segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Algar Eureka

Vale Florido, São Bento

28 de Janeiro de 2017





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Alexandra Leal (apoio à superfície )

Mini-equipa de exploração do espaço envolvente- Rodrigo Leal, João Diogo Leal  







É o destino... Qual exploração atribulada de Howard Carter, em torno da qual se conjuraram histórias e mitos, O Poço do Enxofra continua a manter a salvo os seus mistérios. Desta vez problemas de última hora ditaram uma alteração de planos (e provavelmente um ajustamento nos calendários da exploração), o que acabou por permitir levar a família para a serra e aproveitarem um dia ao ar livre, e talvez até conhecerem o Unicórnio e o resto da manada. 

Como o trabalho não para e os vários pontos de exploração não dão descanso, decidi virar as atenções para o Algar Eureka, descoberto por Florbela Silva, situado a 6 metros do Algar das Raízes, e atacar a pequena e estreita passagem que separa a base do primeiro poço e o acesso ao segundo poço.

Mas até nisto as forças conspiravam. O dia apresentava-se negro como breu, os céus fechados e cinzentos, e uma neblina cobria tudo o que era possível  avistar. E se era suposto não chover,  a verdade é que até as previsões do WindGuru, saíram goradas. Foram frequentes os aguaceiros que se fizeram sentir, o que dificultou o apoio à superfície.


Em teoria a desobstrução/alargamento da passagem, atento às condições de trabalho e às dimensões da mesma, não representaria um esforço de maior. Paciência e um pouco de tenacidade, mas nada de muito complicado, em particular se os furos surtissem efeito...



... Pois bem, não foram tremendamente eficazes. Apenas o suficiente para quebrar e rachar a pedra em alguns dos casos, tendo exigindo depois um trabalho mais demorado com o "Mauler", Big e Small Mike. O "Mauler" em particular não teve descanso... foi sempre a bater. Com a mão direita, com a mão esquerda, com as duas no cabo, com uma no cabo e outra na cabeça. Enfim, como dava mais jeito a cada momento e o esforço ia permitindo.







A pouco e pouco lá fui retirando pedra e alargando a passagem até ao momento que me foi possível pela primeira vez colocar a cabeça "no outro lado", e vislumbrar a base do poço. Devo dizer que aquilo que vi deu-me alguma esperança. Nada de concreto, mas num dos lados da base, por baixo de uma pequena protuberância, a parede lateral não era visível, dando a sensação da existência de espaço "extra". Poderia ser apenas um pequeno nicho mas não era de excluir a existência de uma passagem inferior.

A imagem (bem como a  seguinte), em virtude do ângulo e da velocidade de rotação na ponta da corda,
não têm a melhor qualidade, mas criam a sensação da possibilidade da existência
de uma passagem que aqui se pode "ver".

Aqui, e só à terceira ou quarta visualização do vídeo é que me apercebi desse facto, é possível também ver
o que podem ser "pequenos"  buracos na base do poço, (pequena sombra sensivelmente no centro inferior da imagem) no mesmo lado do ? visto acima. Resta saber a sua dimensão. Poderão não passar disso mesmo,
pequenos buracos, e nada mais.

Em sentido contrário, o tecto do poço é bem definido.

"Entalado" na passagem, enquanto puxava o capacete para
cima, após ter obtido as primeiras imagens da base.
Apesar de "aberta", a passagem permanecia, no entanto, bastante estreita, dificultando a progressão. 

Com efeito, atento ao facto de estar a operar a solo no interior da cavidade, e também ao facto das baterias da torna se terem entretanto esgotado, o que dificultava de sobremaneira a equipagem de um pequeno corrimão de segurança e abordagem à cabeceira do segundo poço, não foi possível possível passar na totalidade para o outro lado e aí equipar e preparar a descida.

Em abono da verdade podemos dizer que os trabalhos de desobstrução não estão concluídos, sendo desejável alargar um pouco mais tanto o início da passagem como o fim, a saída que dá acesso à vertical, por forma a facilitar os trabalhos seguintes, algo que deverá ser relativamente fácil e rápido de executar, salvo alguma situação anómala ou imprevista.


Sem bateria, com os músculos cansados, e com o principal objectivo concluído, estava na altura do "apoio de superfície", com a minha ajuda, puxar o kitbag com o equipamento (o que não é de todo muito fácil atento à dimensão reduzida do poço cerca de 2m abaixo da abertura).

Basicamente foi necessário subir o poço em oposição até à zona de maior constrangimento e aí guiar o kitbag pelo aperto, para só depois me colocar na corda e com alguma paciência (que ia por essa altura fraquejando) me esgueirar pelo "buraco" acima. 

Cansado, molhado e com muita lama à mistura, mas com o sentido de dever cumprido. Avançou-se um pouco mais, com a certeza que na próxima saída a este algar conseguiremos descer o segundo poço.







O filme é um exercício um pouco à Manoel De Oliveira...
Muita pedra partida em planos apertados.

Estava na altura de desequipar e arrumar todo o equipamento, voltar a tapar a abertura, e levar os pequenos exploradores a provarem as moelas do Cantinho do Francisco... sim, porque não tinha ilusões quanto ao sucesso dos Molhinhos entre o resto da família Leal.

Um abraço,
Alexandre Leal
   

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Algar da Cheira

Vale Florido, São Bento

21 de Janeiro de 2017





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Bruno Pais (AESDA), Florbela Silva (AESDA),
                Marco Dias (NEL)






Mais um dia de trabalho na Cheira, mais um dia de trabalho na desobstrução do Poço do Enxofre, com o objectivo ali tão perto mas sempre fora do nosso alcance. Dito de outra forma esta nossa saída veio confirmar que futurologia e exploração espeleológica não combinam muito bem... a última é madrasta a primeira é "pouco científica", e dada ao erro.

Mais um teste à nossa determinação que será ultrapassado com perseverança e atitude (e mais uns molhinhos à mistura para ajudar).

O objectivo era, como sabemos, a desobstrução do ponto 1 no Poço, a sua passagem e a desobstrução dos pontos secundários mais abaixo até atingir a base do mesmo.

Fotografia por Marco Dias. Bruno a furar a pedra...
Atacámos o trabalho de forma dura e decidida, tendo executado vários furos e retirado um volume elevado de pedra, incluíndo vários blocos de dimensão bem relevante, que foram levados para cima no balde via corda, o que implicou um cuidado acrescido no caso das "pedras" de maior dimensão.

Conseguiu-se alargar um pouco o diâmetro da passagem no ponto 1 na parede que tem vindo a ser desobstruída, tendo exigido, no entanto, uma intervenção mais alargada até se conseguir atingir esse desiderato. Conclusão, foi preciso retirar um volume significativo na área sobranceira e que rodeava a zona imediata à pequena passagem para se conseguir esse  alargamento.

À segunda tentativa ainda consegui descer talvez uns 10cm mais mas já
com sério risco de ficar entalado e com o equipamento preso.
Chegámos a pensar que iria dar para passar, e foram efectuadas várias tentativas, tanto por mim como pelo Bruno, mas se era verdade que aquela parte permitia já a passagem das pernas e mesmo do tronco, a verdade é que chegámos à conclusão que um pouco mais abaixo, e na parede oposta, que ficava nas nossas costas na forma como abordamos a descida (tentei descer virado para esse lado e não foi bonito...), a existência de umas pequenas formações impedia a passagem do arnês.

Esta abordagem, mais sistemática, terá que ser reforçada na próxima saída, mas estou confiante (sim, estou confiante) que a passagem ao ponto seguinte está iminente. Será necessário "apenas" uma pequena intervenção em ambos os lados do ponto por forma a possibilitar a passagem do arnês e do equipamento mínimo indispensável, algo que que acredito ser perfeitamente alcançável na próxima saída.

Uma coisa é certa. Mesmo com muito trabalho e um desfecho algo frustrante a equipa permanecia fresca e operacional, e sobretudo muito divertida, pronta para voltar à carga. Aqui e mais além... 


A Equipa.

Fotografia por Florbela Silva.
Fotogénicos... sempre.

Depois o Marco levou-nos a comer mais uns molhinhos, que ele tanto gosta :). 

Marco, Técnico de Profundidade de reputação internacional, certificado para Grandes Profundidades (o resto do pessoal apenas é técnico de pequena e média profundidade), ainda vamos fazer de ti um apreciador da boa gastronomia portuguesa.

Claro está, mesmo em período de descontração a equipa não para e por entre conversas no Cantinho lá conseguimos a identificação de mais dois Algares na zona.  

Um grande abraço,
Alexandre Leal

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Algar da Cheira

Vale Florido, São Bento

14 de Janeiro de 2017





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Bruno Pais (AESDA), Florbela Silva (AESDA)







Após uma semana de interregno, e a publicação de um artigo no jornal "Região de Leiria" sobre a exploração e descobertas no Sistema da Cheira (travessia Algar da Cheira/Algar das Raízes, e algares na sua envolvência imediata), a equipa voltou à carga na Galeria Inicial (Galeria Clássica) do Algar da Cheira.

O dia estava relativamente frio (embora não tão frio quanto seria de esperar atento ao que vinha a ser propagado pelos meios de comunicação social), mas com um céu límpido, e após uma breve passagem por Alvados para levantar material de desobstrução que seria fulcral para o sucesso da missão, rumámos a Vale Florido com um objectivo bem traçado, desobstruir e descer o poço encontrado no segundo nicho (nicho lateral principal - Galeria Inicial).

Estávamos cientes que não seria tarefa fácil, até porque mesmo após a desobstrução do ponto inicial iríamos ter que lidar com uma segunda desobstrução uns 5 metros mais abaixo, ainda antes de atingir-mos a base, ou melhor dizendo, o que se nos afigura ser a base do poço.

Mas para compreendermos a magnitude dos trabalhos já realizados importa comparar o segundo nicho no final do dia em que foi descoberto e a mesma área tal como hoje se encontra. As diferenças são abismais.
Segundo nicho, após trabalhos preliminares na primeira descida.










Segundo "nicho", agora já assumindo a configuração de poço, após os trabalhos desenvolvidos
durante o dia de hoje.
Como podemos ver na primeira imagem a zona a que se acedeu após a desobstrução da passagem que encontrámos no primeiro nicho tinha uma dimensão muito pequena, e apresentava a base completamente obstruída por vários blocos de dimensão relevante bem como muita terra e argila. A sensação de possibilidade de progressão vertical estava claramente em cima da mesa atento a todos os sinais, mas era ainda uma possibilidade remota, que necessitava, e isso era evidente, de uma grande intervenção para se consubstanciar, ou, por outro lado, se infirmar a sua continuação.

Ao longo de várias saídas, com muito persistência, e em posições algo complicadas atento às dimensões bastante reduzidas do espaço disponível, bem como a complexidade inerente à relativa instabilidade estrutural das paredes em algumas zonas, fomos procedendo à desobstrução da base que veio a confirmar a tese da existência de um poço que julgamos ter, no total, uma profundidade dentre 10 a 12 metros, embora seja uma análise complicada de fazer com alguma exactidão. O ângulo não é o melhor e a abertura é ainda reduzida, a que acresce o facto do poço, em vários momentos distintos e em virtude dos trabalhos e do muito material que foi caindo, ter-se fechado em dois pontos, um dos quais se conseguiu abrir  entretanto (ponto 1), não o sendo possível visualizar na íntegra. 






 Os trabalhos desenvolvidos no dia de hoje permitiram alargar a área em torno do ponto que impedia a progressão por se mostrar demasiado estreito,  e que se encontrava fechado cerca de um metro mais abaixo (ponto 1), tendo sido retirado uma quantidade de calcário, calcite e argila bastante significativa, parte da qual acabou por ser enviada para baixo.  

Ponto 1 - após desobstrução.
Esta maior amplitude, não obstante ser ainda bastante relativa, permitiu desobstruir o ponto 1, como acima se referiu, com  recurso ao Big Mike (pé de cabra), bem no limite do alcance e com recurso a alguma improvisação. A pouco e pouco fomos furando a camada de argila e blocos e criando o espaço suficiente para enviar pequenas quantidades de material pelo poço abaixo, permitindo assim alargar a abertura o que veio progressivamente a permitir enviar blocos de maior dimensão que aí se encontravam presos.

Não obstante o esforço não nos foi possível ultrapassar aquele ponto. Apesar de um pouco maior, de um pouco mais amplo na zona superior, o espaço disponível era ainda demasiado estreito para, com segurança, ser ultrapassado, e permitir descer um pouco mais no poço. Na verdade ficámos perto, muito perto, de o conseguir fazer, mas a bateria da torna havia-se esgotado, o que ditou o fim, prematuro, dos trabalhos de maior impacto. Foi algo frustrante mas são as contingências da exploração. 

Com toda a certeza este ponto será vencido numa próxima saída, permitindo descer  e atacar a próxima obstrução, cerca de 5 ou  6 metros mais abaixo no poço.

Um elemento se mostrou particularmente perceptível a partir do momento em que conseguimos furar a camada que obstruía o poço neste ponto. O sopro de ar fresco que vinha das profundezas era inegável, o que nos dá bastante alento para os trabalhos que se seguem. Estou convicto, embora a espeleologia neste aspecto seja constantemente madrasta, que esta via nos permitirá aceder a um segundo nível desta cavidade, até agora completamente desconhecido. 

Mais, tenho a sensação que tal nível poderá ter ou dar acesso a uma outra cavidade contígua, mas lá chegaremos.

Fotografia por Bruno Pais. Os trabalhos de desobstrução mais duros não conseguem ofuscar a grande beleza  do
sector das agulhas, onde as cores ocre estabelecem um pano de fundo que dá vida as formações aguçadas de um branco prístino.

É necessário alargar a passagem para verificar o interior deste pequeno nicho.
Antes de subirmos houve ainda tempo para fazer uma primeira abordagem a um ponto  de interrogação identificado pelo Bruno, no seguimento da "Passagem da Cartola", e que poderá ser uma enorme surpresa... porque a verificar-se, e é literalmente um tiro no escuro com pouca probabilidade de se vir a revelar uma via de progressão, seria como tirar um coelho do tamanho de um elefante de uma cartola feita para uma criança de 2 anos. Mas nunca se sabe...



Depois foi subir, desequipar o poço de entrada, arrumar o material e mudar de roupa sob um frio que àquela hora já incomodava. O chão estava particularmente gelado... a resposta foi aquecer no Cantinho do Francisco, tarefa que ainda assim se mostrou mais demorada do que o antecipado. O frio entranhara-se de forma particularmente insidiosa. 

Para a semana estou certo que irão haver novidades.

Um abraço,
Alexandre Leal


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Algar do Casal

Caminho de Baixo, São Bento

06 de Janeiro de 2017





Coordenação - Bruno Pais (AESDA)
Equipa - Bruno Pais (AESDA), Alexandre Leal (NEL)



Bruno Pais descendo pelo buraco abaixo...



Esta semana demos um descanso merecido aos trabalhos de exploração no sistema da Cheira, enquanto resolvemos alguns requisitos de natureza logística necessários para a progressão em duas das pontas de exploração, e rumámos um pouco mais a sul... 

O objectivo era fazer uma primeira abordagem a dois algares identificados e descidos anteriormente por equipas da AESDA (o primeiro dos quais teria sido descido também por uma outra equipa cuja composição se desconhece) no sentido de aferir o seu potencial em termos de desenvolvimento, formas e vias de progressão, com identificação de obstáculos e dificuldades. 
A primeira paragem era o Algar do Casal. Sabíamos que iríamos encontrar um poço com cerca de 15m, com uma abertura muito apertada, e que era uma cavidade com potencial, e não ficámos nada desapontados. Mas lá chegaremos.


Retirado do vídeo de Bruno Pais
A equipagem da aproximação bem como a cabeceira do poço e o fracionamento logo abaixo exigiu uma limpeza dos spits aí encontrados, que se mostravam com com alguma terra e algo enferrujados. Aliás, o segundo spit da cabeceira acabou por não poder ser usado pois não permitia enroscar o parafuso até final. Para reforçar a segurança optou-se por utilizar uma das árvores como ponto inicial de ancorarem antes de seguir para o spit de aproximação.


Uma dúvida subsistia... atendendo à pequena dimensão da abertura seria possível o Bruno passar? Com o risco de ficar efectivamente preso, e numa posição de difícil resolução, a solução que melhor acautelava esta situação era ser o Bruno o primeiro a tentar descer. Cá fora eu e uma roldana estávamos prontos para intervir, o que se mostrou desnecessário. Após algumas tentativas, e com a ajuda da gravidade, o Bruno conseguiu passar pelo buraco da agulha e prosseguiu a descida, equipando um fracionamento, via amarração natural numa estalagmite, cerca de 4 metros mais abaixo por forma a melhor colocar a corda para o troço seguinte to poço. A solução ideal seria a utilização de um perne que encontrámos cerca de 1 ou 2 metros mais abaixo na parede oposta, mas a sua condição não inspirava confiança. 

A solução encontrada permitiu a descida mas em futuras saídas temos que equacionar a colocação de um fracionamento numa posição sobranceira a este segundo troço, à imagem do perne supra mencionado, a utilização de um desviador ou uma manga de roçamento.

 Olhando para a base do poço, a sala parecia ter uma dimensão bem maior do que esperávamos encontrar. 

Como elemento negativo mais uma vez verificámos a utilização de algares naturais como aterros ou lixeiras, para onde é atirado todo o tipo de lixo. Neste caso cartuchos de caçadeira. O chão estava repleto destes "consumíveis", mas também de muitas ossadas de animais que seria interessante identificar. 


Uma análise do espaço revelou uma evidente via de progressão. Num primeiro momento encarada como um segundo poço, percebemos rapidamente que seria possível descer via uma rampa a que se acedia por um espaço entre a parede esquerda e um bloco na sua "cabeceira". Na verdade esta "cabeceira" era o resultado da acumulação de vários blocos de grande dimensão que haviam caído e formado vários nichos e espaços,  um verdadeiro caos dos ditos cujos (blocos, leia-se), mas sem nada de relevante a apontar.

A progressão, essa, fazia-se seguindo a galeria no fim da rampa, que aliás apresentava uma altura bastante considerável e com alguns nichos laterais, bem como várias chaminés, algumas das quais completamente obstruídas por lamas caídas da superfície... 



  
E que acabaria por culminar, mais à frente, numa conduta bem definida, de pedra lisa, e o que parecia ser uma bolsa de CO2.

Sem nada o fazer crer, e enquanto estava sentado a examinar a conduta que estreitava progressivamente no ponto que parecia virar ligeiramente à direita cerca de 3 ou 4 metros à nossa frente, comecei a respirar de forma ofegante e no preciso momento que ponderava esse facto o Bruno perguntou-me se eu me estava a sentir cansado.

Os efeitos não eram severos mas não deixavam grandes dúvidas. O coração chegou a "bombar" um pouco mais rápido, e senti umas ligeiras "picadas" na cabeça, mas nada de muito significativo, e sobretudo não se estava a agudizar. 

Sem correr grandes riscos tentámos perceber se havia forma de passar aquele ponto mais apertado, mas a primeira parte de um S que a conduta parecia formar mostrou-se demasiado estreita para ultrapassar com o arnês. Equacionámos desequipar e tentar mais uma vez mas o tempo já passado naquela atmosfera  aconselhava uma interrupção da actividade neste sector.

De referir que não só nos pareceu evidente que a conduta prosseguiria como eram muitos fortes os indícios da possível existência de um espaço amplo algures em frente ou por baixo de nós. O efeito de eco era notório e o som grave e ressonante do impacto de pequenos blocos de pedra com o chão de lama da passagem era estranhíssimo. Parecia mesmo que estávamos sob um vazio.

O potencial estava lá mas teria que ficar para outro dia.


De regresso à sala inicial houve oportunidade para analisar mais de perto o que parece ser um pequeno poço obstruído por muitos blocos de dimensão variado.


As características da parede de "fundo" pareciam indicar tratar-se de uma uma conduta de passagem de águas, mas sem intervenção de desobstrução não era possível determinar o seu potencial.


Enquanto isso o Bruno identificava um segundo poço na parte traseira da sala, a que se acede via uma janela situada a cerca de 2 metros de altura. Colocámos a hipótese de a base que víamos, cerca de 7 ou 8 metros mais abaixo, ser na realidade parte da galeria que havíamos percorrido, mas a verdade é que os blocos de pedra visíveis acumulados no chão estavam completamente limpos, sem lama, o que não se enquadra com as características do chão da passagem inferior.

Não conseguimos identificar qualquer equipagem ou possibilidade de colocação de amarrações naturais pelo que acreditamos que não terá ainda sido descido. A confirmar-se que dá acesso a uma zona distinta da cavidade  estamos perante mais uma ponta de exploração.

Bem, e depois veio a subida, sem dificuldade mas com atenção ao ponto relativamente manhoso que teimava em roçar na corda. E depois a saída, simples e rápida, tão rápida quanto o Usain Bolt nos 100 metros livres... ou não.

De facto não, não foi rápida e tudo menos simples. A estratégia desenhada desde o início não foi a mais correcta, pois colocava-me numa posição perpendicular ao lado de maior dimensão da abertura através da utilização da corda que vinha do fracionamento de aproximação. A primeira tentativa permitiu-me colocar a cabeça de fora mas o turbochest "apontava" para a direcção errada e impedia a saída. Tive que abortar aquela abordagem, o que não foi fácil uma vez que estava já no limite de subida vertical disponível, e o espaço para tirar o "turbo" era inexistente (o raio do equipamento é eficaz)... certificando-me que tinha vários pontos de segurança, lá consegui utilizar a bossa da corda que tinha deixado para ajudar a impelir o corpo para fora, para esticar a corda e assim ganhar a margem de manobra para abrir o "turbo" e passar para a corda que subia para a cabeceira, mantendo o meu corpo paralelo à abertura... E mesmo aqui não foi fácil, pois não conseguia fazer subir o punho tanto quanto era preciso para forçar os dois braços para fora e posteriormente o resto do corpo. Não foi elegante, mas com esforço lá consegui.

Com a estratégia apurada era a vez do Bruno, que em menos de três minutos se pôs cá fora.

Claramente teremos que alargar um pouco a abertura para permitir uma passagem menos infernal, o que não se nos afigura particularmente difícil de executar.

Foi uma agradável surpresa, este "pequeno" algar, a que voltaremos certamente para continuar a sua exploração.


Video por Bruno Pais


Atento ao adiantado da hora, já perto das 15h00m, e não menos importante o esforço físico despendido (acumulando com o efeito do CO2), decidimos fazer uma pausa para um almoço reforçado no "Cantinho do Francisco", para depois ir-mos apenas fazer a identificação do local do segundo algar, o Algar das Cabanas, que ao contrário do primeiro, apresenta uma abertura de grande dimensão, ainda que muito ocultada pela desta vegetação no local. A indicação era para uma profundidade na casa dos 30metros. Pessoalmente fiquei com a impressão de que terá um pouco mais, mas isso ficaria para outro dia.

Por hoje chegavam ao fim os nossos trabalhos.

Para a semana há mais, talvez já de volta ao sistema da Cheira.

Um abraço,
Alexandre Leal