segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Algar da Cheira

Vale Florido, São Bento

26 de Novembro de 2016




Coordenação - Alexandre Leal
Equipa - Alexandre Leal, Florbela Silva (AESDA), Bruno Pais (AESDA)




Fotografia por Florbela Silva



O dia ameaçava desabar com uma chuvada épica (sim, eu sei, é um exagero mas parece-me apropriado para marcar um tom glorioso de luta contra os elementos e de superação física e mental), propícia a fazer tremer os fracos de espírito e os pobres de coração... Por sorte, foi só mesmo ameaça e acabou por se revelar um bonito e solarengo dia de final de Novembro. 

Fotografia por Florbela Silva
Com a equipa a preparar e equipar-se em pontos distintos, literalmente opostos, o encontro deu-se nas imediações do Algar perante o olhar atento de umas quantas vacas e do seu "senhor", um boi de grande porte, um físico apenas beliscado pela sua incompleta cornadura, que certamente lhe causa graves complexos de inferioridade. Confesso que a presença do "Unicórnio"  a ruminar a menos de cinco metros da boca do algar causou alguma  apreensão, mas sem qualquer movimento ou comportamento agressivo, lá decidiu, ele e o seu harém, ir pastar para outras bandas e deixar aquelas figuras estranhas vestidas de vermelho atirarem-se para dentro do buraco que sabe estar escondido atrás de uma parede de troncos e ramos secos.

Com a existência de um poço na sequência directa do segundo nicho (Nichos laterais - Ponto 2, das áreas em exploração) confirmada na saída anterior, o objectivo para hoje era simples, desobstruir o acesso a esta vertical e, se possível, descer a este segundo nível da cavidade. 

Simples na teoria, na planificação, difícil que se veio a revelar na execução. E tudo por causa de um pequeno bloco que havia  rolado nos momentos finais da saída anterior, e se encaixou numa zona particularmente crucial, e complicada de atacar, e que na prática impedia qualquer progressão até ser solucionado. 
Fotografia por Bruno Pais
Fotografia por Florbela Silva.

Mais uma tentativa frustrada para colocar um spit. A certa altura
a broca acabou por perfurar o que se mostrou uma camada fina de
calcite e atingiu  não rocha sólida mas uma camada de argila.
Fotografia por Florbela Silva.
Atento às características do local e da tarefa em si, nomeadamente a complexidade estrutural dos nichos, em grande parte devido à sua génese violenta (toda a zona é gerida por dinâmicas de abatimento) que criaram uma rede complexa de caos de blocos), a qualidade da rocha e a relativa instabilidade dos blocos e argolas, mas também ao facto de estarmos a trabalhar em cima, literalmente, do espaço obstruído, sobre um vazio que em concreto desconhecíamos, importava garantir a segurança dos trabalhos. 

Havia já colocado um spit no segundo nicho, que utilizei para me "alonjar" no decorrer dos trabalhos anteriores, mas exigia-se agora a colocação de uma corda deste o topo, com equipagem no primeiro nicho, ou, em alternativa, num ponto colocado em posição sobranceira a este. E mais uma vez a fraca qualidade da rocha foi  uma dificuldade acrescida, sendo que na maioria dos casos  esta ainda se apresenta com uma camada de calcite enfraquecida pela presença de lamas, ou mesmo calcite intercalada com camadas inteiras de argila.

A solução acabou ser uma amarração natural numa coluna situada numa plataforma/manto situado sobre o acesso ao primeiro nicho. Não é o ideal, mas é o possível dadas as circunstâncias.

Fotografia por Bruno Pais
Bruno no primeiro nicho a controlar  as operações de remoção de
material  do segundo nicho através do balde preso ao fim da corda.
Fotografia por Florbela Silva.  
Equipados com balde, pá e com o "Big Mike" procedeu-se, ainda antes do ataque feroz ao "calhau maldito", à retirada de alguma material (argila e pedras) na parede oposta, que corria o risco eminente de cair e juntar-se ao material que obstruía o poço. Aproveitámos  também para retirar outros blocos de pequena dimensão que se amontoavam em posições pouco recomendáveis em vários pontos das paredes do segundo nicho. 




Depois.... bem, depois veio uma luta titânica com o raio de um pequeno bloco que teimava em fazer tudo para não cair poço abaixo, dificultada (sobremaneira) pelas muitas limitações e condições do espaço de trabalho.

A trabalhar sobre o poço obstruído.
Fotografia Bruno Pais
Apertado, muito apertado, sem angulo de visão adequado pois estávamos sobre o desgraçado (do calhau), sem amplitude de movimentos ou força aplicada para utilizar as marretas. Pelo meio conseguimos alargar a zona de trabalho atacando aquilo que parecia ser a parede do poço mas que se veio a revelar ser apenas mais uma camada de calcite com lama e blocos soltos acumulados por baixo/por detrás.

Um desses blocos, por dificuldade de retirar para cima, foi atirado para baixo na esperança de cair  no espaço entretanto aberto entre O calhau e o restante material que ainda aguardava ser retirado, e que ainda obstruía a passagem. A operação parecia ser simples e de execução fácil... obviamente haveria de cair exactamente do local e no ângulo apropriado para se encaixar bem ao lado do... wait for it... CALHAU. Sim, não nos bastava um, tínhamos agora dois blocos encaixados de tal forma que resistiam estoicamente aos nossos ataques, e nos atrasava a nossa progressão. Deu luta mas antes de dar o lugar, de novo, ao Bruno (que fez um grande e esforçado trabalho), consegui, após pancadas, pisadas, quinadas, jeitos com os pés para um lado e para o outro, enviar este segundo desgraçado para baixo.

Por esta altura, e para "facilitar" os trabalhos, o meu frontal começou a fraquejar de forma bastante notória. Basicamente entrou em "survival" mode, limitando-se a criar uma pequena luz de presença. Tinha ficado a noite  inteira ligado ao carregador... o problema é que aparentemente o carregador não ficou bem "ligado" à tomada, e a bateria já havia suportado duas saídas anteriores. Lá tive que recorrer à Tika de reserva.

Entre o som dos trabalhos e as conversas animadas a Florbela, a dado momento, deu voz a uma análise que, logo de imediato e conjugado com a análise que havia feito da cavidade no relatório da saída anterior, me pareceu absolutamente correcta e muito perspicaz. Aquele poço, agora obstruído e escondido debaixo de vários blocos de grande dimensão, consolidados e "calcificados",  outrora, e antes dos abatimentos que, e passe o pleonasmo, se abateram sobre aquela zona da passagem, abria directamente para a passagem "principal". Parece-me uma análise perfeitamente pacífica.

Visão da lateral esquerda do poço. No final mostrava-se
bastante mais aberta. O "calhau" estava preso na lateral direita.
Fotografia por Bruno Pais.
Após uma breve pausa para repor as forças e uma refeição ligeira e respectiva hidratação,  coube ao Bruno a tarefa de efectuar o ataque final ao calhau desgraçado, que resistiu a pancadas, a torção e alavancagem (a possível) com o Big Mike (pé de cabra),  pontapés, rolar para um lado e para outro (ora possível ora impossível depois de se encaixar numa nova posição ainda pior que a anterior).

Enfim, foi diabólico... e quando estava prestes a chamar um padre para efectuar um exorcismo o Bruno vira-se para mim com o sorriso nos lábios e sussurra "Vai cair agora"... e não é que foi mesmo. 

Mas como qualquer demónio que se preze, o tormento é potenciado por breves momentos de euforia concedidos às vítimas e aos pecadores que contra ele lutam, peleiam, ténues ilusões de vitória utilizadas perniciosamente para quebrar o espírito e alcançar o prémio final.

O calhau caiu, de facto caiu poço abaixo, mas para se encaixar 3 ou 4 metros mais abaixo, e não os restantes 6 ou 7 metros até à "base" do poço.

O poço, esse, apresenta-se como uma verdadeira palhinha com alguns pontos mais complicados, que poderão aliás necessitar de ser intervencionados para poderem ser ultrapassados. Da perspectiva que era possível ter e com as dificuldades que advêm da sua forma irregular e estreita, ficámos agora com a ideia que deverá ter maior profundidade do que anteriormente indicado. Diria eu, sob reserva, uns 10 ou 12m directos, não sendo possível determinar, por ora, se  essa será a dimensão total da vertical  ou se, por outro lado, esta se prolonga após uma pequena plataforma ou ressalto, ou mesmo continuar numa rampa de grau acentuado, tendo em conta o som que fora possível ouvir de pedras a rolar por breves instantes.

Por esta altura já nem a GoPro do Bruno tinha bateria (a minha foi para lá sem bateria... sim, neste aspecto não correu nada bem), pelo que não existe registo de video ou imagens do acesso ao poço já "bastante" mais alargado e desobstruído.

Os trabalhos, como não poderia deixar de ser, vão ser complicados mas as perspectivas são muito boas... Das profundezas vinha um ar fresco. Não enganava. À medida que o "buraco" alargava tornava-se cada vez mais notório, mais evidente, uma pequena corrente de ar fresco  que soprava do poço.

Não que seja este um elemento absoluto, que não comporta erro, na determinação da possibilidade de progressão ou existência da continuação da cavidade. Não poucas vezes engana, um engodo que alimenta a esperança para de seguida se revelar, em toda a sua glória, inexistente, uma ilusão. 

Estaremos lá para descobrir, pois esse é o âmago, o fim último da exploração. 

Vencer o desconhecido... alcançar territórios nunca antes vistos, alargar as fronteiras do conhecimento.

Bem, deixemo-nos de pedantismo que não  nos fica nada  bem  e vamos ao que realmente importa. Estariam as vacas, e não nos esqueçamos do Boi,  à nossa espera à saída do algar?  

Imbuído do espirito do calhau vou deixar-vos na ignorância que "certezamente" (lembram-se da senhora que descobriu uma cabeça com dois olhos e duas orelhas na levada perto de casa, e que parecia um palhaço, daqueles que colocavam "antigamente" no campo para espantar os pássaros) vos irá atormentar por uma semana e alguns dias mais... 

Um abraço cavernicola.
Alexandre Leal

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Algar da Cheira

Vale Florido, São Bento

10 de Novembro de 2016





Coordenação - Alexandre Leal
Equipa - Alexandre Leal




Fotografia tirada em Abril de 2016

Num deslumbrante dia de Novembro, com um radioso sol a manter o cinzento das nuvens bem à distância, aproveitei para dar um saltinho à Cheira  com um objectivo muito concreto, tentar confirmar ou infirmar a presença de um poço na sequência do segundo nicho.



Há muito que defendo a existência de uma segundo nível nesta cavidade. As pistas estão lá espalhadas um pouco por todo o lado, umas mais evidentes outras mais subjectivamente sentidas. A verdade  é que desde a minha primeira visita a esta cavidade em  finais de 2014, com a primeira abordagem, muito insipiente à altura claro está, ao sector das estreitezas, indicado já no final da visita pela Florbela Silva, e com a percepção posterior que esse sector não constava na topografia publicada nem havia sido explorado, que a Cheira me obrigou a um retorno, a um regresso já não de simples visitação ou treino técnico (como foi o caso na altura, inserido no curso de N2) antes com uma abordagem e numa perspectiva de exploração e aprofundamento do conhecimento sobre esta cavidade, que em termos de enquadramento e implantação se encontra numa área particularmente interessante.

Primeira vislumbre da passagem para o segundo
nicho. Antes de ser intervencionada.
Para compreendermos a dificuldade que esta cavidade encerra, tanto na sua análise como na sua exploração, temos que  perceber que uma das forças motoras no seu "desenvolvimento" foram os abatimentos. Estes são evidentes desde o primeiro olhar para o poço de entrada e a sua base em rampa numa sala ampla, e de grande beleza. Mas se neste caso as evidências saltam-nos à vista a verdade é que os abatimentos estão presentes em grande parte do corredor central da cavidade, criando verdadeiros caos de blocos, que em muitos casos, pela sua dimensão, escondem essa mesma realidade. E é essa natureza caótica, e em alguns casos instável, que cria um verdadeiro labirinto de pequenas passagens, em alguns (ou muitos) casos bloqueadas ou obstruídas por terra e argila, muito difíceis de navegar e acima de tudo muito difícil de distinguir das passagens "naturais", na sequência de fracturas ou erosão/corrosão de estratos. Esta dupla natureza é perfeitamente visível nos "Nichos", uma das pontas da presente exploração, situados no enfiamento da parede lateral sul, junto da estação 7 (topografia efectuada com base em dados recolhidos em 2011, com arte final por Vitor Amendoeira).

Durante os trabalhos de desobstrução da abertura para a passagem que
iria dar ao segundo nicho.
A mesma vista, mas com a passagem já devidamente desobstruída.
Esta é, no entanto, uma análise muito pessoal e sem o peso do rigor científico que pudesse decorrer de um conhecimento formal e/ou profissional na área. Vou deixar essa análise para quem tem conhecimentos específicos sobre a matéria. Esta minha análise é uma análise empírica, formulada e consubstanciada, na minha perspectiva,  pelos dados que foram sendo recolhidos ao longo das várias saídas à cavidade.

Visão da passagem agora da perspectiva do segundo nicho.
O segundo nicho apresentava uma grande quantidade de blocos aí depositados por efeito da gravidade, ou seja, que aí foram caindo, ou para aí arrastados.  De variada dimensão mas todos amontoados de forma caótica, impediam a progressão ou mesmo uma abordagem mais próxima ao substrato que era visível por baixo. Ao longo de várias saídas foram sendo retirados, com particular incidência para a actividade ocorrida no passado dia 05 de Novembro, mas desde cedo que detectei o que parecia ser uma pequena zona não bloqueada pelas terras e blocos que cobria a base do nicho. Não aparentava ter mais do uns uns 3 ou 4cm, um pequeno vazio negro junto a parede, protegida pelos contornos de uma pequena reentrância na rocha.

Exemplo de muitos dos blocos que tiveram que ser retirados.
Ontem, finalmente, consegui atacar directamente este substrato, que via como uma espécie de rolha mais ou menos compacta de terra e pedra que bloquearia uma passagem vertical num ponto mais estreito. O som, aliás, de uma pedra a cair algures por baixo na saída anterior era para mim já de si uma confirmação que de existiria um espaço vazio por baixo, facto que já experienciara aquando do Algar da Rampa Falsa e também no Algar do Vento Atroz (neste caso ainda sem confirmação uma vez que a desobstrução é particularmente complicada no espaço em questão. Espero, no entanto, que este inverno possa ainda dar uma ajudinha, e a chuva ajudar a desvendar este mistério).

Foi aliás com a experiência ganha no Algar da Rampa Falsa que a primeira iniciativa tomada ontem foi a colocação de um spit no segundo nicho para equipar uma plaqueta que me permitisse estar "alonjado" e em segurança no evento da derrocada deste rolhão, o que até ao momento ainda não ocorreu, embora creia que tal venha mesmo a acontecer à medida que se vai alargando o "buraco".

Com o "Big Mike" testei a profundidade e a constituição deste substrato, que se mostrava muito permeável em certas zonas, conseguindo mesmo penetrar em todo o seu comprimento. Apostando na zona central e na zona onde vislumbrei o pequeno "vazio", "rapidamente" consegui furar esta camada e comprovar a existência de um espaço aberto por baixo, embora não fosse, à altura, minimamente possível estimar a sua dimensão.

Com calma, até porque as dimensões do espaço de trabalho não permitiam grandes movimentos ou amplitudes (na verdade para me baixar e retirar as pedras e "bolas de lama" que ia formando com os movimentos do "Big Mike" tinha que retirar o capacete. De outra forma simplesmente não lá chegava) estes pequenos buraquinhos foram alargando e finalmente premindo uma melhor percepção da profundidade do poço que se estendia por baixo. Não que esta percepção se mostre particularmente correcta, uma vez que as pedras que iam caindo apontavam claramente para distâncias bastante maiores do que as que eram possíveis ver através da desobstrução.

No fim dos trabalhos a abertura apresentava-se já bastante maior, embora tenha acabado por ser parcialmente obstruída por um bloco que ficou preso durante a operação de o fazer passar por um ponto mais apertado um pouco abaixo. Atento no entanto a grande instabilidade de toda a área envolvente, mas também das paredes do nicho existe ainda muito a fazer até que se possa pensar em descer. Muita matéria precisa ainda de ser removida, e o nicho saneado, por forma a criar as condições de segurança necessárias para o próximo passo.

Matérias para próximas saídas.

O objecto principal, esse, estava plenamente atingido. Confirmou-se a existência de um poço que, não obstante a sua  profundidade seja ainda desconhecida mas que aponta para dimensões interessantes (dentro do contexto da cavidade),  poderá permitir aceder a um outro nível, até agora desconhecido, do Algar.  

Mais, não sei até que ponto este área não terá ligação ao sector das estreitezas, uma vez que, e apesar de arriscado sem dados topográficos que permitam fazer uma leitura mais precisa, a zona explorada também no passado dia 05 de Novembro parece apontar para essa direcção geral.

Um passo mais no desvendar dos mistérios deste Algar, com muito ainda por descobrir.

Um abraço, hoje um pouco menos argiloso
Alexandre Leal






domingo, 6 de novembro de 2016

Algar da Cheira

Vale Florido, São Bento

05 de Novembro de 2016





Coordenação - Alexandre Leal
Equipa - Alexandre Leal, Florbela Silva (AESDA), Bruno Pais (AESDA),  Marco Dias (NEL),              
               João Ferreira (NEL)




Fotografia tirada em Abril de 2016



Com a excelente Campanha de Exploração da Arroteia 2016, um projecto do NEL (Núcleo de Espeleologia de Leiria), terminada por este ano (e que sucesso foi), o apelo da Cheira fazia-se sentir cada vez com maior acuidade, em particular a exploração no sector das estreitezas, um ponto em aberto desde a visita a esta cavidade no âmbito do Curso de Nível II, em finais de 2014.

O objectivo estava traçado:

- Desobstrução do ponto crítico que impedia a passagem e continuação da progressão no sector das estreitezas;

- Continuar os trabalhos de desobstrução na sequência de pequenos nichos verticais na lateral da passagem principal da cavidade.


Fotografia por Florbela Silva
O dia amanheceu cinzento e estranhamente frio para a temperatura que marcava no termómetro do carro. Menos mal, pensava eu, porque não estava com cara de quem fosse chover. Enganei-me.... redondamente.

Quando acabámos de vestir e reunir/distribuir o material já os fatos estavam bem molhados, para não dizer encharcados.

Fotografia por Florbela Silva
Para esta saída, até porque importava alguns trabalhos com alto nível de dificuldade mas também exigente a nível físico, tive a sorte de conseguir reunir uma excelente equipa operacional, com várias valências, numa perspectiva multidisciplinar  e inter-associativa. 

Este último aspecto é, aliás, um dos aspectos mais interessantes que saíram do supra mencionado projecto de exploração na Algar da Arroteia, e que deve ser acarinhado e promovido. É uma mais-valia, a todos os níveis, para a nossa pequena comunidade espeleológica. 

Gostaria de dizer que, com o meu apurado sentido de orientação (NOT), rapidamente demos com o Algar... Não, mas em minha defesa fui insidiosamente enganado pela presença de uma quebra num dos muros que convidava à sua passagem nesse local. Decisão errada... acabei por ter que fazer uso do GPS após deambularmos por zonas contíguas.

Neste ponto de salientar que, como aliás podemos comprovar na foto supra, foram identificados vários pontos onde os tradicionais muros de pedra solta que delimitam os terrenos, os chousos, se encontravam em ruínas ou apresentavam quebras e pedras  caídas.

Já no cabeceira do poço de entrada do algar tive oportunidade de utilizar, pela primeira vez, umas anilhas que havia comprado para reforçar e aumentar a estabilidade das plaquetas, uma vez que os spits aí colocados se encontram um pouco saídos. Devo confessar que fiquei extremamente satisfeito com o resultado.

Fotografia por Florbela Silva. Pequeno núcleo de uma colónia bastante maior.

Com o poço equipado a descida foi rápida e num ápice no colocámos a caminho do primeiro ponto de exploração. E logo ali, pouco depois de entrarmos no corredor principal, deparámo-nos com a presença de uma colónia bastante  interessante do que aparentam ser Myotis myotis (sob reserva de melhor e mais esclarecida análise), contrastando com as anteriores actividades no início do ano, que, à excepção de um ou outro exemplar solitário, os únicos indícios da presença de uma possível colónia era, aqui e ali, pequenas acumulações de guano seco.

Fotografia por Florbela Silva
E logo ali a zona dos pequenos nichos verticais, uma entre várias mas objectivamente a mais relevante, que se encontram na intercepção da parede lateral e da base da passagem. 

Após uma pequena introdução aos trabalhos já realizados e uma análise preliminar por parte do Marco dos dois nichos já descobertos, com atenção aos possíveis riscos e cuidados a ter, deixei a equipa a organizar o seu trabalho, traçar um plano de ataque e colocar as mãos à obra. Para este ponto estabeleceu-se uma equipa  constituída pelo Marco, Florbela e João.

O resultado no final dos trabalhos era visível. 

Fotografia por Florbela Silva. Primeiro nicho.
Em primeiro lugar o saneamento da entrada para o primeiro nicho, com a retirada de um grande bloco que se encontrava um pouco instável (visível na foto ao lado, no canto inferior direito). Nas saídas anteriores mostrou-se irredutível perante os esforços de um só, mas graças aos esforços dos três operacionais foi retirado e colocado um pouco mais para trás.

Os trabalhos centraram-se então na remoção de blocos que se encontravam a obstruir o nível intermédio do segundo nicho. Em alguns casos foi mesmo necessário partir os blocos de maior dimensão por forma a permitir a sua remoção pelo espaço apertado da passagem que liga o primeiro e o segundo nicho, e posteriormente para fora.

No final o contraste era evidente. 

À entrada o panorama era este:



Era visível a existência  de uma camada de terra a obstruir uma possível continuação do poço mas a que não se conseguia aceder exactamente pela acumulação dos referidos blocos.




Com estes blocos completamente retirados os nossos pés poderiam agora assentar directamente na terra solta e mole que parece constituir uma verdadeira rolha, o que permitiu aliás perceber, ou melhor, reforçar a minha convicção pessoal sobre a possibilidade muito real da existência, já referida, de um poço ou passagem inclinada muito à imagem da pequena passagem que dá acesso a este segundo nicho.

Existem no entanto muitos factores desconhecidos, devendo-se colocar a hipótese, como aliás o Marco referiu, dos trabalhos e o esforço necessário à completa desobstrução da camada de terra, de profundidade que se desconhece em absoluto, que inclui muito provavelmente mais blocos e fragmento de calcário e/ou calcite, não serem exequíveis. Esta é uma possibilidade que tem que ser ponderada no seguimento de saídas futuras. 

De referir no entanto que, e ainda durante os momentos iniciais de análise conjunta antes do começo dos trabalhos, foi sentido e bastante audível, a queda de um bloco algures por baixo. Não foi possível determinar se directamente por baixo ou algures para um dos lados, mas o sentido era inequívoco.

Enquanto estes trabalhos decorriam, a outra equipa, constituída por mim e pelo Bruno Pais, atirava-se de cabeça, literalmente, para os trabalhos de desobstrução do ponto que impedia a progressão na direcção que se mostrava mais promissora no sector das estreitezas. 

Ponto intervencionado tal como se encontrava no inicio das operações.
Os trabalhos de desobstrução não se mostraram fáceis atento ao muito limitado espaço e amplitude de movimentos. 

Num primeiro momento nivelou-se o tecto no ponto de ataque, eliminando pequenos "bicos" ou saliências, tanto em calcite como ainda de simples argila em variados graus de rigidez, mas tal mostrava-se insuficiente para permitir a passagem. 

Ponto após intervenção, visto aqui da perspectiva de saída da zona nova.
Foi necessário atacar a base da passagem, primeiro furando a camada de calcite que se foi constituindo como um manto sobre uma camada de argila. Este manto apresentava-se com uma espessura muito variada, tendo-se adoptado uma tática que visou furar primeiro os pontos mais vulneráveis, mais finos, retirar uma camada de argila directamente por baixo mas estendendo também às zonas contíguas por forma a retirar o suporte do manto calcifico e facilitar a sua quebra.  

Foi  a ablação desta camada superior da base da passagem que permitiu finalmente, e após três "rotações",  a passagem deste ponto crítico.

Creio que o video será esclarecedor sobre as condições de progressão da zona a que estávamos a aceder pela primeira vez.  Foi uma progressão exigente em termos físicos, que exigia uma atenção constante não só ao que cada um de nós fazia mas também à progressão do companheiro.

Num primeiro momento criou-se a sensação que o sector terminaria cerca de 4 metros após o ponto desobstruído. 

Mas a análise da passagem para a nossa direita, por detrás de uma elemento de argila mais alto, revelou a continuação da passagem... bem reduzida na sua dimensão vertical como até aí. 

Colapso parcial por "descolagem" de um pequeno bloco (centro da imagem)
Desse ponto foi também visível a existência de um colapso parcial de um pequeno bloco, que se desprendeu e descaiu uns 15 cm, não tendo no entanto colapsado por inteiro, e do "deslizamento" de uma placa de argila contígua. 

Não aparentava, no entanto, ser a passagem instável ou apresentar um risco demasiado elevado por forma a impedir a progressão, apesar da atenção que merecia. 

O bloco no centro da imagem terá que ser retirado ou alvo de
ablação por forma a permitir a progressão.
Deste ponto foi possível progredir cerca de 3 ou 4 metros mais (embora esta  seja uma estimativa complicada de fazer nestas condições) até que a marcha foi interrompida e impedida pela existência de um obstáculo duplo.  

À esquerda uma coluna e à direita um bloco que se projectava da base da passagem.  


Do outro lado era visível que a passagem, estranhamente, subia ligeiramente numa pequena rampa de argila e aparentava dar acesso a uma área mais espaçosa (dentro do contexto muito particular do sector). Era difícil julgar por o ângulo era muito reduzido, mas diria que a altura permitiria, no mínimo, estarmos sentados, embora não fosse, de todo, possível perceber se havia continuação ou se terminaria ali.

As imagens captadas não permitem ter uma percepção minimamente
adequada deste espaço mais amplo que fica para além da rampa de argila que
se pode ver nesta imagem.
A verdade é que o espaço entre os dois elementos obstaculizadores não permitia, de forma alguma, vencer este constrangimento. Seria necessário um trabalho exigente de desobstrução sobre o bloco  à direita (por forma a manter intacto a coluna à esquerda e reduzir ao mínimo possível o impacto da nossa passagem). Mas mais do que ser exigente havia de ponderar muito bem o impacto desses trabalhos numa passagem que apresentava os sinais, pequenos é verdade mas inegáveis, do colapsos atrás mencionados. 

Estava na hora de dar os trabalhos por encerrados, retroceder e juntarmo-nos à restante equipa para, em conjunto, fazermos  uma avaliação dos trabalhos desenvolvidos, até porque um dos membros teria que sair mais cedo.



Vídeo não aconselhável a pessoas mais sensíveis ou claustrofóbicas 

Enquanto estávamos a recolher e guardar o equipamento (não todo porque aparentemente teremos deixado para trás uma ferramenta de desobstrução) foi localizada, identificada e recolhida uma "armadilha" para a recolha de insectos e outra pequena fauna cavernícola. Verificando-se que não estava devidamente rotulada, não tendo preenchidos nenhum dos campos devidos, não tendo qualquer indicação quanto à data em que foi colocada nem a data para a sua recolha, sendo que aparentava já lá estar há muito tempo, foi devidamente fotografada e retirada. 



E estava na altura de regressar à superfície e desequipar, com a sensação de trabalho feito e com a expectativa de ainda conseguirmos uma bela refeição para fazer face à fome que nos assolava. A boa disposição, essa, esteve sempre presente, embora confesse seja difícil imaginar o contrário entre aquela companhia.







Os trabalhos ainda não acabaram, e o regresso à Cheira está para breve...


Um abraço bem laranja e argiloso,
Alexandre Leal