante ser um ano particularmente seco a verdade é que o sifão2 aparenta estar a recarga constante, ainda que se presuma lenta.
O nível ora baixa, obra da mangueira ferrada até ao Sifão1, ora volta a subir quando descobrimos na saída seguinte que a mangueira desferrou. Sempre com uma promessa de abrir a qualquer momento para fechar a porta na saída seguinte.
Um desafio à nossa resiliência física mas também mental. A verdade é que com maior ou menor dificuldade temos conseguido manter uma organização eficaz de equipas operacionais para desempenhar as tarefas propostas, umas vezes mais robustas e com mais elementos, e são já muitos os elementos que passaram pela Arroteia este ano e com quem pudemos contar, outras com um núcleo mais restrito mas não menos capaz.
Este sábado a tarefa não se apresentava fácil. Bem, para dizer a verdade sabíamos que iria ser dura, e não começou da melhor forma, com um atraso considerável devido à falta do cabo elétrico do qual estávamos dependentes para a ligação de uma bomba, a terceira em operação, no Sifão2 para de uma vez por todas conseguirmos baixar o nível o suficiente para passar.
Eram já cerca das 11h00m quando finalmente abro as hostilidades e deixo o P45 para começar a receber o equipamento, uma bobine de 150m e outra de 100m de cabo elétrico, que pelo peso deverá ser constituído 99,999% de chumbo, e a bomba submergível, bem como o material para a sua montagem.
A primeira etapa da viagem era a "Sala do Neoprene", o espaço que antecede o Sifão1. A bomba, transportado dentro de um KitBag era coisa de meninos comparado com o esforço envolvido no transporte das bobines, em especial a de 150m, até porque a de 100m ficou logo na base da cascata.
A zona do corrimão da cascata e o meandro que se desenvolve no seu seguimento foi particularmente exigente, mas com calma e perseverança lá chegámos. Enquanto aguardávamos pela equipa que estava na retaguarda o Fael exclama da zona da Bomba2, situada na base da vertical no Sifão1, que o Lago deve ter baixado quase metro e meio, a julgar pelo nível em que a mangueira ferrada deixava de drenar água.
Eram notícias estupendas, mas que não nos fizeram esquecer o trabalho que ali nos trouxera hoje, a colocação da terceira bomba.
A fase seguinte era colocar o neoprene e começar a desenrolar o cabo até ao sifão "terminal" (terminal por ora, pois espera-se mais, muito mais por vir). E lá fui eu, com calma puxando cabo à medida que me era facultado pelos meus colegas, tendo a equipa progredindo pela passagem por forma a permitir a sua colocação com o menor esforço e reduzindo ao máximo o risco de ficar preso ou danificar-se.
Lentamente, até à Pedra do Demo, depois até à Passagem da Concertina, e depois até à curva à direita que antecede o troço final até ao lago, onde fiz duas "piscinas" até conseguir ter cabo suficiente para a colocação da bomba na zona mais profunda do Sifão2, altura em que informei o Fael que o cabo já estava colocado e que poderiam todos avançar...
...YEAH RIGHT. A informação chegou ao Fael mas dele não conseguiu passar. Eu bem que o ouvia gritar mas da retaguarda nada de volta para além do eco do seu chamamento. Bem, a verdade é que eventualmente o resto da equipa iria perceber que o cabo não estava a ser mais usado da frente e que teriam que avançar... Mas demorou uma eternidade.
Enquanto isso tivemos tempo para testar o sifão2, que tinha descido cerca de 50cm (e não os 150cm que se chegou a pensar), permitindo avançar um pouco mais e testar o fundo, que de facto dia descendo ligeiramente para a frente. Quando a água "acalmou" um pouco aproveitei para filmar umas imagens com a câmara submergida com o objectivo de captar a dimensão desta zona e, se possível, eventuais vias de progressão. Objectivo que mais tarde, já em casa, se mostrou plenamente conseguido.
E atrás nada... o que nos deu tempo para subir a Passagem dos Açores e verificar o nível da água na "ribeira" superior. Mais baixa, a água permitia uma melhor visualização do interior da passagem, mas apenas por uma pequenas extensão pois o tecto da mesma baixa um pouco mais à frente. Será preciso descer mais uns 30 ou 40cm para permitir uma progressão por esta via.
E ao fundo lá começámos a ouvir uns sons quase fantasmagóricos e intermitentes. Pouco a pouco foram ganhando forma e volume e finalmente o Pedro lá chegou com a bomba à zona da frente. Para trás o Marco aparentava estar a alargar um pouco a Passagem da Concertina, e "pouco tempo depois" lá se juntava a nós... mas sem o berbequim que tanto precisávamos para colocar a bomba em posição.
Mais um compasso de espera e como que por artes mágicas a ferramenta lá apareceu para o Marco esgalhar um ponto de fixação com recurso a uma varão roscado, tendo de seguida voltado à superfície, não sem antes deixar algumas instruções ao Pedro no que diz respeito à ligação da bomba ao quadro.
Para trás eu e o Fael ficámos a colocar a bomba na posição que nos parecia mais favorável e fazer a ligação ao cabo que havíamos estendido... Tudo seria mais fácil não fosse o cansaço que se começava a fazer sentir e a água, omnipresente, que tornava as coisas mais complicadas, especialmente para quem não domina a "coisa".
Depois foi fazer o percurso inverso, onde pegámos o Kitbag que o Marco havia deixado para trás na Passagem da Concertina (é complicado quando salta do pé enquanto o estamos a arrastar numa passagem tão apertada), e regressámos à Sala do Neoprene. Por fazer faltava ainda esticar o cabo (da outra bobine) do quadro na represa da cascata até à ponta do cabo entretanto esticado até ao Sifão2 (que se encontrava cerca de 3 metros antes da Bomba2, no Sifão1), fazer a ligação entre os dois cabos, colocar uma ficha na ponta oposta e ligar ao respectivo quadro.
Bem, parece fácil não parece? E até deve ser, mas após tantas horas de esforço físico em posições complicadas e dentro de água, as coisas têm o condão de se complicarem e tudo parece uma tarefa para a "Missão: Impossível", ora porque faltava uma ferramenta (e lá vai o Alexandre de volta até ao Sifão1 para a ir buscar), ora porque a posição de trabalho era complicado (especialmente quando se está no corrimão da cascata sem arnês e estás preso por força de braços - sim, qual força?!?!).
No fim lá ligámos a bomba ao quadro e... bem, e nada. Nesse preciso momento nem a bomba1 que leva a agua da cascata até à superfície nem a bomba2 que está no Sifão1 a bombear água para a represa da cascata estavam a funcionar. Hmmm. Bem lá fomos nós em direcção ao Sifão1 para ver se lá bem da frente a água estava a chegar a este ponto, ou seja, mais uma vez passar por aquele pequeno meandro que por esta altura já parecia ter mais de 1km de extensão (perdi conta ao número de vezes que o fiz).
A verdade é que a falta de som vinda de lá confirmou os nossos maiores receios. Algures, por alguma razão desconhecida, a bomba 3, colocada no Sifão2, não estava a funcionar. Da frente não debitava qualquer água... Foi um verdadeiro balde de água fria, e já sem tempo (nem grandes forças) para ser corrigido. Ainda tentámos ferrar a mangueira mas com a bomba na outra extremidade os esforços foram inglórios e a cavidade, mais uma vez, ganhava uma batalha.
Uma batalha mas não a guerra.
Sem qualquer forma de drenagem implantada estamos em crer que o Sifão2, neste preciso momento em que estou a escrever estas palavras, está lentamente a encher de novo, retomado o nível que tinha quando foi descoberto... até que na próxima saída possamos corrigir o problema. De uma forma ou de outra o problema será corrigido, e o nível da água baixará...
Mas isso é trabalho para a próxima saída. A nós, exaustos, restava-nos pegar no nosso equipamento e regressar à superfície.
Eram precisamente 21h00 quando vejo a luz do Flávio espreitar pela berma do poço uns 3 metros mais acima... ao longe (mas não muito) a igreja dava as badaladas respectivas. Seria mais uma hora e qualquer coisa até estarmos todos fora, o poço desequipado e o material devidamente guardado.
Um dia duro e estenuante, uma tarefa quase hercúlea.
E para a semana há mais. Lá teremos mais uma equipa a não dar tréguas.
There´s no rest for the wicked.
Um abraço extenuado,
Alexandre Leal





