domingo, 6 de novembro de 2016

Algar da Cheira

Vale Florido, São Bento

05 de Novembro de 2016





Coordenação - Alexandre Leal
Equipa - Alexandre Leal, Florbela Silva (AESDA), Bruno Pais (AESDA),  Marco Dias (NEL),              
               João Ferreira (NEL)




Fotografia tirada em Abril de 2016



Com a excelente Campanha de Exploração da Arroteia 2016, um projecto do NEL (Núcleo de Espeleologia de Leiria), terminada por este ano (e que sucesso foi), o apelo da Cheira fazia-se sentir cada vez com maior acuidade, em particular a exploração no sector das estreitezas, um ponto em aberto desde a visita a esta cavidade no âmbito do Curso de Nível II, em finais de 2014.

O objectivo estava traçado:

- Desobstrução do ponto crítico que impedia a passagem e continuação da progressão no sector das estreitezas;

- Continuar os trabalhos de desobstrução na sequência de pequenos nichos verticais na lateral da passagem principal da cavidade.


Fotografia por Florbela Silva
O dia amanheceu cinzento e estranhamente frio para a temperatura que marcava no termómetro do carro. Menos mal, pensava eu, porque não estava com cara de quem fosse chover. Enganei-me.... redondamente.

Quando acabámos de vestir e reunir/distribuir o material já os fatos estavam bem molhados, para não dizer encharcados.

Fotografia por Florbela Silva
Para esta saída, até porque importava alguns trabalhos com alto nível de dificuldade mas também exigente a nível físico, tive a sorte de conseguir reunir uma excelente equipa operacional, com várias valências, numa perspectiva multidisciplinar  e inter-associativa. 

Este último aspecto é, aliás, um dos aspectos mais interessantes que saíram do supra mencionado projecto de exploração na Algar da Arroteia, e que deve ser acarinhado e promovido. É uma mais-valia, a todos os níveis, para a nossa pequena comunidade espeleológica. 

Gostaria de dizer que, com o meu apurado sentido de orientação (NOT), rapidamente demos com o Algar... Não, mas em minha defesa fui insidiosamente enganado pela presença de uma quebra num dos muros que convidava à sua passagem nesse local. Decisão errada... acabei por ter que fazer uso do GPS após deambularmos por zonas contíguas.

Neste ponto de salientar que, como aliás podemos comprovar na foto supra, foram identificados vários pontos onde os tradicionais muros de pedra solta que delimitam os terrenos, os chousos, se encontravam em ruínas ou apresentavam quebras e pedras  caídas.

Já no cabeceira do poço de entrada do algar tive oportunidade de utilizar, pela primeira vez, umas anilhas que havia comprado para reforçar e aumentar a estabilidade das plaquetas, uma vez que os spits aí colocados se encontram um pouco saídos. Devo confessar que fiquei extremamente satisfeito com o resultado.

Fotografia por Florbela Silva. Pequeno núcleo de uma colónia bastante maior.

Com o poço equipado a descida foi rápida e num ápice no colocámos a caminho do primeiro ponto de exploração. E logo ali, pouco depois de entrarmos no corredor principal, deparámo-nos com a presença de uma colónia bastante  interessante do que aparentam ser Myotis myotis (sob reserva de melhor e mais esclarecida análise), contrastando com as anteriores actividades no início do ano, que, à excepção de um ou outro exemplar solitário, os únicos indícios da presença de uma possível colónia era, aqui e ali, pequenas acumulações de guano seco.

Fotografia por Florbela Silva
E logo ali a zona dos pequenos nichos verticais, uma entre várias mas objectivamente a mais relevante, que se encontram na intercepção da parede lateral e da base da passagem. 

Após uma pequena introdução aos trabalhos já realizados e uma análise preliminar por parte do Marco dos dois nichos já descobertos, com atenção aos possíveis riscos e cuidados a ter, deixei a equipa a organizar o seu trabalho, traçar um plano de ataque e colocar as mãos à obra. Para este ponto estabeleceu-se uma equipa  constituída pelo Marco, Florbela e João.

O resultado no final dos trabalhos era visível. 

Fotografia por Florbela Silva. Primeiro nicho.
Em primeiro lugar o saneamento da entrada para o primeiro nicho, com a retirada de um grande bloco que se encontrava um pouco instável (visível na foto ao lado, no canto inferior direito). Nas saídas anteriores mostrou-se irredutível perante os esforços de um só, mas graças aos esforços dos três operacionais foi retirado e colocado um pouco mais para trás.

Os trabalhos centraram-se então na remoção de blocos que se encontravam a obstruir o nível intermédio do segundo nicho. Em alguns casos foi mesmo necessário partir os blocos de maior dimensão por forma a permitir a sua remoção pelo espaço apertado da passagem que liga o primeiro e o segundo nicho, e posteriormente para fora.

No final o contraste era evidente. 

À entrada o panorama era este:



Era visível a existência  de uma camada de terra a obstruir uma possível continuação do poço mas a que não se conseguia aceder exactamente pela acumulação dos referidos blocos.




Com estes blocos completamente retirados os nossos pés poderiam agora assentar directamente na terra solta e mole que parece constituir uma verdadeira rolha, o que permitiu aliás perceber, ou melhor, reforçar a minha convicção pessoal sobre a possibilidade muito real da existência, já referida, de um poço ou passagem inclinada muito à imagem da pequena passagem que dá acesso a este segundo nicho.

Existem no entanto muitos factores desconhecidos, devendo-se colocar a hipótese, como aliás o Marco referiu, dos trabalhos e o esforço necessário à completa desobstrução da camada de terra, de profundidade que se desconhece em absoluto, que inclui muito provavelmente mais blocos e fragmento de calcário e/ou calcite, não serem exequíveis. Esta é uma possibilidade que tem que ser ponderada no seguimento de saídas futuras. 

De referir no entanto que, e ainda durante os momentos iniciais de análise conjunta antes do começo dos trabalhos, foi sentido e bastante audível, a queda de um bloco algures por baixo. Não foi possível determinar se directamente por baixo ou algures para um dos lados, mas o sentido era inequívoco.

Enquanto estes trabalhos decorriam, a outra equipa, constituída por mim e pelo Bruno Pais, atirava-se de cabeça, literalmente, para os trabalhos de desobstrução do ponto que impedia a progressão na direcção que se mostrava mais promissora no sector das estreitezas. 

Ponto intervencionado tal como se encontrava no inicio das operações.
Os trabalhos de desobstrução não se mostraram fáceis atento ao muito limitado espaço e amplitude de movimentos. 

Num primeiro momento nivelou-se o tecto no ponto de ataque, eliminando pequenos "bicos" ou saliências, tanto em calcite como ainda de simples argila em variados graus de rigidez, mas tal mostrava-se insuficiente para permitir a passagem. 

Ponto após intervenção, visto aqui da perspectiva de saída da zona nova.
Foi necessário atacar a base da passagem, primeiro furando a camada de calcite que se foi constituindo como um manto sobre uma camada de argila. Este manto apresentava-se com uma espessura muito variada, tendo-se adoptado uma tática que visou furar primeiro os pontos mais vulneráveis, mais finos, retirar uma camada de argila directamente por baixo mas estendendo também às zonas contíguas por forma a retirar o suporte do manto calcifico e facilitar a sua quebra.  

Foi  a ablação desta camada superior da base da passagem que permitiu finalmente, e após três "rotações",  a passagem deste ponto crítico.

Creio que o video será esclarecedor sobre as condições de progressão da zona a que estávamos a aceder pela primeira vez.  Foi uma progressão exigente em termos físicos, que exigia uma atenção constante não só ao que cada um de nós fazia mas também à progressão do companheiro.

Num primeiro momento criou-se a sensação que o sector terminaria cerca de 4 metros após o ponto desobstruído. 

Mas a análise da passagem para a nossa direita, por detrás de uma elemento de argila mais alto, revelou a continuação da passagem... bem reduzida na sua dimensão vertical como até aí. 

Colapso parcial por "descolagem" de um pequeno bloco (centro da imagem)
Desse ponto foi também visível a existência de um colapso parcial de um pequeno bloco, que se desprendeu e descaiu uns 15 cm, não tendo no entanto colapsado por inteiro, e do "deslizamento" de uma placa de argila contígua. 

Não aparentava, no entanto, ser a passagem instável ou apresentar um risco demasiado elevado por forma a impedir a progressão, apesar da atenção que merecia. 

O bloco no centro da imagem terá que ser retirado ou alvo de
ablação por forma a permitir a progressão.
Deste ponto foi possível progredir cerca de 3 ou 4 metros mais (embora esta  seja uma estimativa complicada de fazer nestas condições) até que a marcha foi interrompida e impedida pela existência de um obstáculo duplo.  

À esquerda uma coluna e à direita um bloco que se projectava da base da passagem.  


Do outro lado era visível que a passagem, estranhamente, subia ligeiramente numa pequena rampa de argila e aparentava dar acesso a uma área mais espaçosa (dentro do contexto muito particular do sector). Era difícil julgar por o ângulo era muito reduzido, mas diria que a altura permitiria, no mínimo, estarmos sentados, embora não fosse, de todo, possível perceber se havia continuação ou se terminaria ali.

As imagens captadas não permitem ter uma percepção minimamente
adequada deste espaço mais amplo que fica para além da rampa de argila que
se pode ver nesta imagem.
A verdade é que o espaço entre os dois elementos obstaculizadores não permitia, de forma alguma, vencer este constrangimento. Seria necessário um trabalho exigente de desobstrução sobre o bloco  à direita (por forma a manter intacto a coluna à esquerda e reduzir ao mínimo possível o impacto da nossa passagem). Mas mais do que ser exigente havia de ponderar muito bem o impacto desses trabalhos numa passagem que apresentava os sinais, pequenos é verdade mas inegáveis, do colapsos atrás mencionados. 

Estava na hora de dar os trabalhos por encerrados, retroceder e juntarmo-nos à restante equipa para, em conjunto, fazermos  uma avaliação dos trabalhos desenvolvidos, até porque um dos membros teria que sair mais cedo.



Vídeo não aconselhável a pessoas mais sensíveis ou claustrofóbicas 

Enquanto estávamos a recolher e guardar o equipamento (não todo porque aparentemente teremos deixado para trás uma ferramenta de desobstrução) foi localizada, identificada e recolhida uma "armadilha" para a recolha de insectos e outra pequena fauna cavernícola. Verificando-se que não estava devidamente rotulada, não tendo preenchidos nenhum dos campos devidos, não tendo qualquer indicação quanto à data em que foi colocada nem a data para a sua recolha, sendo que aparentava já lá estar há muito tempo, foi devidamente fotografada e retirada. 



E estava na altura de regressar à superfície e desequipar, com a sensação de trabalho feito e com a expectativa de ainda conseguirmos uma bela refeição para fazer face à fome que nos assolava. A boa disposição, essa, esteve sempre presente, embora confesse seja difícil imaginar o contrário entre aquela companhia.







Os trabalhos ainda não acabaram, e o regresso à Cheira está para breve...


Um abraço bem laranja e argiloso,
Alexandre Leal








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