Algar da Cheira
Vale Florido, São Bento
26 de Novembro de 2016
Coordenação - Alexandre Leal
Equipa - Alexandre Leal, Florbela Silva (AESDA), Bruno Pais (AESDA)
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| Fotografia por Florbela Silva |
O dia ameaçava desabar com uma chuvada épica (sim, eu sei, é um exagero mas parece-me apropriado para marcar um tom glorioso de luta contra os elementos e de superação física e mental), propícia a fazer tremer os fracos de espírito e os pobres de coração... Por sorte, foi só mesmo ameaça e acabou por se revelar um bonito e solarengo dia de final de Novembro.
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| Fotografia por Florbela Silva |
Com a equipa a preparar e equipar-se em pontos distintos, literalmente opostos, o encontro deu-se nas imediações do Algar perante o olhar atento de umas quantas vacas e do seu "senhor", um boi de grande porte, um físico apenas beliscado pela sua incompleta cornadura, que certamente lhe causa graves complexos de inferioridade. Confesso que a presença do "Unicórnio" a ruminar a menos de cinco metros da boca do algar causou alguma apreensão, mas sem qualquer movimento ou comportamento agressivo, lá decidiu, ele e o seu harém, ir pastar para outras bandas e deixar aquelas figuras estranhas vestidas de vermelho atirarem-se para dentro do buraco que sabe estar escondido atrás de uma parede de troncos e ramos secos.
Com a existência de um poço na sequência directa do segundo nicho (Nichos laterais - Ponto 2, das áreas em exploração) confirmada na saída anterior, o objectivo para hoje era simples, desobstruir o acesso a esta vertical e, se possível, descer a este segundo nível da cavidade.
Simples na teoria, na planificação, difícil que se veio a revelar na execução. E tudo por causa de um pequeno bloco que havia rolado nos momentos finais da saída anterior, e se encaixou numa zona particularmente crucial, e complicada de atacar, e que na prática impedia qualquer progressão até ser solucionado.
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| Fotografia por Florbela Silva. |
Atento às características do local e da tarefa em si, nomeadamente a complexidade estrutural dos nichos, em grande parte devido à sua génese violenta (toda a zona é gerida por dinâmicas de abatimento) que criaram uma rede complexa de caos de blocos), a qualidade da rocha e a relativa instabilidade dos blocos e argolas, mas também ao facto de estarmos a trabalhar em cima, literalmente, do espaço obstruído, sobre um vazio que em concreto desconhecíamos, importava garantir a segurança dos trabalhos.
Havia já colocado um spit no segundo nicho, que utilizei para me "alonjar" no decorrer dos trabalhos anteriores, mas exigia-se agora a colocação de uma corda deste o topo, com equipagem no primeiro nicho, ou, em alternativa, num ponto colocado em posição sobranceira a este. E mais uma vez a fraca qualidade da rocha foi uma dificuldade acrescida, sendo que na maioria dos casos esta ainda se apresenta com uma camada de calcite enfraquecida pela presença de lamas, ou mesmo calcite intercalada com camadas inteiras de argila.
A solução acabou ser uma amarração natural numa coluna situada numa plataforma/manto situado sobre o acesso ao primeiro nicho. Não é o ideal, mas é o possível dadas as circunstâncias.
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| Bruno no primeiro nicho a controlar as operações de remoção de material do segundo nicho através do balde preso ao fim da corda. Fotografia por Florbela Silva. |
Equipados com balde, pá e com o "Big Mike" procedeu-se, ainda antes do ataque feroz ao "calhau maldito", à retirada de alguma material (argila e pedras) na parede oposta, que corria o risco eminente de cair e juntar-se ao material que obstruía o poço. Aproveitámos também para retirar outros blocos de pequena dimensão que se amontoavam em posições pouco recomendáveis em vários pontos das paredes do segundo nicho.
Depois.... bem, depois veio uma luta titânica com o raio de um pequeno bloco que teimava em fazer tudo para não cair poço abaixo, dificultada (sobremaneira) pelas muitas limitações e condições do espaço de trabalho.
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| A trabalhar sobre o poço obstruído. Fotografia Bruno Pais |
Um desses blocos, por dificuldade de retirar para cima, foi atirado para baixo na esperança de cair no espaço entretanto aberto entre O calhau e o restante material que ainda aguardava ser retirado, e que ainda obstruía a passagem. A operação parecia ser simples e de execução fácil... obviamente haveria de cair exactamente do local e no ângulo apropriado para se encaixar bem ao lado do... wait for it... CALHAU. Sim, não nos bastava um, tínhamos agora dois blocos encaixados de tal forma que resistiam estoicamente aos nossos ataques, e nos atrasava a nossa progressão. Deu luta mas antes de dar o lugar, de novo, ao Bruno (que fez um grande e esforçado trabalho), consegui, após pancadas, pisadas, quinadas, jeitos com os pés para um lado e para o outro, enviar este segundo desgraçado para baixo.
Por esta altura, e para "facilitar" os trabalhos, o meu frontal começou a fraquejar de forma bastante notória. Basicamente entrou em "survival" mode, limitando-se a criar uma pequena luz de presença. Tinha ficado a noite inteira ligado ao carregador... o problema é que aparentemente o carregador não ficou bem "ligado" à tomada, e a bateria já havia suportado duas saídas anteriores. Lá tive que recorrer à Tika de reserva.
Entre o som dos trabalhos e as conversas animadas a Florbela, a dado momento, deu voz a uma análise que, logo de imediato e conjugado com a análise que havia feito da cavidade no relatório da saída anterior, me pareceu absolutamente correcta e muito perspicaz. Aquele poço, agora obstruído e escondido debaixo de vários blocos de grande dimensão, consolidados e "calcificados", outrora, e antes dos abatimentos que, e passe o pleonasmo, se abateram sobre aquela zona da passagem, abria directamente para a passagem "principal". Parece-me uma análise perfeitamente pacífica.
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| Visão da lateral esquerda do poço. No final mostrava-se bastante mais aberta. O "calhau" estava preso na lateral direita. Fotografia por Bruno Pais. |
Enfim, foi diabólico... e quando estava prestes a chamar um padre para efectuar um exorcismo o Bruno vira-se para mim com o sorriso nos lábios e sussurra "Vai cair agora"... e não é que foi mesmo.
Mas como qualquer demónio que se preze, o tormento é potenciado por breves momentos de euforia concedidos às vítimas e aos pecadores que contra ele lutam, peleiam, ténues ilusões de vitória utilizadas perniciosamente para quebrar o espírito e alcançar o prémio final.
O calhau caiu, de facto caiu poço abaixo, mas para se encaixar 3 ou 4 metros mais abaixo, e não os restantes 6 ou 7 metros até à "base" do poço.
O poço, esse, apresenta-se como uma verdadeira palhinha com alguns pontos mais complicados, que poderão aliás necessitar de ser intervencionados para poderem ser ultrapassados. Da perspectiva que era possível ter e com as dificuldades que advêm da sua forma irregular e estreita, ficámos agora com a ideia que deverá ter maior profundidade do que anteriormente indicado. Diria eu, sob reserva, uns 10 ou 12m directos, não sendo possível determinar, por ora, se essa será a dimensão total da vertical ou se, por outro lado, esta se prolonga após uma pequena plataforma ou ressalto, ou mesmo continuar numa rampa de grau acentuado, tendo em conta o som que fora possível ouvir de pedras a rolar por breves instantes.
Por esta altura já nem a GoPro do Bruno tinha bateria (a minha foi para lá sem bateria... sim, neste aspecto não correu nada bem), pelo que não existe registo de video ou imagens do acesso ao poço já "bastante" mais alargado e desobstruído.
Os trabalhos, como não poderia deixar de ser, vão ser complicados mas as perspectivas são muito boas... Das profundezas vinha um ar fresco. Não enganava. À medida que o "buraco" alargava tornava-se cada vez mais notório, mais evidente, uma pequena corrente de ar fresco que soprava do poço.
Não que seja este um elemento absoluto, que não comporta erro, na determinação da possibilidade de progressão ou existência da continuação da cavidade. Não poucas vezes engana, um engodo que alimenta a esperança para de seguida se revelar, em toda a sua glória, inexistente, uma ilusão.
Estaremos lá para descobrir, pois esse é o âmago, o fim último da exploração.
Vencer o desconhecido... alcançar territórios nunca antes vistos, alargar as fronteiras do conhecimento.
Bem, deixemo-nos de pedantismo que não nos fica nada bem e vamos ao que realmente importa. Estariam as vacas, e não nos esqueçamos do Boi, à nossa espera à saída do algar?
Imbuído do espirito do calhau vou deixar-vos na ignorância que "certezamente" (lembram-se da senhora que descobriu uma cabeça com dois olhos e duas orelhas na levada perto de casa, e que parecia um palhaço, daqueles que colocavam "antigamente" no campo para espantar os pássaros) vos irá atormentar por uma semana e alguns dias mais...
Um abraço cavernicola.
Alexandre Leal

































