quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Algar da Alfarroba

Serra de Santo António

26 de Outubro de 2016




Coordenação - Bruno Pais (AESDA)
Equipa - Bruno Pais (AESDA), Alexandre Leal.







Após dois dias com uma chuva moderada, com períodos  de forte intensidade, esta quarta-feira amanheceu com um céu limpo e uma temperatura muito boa para a época. Iria estar um óptimo dia para rumar à serra e ajudar o Bruno no seu esforço de exploração do Algar da Alfarroba, na Serra da Santo António.

Primeiro passo Rio Maior, pegar o Bruno, e lá fomos nós por estradas serra acima e serra abaixo até ao trilho que levava ao Algar. Logo aí, bem juntinho à estrada, foi vestir, equipar e preparar os kitbags com o equipamento necessário para levarmos para dentro do algar. Não tardou muito e lá íamos nós a caminho, passando o Algas das Couves, rodeando o chouso até ao ponto das vacas curiosas, bem junto à oliveira sobranceira ao robusto muro de pedra, já com o buraco à vista, ainda que devidamente tapado e protegido para evitar quedas acidentais.

A equipagem da cabeceira é a parte mais fácil, não apresentado qualquer tipo de dificuldades. Já o resto... bem o resto exigia uma atenção constante e a adopção de posições, roçados e mesmo um fracionamento para negar ou mitigar situações em que a corda roçasse na rocha, em muitos dos casos aguçada ou laminada. Mas vamos por partes.

Logo abaixo da cabeceira temos um constrangimento que limita as movimentações, uma pequena estreiteza vertical, que se torna um pouco mais difícil quando transportamos kitbags e material de equipagem. Nada, no entanto,  que se apresente particularmente difícil de ultrapassar, diga-se em abono da verdade. A partir deste ponto começam as preocupações com os roços, o que torna a descida de quem vai à frente um pouco mais lenta. Como medida preventiva foi colocado um fracionamento acima da "Encruzilhada", por forma a prevenir que a corda roçasse de forma particularmente agressiva numa zona mais complicada, ao mesmo tempo que nos dava mais segurança nas manobras e trabalhos mais abaixo.

Ao contrário do seu vizinho, o Algar das Couves, o Algar da Alfarroba não é, do que foi até ao momento possível explorar, um algar bonito, com formações ou espeleotemas particularmente interessantes. Na verdade parece ser um buraco... um "simples" buraco, mas um buraco muito interessante, de grande complexidade estrutural, e que nos pode vir a surpreender pelas suas dimensões. Os indícios estão lá, tanto no interior como à superfície, como aliás se compreende pela indicação original da presença de um algar no local, tal como consta do Cadastro de São Bento (ponto 614), que se encontra cerca de 2 metros ao lado desta entrada, descoberta pelo Bruno (e equipa) após muita insistência e trabalho de desobstrução em saídas anteriores. De facto, a marcação original, que se encontra obstruída, acaba por ligar ao poço de entrada, via fractura consolidada com muita terra,  fractura essa de contornos e dimensões ainda desconhecidas. Aliás, toda a estrutura do algar é ainda um mistério, adensado com  indícios que apontam para espaços amplos e comunicantes, que permitem "ouvir" (pelo solo) o bater do martelo na rocha a cerca de 10 metros da boca, ou pedras a caírem...

E por dentro o panorama não é diferente.

Via lateral esquerda e central da "Encruzilhada"

Via direita da "Encruzilhada". Via utilizada para progredir













O Bruno designou dois pontos de trabalho para esta saída. A mim caberia-me "atacar" o fundo do algar, no que se designava como Poço Principal, o segundo poço que permitiria a continuação da progressão, enquanto o ele iria explorar e analisar um outro ponto que havia ficado por ser visto na saída anterior, numa pequena zona paralela... aliás visto de dentro tudo parece ser pequeno (apertado) e paralelo. Este segundo poço pensava o Bruno ser um poço secundário... Os  trabalhos de ontem, parecem-me impor uma re-avalização desta ideia, como concluímos a final.

Os trabalhos em ambos os pontos não se mostravam fáceis atento às condições particulares do algar. Espaços pequenos, muita terra, ora solta e mole, ora molhada e barrenta. A pedra tanto se apresentava rija, vidrada, como extremamente mole e "podre". 

Abertura da passagem que dá acesso ao poço.
Do meu lado rapidamente me apercebi que teria que abrir e alargar  o inicio da pequena passagem horizontal que permitia o acesso ao segundo poço. Tal como se apresentava não permitia alcançar a parte posterior da passagem que continha ainda vários pontos que criavam constrangimentos e dificuldades ao ingresso ao poço. 

Vista do poço após a passagem. O ângulo não é o melhor.
Lentamente fui desbastando a pedra e retirando terra da área envolvente, até que me permitiu, ainda que para tal tivesse sido necessário retirar o capacete, curvar o suficiente para colocar a cabeça na passagem e captar as primeiras imagens da vertical. 

Aproveitámos esta altura para testar a possibilidade de comunicação entre este poço e o poço onde o Bruno estava a trabalhar. Foram atiradas algumas pedras por ele e não obstante o som ser perfeitamente audível não foi possível ver qualquer das pedras atiradas. Mais, o som produzido pelas pedras atiradas para o outro poço pareciam cair mais do que as atiradas neste poço, sendo que em alguns casos terminavam num som particularmente grave, indicando ou uma camada de terra relativamente densa e/ou numa plataforma instável ou com um espaço vazio por baixo.

O passo seguinte era atingir a cabeceira do poço, e a única maneira que se afigurava exequível era progredir com os pés para a frente. Após uma primeira tentativa, frustrada pela existência de elementos que haviam resistido ao martelo, e que teimavam em impedir a passagem prendendo o arnês, o que exigiu uma segunda ronda de desobstrução, consegui finalmente ultrapassar este pequena passagem estreita. Do outro lado, e numa posição muito pouco confortável ou estável, permitiu, por breves instantes, ter uma imagem mais compreensiva (ainda que de ângulo complicado atento à posição possível) das dimensões do poço, mas sobretudo das dificuldades que apresentava a sua descida. Com efeito este segundo poço vai estreitando ligeiramente à medida que vai descendo, apresentando constrangimentos e obstáculos (pontes e arestas laminadas, blocos caídos, etc) em vários pontos, e isto atinente apenas ao que era visível de uma posição algo periclitante.

Com este ponto visto trocámos de posições para ficarmos com uma ideia mais abrangente dos trabalhos e da estratégia a seguir. 

Assumindo os trabalhos no ponto em que o Bruno havia estado a laborar, continuei com os esforços de alargamento do acesso a um outro poço, paralelo ao que havia acabado de aceder, embora este com um aparente maior potencial de progressão. Por entre marteladas e troca de ideias com o Bruno, do outro lado da parede, começámos a explorar a possibilidade de comunicabilidade entre as duas zonas (havia detectado a luz dele quando estava a explorar o ponto anterior, através de um pequeno buraco na parede atrás de mim). 

Retirado do video gravado pelo Bruno. Abertura inferior de
de acesso ao que deve ser o poço principal, 2º poço.
Eu alargava um outro acesso cerca de 75cm acima da cabeça dele. 
Com muita persistência o Bruno foi esburacando, alargando, o pequeno buraco e em menos de nada conseguia ver uma bota a sair da parede do poço cerca de 75cm abaixo da obstrução que tentava, a custo, vencer, e que veio a revelar-se a forma mais indicada para aceder a este poço. No final, quando já eu estava com a torna em modo de "martelo pneumático" (yeah right... muito pouco eficiente. A bateria desaparecia a olhos vistos), a abertura criada abaixo de mim permitia atacar directamente esta segunda vertical, não fosse a dificuldade com que nos deparámos para encontrar um local minimamente adequado para equipar a cabeceira. A pedra na zona envolvente tem uma qualidade muito duvidosa e apresenta-se ou fracturada ou constituída por pequenos blocos/blocos com relevo complicado.




Video do Bruno Pais

Enquanto estudávamos esta questão acabei por me deparar, ao olhar para cima e de um ângulo muito particular, com uns blocos que haviam caído da boca do algar aquando do esforço inicial de desobstrução, e que patenteavam algum risco de queda. Tendo em conta as dimensões envolvidas, e por uma questão de segurança, decidimos subir, retirar as cordas, e sanear a situação. Alguns dos blocos foram de facto enviados para baixo, tendo o Bruno certificado que o maior estava, de facto, confortavelmente encaixado e sem risco de cair. 

Fotografia por Florbela Silva
E a verdade é que lá fora já a noite imperava. Lá nos esperava a Florbela, que nos deu uma valiosa ajuda na desequipagem e depois no contacto com o dono do terreno, que havia sido avisado que estariam uns tipos a "atacar" as azeitonas com umas luzes na cabeça...  Um senhor muito simpático, tio do Orlando, que rapidamente se acalmou assim que percebeu que "os tipos com luzes na cabeça" eram os tipos "dos buracos", com quem estava habituado, naturalmente, a conviver.  

Uma muito boa tarde de trabalho, e sobretudo um muito bom trabalho de e em equipa. O caminho está aberto para a progressão no Algar, que certamente acontecerá de forma célere e agilizada.

O equipamento, esse, estava como há muito não o via... aquela terra entranha-se de forma particularmente perniciosa. Confesso que gosto de sensação de "chafurdar" no interior de um buraco. Sair de uma gruta com o fato limpo não me deixa particularmente agradado, como que um anátema da figura de um explorador. O pior é o dia seguinte... 


Um abraço bem sujo de terra,
Alexandre Leal


domingo, 16 de outubro de 2016

Algar da Arroteia

Chão das Pias, Planalto de Santo António

15 de Outubro de 2016




Coordenação-Flávio Lucas (NEL)

Equipa - Flávio Lucas(NEL), João Ferreira (NEL), Alexandre Leal (GEM);




Até onde o rio nos levar...




Onde é que íamos mesmo?!? Ah sim, exploração de passagens apertadas, com formações que agarram tudo e todos e têm uma apetência particularmente irritante de estraçalhar fatos... Check!

Bem, a semana passada tínhamos conseguido aceder à passagem após a fenda (e que agora parece uma auto-estrada graças à intervenção do Orlando), tendo progredido até nos ser impossível, à altura, avançar mais devido à presença de formações hipogenéticas (couve-flor), constituídas por lamas secas, abaixo da linha de água visível ao longo das paredes.

O objectivo para hoje era relativamente simples. Uma intervenção de alargamento da passagem, pela eliminação dos constrangimentos colocados pela presença destas lamas secas que impediam a passagem até à curva que se vislumbrava alguns metros mais à frente.

Em teoria seria uma tarefa relativamente simples e fácil, mas a exiguidade da passagem e a pouca amplitude de movimentos possível forçava a adopção e posições muito pouco confortáveis, e em alguns casos bastante ineficientes, exigindo muito esforço para pouco rendimento. 

Com persistência, e uma alternância constante na linha da frente, fomos lenta mas inexoravelmente avançando até finalmente atingirmos a curva e confirmarmos que a passagem não terminava ali. 

Havia ainda muito por fazer, com um aperto final que tínhamos que vencer até passarmos mas sabíamos agora que a passagem continuava, embora não revelando muito, pois 2 metros à frente tornava a curvar, desta vez para a direita.

Momento em que o João Ferreira consegue passar a curva.
Alguns minutos depois, talvez 10 ou 15 minutos embora o tempo passe de forma estranha nestas condições, e o João, com um trabalho assinalável,  conseguiu ultrapassar o constrangimento final e alcançar o outro lado, dando-nos uma primeira impressão da zona para além da curva seguinte. O esforço físico, no entanto, havia sido grande, e para não correr riscos desnecessário retrocedeu, cedendo o lugar na ponta, cabendo-me a mim tarefa de explorar a passagem entretanto aberta.






A zona imediatamente a seguir à curva abria ligeiramente, muito ligeiramente, mas qualquer alívio  naquelas condições parece sempre uma benção.  

Não que se mantivesse pois logo após a curva seguinte a passagem voltava a apertar um pouco mais, com a progressão dificultada pela presença, aliás, com a omnipresença, das formações do tipo "couve-flor". 


 
Zona mais apertada desta secção da passagem
Naquelas condições é muito difícil termos uma percepção minimamente correcta das distâncias envolvidas mas diria que terei progredido cerca de 20 metros, tendo passado por uma estreiteza final que permitiu o acesso a uma zona da passagem um pouco mais confortável, mais larga e alta, o que permitia, aliás, colocar-me em pé, ainda que ligeiramente curvo. 

À minha frente era visível água... A primeira sensação que tive foi de que nos tínhamos deparado com um novo sifão, mas rapidamente me apercebi que talvez fosse possível a sua passagem, que talvez houvesse um pequeno espaço entre o tecto  e o nível da água que permitisse continuar a progredir sem exigir uma intervenção logisticamente mais complicada. Não me restava grande alternativa a não ser meter-me dentro de água para tentar perceber as reais possibilidades e fazer uma avaliação um pouco mais ajuizada. 

E a temperatura da água não ajudou muito.


A água estava fria... pessoalmente pareceu-me estar gelada, embora acredite que tal tenha sido apenas a minha percepção. A verdade é que os músculos, já cansados do esforço de desobstrução, ressentiram-se bastante (e de que maneira) e após uma avaliação inicial voltei para "terra firme" e mais seca.






Impunha-se, no entanto, equacionar o que tinha já sido feito, e o que restava ainda fazer, pois tínhamos muito material (e pesado) para trazer para a superfície. Por outro lado o aperto final nesta passagem mostrou-se demasiado exigente para o João (era de facto apertado), exausto após o seu esforço na desobstrução e conquista da estreiteza anterior. 

Tudo pesado e ponderado era altura de voltar para traz, até porque o trabalho ainda não acabara... e não foi menos exigente em termos físicos. Com entreajuda foi superado com sucesso.


Interessante de salientar que ao longo de toda esta passagem, e apesar de só ser visível a espaços em virtude das formações hipogenéticas, se estende para cima, por vezes com uma altura difícil de percepcionar, uma longa fenda, como é bem visível na fotografia à direita. O facto é que esta cavidade é "assolada" pela presença de muitos meandros cujos contornos exactos são muitas vezes difíceis de perceber. O meandro da passagem fóssil, por exemplo e como relatou o Flávio, atinge em determinados locais profundidades bastante consideráveis, inacessíveis uma vez que a dimensão da fenda (na sua dimensão largura) é muito diminuta. Neste caso invertem-se os papéis. Estamos na base e a fenda estende-se para cima. 

E para acabar "bem" uma subida do P45 muito "emocionante". O Croll achou certamente que não tinha havido emoção suficiente e teimou em deitar gasolina ao fogo, ou, dito de outra forma, a esquecer-se muito regularmente, e de forma estranha, de bloquear a ascensão. Enfim.... por questão de precaução coloquei um Shunt na outra via, mantendo assim, e em caso de falha do Croll, dois pontos de segurança. Testarei o set-up com outro Croll na próxima semana para perceber se a falha é deste equipamento ou se a utilização do Patin no pé esquerdo força uma posição na corda que coloca em esforço a mola do Croll não permitindo que este bloqueie de forma eficaz.

E sim, porque ainda há muito por explorar para a semana lá estaremos, prontos para atacar a próxima dificuldade, e avançar para onde quer que o rio nos leve.

Um abraço,
Alexandre Leal   


sábado, 8 de outubro de 2016

Algar da Arroteia

Chão das Pias, Planalto de Santo António

08 de Outubro de 2016




Coordenação- Marco Dias (NEL)

Equipa da manhã - Marco Dias (NEL), Flávio Lucas(NEL), Orlando Elias (NEL), José Artur (NEL), Luís Serafim (NEL), João Ferreira (NEL), Nuno Brigas (NEL), Emanuel Jordão (NEL), Alexandre Leal (GEM);

Equipa da tarde - Flávio Lucas(NEL), Orlando Elias (NEL), José Artur (NEL), Luís Serafim (NEL), João Ferreira (NEL) e António Fael (NEL).




Saindo de casa com noite ainda cerrada, de kitbags ao ombro e com um destino traçado. 

De volta à Arroteia, convicto que hoje iríamos expandir as fronteiras desta clássica, e aceder à nova secção da passagem que vislumbrámos no passado dia 17 de Setembro, a jusante do sifão.

O corpo, esse já ia um pouco dorido mas a vontade, essa, inabalável. Hoje era o dia...

Com a rotina já bem definida, e o algar equipado desde ontem, a equipa colocou-se rapidamente a caminho, com missões bem definidas:

- Ponta de Exploração (1) Desobstrução da fenda na ponta de exploração para permitir um acesso mais facilitado à nova secção, se possível a um maior número de membros da equipa;

Fotografia sobre o ponto (2) tirada em 17 de Setembro de 2017
no início dos trabalhos de desobstrução. 
- Desobstrução da base da chaminé na pequena sala logo após o sifão, em paralelo com o bombeamento da água residual ainda presente (2);

- Continuação dos trabalhos de topografia (3);

E tudo a correr a muito bom ritmo, com esforço repartido entre os membros da equipa.

Após uma breve passagem pela equipa  de desobstrução no ponto (2) transitei para o esforço de desobstrução da ponta de exploração (1)... o espaço era exíguo e o trabalho pesado mas lentamente conseguimos avançar, enviando para trás e "arrumando" um volume considerável de pedra, com alguns blocos bem "interessantes". Apenas a parte final da fenda desafiou os nossos esforços. O espaço era muito apertado, não havia amplitude para utilizar o martelo e escopro e o esforço físico já começava a pesar. 

Não que esse facto impedisse a passagem, até porque a fenda apertada ficara reduzida a uma pequena secção (a mais difícil, bem certo) de não mais de 40 ou 50cm de comprimentos... Foi tirar o capacete, expirar um pouco, e já lá estava.

Confesso que o ponto seguinte foi bem mais "complicado". Para aceder à nova secção precisava primeiro de passar um grande bloco que bloqueava a passagem. Não seria difícil  não fosse o facto de mal ter espaço para me mexer e a passagem seguinte seguisse em contra curva à passagem apertada de onde eu vim. Experimentei N formas mas cheguei à conclusão que apenas com os pés para a frente seria possível, mas para isso teria que me deitar parcialmente na parte apertada da fenda atras de mim (pelo que tive que tirar o capacete e fixá-lo entre o bloco e o teto na esperança que não caísse),  colocar os pés por cima do bloco, que se encontrava numa altura superior, fazer força com os braços, e rodar do outro lado por forma a cair na passagem, cuja base era mais baixa. Um filme...

... mas com desfecho feliz. Tínhamos conseguido passar e o esforço deu lugar ao desejo insaciável de descoberta. A passagem essa tinha dois níveis claramente demarcados, em função do nível da água. A parte inferior, que estava parcialmente submersa no primeiro vídeo que filmei mas que agora contava com a presença de água apenas nos primeiro 2 ou 3 metros, mostrava-se um pouco mais larga, apesar da forte presença de formações hipogenéticas constituídas fundamentalmente por barro, agora seco, geralmente designadas por "Couve-flor". A secção superior, de pedra lisa, apresentava uma menor largura, e que em alguns pontos era inacessível pela presença das formações atrás referidas que formavam um arco por cima do meu capacete. 

É visível a curva ao fundo.
Terei progredido talvez uns 7 ou 8 metros, com a passagem progressivamente a estreitar. No ponto máximo  que alcancei, e cerca de 3 metros mais à frente, a passagem  curvava para a minha esquerda, impossibilitando qualquer visualização do que poderia estar além, negando qualquer possibilidade de avaliação sobre a margem ou potencial de progressão, embora tenha ficado com a clara sensação que  a passagem tinha estabilizado em termos de largura e que assim continuaria. 

Aceder até esse ponto (curva para a esquerda) exigirá a ablação das formações  no nível inferior da passagem, feito que não se mostrará particularmente difícil uma vez que estamos a falar de lamas secas. Um martelo, com a utilização de um escopro nas partes mais complicadas, deverá ser o suficiente, e relativamente rápido.

Estou convicto que na próxima saída esse objectivo será plenamente atingido, de preferência após termos "lidado" com o "Bloco do Demo" que tantas dificuldades criou.

A pequena conduta que deverá ligar à base da chaminé
No sentido inverso foi possível verificar a existência de uma pequena passagem, que começa na zona inferior, por baixo do "Bloco", e que segue na direcção e sob a passagem superior por nós utilizada. Estou convicto que é esta a passagem que permite escoar as águas até à base da chaminé pela pequena fenda que agora, graças ao afundamento da base e retirada das águas, está plenamente visível.

A passagem do "Bloco" e posteriormente da fenda fez-se de forma mais agilizada. Duro, mas sem comparação com passagem em sentido contrário. E depois, bem e depois veio uma pontada no ombro, um distender do músculo acompanhado de dor e restrição de movimentos... a sorte foi que o ombro só cedeu quando já estava na parte da fenda entretanto alargada. "Thank god for  small blessings" :).



Nestas condições vi-me forçado a ceder a minha posição nos esforços em curso e recuar para a sala antes do sifão para me recompor, descansar e aliviar um pouco o ombro. Enquanto isso ia vendo baldes de cascalho serem arrastados por passagens apertadas na continuação das operações em (2), e o Flávio a dar vida a topografia, particularmente envolto no desenho daquela passagem. 

Bem, depois foi o regresso à superfície, num passo um pouco confrangedor, confesso, mas o ombro a juntar aos abdominais doridos não permitia maiores veleidades, animado, porém, pelo progresso alcançado pela equipa. 

É um esforço continuado e que exige persistência e tenacidade, e quando não é um é outro a chegar-se à frente e a dizer presente.

Em qualquer caso um grande repasto nos esperava ;), e que bem serviu para repor as forças da  equipa que retomou os esforços de desobstrução, rumando  de novo às profundezas da cavidade. 

Eu já não tinha condições físicas para tal, mas deu para dar um saltinho ali "ao lado" e ver os esforços de exploração a decorrer num outro algar relativamente "perto" ;). 

Um abraço
e até à próxima,
Alexandre Leal

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Sumidouro 11, Prospecção no Polje

Polje de Minde, Minde



02 de Outubro de 2016



Coordenação - Alexandre Leal
Equipa - Alexandre Leal (desobstrução/exploração), Alexandra Leal (superfície)

Apoio Moral - Pequenos Guerreiros de Minde (Rodrigo e João Leal)







Paulo Rodrigues a trabalhar no recém descoberto
Sumidouro 11 - 22 de Novembro de 2015















Muitas vezes adiado, mas este domingo concretizado, o regresso ao Sumidouro 11, descoberto no Polje de Minde no dia 22 de Novembro de 2015, por Hélio Frade (CEAE), com a presença de Paulo Rodrigues (GEM) e o vosso, Alexandre Leal (GEM), durante uma acção de prospecção levada a cabo durante um fim de semana de trabalhos no Polje, inserida no âmbito de um projecto dirigido e coordenado por Paulo Rodrigues.

Passagem onde vemos o Paulo a trabalhar
na foto supra.
O sumidouro 11 é um pequeno algar com cerca de 180cm de profundidade, que apresentava dois passagens passíveis de progressão mediante trabalhos de desobstrução, como podemos ver nestas duas fotos tiradas na altura. 

Passagem que ontem desobstruí.
O objectivo para os trabalhos de ontem era desobstruir estas duas passagens, com enfoque na foto da direita, onde o Hélio Frade identificou a existência de "um poço".

Com esta possibilidade em mente, a confirmação da existência de um poço, optei por levar material de equipagem e equipamento vertical, o que culminou num "certo" peso para cerca dos 5,2 Km de caminhada/prospecção que acabámos por realizar, que se juntou ao indispensável material de desobstrução (Big and Small Mike mais o Mauler).



Sumidouro 13 
Sumidouro 4 - Já identificado no Cadastro de S. Bento

Pelo caminho ainda assinalei dois pontos, um dos quais confirmei já se encontrar assinalado no Cadastro de São Bento como Sumidouro 4. O novo ponto, que designei como Sumidouro 13, aparentava ser um poço empedrado e posteriormente obstruído com pedras, muito perto do que parecia ser uma fractura obstruída à superfície, que se pode ver na foto acima do poço, onde se encontram acumulados aqueles blocos.


Vista geral para o Sumidouro 11, à esquerda, na sombra do arvoredo.

Visão entre as rochas à superfície.
Sumidouro 14.
Chegado ao ponto do Sumidouro 11 foi montar o acampamento (literalmente), e lançar mãos ao trabalho enquanto a Xana liderava um reconhecimento da zona imediatamente envolvente, que resultou aliás na identificação de mais outro sumidouro (sumidouro 14) a cerca de 15m (que por falha minha documentei em fotografia mas não tirei as coordenadas).

Bem, Sumidouro 11... "Saltar" lá para dentro e de imediato perceber que tinha sido alvo de trabalhos de desobstrução, desconhecendo-se, no entanto, os seus autores, que desde já saúdo. A passagem "do Poço" tinha sito aberta, permitindo ver uma pequena queda de não mais de um metro, sem no entanto se perceber se havia continuação. A passagem era apertada e o ângulo não ajudava. 

De referir também que ambas as passagens são relativamente instáveis, não só devido à pouca resistência estrutural da rocha como principalmente ao facto das passagens terem resultado ou sido transformadas por um ou mais abatimentos. Tanto as paredes como o teto eram formados por blocos de variada dimensão que se amontoam e se encontram suportados por dinâmicas muito pouco estáveis, basicamente um castelo de cartas, como as fotografias infra podem ajudar a comprovar.




Era, pois, uma passagem que exigia um certo cuidado, sob o olhar atento da Xana à superfície, e da qual não veio a resultar nenhuma margem de progressão possível. O espaço era exíguo, complicadíssimo de trabalhar pelas razões já aduzidas, e, à excepção de uma pequena passagem obstruída que seguia na direcção do poço e da outra passagem, sem nenhuma forma visível de progressão. 

Restava regressar ao poço e atacar a outra passagem. 

Foram retirados vários blocos de dimensão variada, rapidamente se percebendo que a progressão, para uma fenda que se via na parte posterior do nicho, exigiria a ablação da camada superior do grande bloco que ocupava a parte central do nicho, bem como a eliminação de uma quina no bloco superior que formava o tecto, por forma a criar um espaço suficiente para permitir a passagem.

Foi um trabalho relativamente rápido, atento às características da rocha, que fracturava com grande facilidade, embora sempre com algumas cautelas devido a controlo estrutural da cavidade. Toda a rocha envolvente "estremecia", como a Xana me fazia questão de ir avisando. 

Retirada aquela camada superior do bloco, ainda assim se mostrou extremamente difícil a aproximação à fenda, pelo que se optou por utilizar o capacete para filmar para além desta, até porque  o espaço abria para a esquerda e o ângulo apertado não permitia grandes veleidades.

Logo no local visualizei as imagens e constatei que, para além de duas garrafas de plástico que para aí foram arrastadas pelas águas, se verificava a presença de uma pequena passagem, cujas dimensões não permitiam, porém, qualquer forma de progressão sem um alargamento muito grande, o que, atento às condições se mostrava muito difícil, especialmente sem se perceber qual o desenvolvimento possível... não se justifica, neste momento, qualquer esforço adicional no local.



Pequenos Guerreiros do Polje
Com o trabalho feito neste ponto, e porque o dia estava convidativo, levantámos o acampamento e prosseguimos com a prospecção, ora pelo meio do mato muito espinhoso, ora seguindo os trilhos existentes.

A paisagem, com tons dourados, era a espaços deslumbrante...






Pouco tempo depois de iniciar-mos o caminho de regresso, e muito perto do trilho que seguíamos, a morfologia do terreno por entre os arbustos chamou-me a atenção e despertou-e memórias. Tinha encontrado o ponto identificado na prospecção de Novembro do ano passado onde se "amontoavam" pequenos sumidouros, como que de um campo de minas explodidas se tratasse. As marcas do nível da água eram ainda bem visíveis nos restos de vegetação/algas retidos nas rochas e arbustos. Um testemunho aí deixado pela água sugada pela terra.

Um espantoso número de buracos que têm que ser objecto de uma análise mais cuidada. É uma zona fascinante mas algo estranha.









  
Depois disto foi seguir o trilho até ao carro, tendo optado por utilizar uma via diferente no último terço do terreno, e assim "bater" zonas novas.


O peso carregado fazia-se sentir já com alguma acuidade, e nada melhor que repousa um pouco e repor as forças numa almoçarada tardia no local do costume. 

Um abraço,
e até à próxima.

Alexandre Leal