terça-feira, 29 de agosto de 2017

Algar da Arroteia

Chão das Pias, Planalto de Santo António

26 de Agosto de 2017




Coordenação-Alexandre Leal (NEL), Orlando Elias (NEL)
Equipa 1 - Alexandre Leal (NEL), João Ferreira (NEL) e Pedro Galvão (NEL);
Equipa 2-  Orlando Elias (NEL) e António Fael (NEL)







Com o trabalho da semana anterior por concluir e com uma equipa reduzida de apenas 3 membros para levar o trabalho a bom porto, antecipava-se um duro e árduo dia na frente de exploração... Havia uma bobine com 100m de tubo que precisávamos levar desde a superfície até à sala que antecede o Sifão1, e desse ponto esticar até unir com o tubo já colocado desde o Sifão 2 até à zona parcialmente submergida antes da Passagem da Concertina, e posteriormente começar o processo de drenagem deste Sifão.

Na ponta oposta a Equipa 2 tinha como missão mais uma investida no sifão terminal da Galeria Fóssil. A possibilidade de progressão afigura-se-nos real ainda que bastante controvertida, mas nada que assuste o Orlando... Pena foi que se esquecera do berbequim em casa! Visto pelo lado positivo, na próxima saída já lá está o material de desobstrução quase todo, sendo necessário levar apenas a referida ferramenta para a linha da frente. Estou confiante que à terceira é de vez.

Com maior ou menor dificuldade lá conseguimos transportar a bobine até à zona do meandro que começa no seguimento da base do Poço da Cascata, e depois, com calma e persistência, até à antecâmara da sala que antecede o Sifão1, pela via inferior, momento em que nos apercebemos do elevadíssimo nível de água neste sector, bem acima do usual, e que temíamos que viesse a resultar no  bloqueio deste ponto crítico (Sifão1).

Facto que se veio a revelar infundado após o João, acedendo à sala pela via superior, ter constatado que o nível da água situava-se ligeiramente abaixo da base deste espaço, havendo uma pequena poça de água na entrada para o Sifão1, que no entanto estava perfeitamente acessível e com um nível de água relativamente baixo.


Esta situação poderá ter duas causas imediatas, que concorreram para este resultado. Em primeiro lugar o facto da bomba2, situada na base da vertical de cerca 3m, o ponto mais baixo de todo este sifão, ter estado inoperante por um tempo indeterminado durante a semana que antecedeu esta saída, situação resolvida na quinta-feira anterior quando contactada durante uma saída intercalar levada a cabo pela Equipa do Sifão da Galeria Fóssil.

Por outro lado verificámos que a água que estava a ser bombeada para a superfície estava a infiltrar-se em grandes quantidades muito perto do poço de entrada uma vez que a cisterna que estava a ser utilizada para colectar a água tinha sido deixada com a válvula aberta, situação resolvida pelo Orlando assim que chegou ao local de concentração.

Restava ver como estaria a passagem após a "Pedra do Demo". Claro está importava, em primeiro lugar, que lá chegar com o tubo e para o efeito (e após ter retirado o arnês e vestido o Neoprene) estabelecemos um plano de ataque. O Pedro ficaria na sala a desbobinar o tubo por forma a acompanhar a nossa progressão. À frente lá fui levando o tubo primeiro até à bomba2, e depois pela passagem superior até à Pedra do Demo, onde de facto constatei o elevado nível da água na passagem seguinte... Elevada mas que não parecia ser impeditiva de progressão. 

No sentido de confirmar esta minha avaliação provisória chamei o João (que se encontrava junto da Bomba2) para este ponto enquanto me "aventurava" pela água dentro. Para o nosso alívio esta minha previsão confirmou-se e lentamente avancei primeiro até à curva à esquerda seguinte (ponto de desobstrução da campanha de 2016, aberto exactamente pela equipa que se encontrava na passagem, ou seja Alexandre Leal e João Ferreira), e posteriormente até ao espaço a seco anterior à Passagem da Concertina. O nosso objectivo, a ponta do tubo colocada na semana anterior, encontrava-se cerca de 6 ou 7 metros mais à frente, já dentro de água, a meio caminho para a Concertina.

Importava cortar uma parte desse tubo para corrigir uns vincos que colocavam em causa o processo de drenagem, tendo o João avançado para a ponta para efectuar essa tarefa e colocar a união que permitiria ligar as duas secções de tubo, a que já lá se encontrava e a que acabáramos de levar.




Com os níveis de água tão elevados, que elevaria (no pun intended) o risco em termos de segurança no que toca à implementação da estratégia pre-definida, ou seja, utilizar a bomba de 12v já colocada no Sifão2 para ferra o tubo, o que implicaria estarmos na frente até ao momento em que este sifão começaria a bombear para o Sifão1, optámos por recuar até à bomba2, para aí ligar a ponta do tubo ,que cortámos no ponto relativo aos 56m. 

A utilização desta bomba oferecia as mesmas garantias de sucesso na operação eliminando os riscos associados à utilização da bomba junto do Sifão2. Com a ajuda do Orlando, que entretanto se juntara (com o Fael) à equipa 1 na sala que antecede o Sifão1, ligámos o tubo à bomba, que começou a drenar água em sentido contrário, necessário para encher completamente o tubo e posteriormente possibilitar o retorna da água e assim ferrar e permitir drenar por efeito da gravidade. Operação coroada de sucesso e executada num curto espaço de tempo.

Foto retirada do topo da vertical.
Em baixo situa-se a Bomba2 que envia água para a
represa na base do Poço da Cascata.
Captada durante a Campanha de 2016.
Retirado o tubo da bomba (a que se voltou a ligar o tubo que envia a água desta zona para a represa na base do poço da cascata)  a água começava a fluir directamente da frente, e o processo de drenagem do Sifão2 tinha início.

Aproveitou-se a oportunidade para avaliar a altura relativa do Sifão2  face a esta posição específica, através de um teste simples (mais uma técnica importante aprendida no contexto de exploração).

Elevando-se  lentamente o tubo ferrado o objectivo era identificar a altura a que este deixaria de bombear água, em virtude de se encontrar numa posição superior ao sifão de onde se estava a "chupar" a água. Como se antecipava, este ponto encontrava-se cerca de 3m acima da base, bem perto dos meus pés se atendermos à fotografia acima, o que garantia uma boa margem de manobra na drenagem das águas, esperando apenas que a ponta do tubo colocada no extremo oposto, por alguma razão, não venha a inviabilizar o processo.

Atendendo ao enorme volume de água que se pensa estar ligado ao sifão2 é provável que não seja possível qualquer progressão ou mesmo uma avaliação desse possibilidade já neste fim-de-semana, mas talvez na próxima quinta-feira possamos já ter uma ideia mais clara sobre este ponto.

Em qualquer dos casos devo dizer que estou bastante confiante sobre a margem de progressão neste sector. O objectivo principal é, neste momento, encontrar o ponto em que este nível suspenso, completamente atípico, dá acesso a maiores profundidades, afinal de contas temos ainda um grande desnível para vencer até as águas atingirem a profundidade em que vão, no final, originar ou alimentar as exsurgências do Lena. 

Com a tarefa concluída, quer dizer estava na altura de regressarmos à superfície e começar a preparar a próxima saída. O trabalho não para e nós também não.

Abraço cansado,
Alexandre Leal








quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Algar da Arroteia

Chão das Pias, Planalto de Santo António

19 de Agosto de 2017




Coordenação-Alexandre Leal (NEL), Flávio Lucas (NEL)
Equipa 1 - Alexandre Leal (NEL),  António Fael (NEL), Pedro Galvão (NEL), 
                 João Ferreira (NEL), João Fael (NEL), Bruno Pais (AESDA)
Equipa 2-  Flávio Lucas (NEL), Florbela Silva (AESDA)




Fotografia por Florbela Silva.


A saída prometia ser fisicamente exigente mas com uma equipa de oito acabou por se tornar relativamente mais fácil do que o antecipado. 

Na sequência das descobertas da semana anterior o objectivo principal para esta saída centrava-se na colocação de uma tubagem desde o Lago/Sifão, doravante designado como Sifão 2, até ao Sifão 1 (zona onde está colocada a 2 segunda bomba), para até aí drenar a água, com recurso a uma bomba de 12v que nos vai permitir "ferrar" a mangueira, deixando que a gravidade faça o resto (ou assim esperemos). Pelas nossas contas se é verdade que a zona inicial do Sifão 1 deverá estar ao mesmo nível do Sifão 2, a zona específica onde a segunda bomba está colocada, na base de uma vertical de cerca de 3,5m, deverá permitir a utilização desta técnica com sucesso.

Atendendo à dimensão da equipa foi possível designar uma segunda equipa, constituída pelo Flávio e pela Florbela, para recomeçar os trabalhos de topografia "ab initio" (sim, pela 3ª ou 4ª vez).

O plano traçado consistia numa equipa avançada, que iria partir de imediato para a Passagem da Concertina com material de desobstrução um pouco mais pesado, por forma a garantir que todos os membros da expedição conseguiriam passar este ponto e colocar a tubagem sem dificuldades de maior.

Confesso que desde o início tinha algumas reservas sobre o mérito e sucesso desta iniciativa face ao esforço que indubitavelmente acarretaria transportar todo aquele material pelas estreitas passagens até ao ponto de desobstrução. Facto que se veio a confirmar.

Com efeito, e atendendo à natureza das paredes junto à base, com camadas de calcite, lamas secas, e pedra, as duas tentativas de alargamento efectuadas na parede direita (de quem olha do lado de lá da passagem) saíram completamente goradas, coroadas com um real "Pfffff" e sem qualquer efeito prático. 

E a verdade é que o tempo despendido nesta tarefa (mais o tempo gasto no transporte do material de desobstrução) foi o suficiente para o primeiro membro da equipa da retaguarda, o Bruno Pais, alcançar a passagem puxando a ponta do tubo que rapidamente nos passou, cabendo ao Fael a tarefa de o começar a puxar  no troço seguinte até ao seu destino final. 

Enquanto isso dava umas dicas ao Bruno de como enfrentar a passagem da forma mais correcta para agilizar a tarefa. A verdade é que mesmo não tido qualquer sucesso com os esforços de desobstrução levados a cabo neste dia, os esforços anteriores tinham já alargado a estreiteza o suficiente para se tornar relativamente fácil a sua passagem.

Enquanto o Bruno descansava um pouco e esperava pela chegada do membro seguinte, avancei para dentro de água por forma a ajudar o Fael a puxar o tubo, tendo avançado até à curva de 90º à direita antes de mandar o Bruno tomar o meu lugar e regressar à Passagem da Concertina para supervisionar a passagem dos restantes elementos... tarefa que se veio a revelar penosamente lenta, uma vez que algum do material que era necessário levar para a frente tinha sido deixado para trás.

Enfim, fui aproveitando para retirar ou reduzir uns quantos pontos salientes na Passagem dando uso às ferramentas que tinha à disposição (entretanto o meu kitbag já tinha sido levado para a frente), e para examinar um pouco melhor a chaminé que tinha por cima de mim, que aparenta ter sensivelmente a mesma altura que as grandes chaminés da Sala 1 e 2. 

Confesso que acabei por perder noção do tempo que tive sentado naquele pequeno nicho, a maioria do tempo com a luz apagada, e por esta altura já com a informação que o tubo que estávamos a puxar não tinha o cumprimento suficiente para ligar os dois pontos. Na verdade acabava logo ali à minha frente, no espaço a seco imediatamente anterior à passagem submergida que dá acesso à Passagem da Concertina. Ainda havia uma mangueira verde, um pouco mais fina, que poderia ser levada para a frente para ligar directamente à bomba e puxar o tubo preto para trás um pouco colocando uma ligação, mas era duvidoso que tal fosse resolver a questão.  Em qualquer caso, e por prevenção, lá levámos também esta mangueira para frente tendo o João Ferreira chegado pouco tempo depois com a bomba de 12v.

Já na frente fui informado dos trabalhos que o Fael e o Bruno realizaram, nomeadamente a abertura da passagem estreita entre a Sala e a Sala 2, num ponto mais alto que o utilizado por mim na semana anterior, tendo para o efeito dado uso ao "Mauler", o mega martelo da destruição maciça. Por outro lado conseguiram abrir um canal desde a Sala 2 até ao Sifão2, por onde a água, por força do efeito da gravidade (uma vez que as salas no final da Passagem dos Açores se situam num nível mais elevado do que o Sifão 2), se foi drenando, a um nível tal que se viram forçados a construir um "dique" para parar o fluxo uma vez que o nível no sifão tinha já aumentado significativamente. 

Neste momento temos a bomba junto ao sifão 2 e tubo desde este ponto e o espaço a seco antes da Passagem da Concertina. É necessário levar cerca de 100m mais (provavelmente uns 60 ou 70m seriam o suficiente mas é melhor não correr riscos desnecessários) para unir ao outro tubo e começar a drenar o sifão 2 para o sifão 1, que continuará a bombar água para a represa na base da cascata, e daí para o  exterior.

Um segundo passo será abrir os diques da passagem superior para que também esta passagem seja drenada pela tubagem colocada no Sifão 2.

Desconhecendo-se o volume de água a drenar torna-se difícil antecipar o sucesso e o tempo necessário para conseguirmos baixar o nível da água o suficiente para podermos avaliar tanto o sifão como a passagem superior mas é possível que na próxima saída, já este sábado, não seja ainda possível qualquer resultado palpável. Pode ser que nos surpreendamos...

E porque melhor que levar um kitbag pesado para a frente, por passagens apertadas e muita "couve-flor" que nos agarra e ataca o fato de forma particularmente insidiosa, é ter que fazer o percurso de volta, ainda que desta feita tendo dividido o peso pelo kit-bag to João Ferreira.

De referir que o Flávio concluiu com êxito mais um levantamento topográfico desde o poço de entrada até à "Pedra do Demo", ficando apenas por fazer a topografia desde este ponto e a Sala 2 na ponta de exploração, no que a este sector de exploração diz respeito. 

E para grande surpresa minha, após uma muito importante troca de roupa (opção por uma subida em modo "light") e uns frutos secos regados por um Monster, a subida do P45 fez-se num ritmo constante, sem qualquer tipo de paragem,  e relativamente rápido, bastante mais rápido do que qualquer subida anterior.

Fotografia por Florbela Silva.

Fotografia por Florbela Silva.


Importando no entanto referir que a topografia de toda a cavidade é da maior importância para a compreensão da mesma e uma ferramenta indispensável para a continuação da exploração, tanto no interior como em actividades de prospecção no exterior por forma a encontrar possíveis sumidouros ou entradas secundárias, de alguma forma obstruídas e desconhecidas, com particular atenção para a zona das Salas 1 e 2 com as suas grandes chaminés.

Aguarda-nos pois mais um sábado em cheio de trabalho e emoção, com muita água pelo meio, ainda na expectativa de possibilidade de avanços também na zona terminal da Galeria Fóssil da Esquerda (a via clássica)... Neste ponto pode ser que tenhamos notícias ainda hoje.

Bem, e já sabem, sábado há mais.

Um abraço,
Alexandre Leal




sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Algar da Arroteia

Chão das Pias, Planalto de Santo António

12 de Agosto de 2017




Coordenação-Alexandre Leal (NEL), Marco Dias (NEL)
Equipa 1 - Alexandre Leal (NEL),  Hugo Costa (NEL), António Fael (NEL) e 
                   Paulo Cardoso (NEL)
Equipa 2-  Marco Dias (NEL), João Fael (NEL)




António Fael na sua primeira tentativa na "Passagem da Concertina" 



Com a fasquia colocada bem alto pelos desenvolvimentos da exploração na semana anterior partimos hoje com a expectativa de poder bater esse desempenho e, quiçá, finalmente descobrir uma forma de progressão que nos permita baixar deste nível suspenso.

Com os objectivos traçados, a equipa da frente iria avançar de imediato até ao lago e progredir à partir desse ponto, tendo como objectivos secundários a verificação da segunda chaminé, enquanto o Marco e o João iria continuar os trabalhos de topografia.

Obviamente coisas não seriam assim tão fáceis (nunca são assim tão fáceis), e para começar em grande mais um balde de água fria à chegada ao sifão. 

Sim, adivinharam, estava novamente fechado... mais uma angustiante e lenta espera até que a água baixasse o suficiente para se poder passar, o que pareceu uma eternidade.

Enquanto isso, e para obviar, ou pelo menos reduzir riscos potenciais, colocaram-se as duas bombas a funcionar em simultâneo através da colocação de um "T" no quadro, tendo o Marco, posteriormente, colocado a bomba do sifão numa nova posição, mais estável, por forma a reduzir a chance da bóia ficar presa e comprometer a sua activação.

 E o nível da água ia baixando lentamente, muito lentamente... e assim que foi possível lá nos metemos pela água dentro e começamos a marcha até ao primeiro ponto crítico, a "Passagem da Concertina". 

A ordem de progressão lógica ditava que fosse o Hugo à frente, e eu logo atrás, uma vez que já havíamos passado na semana anterior. Restava saber se os restantes membros da equipa conseguiriam passar ou se seria necessário trabalhos de desobstrução suplementar com vista ao alargamento da passagem na sua parte final.

Coube ao Fael fazer essa tentativa, que se veio a revelar infrutífera. O peito teimava em não conseguir esgueirar-se por uma zona onde as formações de lama eram mais salientes. Um pequeno depósito de calcite no chão também não facilitava o trabalho.

Nada que não se conseguisse resolver com o recurso às ferramentas que tinha-mos no local, prontas exactamente para fazer face a estas eventualidades. Por uma questão de facilidade optámos por atacar a parede da esquerda (da nossa perspectiva) embora tenhamos também reduzido um pouco os pontos mais críticos do lado direito.

Em menos de 20 minutos o Fael estava a fazer a sua segunda tentativa, desta feita coroada de êxito, e logo atrás vinha o Paulo. Em menos de nada tínhamos toda a equipa para além da "Concertina" e pronta para se fazer às águas da galeria seguinte... que estava, bem, estava fria. Estou em crer que o Fael na próxima leva um neoprene completo.



Chegados ao lago, e com dois pontos de interesse para analisar, e após uma primeira abordagem do Fael ao lago, que indicava desde logo a possibilidade de desenvolvimento submerso, dividimos a equipa em dois. 

O Fael e eu fomos explorar a passagem da direita, que se designou por "Passagem dos Açores", e o Paulo Cardoso e o Hugo ficaram explorar os contornos do lago.

O acesso à  Passagem dos Açores é dominado pela presença de uma camada espessa de lama relativamente instável, que se desprende facilmente do seu bordo, embora nada que seja particularmente difícil de transpor. Na verdade antes de dar por isso já o Fael estava a caminho, rastejando por uma passagem de argila muito mole, fruto da água que escorre da salas superiores, e onde importava distribuir o peso para evitar ficarmos atolados.

Vista para a frente da passagem.

Olhando para trás, em direcção ao lago/sifão.

Da zona do lago vinha a confirmação da existência de uma passagem abaixo do nível da água na zona oposta à entrada, e que parecia constituir um grande sifão uma vez que o som que a água fazia ao ser agitada indicaria a possibilidade de uma zona a seco mais à frente.

Em sentido ligeiramente ascendente fomos avançando e à minha frente referiu o Fael que a passagem estava a afunilar, que talvez fosse necessário uma desobstrução. Avaliação  rapidamente alterada pela percepção de uma pequena passagem para uma zona que aparentava ser mais ampla. Pouco tempo   depois a sua voz projectada para testar o eco revela uma zona de dimensão bastante diferente das passagens e salas que encontrámos neste sector da cavidade.



É enorme referiu ele...

E de facto a passagem revelou uma sala dominada por uma enorme chaminé, com uma presença muito assinalável de lama e argila que formava uma rampa ao longo de uma das paredes de maior dimensão. Também de assinalar a presença bastante relevante de areia escura, com uma granularidade  relativamente fina, bastante mais fina do que, por exemplo, a encontrada na Galeria Spe66 na Gruta da Contenda.


Primeira visão da grande chaminé que domina a primeira sala.

No lado oposto uma estreita fenda daria acesso a uma outra passagem ou sala, e potencialmente forma de continuar a progredir.


Foi efectuada uma primeira tentativa de passar este ponto estreito, levada a cabo por mim, mas cuja abordagem não foi a mais indicada (tentei passar com os pés para a frente) o que acabou por determinar o seu insucesso.




 A solução era evidente, trazer o Hugo para a frente, e testar a estreiteza novamente. Estava confiante que ele conseguiria passar visto que por muito pouco não o tinha eu conseguido. E não me enganei.

Foi tirar o capacete, deitar-se,  um pequeno esforço e lá estava ele do outro lado. E fizera-o de cabeça para a frente... ora como não sou de me ficar atrás, pelo menos sem dar luta, lá me atirei de novo para a lama e lentamente fui forçando o peito até ser "expelido" pelo outro lado.

Chaminé da segunda sala.
E diante mim uma sala de forma arredondada, com cerca de metade da dimensão da sala anterior, mas com um teto bem lá em cima, a uma altura em tudo similar ao visto na chaminé da sala contígua. E na sua base acedia-se, mais uma vez, a um volume de água que desaparecia por uma pequena fenda submergida na sua quase totalidade... na verdade pouco mais de 3 ou 4 cm se mantinha acima do nível da água.




Restava perceber qual a via natural de progressão da água.

Seria a via principal a continuação da passagem encontrada na segunda sala ou seria a passagem na sequência do sifão encontrado no lago?

Estas grandes chaminés, tendo em conta, aliás, o grande volume de lamas e argila encontradas na base da primeira e na Passagem dos Açores, a sua dimensão e a sua localização,  debitarão um grande volume de água no inverno. Em carga, deverá cair uma enorme quantidade de água pelas paredes abaixo.

Estariam estas chaminés a engrossar o caudal da passagem submergida na sequência da segunda sala ou seria esta passagem e a água debitada pelas chaminés parte de um novo curso de água que se junta, no lago/sifão mais abaixo, ao curso de água que vem desde a Galeria do Rio, aos -58.

Tudo aponta para esta segunda hipótese, embora não se possa descartar a primeira, e muito menos se deve deixar de explorar esta passagem superior.

Estava na altura de centrar as atenções neste novo sifão, por forma a tentar definir os seus contornos, a possibilidade de progressão, bem como definir uma estratégia para atacar estes dois pontos de interrogação, nomeadamente formas e exequibilidade de drenar ou baixar o nível tanto do sifão como da passagem superior (na sequência da sala 2).

O volume de água presente no lago e na passagem submersa que dele parte é desconhecida mas aparenta ser massivo, atendendo aliás à profundidade que atinge naquele local em concreto. O Hugo refere que não tinha pé junto à parede de onde surge a passagem que constitui o sifão.

Será sempre mais fácil drenar a água da passagem superior para este sifão uma vez que estaríamos a utilizar a gravidade, mas também aqui desconhecemos a extensão da passagem submersa, e como tal o volume de água em causa.

A primeira opção afigura-se também logisticamente mais complicada, impondo a colocação de uma mangueira desde o sifão inicial até a este novo sifão, o que exigirá algo como 150 ou 200m, a ser estendida por passagem estreitas e complicadas de navegar, e com água na esmagadora maioria da sua extensão.

Mas será possivelmente esta que tentaremos implementar já no próximo sábado, havendo possibilidade equipa para tal. Não será fácil e em termos físicos a coisa vai ser dura mas não podemos fugir a ela. O potencial de progressão é real, especialmente se estivermos certos e ser aquele o ponto em que se juntam dois cursos de água distintos.

No regresso houve oportunidade para uma primeira abordagem na exploração da segunda chaminé deste novo troço da galeria principal (desde a Passagem da Concertina até ao Lago/Sifão). Primeiro eu e depois o Hugo tentámos subir um pouco, com o apoio de quem estava por baixo, no sentido de perceber se existe alguma forma de progressão ou acesso a um nível superior. Não foi completamente esclarecedor pelo que reservamos uma opinião definitiva após uma segunda tentativa.



Depois  o longo caminho de volta até à superfície, tendo-os reunido na sala na base do segundo poço para re-equipar e um repor energias.

Esperemos que a próxima semana nos traga mais novidades.


Um abraço,
Alexandre Leal 


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Algar da Arroteia

Chão das Pias, Planalto de Santo António

29 de Julho de 2017




Coordenação-Alexandre Leal (NEL), Marco Dias (NEL)
Equipa 1 - Alexandre Leal (NEL),  Hugo Costa (NEL) e Bruno Pais (AESDA/GEM)
Equipa 2-  Marco Dias (NEL), Orlando Elias (NEL),  Flávio Lucas (NEL) e 
                  João Ferreira  (NEL)




Depois do esforço da semana anterior, prometendo avanços na ponta de exploração, o regresso à Arroteia estava indubitavelmente marcado por uma estranha sensação de euforia contida por um presságio agoirento. 

Nunca o cheguei a referir mas estava relativamente preocupado com a dinâmica, por ora ainda desconhecida, dos níveis de água na zona a jusante do sifão.

À excepção dos "crónicos" pontuais a chegada a conta gotas dos membros da equipa e o arrastar da preparação para a descida não ajudava à sensação de inquietude... a solução encontrada foi mesmo pegar no material de equipagem e subir a encosta em direcção à boca do algar.

Estava na altura de começarem os trabalhos e aqui tudo começa pela equipagem do poço de entrada... Lá peguei no equipamento e fui encosta acima para me estrear na equipagem da Arroteia.  

As equipas e objectivos estavam traçados. A equipa da ponta  de exploração (Equipa 1) seria constituída por mim e pelo Hugo Costa numa primeira linha, com uma segunda linha de suporte e colocação de uma bomba para a drenagem da passagem após a Pedra do Demo  constituída por Flávio Lucas e Bruno Pais. Os restantes membros formariam a equipa de levantamento topográfico (Equipa 2), que tinha como objectivo principal realizar uma segunda topografia da cavidade por forma a confirmar suspeitas sobre um possível erro em topografias anteriores, levantadas pelo olhar atento do Orlando Elias.

Enquanto se preparava o DistoX eu e o Hugo abrimos as "hostilidades" e seguimos o nosso caminho até nos depararmos com o sifão fechado, e a bomba... bem, a bomba não estava a bombar.

Escusado será dizer que tal facto não fez milagres para dissipar as minhas preocupações, e a moral das tropas,  que entretanto tinham chegado, ficou algo comprometida.

Urgia solucionar o problema e abrir o sifão para permitir a passagem, o que acabou por ser mais fácil do que antecipado. Na realidade bastou um pequeno puxão na tubagem (que acabou também por endireitar um vinco na tubagem ali existente) e prontamente sentimos a bomba a entrar em acção... O processo em si seria ainda algo demorado pelo que se aproveitou para corrigir algumas pontos críticos já identificados, analisar o meandro e a sala que antecede o sifão, e ir controlando o funcionamento da bomba colocada na represa na base do poço em conjunção com a bomba do sifão, uma vez que funcionam em sequência, com prioridade para a primeira.

E lentamente o nível no sifão foi baixando. Na linha da frente, com o neoprene vestido, o Bruno aguardava o momento de passagem, que eventualmente veio, marcando o princípio da segunda etapa do dia. Com calma mas com muita determinação e atenção redobrada colocámos-nos a caminho da ponta de exploração... 

Para a frente acabou por avançar apenas o Hugo, eu e o Bruno, tendo o Flávio ficado para trás para ir controlando as coisas, tendo sido esta a ordem de progressão a partir da Pedra do Demo, atento aos esforços de desobstrução que seriam necessários realizar  na Passagem da Concertina.

Aqui, apertados, em posições muito pouco confortáveis, e já completamente encharcados, laborámos por cerca de 40 minutos até que, num esforço progressivo e determinado, o Hugo conseguiu passar para o outro lado. A primeira batalha estava ganha, e cerca de 10 ou 15 minutos depois tínhamos a passagem alargada o suficiente para eu conseguir passar (apesar do desconforto causado pelas dores na zona lombar - que teimam em não passar).

Com o neoprene vestido o Bruno estava bem mais confortável na água, mas a liberdade de movimentos estava claramente prejudicada. Após uma breve tentativa era evidente que não conseguiria passar, pelo que tomou a decisão de retroceder até à zona seca intermédia, para aí tirar o fato e voltar a tentar. Enquanto isso nós iríamos avançar "um pouco"...

Do outro lado da passagem um pequeno espaço de pouco mais de 1m, dominado por uma enorme chaminé que se estendia para cima cerca de 10 ou 15m. Em frente um bloco "escondia" a continuação da passagem parcialmente submergida que vínhamos a seguir. 

A chaminé encontrada na sequência da Passagem da Concertina.

E a galeria continua já ali... é só descer, de novo, para a água gélida.
Por esta altura já o Hugo se arrastava por águas nunca antes navegadas e eu, arrepiando caminho (pun intended),  mergulhei na escuridão gélida de uma passagem de dimensões bastante mais confortáveis,  que permitia ao rio continuar a sua viagem de forma mais desafogada (yes, yes, pun intended). Uma autêntica auto-estrada que teimava em continuar para além do nosso horizonte, determinado pelo limitado alcance da nossa luz.

Confesso ter alguma dificuldade em precisar a extensão da passagem até ao "Lago Nebuloso", ponto que marcou o fim da nossa progressão, por múltiplas razões (forma de deslocação, ritmo acelerado, atenção fixada no percurso à nossa frente e possíveis pontos de risco ou passagens secundárias, a água e a sua temperatura, etc), mas diria que não menos de 100m de passagem virgem.



Uma (muito) pequena passagem lateral. Um dos vários pontos que canaliza água e
alimenta o caudal da passagem.


Omnipresente uma grande fractura no tecto de toda a passagem que, no contexto da cavidade, parece indicar ser este o nível inferior de um grande meandro superior, que serpenteia algures por cima de nós, ainda desconhecido.

Pelo meio uma segunda chaminé, de menor dimensão que a primeira mas ainda assim bastante relevante, que subirá pela escuridão cerca de 7 ou 8m (parte visível) num ângulo de cerca de 70º, o que facilitará a sua exploração, e um nicho lateral coberto de escorrências e algumas formações disformes, fruto dos multiplos buracos e pequenas chaminés que permitem uma abundante infiltração de água. Este nicho necessita de uma análise mais atenta numa próxima saída.

A chaminé apresenta-se algo apertada mas deverá permitir a progressão
em grande parte do que é visível.
















Por fim o "Lago Nebuloso"... Do nicho lateral a base da passagem vai-se elevando lenta mas  progressivamente até revelar  um manto branco que cobre o fundo, para cerca de 3 ou 4 metros mais à frente se precipitar novamente na água, desta feita de forma mais abrupta e profunda, num lago  que apresenta uma quantidade bastante elevada de sedimentos, e que rapidamente tornaram a água bastante turva. 

E é esta camada de sedimento, acumulada nesta zona mais profunda da passagem, que dificulta a percepção da real profundidade da água neste "lago".



Deste ponto sobranceiro era visível um passagem, de dimensões bastante mais reduzidas, que se prolongava para a nossa direita, uma clara forma de progressão.

No lado oposto do lago uma pequena reentrância levanta dúvidas sobre os seus reais contornos. Tudo indica que seja apenas isso, uma pequena reentrância na perímetro relativamente bem definido da área, mas não se pode descartar a possibilidade de ser uma outra passagem, a seguir em direcção oposta.

A estreita passagem que se desenvolve para a direita do lago.













Visível ao centro a reentrância supra mencionada.
Por esta altura a temperatura da água começava já a ter um impacto real as nossas capacidades físicas. Os músculos estavam já muito "pesados" e a movimentação parecia feita em câmara lenta. O constante tremer não ajudava... e antes que a descida da temperatura corporal começasse a afectar o discernimento e capacidade de avaliação dei por terminado os trabalhos, até porque o caminho de regresso e a Passagem da Concertina seriam duros.



Neste ponto reencontrámos o Bruno, que confirmou não ter conseguido passar.  Torna-se imprescindível alargar um pouco mais esta estreiteza por forma a permitir a passagem de um maior número de operacionais, até por questões de segurança.

Na sala das refeições  fizemos uma pequena pausa para uma refeição rápida e necessariamente ligeira, e recuperar as forças para a subida à superfície, com o sentido de dever cumprido.

Não obstante um início algo complicado a exploração revelou-se um sucesso, com ambas as equipas a cumprir os objectivos traçados.

Estou bastante interessado em ver o que a poligonal revela, nomeadamente em termos de direcção da progressão.

O regresso está marcado para o próximo dia 12 de Agosto, com uma merecida semana de descanso pelo meio... pode ser que dê para recuperar as costas (ainda que ligeiramente), embora tenha muitas dúvidas!!

Um abraço encharcado e frio,
Alexandre Leal