quinta-feira, 21 de março de 2019

Algar do Muro 1

Paiã, São Bento

17 de Março de 2019






Coordenação - Alexandre Leal.
Equipa - Alexandre Leal.




Ir para o Eureka parecia-me, à altura, um desatino, um devaneio, uma escolha errada que iria terminar comigo completamente coberto de lama de alto a baixo, com as cordas e todo o equipamento inutilizado, numa saída com eficácia duvidosa.... claro! O melhor mesmo era uma escolha mais acertada nesta altura do ano, uma cavidade sem lama, com pedra limpa e lavada, com alguma água se possível. Assim uma cena mais soft e "limpinha"! 

Porque não o Algar do Muro?!?! É certo que teria alguma lama, alguma, mas deveria estar mais seca do que da última vez que lá fui. Com sorte safava-me bem sem sair de lá muito sujo... Yeah, right!! Not gonna happen!!!

Pois... Deveria ter percebido isso mesmo ainda antes de entrar. Não que a terra aparentasse estar muito molhada à superfície, que não parecia estar, mas a verdade é que, segundo o dono do terreno, há menos de duas semanas, um bezerro de 8 semanas caiu para um buraco que se abriu sob os seus pés, tendo ficado preso pela cabeça entre duas "taliscas" e aí falecido. O solo estava ensopado... 

Quanto ao "buraco" que se abriu trata-se, na verdade, do abatimento de uma zona envolvente a uma abertura já identificada, mas de muito menor dimensão. Foi possível verificar que este algar tem alguma profundidade, talvez uns 10m (embora seja algo especulativo atendendo à natureza da vertical). Por outro lado não foi, até ao momento, possível estabelecer qualquer ligação entre o Algar do Muro 1, em exploração, e esta entrada, designada como Algar do Muro 3, o que implicará uma exploração dedicada desta cavidade.

Depois, bem, depois começou a saga... Atendendo às características da entrada e ao peso do kitbag, este foi descido primeiro, tendo acabado por escorregar pela rampa abaixo até ao limite da corda que tinha sido afectada à sua descida, ficando a corda em tensão. Tendo em conta que até já tinha ponderado descer este primeiro segmento em oposição, sem estar preso à corda (por uma questão de facilidade), esta opção acabou mesmo por ser executada. Até porque descer é sempre bastante mais fácil, o problema seria à vinda.

A progressão nesta pequena cavidade não seria manifestamente difícil não fosse a presença, diria "omnipresença", de lama, conjugada pelo peso do kit de desobstrução. Mas mais do que mera dificuldade o que estes dois elementos provocam é um maior desgaste físico, e um maior risco em termos técnicos, o que exigiu um foco muito apertado e alguns momentos de pausa para recuperar o fôlego. 

O primeiro objectivo era a desobstrução da abertura para uma pequena vertical (P4?) que daria acesso a uma passagem inferior, uma fractura rectilínea bem definida, e que se encontrava numa das pontas da cavidade, numa pequena sala situada na sequência de uma rampa de lama. No sentido de permitir um ingresso mais seguro mas sobretudo para facilitar a saída, coloquei um parabolt na cabeceira da rampa, equipando a corda desde esse ponto, com um segundo ponto de segurança perto da cabeceira da vertical (já colocado na actividade anterior), e assim permitir atacar o bloco que havia obstruído o poço. Bloco esse que havia caído da sua orla, o que iria implicar uma análise e saneamento de toda a zona circundante.
























Este trabalho de desobstrução mostrou ser menos complicado do que o antecipado, acabando por enviar o bloco para baixo com ajuda do pé-de-cabra e do martelo. Tendo em conta as características da cabeceira, e de toda a zona sobranceira (que se pode ver na imagem supra), constituída por uma cama espessa de uma calcite muito frágil, com muitas zonas ocas, por vezes intercaladas com camadas de lama, e uma vez que cerca de 1m mais abaixo era claramente visível rocha que aparentava alguma solidez, a opção foi colocar uma manga de roço  na corda, para equipar um fracionamento já na vertical, no interior da fractura.





Fractura essa que afunilava, e terminaria obstruída por lama e blocos, um pouco mais à frente,  no sentido de onde vim, em direcção à ponta de exploração situação no sector oposto da cavidade. 


No sentido contrário a fractura apresenta-se um pouco mais profunda, terminando, após um ponto mais estreito, numa zona de pedra limpa, a que apenas conseguir aceder  parcialmente. Do ponto de vista possível não consegui determinar se haveria alguma forma de progressão numa das paredes junto à base. É uma possibilidade remota, mas que terá que ser verificada numa futura saída uma vez que, ponderada a situação, a passagem para aquela zona se mostrava demasiado arriscada (ângulo de ingresso e saída, dimensão e existência de zonas "cortantes" que poderia colocar em risco a integridade da corda).  

    

Com esta "ponta" vista foi subir, desequipar a vertical, guardar o equipamento, subir a rampa (e retirar dois ou três kilos de lama do fato e botas), e progredir até o segundo ponto a explorar, situado na zona inferior da segunda sala (a que se acede através da pequena passagem que se pode ver no vídeo).

Confesso que já não me lembrava da dimensão da abertura do poço que aí havia encontrado, até porque me ficou mais na retina uma segunda abertura situada cerca de 2 metros amei à frente, numa zona ligeiramente mais elevada daquele nível inferior. A verdade é que este primeiro acesso, designado por "Buraco do Coelho", apesar de não ser propriamente muito grande se mostrava com dimensão suficiente para permitir a descida deste poço, até porque era minha convicção que o outro acesso mais pequeno iria dar a este mesmo poço, facto que se veio a confirmar cerca de 10 minutos mais tarde.


Em termos de equipagem, numa abordagem de exploração, coloquei um parabolt na zona inferior de um bloco sobranceiro ao poço. A corda iria sempre roçar em um ou dois pontos, pontos esses, no entanto, que não se mostravam preocupantes, com a pedra relativamente arredondada e segura.

A descida veio dar acesso a um outro sector da fractura encontrada na ponta de exploração oposta, aqui um pouco mais larga após um sector inicial estreito. Este sector da fractura apresentava vários blocos caídos, fruto de abatimentos sofridos no passado, testemunho violento claros do processo de transformação da cavidade que culminou no "seccionamento" desta passagem.





  











Sem forma visível de progressão estava na altura de regressar à superfície, ou seja, o mesmo que dizer "Here comes the pain"... 

...e de facto foi duro, sobretudo a subida do poço de entrada tendo que ir puxando o kitbag, de ponto em ponto até ao trecho final, particularmente complicado pelo facto de tanto o punho como o turbo-chest falharem constantemente por estarem completamente envoltos em lama, (tudo era lama) numa zona onde a margem de manobra é quase nula. 


Sem exagero, o último trecho, que não deve ter mais de dois metros e meio, deve ter demorado cerca de 15 minutos para ser subido, com várias tentativas, e pausas pelo meio para descansar. Já à superfície  faltava ainda puxar o kitbag desde o ponto em que o havia deixado fixo.

Não foi fácil... 



Pelo lado positivo ainda estava a tempo de ir almoçar ao Cantinho a horas decentes (mais ou menos decentes, pronto).


Um abraço enlameado,
Alexandre Leal