Algar da Cheira
Vale Florido, São Bento
03 de Dezembro de 2016
Coordenação - Alexandre Leal
Equipa - Alexandre Leal, Florbela Silva (AESDA), Bruno Pais (AESDA)
O sábado despertou cinzento e escuro. A caminho, ainda pela A1, apanhei uma chuvada que ameaçava partir os céus em dois e duplicar a água nos oceanos num piscar de olhos celestial.
Com uma pausa pelo meio que me fez acreditar que o pior já tinha passado lá cheguei às bucólicas paisagens da serra para uma vista deslumbrante e relativamente seca. Os dourados sobressaíam no fundo verde e disfarçavam o cinzento ruim do céu. Foi "sol" de pouca dura... A chuva voltou, para não mais parar até à nossa saída nocturna.
Num ápice estávamos lá dentro, e a equipar o cabo até ao segundo nicho.
Preparando os trabalhos e uma possível descida do poço, foi reforçada a equipagem neste ponto, colocando mais uma plaqueta para possibilitar a aplicação da corda em Y sobre a vertical. As soluções não eram muitas atendendo à constituição das "paredes" mas ficou bem operacional.
Com a utilização do balde foi retirado bastante material, essencialmente pequenos blocos e terras. Os blocos de maior dimensão, e foram ainda uns quantos, tinham mesmo que ser levados para cima directamente pela força dos braços, tarefa que exigia uma certa destreza sob pena de uma possível ocorrência, com efeitos extremamente desagradáveis.
Quando o corpo já clamava por descanso e o espírito ambicionava uma "pequena" vitória terminámos os trabalhos neste ponto (ponto 2 de exploração) e decidimos atacar o sector das estreiteza (ponto 1 de exploração) com o objectivo de efectuar uma pequena desobstrução e alcançar a rampa ascendente que se via no final da passagem.
Equipa - Alexandre Leal, Florbela Silva (AESDA), Bruno Pais (AESDA)
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Com uma pausa pelo meio que me fez acreditar que o pior já tinha passado lá cheguei às bucólicas paisagens da serra para uma vista deslumbrante e relativamente seca. Os dourados sobressaíam no fundo verde e disfarçavam o cinzento ruim do céu. Foi "sol" de pouca dura... A chuva voltou, para não mais parar até à nossa saída nocturna.
As vacas e o Unicórnio não pareciam muito incomodadas, e aguardavam a nossa chegada formando um cordão até ao Algar, com o grande boi à cabeça.
Num ápice estávamos lá dentro, e a equipar o cabo até ao segundo nicho.
Fotografias por Florbela Silva
Preparando os trabalhos e uma possível descida do poço, foi reforçada a equipagem neste ponto, colocando mais uma plaqueta para possibilitar a aplicação da corda em Y sobre a vertical. As soluções não eram muitas atendendo à constituição das "paredes" mas ficou bem operacional.
Com tudo em ordem começámos por tirar umas terras, argila e pequenos blocos que se encontravam já soltos e tinham sido colocados de parte na saída anterior e depois demos então início ao sofrimento... quer dizer, aos trabalhos.
Foram largas horas de labor duro sob condições muitas vezes complicadas a nível do controlo do stress. O factor psicológico esteve sempre muito presente mas com calma, entreajuda, diálogo constante (com conversas bem animadas) e troca de posições, os trabalhos foram avançando. A boa disposição é um factor determinante nestes cenários e essa não faltou nunca.
O objectivo principal era conseguir alargar o constrangimento que nos impedia a progressão no poço. Quatro metros mais abaixo o calhau demoníaco lá nos esperava, lá nos atormentavam, mas para lá chegar teríamos que ultrapassar este primeiro desafio.
O problema residia essencialmente em dois aspectos:
- O espaço para trabalhar era muito reduzido, com pouca amplitude de movimentos e a forma estranha do espaço disponível obrigava a posições muito complicadas;
- O verdadeiro "puzzle" em que se consubstanciavam as "paredes" do poço. Era muito difícil distingir o que eram as paredes estruturais, originais, maciças, do poço das "paredes" falsas que se foram criando, fruto da queda de blocos e terras que, em alguns casos, chegavam mesmo a ter camadas de calcite, por vezes de grande espessura. Tudo tinha que ser ponderado, testado. Um passo em falso e poderíamos ter vários blocos a cair, a resvalar.
Com a utilização do balde foi retirado bastante material, essencialmente pequenos blocos e terras. Os blocos de maior dimensão, e foram ainda uns quantos, tinham mesmo que ser levados para cima directamente pela força dos braços, tarefa que exigia uma certa destreza sob pena de uma possível ocorrência, com efeitos extremamente desagradáveis.![]() |
| "Trepando" as paredes do segundo nicho com o bloco na mão... Mais acima a Flor esperava para o receber. |
Foi efectivamente um trabalho desgastante mas estou em crer, com o alargamento e desobstrução que conseguimos levar a cabo, que numa próxima actividade focada neste ponto conseguiremos com um pouco mais de esforço ultrapassar esta estreiteza e alcançar o "patamar" seguinte, constituído pelo dito cujo (o calhau) e a grande quantidade de terra e pequenos blocos que foi caindo e aí se fixando.
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| Ponto a desobstruir. |
Por esta altura o meu frontal já gritava por socorro, projetando uma luz com uma intensidade bastante abaixo das suas capacidades, e fraquejando a cada minuto que passava. Penso ser seguro assumir que a bateria terá entrado em "falência" técnica... literalmente. Uma questão a resolver.
Com este factor a pesar e com o último turno na poço ainda a fazer sentir-se com acuidade o Bruno assumiu naturalmente a posição de ponta, com o objectivo secundário de registar em video os trabalhos.
Em menos de três ou quatro minutos o Bruno "despachou" o bloco que impedia a passagem no final daquele sector das estreitezas, enquanto eu testava e sentia o efeito das suas pancadas nos "pequenos" blocos e placas que mostravam sinais de deslizamento/fractura e que havíamos sinalizado na saída anterior . Com este objectivo rapidamente cumprido restava-nos apenas ver o que a rampa nos destinava... E foi com um sorriso nos lábios que o bruno se vira para trás, comigo ainda em zonas bem apertadas, e diz "Isto é Brutal", com um "Isto é lindo..." pouco depois.
O esforço e a dedicação recompensam. Nem sempre é verdade, e não raras vezes a sorte é madrasta, mas sem esforço, sem persistência, raramente podemos sorrir e olhar em frente com orgulho no que conseguimos atingir. Após várias saídas a rastejar por espaços apertados, bem apertadinhos, fomos bafejados e lá estava ela, uma nova galeria em todo o seu esplendor.
E de esplendor efectivamente se trata. A "Galeria dos Fantasmas", apresenta uma profusão de espeleotemas de grande beleza, em muitos casos de um branco prístino, fantasmas e espectros que observavam resignadamente a nossa progressão.
Pelo meio identificamos uma área onde "crescem" pequenas, mas sempre belas, pérolas brancas. Presentes estavam também formações hipogenéticas, as couve-flor que tanta companhia nos fizeram durante a campanha de exploração do Algar da Arroteia levada a cabo pelo NEL.
Pelo meio identificamos uma área onde "crescem" pequenas, mas sempre belas, pérolas brancas. Presentes estavam também formações hipogenéticas, as couve-flor que tanta companhia nos fizeram durante a campanha de exploração do Algar da Arroteia levada a cabo pelo NEL.
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| Retirado do video "Algar da Cheira - Descoberta Nova Galeria", por Bruno Pais |
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| Retirado do video "Algar da Cheira - Descoberta Nova Galeria", por Bruno Pais |
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| Retirado do video "Algar da Cheira - Descoberta Nova Galeria", por Bruno Pais |
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| Retirado do video "Algar da Cheira - Descoberta Nova Galeria", por Bruno Pais |
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| Retirado do video "Algar da Cheira - Descoberta Nova Galeria", por Bruno Pais |
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| São múltiplos os sinais de deslizamentos e fracturas encontrados ao longo de todo o algar. Retirado do video "Algar da Cheira - Descoberta Nova Galeria", por Bruno Pais |
Ao todo creio termos progredido 30 ou 40 metros, numa profundidade que não deve diferenciar em muito da cota média da galeria inicial, tendo assinalado vários pontos de interrogação, passagens de diferentes, mas sempre pequenas, dimensões na base da parede à nossa direita, que progridem, tanto quanto foi possível averiguar, no sentido descendente, por onde as águas parecem escoar. Em sentido inverso foram identificadas também duas chaminés com alguma dimensão em altura, uma das quais apresentava no seu topo algumas raízes de árvore pendendo na escuridão desta passagem.
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De assinalar também a presença em vários pontos de guano em quantidade bastante relevante, o que aliás criava micro-habitats e potencial aliás a presença de uma pequena aranha totalmente despigmentada.
E não, a galeria não terminava ali. Ela continua, por uma zona mais apertada e densamente povoada por estalactites, estalagmites e colunas, mas continua. A sua dimensão é uma incógnita, um desafio a desvendar. O sopro de ar fresco fazia-se sentir de forma algo errática, mas estava lá.
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| Sim, continua... |
Aqui focaremos os nossos esforços nas próximas saídas, com a mesma persistência, com a mesma dedicação, com a mesma força, com o mesmo prazer e satisfação.
Com o cansaço acumulado, com a minha luz já nas últimas, e com as estreitezas para negociar de volta, estava na altura de regressar e preparar o material para subir à superfície, já sob o manto da escuridão nocturna e com o desejo de um repasto que nos devolvesse as energias perdidas.
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| Fotografia por Florbela Silva |
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| Bruno Pais Fotografia por Florbela Silva |
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| Fotografia por Florbela Silva |
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| Fotografia por Florbela Silva |
E a este respeito tenho a dizer apenas duas coisas.
Em primeiro lugar salientar a cara de espanto do pessoal no café/restaurante quando me vêem entrar pelo estabelecimento dentro... só depois percebo que me havia esquecido de limpar a cara. Escusado será dizer que se encontrava "um pouco" laranja do tratamento de beleza proporcionado pelos trabalhos no algar.
Em segundo lugar que foi um GRANDE repasto...
Marco, em tua honra e porque sabemos que adoras, comemos uns "Molhinhos" para entrada, e estavam particularmente deliciosos. :)
E com este apontamento vos deixo,
Até à próxima semana.
Alexandre Leal



















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