segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Algar do Casal

Caminho de Baixo, São Bento

06 de Janeiro de 2017





Coordenação - Bruno Pais (AESDA)
Equipa - Bruno Pais (AESDA), Alexandre Leal (NEL)



Bruno Pais descendo pelo buraco abaixo...



Esta semana demos um descanso merecido aos trabalhos de exploração no sistema da Cheira, enquanto resolvemos alguns requisitos de natureza logística necessários para a progressão em duas das pontas de exploração, e rumámos um pouco mais a sul... 

O objectivo era fazer uma primeira abordagem a dois algares identificados e descidos anteriormente por equipas da AESDA (o primeiro dos quais teria sido descido também por uma outra equipa cuja composição se desconhece) no sentido de aferir o seu potencial em termos de desenvolvimento, formas e vias de progressão, com identificação de obstáculos e dificuldades. 
A primeira paragem era o Algar do Casal. Sabíamos que iríamos encontrar um poço com cerca de 15m, com uma abertura muito apertada, e que era uma cavidade com potencial, e não ficámos nada desapontados. Mas lá chegaremos.


Retirado do vídeo de Bruno Pais
A equipagem da aproximação bem como a cabeceira do poço e o fracionamento logo abaixo exigiu uma limpeza dos spits aí encontrados, que se mostravam com com alguma terra e algo enferrujados. Aliás, o segundo spit da cabeceira acabou por não poder ser usado pois não permitia enroscar o parafuso até final. Para reforçar a segurança optou-se por utilizar uma das árvores como ponto inicial de ancorarem antes de seguir para o spit de aproximação.


Uma dúvida subsistia... atendendo à pequena dimensão da abertura seria possível o Bruno passar? Com o risco de ficar efectivamente preso, e numa posição de difícil resolução, a solução que melhor acautelava esta situação era ser o Bruno o primeiro a tentar descer. Cá fora eu e uma roldana estávamos prontos para intervir, o que se mostrou desnecessário. Após algumas tentativas, e com a ajuda da gravidade, o Bruno conseguiu passar pelo buraco da agulha e prosseguiu a descida, equipando um fracionamento, via amarração natural numa estalagmite, cerca de 4 metros mais abaixo por forma a melhor colocar a corda para o troço seguinte to poço. A solução ideal seria a utilização de um perne que encontrámos cerca de 1 ou 2 metros mais abaixo na parede oposta, mas a sua condição não inspirava confiança. 

A solução encontrada permitiu a descida mas em futuras saídas temos que equacionar a colocação de um fracionamento numa posição sobranceira a este segundo troço, à imagem do perne supra mencionado, a utilização de um desviador ou uma manga de roçamento.

 Olhando para a base do poço, a sala parecia ter uma dimensão bem maior do que esperávamos encontrar. 

Como elemento negativo mais uma vez verificámos a utilização de algares naturais como aterros ou lixeiras, para onde é atirado todo o tipo de lixo. Neste caso cartuchos de caçadeira. O chão estava repleto destes "consumíveis", mas também de muitas ossadas de animais que seria interessante identificar. 


Uma análise do espaço revelou uma evidente via de progressão. Num primeiro momento encarada como um segundo poço, percebemos rapidamente que seria possível descer via uma rampa a que se acedia por um espaço entre a parede esquerda e um bloco na sua "cabeceira". Na verdade esta "cabeceira" era o resultado da acumulação de vários blocos de grande dimensão que haviam caído e formado vários nichos e espaços,  um verdadeiro caos dos ditos cujos (blocos, leia-se), mas sem nada de relevante a apontar.

A progressão, essa, fazia-se seguindo a galeria no fim da rampa, que aliás apresentava uma altura bastante considerável e com alguns nichos laterais, bem como várias chaminés, algumas das quais completamente obstruídas por lamas caídas da superfície... 



  
E que acabaria por culminar, mais à frente, numa conduta bem definida, de pedra lisa, e o que parecia ser uma bolsa de CO2.

Sem nada o fazer crer, e enquanto estava sentado a examinar a conduta que estreitava progressivamente no ponto que parecia virar ligeiramente à direita cerca de 3 ou 4 metros à nossa frente, comecei a respirar de forma ofegante e no preciso momento que ponderava esse facto o Bruno perguntou-me se eu me estava a sentir cansado.

Os efeitos não eram severos mas não deixavam grandes dúvidas. O coração chegou a "bombar" um pouco mais rápido, e senti umas ligeiras "picadas" na cabeça, mas nada de muito significativo, e sobretudo não se estava a agudizar. 

Sem correr grandes riscos tentámos perceber se havia forma de passar aquele ponto mais apertado, mas a primeira parte de um S que a conduta parecia formar mostrou-se demasiado estreita para ultrapassar com o arnês. Equacionámos desequipar e tentar mais uma vez mas o tempo já passado naquela atmosfera  aconselhava uma interrupção da actividade neste sector.

De referir que não só nos pareceu evidente que a conduta prosseguiria como eram muitos fortes os indícios da possível existência de um espaço amplo algures em frente ou por baixo de nós. O efeito de eco era notório e o som grave e ressonante do impacto de pequenos blocos de pedra com o chão de lama da passagem era estranhíssimo. Parecia mesmo que estávamos sob um vazio.

O potencial estava lá mas teria que ficar para outro dia.


De regresso à sala inicial houve oportunidade para analisar mais de perto o que parece ser um pequeno poço obstruído por muitos blocos de dimensão variado.


As características da parede de "fundo" pareciam indicar tratar-se de uma uma conduta de passagem de águas, mas sem intervenção de desobstrução não era possível determinar o seu potencial.


Enquanto isso o Bruno identificava um segundo poço na parte traseira da sala, a que se acede via uma janela situada a cerca de 2 metros de altura. Colocámos a hipótese de a base que víamos, cerca de 7 ou 8 metros mais abaixo, ser na realidade parte da galeria que havíamos percorrido, mas a verdade é que os blocos de pedra visíveis acumulados no chão estavam completamente limpos, sem lama, o que não se enquadra com as características do chão da passagem inferior.

Não conseguimos identificar qualquer equipagem ou possibilidade de colocação de amarrações naturais pelo que acreditamos que não terá ainda sido descido. A confirmar-se que dá acesso a uma zona distinta da cavidade  estamos perante mais uma ponta de exploração.

Bem, e depois veio a subida, sem dificuldade mas com atenção ao ponto relativamente manhoso que teimava em roçar na corda. E depois a saída, simples e rápida, tão rápida quanto o Usain Bolt nos 100 metros livres... ou não.

De facto não, não foi rápida e tudo menos simples. A estratégia desenhada desde o início não foi a mais correcta, pois colocava-me numa posição perpendicular ao lado de maior dimensão da abertura através da utilização da corda que vinha do fracionamento de aproximação. A primeira tentativa permitiu-me colocar a cabeça de fora mas o turbochest "apontava" para a direcção errada e impedia a saída. Tive que abortar aquela abordagem, o que não foi fácil uma vez que estava já no limite de subida vertical disponível, e o espaço para tirar o "turbo" era inexistente (o raio do equipamento é eficaz)... certificando-me que tinha vários pontos de segurança, lá consegui utilizar a bossa da corda que tinha deixado para ajudar a impelir o corpo para fora, para esticar a corda e assim ganhar a margem de manobra para abrir o "turbo" e passar para a corda que subia para a cabeceira, mantendo o meu corpo paralelo à abertura... E mesmo aqui não foi fácil, pois não conseguia fazer subir o punho tanto quanto era preciso para forçar os dois braços para fora e posteriormente o resto do corpo. Não foi elegante, mas com esforço lá consegui.

Com a estratégia apurada era a vez do Bruno, que em menos de três minutos se pôs cá fora.

Claramente teremos que alargar um pouco a abertura para permitir uma passagem menos infernal, o que não se nos afigura particularmente difícil de executar.

Foi uma agradável surpresa, este "pequeno" algar, a que voltaremos certamente para continuar a sua exploração.


Video por Bruno Pais


Atento ao adiantado da hora, já perto das 15h00m, e não menos importante o esforço físico despendido (acumulando com o efeito do CO2), decidimos fazer uma pausa para um almoço reforçado no "Cantinho do Francisco", para depois ir-mos apenas fazer a identificação do local do segundo algar, o Algar das Cabanas, que ao contrário do primeiro, apresenta uma abertura de grande dimensão, ainda que muito ocultada pela desta vegetação no local. A indicação era para uma profundidade na casa dos 30metros. Pessoalmente fiquei com a impressão de que terá um pouco mais, mas isso ficaria para outro dia.

Por hoje chegavam ao fim os nossos trabalhos.

Para a semana há mais, talvez já de volta ao sistema da Cheira.

Um abraço,
Alexandre Leal


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