Coordenação - Alexandre Leal (NEL) Equipa - Alexandre Leal (NEL), Bruno Pais (AESDA), Florbela Silva (AESDA), Marco Dias (NEL), Flávio Lucas (NEL)
As vicissitudes da exploração espeleológica. Fotografia por Florbela Silva
Com uma equipa alargada o plano para hoje era um pouco mais ambicioso. "Atacar" o Algar Eureka, desobstruindo e alargando o ponto de constrangimento 180cm abaixo da cabeceira, e descer, analisar o potencial do Algar do Unicórnio que aparentava estar obstruído pouco abaixo da sua abertura, e se possível regressar ao sub-nicho no final da Galeria dos Fantasmas, ingressando via Algar das Raízes, e continuar os trabalhados de desobstrução na passagem lateral.
Chegados ao chouso fomos recebidos de forma particularmente vociferante pela manada residente e o seu grande touro e senhor, o Unicórnio, logo em frente ao portão... e de lá não arredavam pé.
Entre ultrapassarmos este obstáculo de peso e termos a equipa completa e preparada para os trabalhos ainda demorou o seu tempo, mas por volta das 11h00 já estávamos a trabalhar na desobstrução dos dois algares, sempre debaixo do olhar atento dos nossos amigos de quatro patas.
Atenção esta que criou alguns momentos de emoção e muita diversão, pelo menos para quem estava cá em cima ao sol, que eu, lá enfiado no buraco, só ouvia as gargalhadas.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
Foram criadas duas equipas relativamente estáveis mas que iam flutuando de um ponto para o outro consoantes as necessidades sentidas a cada momento.
Fotografia por Florbela Silva.
No Algar Eureka fiquei eu, o Marco e a Florbela (que ia também dando apoio à outra equipa).
Fotografia por Florbela Silva.
No Algar do Unicórnio, que por ironia das ironias tem uma abertura dupla como que a troçar do animal que lhe deu o nome, o Bruno e o Flávio.
Os trabalhos no Eureka foram extremamente interessantes e diversificados nas técnicas utilizadas, tendo permitido aplicar na prática os conhecimentos adquiridos no Workshop dado pelo Orlando Elias no âmbito das actividades do NEL.
Técnicas que potenciaram, diria mesmo possibilitaram, uma progressão a um ritmo considerável, atendendo às dimensões do buraco no início.
A verdade é que a pouco e pouco, alternado a metodologia e as técnicas empregues, fomos avançando, fomos alargando, fomos limpando terras e removendo blocos (e enviando outros tantos pelo poço abaixo). Fomos improvisando, mas sobretudo fomos progredindo.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
Tudo teimava em prender o braço, o fato e o arnês...
Com a progressão dos trabalhos foi efectuada uma primeira tentativa de passar o ponto mais apertado, que veio a revelar-se precoce. As paredes mostravam-se ainda com alguns elementos irregulares, uma pequena formação em calcite em particular, que dificultavam os movimentos e em última análise impediram a passagem. Para dizer a verdade tudo parecia prender os movimentos e o fato, e os níveis de conforto (particularmente o aspecto psicológico) eram muito reduzidos. A opção foi abortar a tentativa e continuar os trabalhos de desobstrução.
Estes pontos acabariam por ser "limados" através da utilização da torna em modo de martelo pneumático, que surpreendeu pela sua eficácia em calcite (bastante mais do que em calcário maciço), promovendo uma segunda tentativa, coroada de sucesso.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
Sempre com um olho no buraco e outro no boi, até que alguém se lembrou de ir tirar uma "selfie" com o Unicórnio. Ao que parece, que eu não vi, as coisas aqueceram um pouco e ele (o boi, claro está), decidiu colocar os vermelhinhos no lugar que lhes compete... À excepção de um, que optou pela via arborícola.
Entretanto lá em baixo tomava o pulso à base do poço, analisava as possibilidades de progressão e procurava a "lona" perdida, que havia caído durante os trabalhos de desobstrução.
Passagem para o segundo poço.
Na base o espaço não era propriamente largo, basicamente um pequeno nicho que dava num lado para um poço paralelo ao que havia descido, e que sobe ( na minha perspectiva) até uma abertura secundária, de dimensão bastante inferior à abertura principal, e no outro lado para uma apertada passagem (de dimensão bastante reduzida) que dá acesso a um segundo poço.
Ainda houve oportunidade para começar os trabalhos de alargamento da passagem mas de forma muito limitada e insipiente. O objectivo era perceber a dimensão deste poço, o que não se mostrava fácil.
Pelas imagens que foi possível recolher ao colocar o capacete pelo espaço disponível e pelo som efectuado pelas pedras a caírem pela vertical abaixo, diria que terá cerca de 8 a 10 metros, de uma parede bem lisa, e que não aparenta ter qualquer forma de constrangimento ou dificuldade na sua descida, uma vez ultrapassada a passagem que o antecede, e que vai exigir algum trabalho de desobstrução.
Não sendo possível visualizar o fundo do poço não é possível fazer uma avaliação ajuizada sobre a margem de progressão, embora esteja entusiasmado com as possibilidades que abre, especialmente tendo em conta a sua localização, e a profundidade acumulada no contexto do local.
Definitivamente um trabalho a ter sequência num futuro próximo.
E era altura de inverter o sentido e subir de volta à superfície, mais uma experiência apertadinha e aconchegante...
Momento da descoberta do Algar do Unicórnio. Fotografia por Florbela Silva.
Enquanto isso os trabalhos iam avançando no Algar do Unicórnio, com o Bruno e o Flávio a liderar os esforços, com a ocasional presença do resto da equipa.
Análise da abertura "principal".
Fotografia por Florbela Silva.
Quando o dia começou a zona de intervenção apresentava uma entrada visível, de maiores dimensões, e uma secundária, tapada com alguns blocos, mas que mostrava também potencial. Na verdade ambas devem unir-se algures mais abaixo, embora neste momento seja tudo conjectura (e "wishful thinking") pois a única certeza que temos é que temos terra, muita terra, para tirar, e no fim pode não dar em nada, embora não acredite neste cenário. Aquele perímetro bem definido de pedra "lavada" promete afundar pela terra dentro...
Fotografia por Florbela Silva.
Escusado será dizer que a imagem que tinha e a que encontrei pouco tempo depois era já bastante diferente. Os trabalhos de desobstrução avançaram muito rapidamente no início, tendo a equipa limpo o local de intervenção, pondo a descoberto a segunda abertura, tendo começado a remover material e expor um pouco mais do seu interior.
Na base das aberturas gémeas uma camada de terra macia e leve, de um castanho rico e escuro. À medida que os trabalhos iam aprofundando o interior um dos blocos que compunha a ponte de pedra que separa as duas aberturas ameaçava deslizar e cair, o que atento às duas dimensões não era uma perspectiva agradável.
Fotografia por Florbela Silva.
A sua remoção mostrava-se também muito complicada atento ao peso envolvido. A solução encontrada foi partir o bloco para que as partes resultantes fossem mais manejáveis e permitissem a sua retirada. Os esforços foram coroados com um sucesso parcial, uma vez que o bloco se encontrava fracturado, no sentido horizontal, o que acabou por mitigar o impacto da intervenção. Acabou por permitir a remoção da parte superior do bloco, mas a base do mesmo permaneceu com uma dimensão demasiado grande e acabou por tombar para a base do "buraco".
Os trabalhos de remoção de terra e outros blocos foram então retomados sem no entanto se conseguir chegar a qualquer conclusão sobre a viabilidade do projecto. Que o buraco continua para baixo parece-nos evidente. Resta saber se o esforço é viável, atendendo ao possível volume de terras envolvido. Pessoalmente acho que é ainda cedo para decidir , opinião que parece ser partilhada pela equipa, pelo que os esforços deverão continuar. Até porque não podemos descartar a possibilidade de ligação com algum(s) dos algares da zona, na continuação do sistema, embora estranhamente apenas este chouso aparente conter este tipo de potencial. Na verdade são muitos os pequenos buracos que além destes mais significativos encontramos dentro destes muros de pedra, coisa que não conseguimos à data encontrar em mais nenhum dos que o rodeiam.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
Fotografia por Florbela Silva.
No final deixámos a zona devidamente protegida por forma a acautelar qualquer incidente.
Fotografia por Florbela Silva.
E por hoje era tudo, com a promessa de voltarmos muito em breve...
Um grande abraço,
Alexandre Leal
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Algar da Cheira
Vale Florido, São Bento
22 de Dezembro de 2016
Coordenação - Alexandre Leal (NEL) Equipa - Alexandre Leal (NEL), Bruno Pais (AESDA), Florbela Silva (AESDA)
The Core...
Uma semana depois de termos "rompido" a superfície no seguimento de trabalhos de desobstrução da então designada Passagem das Raízes"encontrada no sala "final" deste sector do Algar da Cheira, sem que no entanto tivéssemos completado a travessia e emergido vitoriosos sob um radioso sol de Dezembro (ou fulgorosa Lua, como foi o caso), ou mesmo conseguido identificar o local em concreto, voltámos à carga com um objectivo muito claro, muito preciso. Concluir os trabalhos de desobstrução do ponto de saída, e efectivar a travessia do sistema da Cheira, entrando pelo Algar da Cheira e emergindo por um novo meio de acesso à cavidade.
Imagem aérea do Algar da Cheira, captada por Bruno
Pais via drone.
O plano traçado foi simples e apostava na mobilidade. Para a travessia a equipa constituída por mim e pelo Bruno, levaria apenas uma picareta e uma maceta, como ferramentas para fazer face a qualquer eventualidade e continuar os trabalhos na ponta final. O material para a vertical de acesso à cavidade (Algar da Cheira) seria deixado dentro de um Kitbag no poço de entrada para o terceiro membro da equipa, a Florbela Silva, recuperar e desequipar a vertical em seguida.
Num ritmo bastante elevado rapidamente atingimos a ponta de exploração e retomámos os trabalhos de alargamento do "buraco" de saída, ao mesmo tempo que tentávamos identificar o local para o nosso elemento no exterior, a Florbela, com recurso a um apito e um recurso da mais alta tecnologia humana, a garganta utilizada em plenos pulmões.
Como primeiro efeito parece ter atraído a atenção da manada local, sempre muito curiosa com a actividade dos humanos que teimam em introduzir um pouco de emoção à sua pasmaceira habitual. Uma delas em particular, uma jovem vaca de tons castanhos, mostra-se particularmente atenta e curiosa, em especial quando se apercebeu da existência de frutos secos mesmo "à mão de semear". A controlar as actividades o sempre presente Unicórnio, uma avantesma de grande dimensão mas de trato fácil, muito plácido.
Mas rapidamente, bem no limite da nossa audição, ouço a resposta da Florbela, que se vai aproximando do local guiada pelo estridente apito... "Nem sabem vocês onde estão?" ouvia eu a Flor exclamar em tom jocoso. Entre risos acabou por revelar que estávamos, nem mais nem menos, a uns passos do "Eureka".
Não sei como foi possível não termos identificado o buraco e/ou o pé de cabra tantas as vezes que passámos por aquele local. A verdade é que o destino final daquela passagem estava bem perto, não mais de 6 metros, do ponto que havia julgado, e entretanto descartado após buscas incessantes e infrutíferas pelo Big Mike, bem debaixo de uma oliveira que emprestou as suas raízes para nos servir de guia e dar maior estabilidade aos nossos trabalhos. Oliveira cujas raízes deram o nome ao novo alvar, o Algar das Raízes, que permite um acesso facilitado a este novo sector do sistema da Cheira.
Fotografia por Florbela Silva
Fotografia por Florbela Silva
Retirado de filme gravado por Bruno Pais
A travessia estava completa, mas não o trabalho... Não, esse não estava nem ficou completo, com muito ainda por fazer no horizonte próximo, tanto no interior do sistema, com a exploração de pontos já identificados como o poço por desobstruir na passagem principal, ou a passagem lateral no nicho a que se acede pela Passagem da Dor ou Passagem do Purgatório, consoante o ponto de ingresso no sistema, como em seu redor, não sendo de descartar a ampliação do mesmo, através da ligação a outros algares, começando pelo buraco vizinho, o Algar Eureka, descoberto pela Florbela numa saída anterior. E um pouco mais distante, a cerca de 50 metros, o Algar do Unicórnio.
Não esquecendo os necessários trabalhos de levantamento de dados topográficos, a realizar num futuro próximo, e que assumem particular importância para a compreensão do sistema e de possíveis ramificações. Pelas características destes novos sectores não serão trabalhos fáceis, em particular na zona das estreitezas, que vai exigir uma análise mais apurada e sistemática para esgotar todas as possibilidades.
À direita podemos ver um estudo de parte da zona nova, desde a Boca do Inferno, que marca o ingresso na zona das estreitezas, ao final da Galeria dos Fantasmas, com base numa poligonal tirada em ritmo acelerado. Não é um exercício de rigor nem deve ser encarado como algo mais do que um esboço livre, feito de memória, com base nos pontos retirados. Serve apenas para ficarmos com uma ideia do desenvolvimento da cavidade neste novo sector.
Video por Bruno Pais
Video por Bruno Pais
Aproveitando o tempo de luz ainda disponível, e enquanto a Florbela seguia o Bruno para o interior do Algar das Raízes para um reconhecimento desse novo sector, fiz uma primeira abordagem mais sistemática ao Eureka, com o início dos trabalhos de desobstrução e alargamento da abertura, bem como a identificação de uma segunda abertura contígua, de menor dimensão.
A verdade é que este algar contíguo, a menos de 6 metros de distância do Algar das Raízes, com os seus cerca de 5,80m de vertical, apresenta uma profundidade muito semelhante, e colocará a sua base sensivelmente à mesma cota da passagem final da cavidade vizinha. Elemento que alimenta a esperança de se encontrar uma forma de comunicação, prolongando assim a dimensão do sistema.
A abertura apresenta-se algo apertada, embora nos parecesse passível de ser descida sem grandes intervenções não fora o facto de estar obstruída cerca de 180cm mais abaixo pelo que parece ser um bloco caído e encravado a meio da palhinha, que foi acumulando blocos de menor dimensão e muita terra que foi caindo.
Gravado por Bruno Pais via drone
Gravado por Bruno Pais via drone
Já com com o resto da equipa à superfície foi colocada uma corda na oliveira no sentido de permitir um primeiro teste à resistência desta obstrução, tendo sido possível enviar alguns pequenos blocos mais poço abaixo, sem no entanto vencer o obstáculo principal.
A desobstrução terá que ser um pouco mais sistemática por forma a possibilitar chegar a este bloco que impede a descida até à base, mas estou convicto que numa próxima saída tal será alcançado.
E aqui quero assinalar um elemento central, e sem o qual estes resultados não seriam de todo possíveis de alcançar, o grande trabalho de equipa. O trabalho de e em equipa, com abnegação, esforço, sacrifício e também, em alguns momentos, de coragem. Testámos por diversas vezes os nossos limites físicos, mas também, e sobretudo, psicológicos. Não é fácil lidar com a pressão de encarar pela primeira vez determinados obstáculos, determinados apertos ou passagens, determinadas dificuldades que nos aparecem pela frente.
Se objectivamente a dificuldade não se altera para quem vem a seguir a verdade é que testar, atacar, vencer estes elementos pela primeira vez apresenta uma dificuldade acrescida motivada pelo aspecto. emocional, pela pressão psicológica que impõem a quem se chega à frente e diz presente... se chega à frente e os encara, os desafia, de peito aberto (e muitas vezes, tantas vezes, apertado).
Uma imagem que se encontra indelevelmente "impressa" na minha memória é a visão das botas do Pica (Hélio Frade) como que encaixadas, espremidas, num minúsculo buraco na parede de fundo da passagem na ponta de exploração do Buraco Roto, na primeira vez que alguém tentava passar o que ficou posteriormente conhecido como a Passagem do S do Senna. A capacidade e força mental deste nosso espeleólogo de eleição é facilmente reconhecida por todos nós mas aquele momento, com a carga emocional vivida, que era palpável, foi um momento marcante para mim. Ali estava um colega a testar os limites e a demonstrar uma força, uma personalidade, digna de emular, não imbuído num qualquer espirito de competição mas antes de enorme respeito e admiração.
Foi essa experiência muito particular que me deu a capacidade para encarar estes desafios com mais calma, com um maior sangue-frio, e não queria deixar de aproveitar o momento para o reconhecer.
Mas esta é uma equipa em formação, com muito por aprender, tanto ao nível individual como ao nível do esforço conjugado, na percepção da valências de cada um e sua maximização, e a inclusão de sangue novo. Mas esta é também uma equipa que apresenta já uma dinâmica notável, que pelo seu esforço permitiu estar agora a escrever mais esta página.
Sim, o Algar da Cheira tem ainda muitos segredos por revelar... Mas alguns viram já a luz do dia, e muitos outros se seguirão.
Somos três ;)
Um abraço, e amanhã, sim, já amanhã, haverá mais,
Alexandre Leal
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
Algar da Cheira
Vale Florido, São Bento
16 de Dezembro de 2016
Coordenação - Alexandre Leal (NEL) Equipa - Alexandre Leal (NEL), Bruno Pais (AESDA)
Retirado do vídeo de Bruno Pais, gravado imediatamente antes de se marcar a abertura com o recurso
ao Big Mike, por forma a ser identificado da superfície.
Onde íamos mesmo? Ah, sim... tínhamos ficado a um palmo de passar o aperto no final da passagem principal.
O objectivo era simples, regressar ao reduto das argilas, vencer o aperto e continuar por ali fora, até onde a gruta nos permitisse, pois estava confiante que ainda havia caminho a percorrer. Secretamente pensava ser possível encontrar uma saída para a superfície e assim consubstanciar uma travessia.
Havia andado a estudar essa possibilidade durante a semana, atendendo à descoberta pela Florbela de um "pequeno" buraco nas imediações e no que poderia ser o possível enfiamento da Galeria dos Fantasmas. A implantação da topografia no mapa de satélite parecia confirmar essa possibilidade... veio a confirmar-se embora num local diferente, e diga-se em abono da verdade, ainda um mistério.
Mas lá chegaremos.
Numa equipa tão reduzida a carga acaba sempre por ser algo pesada. O material de equipagem, equipamento vertical, reforço de água e comida, ficou perto da Boca do Inferno. Para a ponta de exploração foi um kitbag com as ferramentas, água e uns reforços de energia.
Poderia ser tentado a dizer que nos pusemos lá em menos de dois tempos, mas com o capacete e o Big Mike numa mão, e o DistoX na outra para ficar com uma ideia aproximada da poligonal (ainda não foi devidamente calibrado pelo que o elemento mais certo é o desenvolvimento, e mesmo este com uma pequena margem de erro uma vez que o processo foi feito em regime de exploração e não de levantamento de dados topográficos, que implica um muito maior rigor), e o Bruno a empurrar o kitbag demorou algum tempo, com uma progressão feita, literalmente, de forma arrastada.
No capítulo do desenvolvimento respeitante à parte explorada, com início na Boca do inferno, que marca o ingresso no sector das estreitezas, até ao final da Galeria dos Fantasmas, medida na secção superior, apontamos para um valor na casa dos 68m.
Aí chegados preparámos o material a levar para a zona inferior e atacar o aperto bem como o expectável para a progressão daí em diante.
A Passagem da Dor continua chata, mas eventualmente conseguimos posicionarmo-nos entre as formações por forma a conseguir aceder ao espaço entre o bloco e a parede lateral oposta e ingressar na secção inferior. Para cima é pior... Na verdade é só preciso apanhar-lhe o jeito mas da primeira vez que a fiz parecia que me ia partir as pernas, que não foram feitas para dobrar naquele sentido e daquela forma.
Coube-me a mim atacar a Passagem do Purgatório. Sabíamos que não faltava muito para passar mas o ângulo apertado e em sentido ascendente numa passagem tão diminuta não tornava o feito muito fácil. Ainda tentei retirar um pouco mais de material no sentido de reduzir a subida mas as condições tornavam o esforço inglório. Estava na altura de tentar... tentar não, passar. Primeiro executei uma "dry run", uma esforço preliminar para sentir as dinâmicas, os possíveis pontos de alteração da posição dos braços e os pontos mais complicados, onde poderia ficar preso.
Deu para o coração bombar um pouco mais rápido.
Aqui já com a "auto-estrada" aberta. O "canal" que se pode ver no enfiamento
da abertura simplesmente não existia.
Mas sem mais opções, e com os movimentos estudados, lá ataquei o aperto de forma mais decidida. Digamos que foi "interessante", mas acabei por passar, acedendo a uma nova área um pouco mais ampla, que permitia agora atacar o aperto de uma perspectiva diferente, com maior margem de manobra. Com a picareta na mão comecei a abrir uma via na argila que permitisse ao Bruno passar sem ser necessário rodar para a direita e subir a rampa de argila que tantas dificuldades me criou.
Com os músculos dos braços "queimados" pelo esforço o Bruno tomou a dianteira. O caminho era evidente, logo após mais um aperto que necessitava de ser intervencionado.
Em menos de 5 minutos estava a passar e não se fez rogado.
Já só parou uns 30 metros mais à frente, por entre salas e mais estreitezas, num caminho que a certo ponto ganhou um sentido ligeiramente ascendente, até uma pequena sala que parecia ser o fim do caminho. O fim não porque ainda eu não tinha lá chegado já ele me falava numa mega desobstrução que tínhamos que fazer... Mas já lá chegaremos.
Todo este novo sector se apresentava muito molhado com um gotejar constante de uma miríade de estalactites e pequenas bandeiras. "Chovia" lá dentro.
Mesmo nas zonas onde a argila e a calcite dominava era possível, a espaços, vislumbrar as reais paredes da passagem por entre placas que haviam "descolado" das paredes.
E lá no final, bem na última sala, o Bruno olhava para uma rampa de terra e argila que parecia ter "escorrido" de algures, de algum espaço agora completamente obstruído, mas que aparentava ser a única forma de progressão.
Sim, porque aquele volume de material implicava uma passagem relevante, e atendendo ao sentido ascendente que se vinha a fazer sentir e à possibilidade de podermos estar perto do buraco que acima referi, estávamos convictos que se atacássemos aquela obstrução poderíamos acabar por encontrar uma via de acesso à superfície. E não nos esqueçamos da corrente de ar fresco que se continuava a fazer sentir.
Mas a rampa apresentava um outro elemento de interesse. Perto da sua base, no lado esquerdo, mais uma vez nos deparámos com um pequeno aglomerado de um material que constitui ainda um mistério. Originalmente pareceram-me pequenos caroços de azeitonas (o que, atento À localização não seria de estranhar) ou frutos secos encontrados no meio de dejectos de um qualquer animal não identificado, mas aqui fiquei com a impressão que poderiam mesmo ser em si dejectos em forma de caroço de azeitona... Não consigo, neste momento, dissipar estas dúvidas.
Mas de volta à rampa em si e as escolhas que poderia encerrar. O que fazer?
A decisão, na realidade, não foi difícil de tomar, não obstante termos tido a consciência que poderia ser uma "obra" de grande dificuldade, e mesmo risco objectivo de existência de derrocadas e deslizamentos de grandes volumes, ainda que sempre mitigado pela presença de raízes que ajudavam a fixar a terra e lhe empregava uma certa estabilidade, permitindo a remoção controlada de pequenos volumes com o recurso à picareta e posteriormente ao Big Mike, que foi imprescindível.
A consciência do risco esteve sempre presente, a espaços de forma mais premente, como quando nos enfiámos pela primeira vez dentro da abertura escavada na rampa, ou quando subimos pela primeira vez o primeiro troço da vertical, e alcançamos um nicho ligeiramente mais alargado. Quando o esforço físico e o impacto psicológico dos trabalhos começava a pesar um pouco mais trocávamos de posição, renovando as energias um pouco mais na retaguarda. Como trabalho de equipa tem sido ao mais alto nível, o que aliás, explica os progressos feitos.
De referir que no início dos trabalhos de desobstrução a existência de uma chaminé por trás da terra era apenas uma possibilidade... Julgávamos que com uma probabilidade alta mas apenas isso, uma possibilidade.
Bruno a abrir caminho para a base da chaminé.
Mas uma possibilidade que a pouco e pouco, à medida que retirávamos a camada superior da rampa e nos deparámos com um buraco na parede, e posteriormente percebemos que a terra continuava para cima ao longo de uma parede branca, se veio a confirmar.
As raízes eram omnipresentes. Umas de reduzida dimensão, outras um pouco maiores, mas prometiam ar fresco, prometiam o céu.
E foram estas raízes que fomos seguindo, não perdendo de vista as paredes do que seria certamente um poço, embora desta nossa perspectiva estava a ser tratado como uma chaminé.
E foram estas raízes que foram ganhando dimensão à medida que fomos subindo chaminé acima, que fomos conquistando espaço à terra, sempre com muito cuidado, mas sempre, sempre com muita determinação.
Captado pelo Bruno na base da chaminé. Acima, entalado numa
posição muito pouco confortável, atacava eu secção seguinte
da chaminé.
E são as raízes que dão nome a esta passagem.
O mar de terra que ia caindo parecia não ter fim. Enquanto um estava na ponta a furar como uma toupeira na retaguarda estava o outro a remover todo o material caído da base da passagem primeiro para a esquerda da rampa, depois para a direita, e por fim para baixo da rampa. Não sei quanta terra removemos, sei apenas que parecia não ter fim.
E do "buraco" que pensávamos poder estar a escavar vindos de baixo nem sinal.
A certa altura o Bruno pediu silêncio, para em seguida dizer que lhe parecia estar a ouvir algo, um barulho ritmado que poderia ser um motor, ou talvez o vento a soprar. Trocámos de posição e na verdade também a mim ficou essa sensação embora não conseguisse identificar a sua fonte. A convicção que estaríamos já perto da superfície foi aumentando, e no turno seguinte, após um falso "alarme" o Bruno finalmente exclama lá para baixo que o Big Mike havia furado o chão e estava já à superfície... já se via luz. Qual "Caving Dead", estaríamos prestes a emergir do âmago da terra bem mais apetrechados, mas também com mais fome certamente, do que um qualquer zombie vulgar. Estou aliás certo que a nossa visão não seria menos assustadora...
Gravado por Bruno Pais. Lá fora a luz do dia, e os ramos de
uma oliveira.
Por uma questão de segurança, não fosse ocorrer um abatimento neste troço final, trepei chaminé para me posicionar logo abaixo do Bruno e assim prestar assistência caso fosse necessário. Num derradeiro esforço o Bruno tentou "cavar" (invertidamente falando, claro está) um buraco suficientemente grande para saírmos para o exterior mas as forças já eram muito reduzidas, e independentemente do sucesso desta acção havia ainda que voltar para trás e reclamar o material estrategicamente deixado em dois pontos da cavidade, e subir o poço de entrada.
Trocar de posição implicava também uma descida de ambos à base da chaminé para de seguida voltar a subir. A perspectiva não era agradável de ponderar. A decisão foi tentar fixar o Big Mike por forma a que ficasse o máximo possível de fora, à superfície, para que assim pudéssemos identificar o local de saída. No meio disto tudo o Bruno consegue ainda alargar o buraco o suficiente para colocar um braço de fora, mas para mais não dava. E estávamos convencidos que não seria difícil encontrar o desgraçado do pé-de-cabra.
Video por Bruno Pais
Fotografia por Florbela Silva.
Não conseguem imaginar o quão errado estávamos... É bem verdade que quando finalmente saímos já era noite cerrada, estávamos bem enlameados e molhados, e o vento e o frio que se faziam sentir não facilitavam a tarefa, mas do pé-de-cabra ou do buraco nada. Nem uma pista. Os "buracos" anteriormente identificados estavam lá, mas não eram esses. Do Big Mike nem um vislumbre... Vencidos pela fome e pelo frio abandonámos o campo de batalha convencidos que teríamos que retomar os trabalhos de dentro para fora na próxima saída.
De frisar que ontem, após o Workshop levado a cabo pelo Orlando Elias, numa iniciativa NEL (TOP btw), e a subsequente almoçarada, voltámos ao local na esperança de, em plena luz do dia, conseguirmos finalmente identificar o local... Nem o Unicórnio nos valeu. Corremos o chouso, e ainda espreitámos os contíguos. A única pista que tínhamos, o pouco que o Bruno havia conseguido ver pela abertura criada,consistia no facto de o buraco estar muito perto de uma Oliveira "grande" com o que parecia ser também pequenos rebentos pegados ao seu tronco. Perdi conta ao número de oliveiras que eu e a Florbela examinámos, todas sem sucesso. É verdade que centrámos os esforços na área que nos parece ser a mais provável mas acabei por percorrer o chouso em todas as direcções a partir do poço de entrada.
Parece que tudo fica adiado para a próxima semana. Certo, certo, é que estamos perante uma travessia. Falta apenas percorrer o derradeiro metro final e emergir da cavidade no segundo ponto.