terça-feira, 10 de outubro de 2017

Algar da Arroteia

Chão das Pias, Planalto de Santo António

05 e 08 de Outubro de 2017




Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - 05 de Setembro - Alexandre Leal (NEL), António Fael (NEL), Pedro Galvão (NEL)
                08 de Setembro - Alexandre Leal (NEL), Pedro Galvão (NEL), Hugo Costa (NEL).







Com a bomba estratégicamente colocada e em pleno funcionamento, e a trabalhar em contra-relógio contra a chegada de um inverno que por enquanto teima em dar-nos uma mãozinha, a estratégia gizada exigia um acompanhamento mais de perto e com um calendário mais apertado da evolução da descida do nível da água no sifão2.

Após vários contratempos o equipamento instalado na ponta de exploração começou, finalmente, a drenar a água para a represa da cascata, o que nos dá uma esperança acrescida de passar mais este obstáculo numa campanha que se tem mostrado exigente a todos os níveis. Não obstante esta janela de esperança a verdade é que se desconhece, em absoluto, a dimensão deste lance de água, ainda que a nosso favor jogue o facto de, aparentemente, não ter qualquer tipo de recarga.

No passado sábado dia 23 de Setembro o nível da água, já um pouco mais baixo face ao nível que o  "Lago" tinha aquando da sua descoberta, mostrava-se ainda alto o suficiente para bloquear qualquer tipo de progressão ou visualização das zonas na sua sequência imediata. Nessa altura foi colocada a bomba (que só começou a funcionar na semana seguinte) no enfiamento do que se supunha ser a continuação passagem com pouco espaço acima do nível de água como se pode ver na fotografia à esquerda.
Menos de uma semana após a sua entrada em funcionamento, na passada quinta-feira, 05 de Outubro de 2017, a descida do nível de água era já significativa.

A bomba encontrava-se completamente a descoberto à excepção de uma pequena quantidade de água que cobria a sua base, o que colocou a descoberto a zona anteriormente filmada pela GoPro. O lago estava completamente "seco", com a água a dar lugar uma camada de lama particularmente chata, que teimava em agarrar os mais incautos. 




Para além da bomba estendia-se uma nova secção alagada por uma quantidade de água bastante considerável, e que nos mantinha em suspense quanto a forma e possibilidade de progressão.
E rapidamente me apercebi que 3 ou 4 metros mais à frente a base deste novo espaço, completamente submergido, desaparecia subitamente debaixo dos meus pés. Com a água completamente turva  a apreensão subia. Após uma análise inicial pedi ao Fael, que entretanto havia chegado, e mais à vontade que está nestes ambientes aquáticos, para testar o chão e ver se conseguia perceber qual a profundidade.  

A resposta não se fez esperar... o limite parecia estar bem definido. Um passo em frente  e ficávamos completamente sem pé. Estávamos pois na fronteira de uma súbita alteração de profundidade, que tanto poderia ser um pequeno ressalto de 2 ou 3 metros ou um verdadeiro poço de dimensões bastante mais relevantes.

Seria pois nesta zona mais profunda que teríamos que colocar a bomba, por forma a maximizar o seu rendimento entre saídas. Este reposicionamento exigia, no entanto,  a extensão da tubagem existente através da colocação de um novo troço. Enquanto o Fael e o Pedro foram buscar o necessário tubo à zona da Pedra do Demo (uma secção do tubo utilizado para ajudar a drenar toda aquela passagem entre a Pedra e a Passagem da Concertina) continuei a análise deste novo espaço, em particular da zona superior junto à parede da direita que exibia uma diacláse  de pedra polida pela circulação da água. 

Com efeito esta zona encontrava-se situada a uma altura superior ao nível máximo do sifão, bem demarcado pela presença, diria mesmo omnipresença, das formações de lama a que todos já tivemos que nos habituar. Esta seria, pelo menos, mais uma via de canalização de águas (e lamas) para o sifão, engrossando o caudal de água. 

Notável é também a presença de um número significativo de marmitas de tecto nesta secção da sala, testemunho silencioso da velocidade de circulação da água durante os períodos de carga.

Visão do tecto no limite da zona baixa, contígua à zona mais alta da sala (zona da diacláse).
A marmita no centro da imagem é particularmente funda e de uma "linha" perfeita. 

Depois foi "voar" para a Concertina para ajudar no esforço de transporte da tubagem extra.

Enquanto ajustava a dimensão da tubagem às necessidades e limitação de espaço, e procedia à colocação da união e subsequente ligação à bomba, o Fael procedia à colocação do varão roscado, à falta de um ponto adequado de amarração natural, que serviria de ponto de fixação da bomba sensivelmente a meio da sala junto à parede da direita. 

Em oposição e sobre a água do sifão, numa posição pouco confortável, especialmente tendo em conta a quantidade de lama  presente neste espaço, recebeu então a bomba que lhe passei, já devidamente preparada para ser ligada.

Segurando o cordino na mão (na verdade dois ligados por um nó) foi lentamente submergindo a bomba  até que a sentiu tocar na "base", cerca de 3m abaixo da superfície.

Uma profundidade que nos surpreendeu mas com a qual tínhamos que lidar. E estávamos plenamente confiantes que não era este facto que nos iria complicar a operação.

Se ao menos esta profundidade estimada com base no local preciso em que se colocou a bomba  fosse a profundidade máxima desta secção do Sifão2, mas nada, à altura, nos faria pensar outra coisa...

... até que neste passado domingo, dia 08 de Outubro, o Sifão nos veio novamente surpreender.

A saída estava até preparada para sábado, dia 07, mas atendendo ao volume de água que  encontrámos decidimos adiar para o referido domingo, dando assim mais um dia à bomba para tentar "abrir-nos o caminho".

A questão primordial é que esta operação encerra uma incógnita da maior relevância. Desconhecendo  nós a extensão deste troço do sifão é de facto complicado prever o tempo necessário para efectivamente o drena, mesmo que seja apenas e tão só até ao limite possibilitado pela colocação em concreto da bomba em cada momento.

E se é verdade que de quinta-feira para domingo o nível dá água baixou de forma bastante significativa não é menos verdade que a bomba continuava ainda submersa, não obstante ser já visível a bóia, de uma cor verde vivo, uns 20cm abaixo da superfície.


Visível estava também o limite do ressalto além do qual a água se precipitava para as "profundezas.

Para dentro da água saltou o Hugo, um tipo bailhão, que se sente à vontade dentro de água,  com o objectivo de fazer um novo reconhecimento do perímetro da zona ainda submergida e sobretudo da profundidade na zona da bomba e  junto à parede do fundo e da esquerda.

Hugo Costa identifica pequeno buraco na parede do fundo.


Confesso que tinha esperança que "buraco negro" não fosse mais fundo do que a indicação que nos havia sido dada pela bomba ao tocar no "chão" na saída anterior. 

Mas uma vez mais a Arroteia teima em testar a nossa resiliência. Mesmo com o nível 170cm mais baixo desde o nível encontrado na saída anterior o Hugo relatava que não tinha pé  à excepção do preciso ponto onde, por mero acaso, a bomba tinha sido colocada. E mesmo aqui era no limite.

Mais, tinha a clara sensação que a base caía para a esquerda, local onde a parede parecia afastar-se progressivamente debaixo de água. Seria, pois, neste direcção que o sifão continuaria, ao arrepio do que era a nossa expectativa. 

Ao fundo identificou, bem junto à linha de água, um buraco de pequenas dimensões, que parece estar no enfiamento da fractura dominante da diacláse. Obviamente necessita de ser visto com atenção mas o enfoque voltou-se, de um momento para o outro, para a parede esquerda, o que determinou o reposicionamento da bomba para esse local.











Por sorte o Hugo conseguiu encontrar um pequeno buraco nessa parede, bem perto da superfície da água, para servir como ponto de fixação da bomba, que lentamente foi baixando. E baixando até ao limite de extensão do cordino sem que, de forma clara e evidente, tenha chegado a tocar a base. A certo ponto deu-lhe a sensação de que a teria alcançado para de seguida continuar a resvalar pela água até que ficou suspensa pela amarração. Uma leitura possível, e aliás a tese com que estamos a trabalhar, é que estamos perante um poço que termina numa rampa acentuada ou então com vários ressaltos.

Certo, certo, é que neste momento não conseguimos determinar a profundidade do sifão neste ponto, e que no máximo, atendendo ao comprimento do cordino utilizado, a bomba poderá drenar cerca de 3m mais de água (em termos de profundidade) até à próxima saída, altura em que reavaliaremos a situação e se necessário reposicionar a bomba.

De salientar que foi levado para a frente de exploração a torna e 20 metros de corda, que lá deixámos antecipando a necessidade de equipagem da vertical que estamos para descobrir em toda a sua glória.

E se é verdade que a cavidade nos testa a cada saída não é menos verdade que a resposta que a equipa (leia-se todos quantos contribuem para fazer desta campanha o sucesso que está a ser) dá não é menos impressionante. A insofismável e indomável vontade de ir mais além, de nos superarmos física e mentalmente, de conquistarmos um algar que tem guardado, a  sete chaves, os seus segredos ao longo de várias décadas de exploração, tem estado presente em toda e cada saída efectuada, sempre com um sorriso nos lábios e o "pai-de-todos" bem esticado de forma particularmente impertinente num claro desafio que queremos vencer.

Não tem sido fácil mas as sinergias criadas entre todos têm sido fundamentais, determinantes, para o sucesso da campanha.  A boa disposição impera e isso faz toda a diferença.


Para dar o trabalho por terminado, e por uma questão de segurança, restava colocar uma manga retrátil no ponto de ligação entre o cabo da bomba e o cabo estendido até ao quadro eléctrico instalado no fundo da cascata, por forma a proteger do possível contacto com a água.



Depois, bem,  depois restava-nos fazer o penoso caminho de volta (algo mais leves pelo material que deixámos junto ao sifão), tirar o neoprene, equipar os EPI´s e jumar até à superfície, onde fomos saudados por um sol estranhamente forte e "viçoso".



As expectativas são altas. Estamos confiantes que poderemos terminar a Campanha de 2017 com a descoberta de uma nova passagem, quiçá mesmo o limite do estranho nível suspenso que mantém o caudal de água bem acima da sua cota normal nesta região... O futuro próximo nos dirá.

Um grande abraço,
Alexandre Leal