domingo, 25 de novembro de 2018

Algar Eureka

Vale Florido, São Bento

18 de Novembro de 2018





Coordenação - Alexandre Leal
Equipa - Alexandre Leal, Pedro Fazenda (AESDA/NAMMI)








Com um ponto de interrogação que nos dava esperança da existência de uma via de progressão, ainda que mediante um trabalho de desobstrução de duração e dificuldade por determinar, o regresso ao Algar Eureka ficou marcado para este domingo, contando pela primeira vez com a participação do espeleólogo Pedro Fazenda.

Como o tempo prometia chuva, muita chuva, o objectivo era colocar-nos dentro do "buraco" o mais depressa possível, antes do céu "desabar"... obviamente, porque o destino é torcido, assim que estacionámos o carro e nos preparávamos para começar a equipar eis que a chuva fez a sua aparição, e em força. Antes de poder calçar as botas já estava com os pés completamente encharcados, o que, depois de um ano  a navegar por passagens estreitas com água a 14º, pouco ou nada assusta. Na verdade estava ciente que passados 10 ou 15m o calor corporal tornaria aquela humidade em algo até confortável.

Não, manifestamente não nos assustou e em menos de nada estávamos a descer o amplo poço de entrada... Ok, não foi propriamente em menos de nada, como também o poço de entrada é tudo menos amplo, mas a verdade (sim, esta parte é verídica) é que o Pedro lidou bastante bem com as dificuldades que foi encontrando (ainda que precise de se adaptar melhor e encontrar a técnica que melhor lhe permita utilizar o seu descensor, mas isso vai-se ganhando com o tempo e com a prática no terreno).

Com calma fomos progredindo até à base do segundo poço, não que fosse uma distância ou profundidade particularmente significativa mas porque as características da cavidade não facilitam a progressão, especialmente quando feita com kitbags de desobstrução particularmente pesados.

E num espaço limitado era fundamental encontrar uma maneira de posicionar estes kitbags bem como todas as ferramentas por forma a não dificultar os trabalhos. Optei por prendê-los na corda a uma altura que possibilitada a sua utilização mas limitando o seu impacto nos nossos movimentos.


E depois foi colocar as mãos à obra, literalmente.

Diante de nós um verdadeiro puzzle. A abertura do poço estava escondida por baixo de vários blocos sobranceiros, que se suportavam mutuamente, mas sobretudo suportavam um volume já razoável de blocos de dimensão variada que aí tinha colocado na saída anterior. Era notório que teríamos que os reposicionar. A questão era local para o efeito. Numa primeira abordagem tentou-se não fechar a abertura para o P4 que se afigurava paralelo ao que pretendíamos desobstruir. Apesar de muito estreito numa exploração nunca se deve equacionar como primeira opção inutilizar uma possível via de progressão... facto que se tornou inevitável com o andamento dos trabalhos.

Com o caminho aberto para dar início à desobstrução rapidamente se tornou evidente que, por uma vez na vida, a pedra não iria dificultar os trabalhos. A pedra era uma espectáculo, e em menos de 15minutos a abertura estava completamente exposta, não obstante termos demorado um pouco mais  a remover lamas e pedras por forma a alargar e estabilizar a cabeceira o suficiente para permitir o ingresso.

Ora se o pedra facilitava os trabalhos a verdade é que o volume de pedra que fomos retirando rapidamente se tornou num verdadeiro pesadelo logístico. Como referi supra a necessidade crescente forçou-me a mão, e fui acabei por utilizar o espaço na cabeceira do P4, que não obstante confinado apresentava-se o único espaço disponível para o efeito, e lá fomos encaixado bloco atrás de bloco, alguns de dimensão bem relevante, criando um novo puzzle tétrico.
Visão para o segundo espaço situado na base do P4.

A pequena abertura permitiu-me descer pouco menos de 2m, aterrando em cima de blocos de dimensão variada, com espaços entre eles que necessitavam de ser examinados. À minha frente, após uma passagem apertada, um segundo espaço que se veio a confirmar estar situado sob o P4 cuja cabeceira havíamos acabado de entulhar.

Antes de mais era essencial alargar aquele espaço apertado, criar condições para analisar possíveis vias de progressão, porque estava confiante que as iríamos encontrar, para  depois voltar ao ataque.

E mais uma vez a pedra ajudou. Era efectivamente um espectáculo. Fosse a pedra no S1 (Sumidouro da Toca do Coelho) em Chão das Pias assim e já o tinha desobstruído até ao poço que sei estar "já ali adiante"... But that is not to be.



Com espaço ganho rapidamente nos apercebemos de pelo menos dois pontos de acesso à continuação da vertical por entre os blocos que constituíam efectivamente mais uma obstrução. E dois pontos em posições opostas desta pequena área. Dois pontos que passaram a três, um terceiro que nos deu, em algumas leituras, uma maior profundidade, ainda que seja sempre muito difícil ajuizar distâncias em situações em que as pedras vão aos "trambolhões", batendo de parede em parede, rolando por pequenas rampas abaixo, etc. Mas se a dificuldade é acrescida não é menos verdade que algumas das pedras "rolavam" durante bastante tempo, diria cerca de 10m. 

Mais, uma das pequenas pedras enviadas para baixo, no término da sua queda, acabou por revelar um som peculiar, em tudo parecido ao impacto com uma formação do tipo "bandeira" ou similar. 

Da análise feita mostrava-se evidente que a vertical que buscávamos abrir ocupava uma área similar àquela em que estávamos. 

Um outro facto tornava-se também cada vez mais evidente.  Antecipando o volume de pedra que teríamos de retirar para abrir o caminho, independentemente do local exacto em que decidíssemos investir, teríamos que fazer uma avaliação muito séria, que comporta um risco real de poder alienar ou vir a dificultar a possível desobstrução deste poço noutro ponto caso a primeira escolha se vier a demonstrar pouco acertada. Com efeito teríamos que sacrificar pelo menos um dos possíveis pontos de continuação para aí colocar a pedra que fossemos retirando, uma vez que em cima a zona disponível estava esgotada. 

Era, literalmente, um tiro no escuro.

E a escolha recaiu no ponto que fica exactamente na continuação directa abertura desobstruída e alargada na base do segundo poço, o que aliás facilitaria a progressão no futuro.

E por aqui ficámos. O ponto de ataque está identificado, agora é preciso atacar em força e de forma implacável.

Certo, certo, é que se se confirmar as expectativas deveremos ter ultrapassado, em profundidade, a base estimada do poço localizado nos nichos laterais do Algar da Cheira, que ainda se encontra em fase de desobstrução (e que implica uma equipa de 4 operacionais a trabalhar num regime duro), com a esperança que a esta profundidade se consiga finalmente atingir um nível de progressão horizontal e, quiçá, ligar ao "sistema" vizinho.


Claro está faltava agora fazer o caminho inverso e subir à superfície, tarefa dificultada pela muita lama presente no nosso equipamento e corda... bem, infiltrada um pouco por todo o lado.



Não foi particularmente fácil mas com maior ou menos dificuldade lá estávamos nós mais uma vez no meio das vacas que teimavam em nos achar graça.


Um abraço enlameado,
Alexandre Leal









sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Algar Eureka

Vale Florido, São Bento

08 de Novembro de 2018





Coordenação - Alexandre Leal
Equipa - Alexandre Leal 






Quase dois anos depois da última saída a este pequeno algar lá voltei para concluir os trabalhos de desobstrução da pequena passagem que iria permitir descer o segundo poço e descobrir se os indícios dados pelas imagens captadas pela GoPro se confirmavam ou não. Sempre me levantaram muitas dúvidas no ponto em que a GoPro, girando demasiado rápida na ponta da corda, captou umas imagens muito desfocadas do que apontava ser apenas um nicho na parede. E com razão...

O tempo apresentava-se cinzento e fresco, e das ameaças e promessas de chuva rapidamente passou à acção. Ora uma chuva miúda ora um aguaceiro mais "pesado". Quanto mais depressa me metesse dentro do buraco melhor. Resta saber se ainda lá cabia. E juro que, sob os olhares atentos da manada residente (Recon Ghost Cows - quando dei por elas já estavam "em cima de mim", com olhos atentos, a ver o que o humano estúpido estava a fazer à chuva), num primeiro momento pensei mesmo que iria ser "algo complicado" passar a estreiteza cerca d 2m abaixo da boca do Algar.

Mas não, não estava (muito) mais gordo... era um pequeno bloco que havia caído e ficado numa situação estrategicamente inconveniente, e cuja remoção não era propriamente fácil. Voltas para aqui, voltas para ali, com a chuva a pingar, e sem maneira segura de o retirar de um ponto de ataque superior (até porque entretanto já tinha enviado o kitbag com as ferramentas para baixo).  A solução foi descer-me, mais uma vez, até ao nível do bloco (basicamente até onde conseguia descer), e num acto de contorcionismo retirar o bloco daquela posição para o reposicionar um pouco mais para o lado.


Lá em baixo foi preparar as ferramentas (no apertado espaço) e retomar o ataque à parede da direita. Não faltava muito para poder passar, apesar da parede, pelas suas características, não colaborar mesmo nada. Facto que ficou bem patente nas primeiras tentativas até que, de repente, a situação foi desbloqueada e os trabalhos avançaram em velocidade de cruzeiro.



Para garantir o acesso ao poço em segurança coloquei um parabolt na parede da esquerda (tal como vista na foto supra), onde deixei, aliás, a torna para que tivesse acesso facilitado no outro lado da passagem, por forma a conseguir equipar esta vertical. Atendendo, mais uma vez, às características das paredes, que apresentam uma camada superior em calcite, e não obstante o poço ser relativamente pequeno e estar em modo de exploração, optei por colocar logo 2 parabolts para uma equipagem em Y, até para tentar a corda e evitar roços desnecessários.

Pesando as opões para a equipagem. Visão para a minha esquerda.

Visão para a minha direita.




Visão para a passagem desobstruída, por onde passei para chegar a este
segundo poço.

 Na base do poço o nicho que desfocadamente aparecia nas imagens captadas pela GoPro em Janeiro de 2017 veio a revelar-se um estreito acesso a um não menos estreito poço, um P4, ainda não descido.




Na base do poço em si, não aparente à primeira vista uma vez que estava parcialmente oculto debaixo de um bloco sobranceiro que se estende de uma das paredes, uma pequena abertura dava acesso a uma outra vertical. Se a abertura não terá mais do que 18cm (se tanto) o poço é bastante mais largo um pouco mais abaixo ainda que não consiga fazer avaliações muito conclusivas porque o ângulo de visão não permite, tal como o som das pedras não é menos enigmático. Se a maioria cai não mais do que uns 3 ou 4 metros a verdade é que umas quantas ouvia rebolar e cair algo mais, talvez mesmo uns 7 ou 8 metros.

Ainda "limpei" a zona das pedras de maior dimensão mas sem ferramentas (que havia deixado na zona de desobstrução) não haveria grandes hipóteses de avançar nesta tarefa, optei por topografar a zona já explorada... tendo sempre presente a dificuldade de saída do algar, sobretudo a proeza de tirar o kitbag de desobstrução pela estreiteza. 




















Desde logo verifica-se que esta cavidade, a cerca de 3 ou 4m de distância do Algar das Raízes (que com o Algar da Cheira forma uma travessia, a  que pomposamente chamo Sistema da Cheira), é, desde já, mais profunda que esta outra cavidade. É preciso um estudo mais dedicado para tentar detectar possíveis pontos de contacto entre estas das cavidades, que eu acredito existirem, ainda que neste nível sem qualquer possibilidade prática de terem qualquer dimensão humanamente relevante.

Em qualquer dos casos estou, e permaneço, convicto da existência de um nível inferior no Sistema da Cheira, e não enjeito a possibilidade de contacto, num nível inferior, entre esse sistema e este algar.

Bem, e depois veio a saída. Para dizer a verdade, sair até foi relativamente fácil... já sacar o Kitbag lá de dentro foram 10 minutos de uma luta intensa e fatigante.

A regressar muito em breve para continuar os trabalhos de exploração.

Abraço,
Alexandre Leal