Algar da Arroteia
Chão das Pias, Planalto de Santo António
29 de Julho de 2017
Coordenação-Alexandre Leal (NEL), Marco Dias (NEL)
Equipa 1 - Alexandre Leal (NEL), Hugo Costa (NEL) e Bruno Pais (AESDA/GEM)
Equipa 2- Marco Dias (NEL), Orlando Elias (NEL), Flávio Lucas (NEL) e
João Ferreira (NEL)
Por fim o "Lago Nebuloso"... Do nicho lateral a base da passagem vai-se elevando lenta mas progressivamente até revelar um manto branco que cobre o fundo, para cerca de 3 ou 4 metros mais à frente se precipitar novamente na água, desta feita de forma mais abrupta e profunda, num lago que apresenta uma quantidade bastante elevada de sedimentos, e que rapidamente tornaram a água bastante turva.
Equipa 2- Marco Dias (NEL), Orlando Elias (NEL), Flávio Lucas (NEL) e
João Ferreira (NEL)
Depois do esforço da semana anterior, prometendo avanços na ponta de exploração, o regresso à Arroteia estava indubitavelmente marcado por uma estranha sensação de euforia contida por um presságio agoirento.
Nunca o cheguei a referir mas estava relativamente preocupado com a dinâmica, por ora ainda desconhecida, dos níveis de água na zona a jusante do sifão.
À excepção dos "crónicos" pontuais a chegada a conta gotas dos membros da equipa e o arrastar da preparação para a descida não ajudava à sensação de inquietude... a solução encontrada foi mesmo pegar no material de equipagem e subir a encosta em direcção à boca do algar.
Estava na altura de começarem os trabalhos e aqui tudo começa pela equipagem do poço de entrada... Lá peguei no equipamento e fui encosta acima para me estrear na equipagem da Arroteia.
As equipas e objectivos estavam traçados. A equipa da ponta de exploração (Equipa 1) seria constituída por mim e pelo Hugo Costa numa primeira linha, com uma segunda linha de suporte e colocação de uma bomba para a drenagem da passagem após a Pedra do Demo constituída por Flávio Lucas e Bruno Pais. Os restantes membros formariam a equipa de levantamento topográfico (Equipa 2), que tinha como objectivo principal realizar uma segunda topografia da cavidade por forma a confirmar suspeitas sobre um possível erro em topografias anteriores, levantadas pelo olhar atento do Orlando Elias.
Enquanto se preparava o DistoX eu e o Hugo abrimos as "hostilidades" e seguimos o nosso caminho até nos depararmos com o sifão fechado, e a bomba... bem, a bomba não estava a bombar.
Escusado será dizer que tal facto não fez milagres para dissipar as minhas preocupações, e a moral das tropas, que entretanto tinham chegado, ficou algo comprometida.
Urgia solucionar o problema e abrir o sifão para permitir a passagem, o que acabou por ser mais fácil do que antecipado. Na realidade bastou um pequeno puxão na tubagem (que acabou também por endireitar um vinco na tubagem ali existente) e prontamente sentimos a bomba a entrar em acção... O processo em si seria ainda algo demorado pelo que se aproveitou para corrigir algumas pontos críticos já identificados, analisar o meandro e a sala que antecede o sifão, e ir controlando o funcionamento da bomba colocada na represa na base do poço em conjunção com a bomba do sifão, uma vez que funcionam em sequência, com prioridade para a primeira.
E lentamente o nível no sifão foi baixando. Na linha da frente, com o neoprene vestido, o Bruno aguardava o momento de passagem, que eventualmente veio, marcando o princípio da segunda etapa do dia. Com calma mas com muita determinação e atenção redobrada colocámos-nos a caminho da ponta de exploração...
Para a frente acabou por avançar apenas o Hugo, eu e o Bruno, tendo o Flávio ficado para trás para ir controlando as coisas, tendo sido esta a ordem de progressão a partir da Pedra do Demo, atento aos esforços de desobstrução que seriam necessários realizar na Passagem da Concertina.
Aqui, apertados, em posições muito pouco confortáveis, e já completamente encharcados, laborámos por cerca de 40 minutos até que, num esforço progressivo e determinado, o Hugo conseguiu passar para o outro lado. A primeira batalha estava ganha, e cerca de 10 ou 15 minutos depois tínhamos a passagem alargada o suficiente para eu conseguir passar (apesar do desconforto causado pelas dores na zona lombar - que teimam em não passar).
Com o neoprene vestido o Bruno estava bem mais confortável na água, mas a liberdade de movimentos estava claramente prejudicada. Após uma breve tentativa era evidente que não conseguiria passar, pelo que tomou a decisão de retroceder até à zona seca intermédia, para aí tirar o fato e voltar a tentar. Enquanto isso nós iríamos avançar "um pouco"...
Do outro lado da passagem um pequeno espaço de pouco mais de 1m, dominado por uma enorme chaminé que se estendia para cima cerca de 10 ou 15m. Em frente um bloco "escondia" a continuação da passagem parcialmente submergida que vínhamos a seguir.
![]() |
| A chaminé encontrada na sequência da Passagem da Concertina. |
![]() |
| E a galeria continua já ali... é só descer, de novo, para a água gélida. |
Por esta altura já o Hugo se arrastava por águas nunca antes navegadas e eu, arrepiando caminho (pun intended), mergulhei na escuridão gélida de uma passagem de dimensões bastante mais confortáveis, que permitia ao rio continuar a sua viagem de forma mais desafogada (yes, yes, pun intended). Uma autêntica auto-estrada que teimava em continuar para além do nosso horizonte, determinado pelo limitado alcance da nossa luz.
Confesso ter alguma dificuldade em precisar a extensão da passagem até ao "Lago Nebuloso", ponto que marcou o fim da nossa progressão, por múltiplas razões (forma de deslocação, ritmo acelerado, atenção fixada no percurso à nossa frente e possíveis pontos de risco ou passagens secundárias, a água e a sua temperatura, etc), mas diria que não menos de 100m de passagem virgem.
![]() |
| Uma (muito) pequena passagem lateral. Um dos vários pontos que canaliza água e alimenta o caudal da passagem. |
Omnipresente uma grande fractura no tecto de toda a passagem que, no contexto da cavidade, parece indicar ser este o nível inferior de um grande meandro superior, que serpenteia algures por cima de nós, ainda desconhecido.
Pelo meio uma segunda chaminé, de menor dimensão que a primeira mas ainda assim bastante relevante, que subirá pela escuridão cerca de 7 ou 8m (parte visível) num ângulo de cerca de 70º, o que facilitará a sua exploração, e um nicho lateral coberto de escorrências e algumas formações disformes, fruto dos multiplos buracos e pequenas chaminés que permitem uma abundante infiltração de água. Este nicho necessita de uma análise mais atenta numa próxima saída.
![]() |
| A chaminé apresenta-se algo apertada mas deverá permitir a progressão em grande parte do que é visível. |
Por fim o "Lago Nebuloso"... Do nicho lateral a base da passagem vai-se elevando lenta mas progressivamente até revelar um manto branco que cobre o fundo, para cerca de 3 ou 4 metros mais à frente se precipitar novamente na água, desta feita de forma mais abrupta e profunda, num lago que apresenta uma quantidade bastante elevada de sedimentos, e que rapidamente tornaram a água bastante turva.
E é esta camada de sedimento, acumulada nesta zona mais profunda da passagem, que dificulta a percepção da real profundidade da água neste "lago".
Deste ponto sobranceiro era visível um passagem, de dimensões bastante mais reduzidas, que se prolongava para a nossa direita, uma clara forma de progressão.
No lado oposto do lago uma pequena reentrância levanta dúvidas sobre os seus reais contornos. Tudo indica que seja apenas isso, uma pequena reentrância na perímetro relativamente bem definido da área, mas não se pode descartar a possibilidade de ser uma outra passagem, a seguir em direcção oposta.
![]() |
| A estreita passagem que se desenvolve para a direita do lago. |
![]() |
| Visível ao centro a reentrância supra mencionada. |
Por esta altura a temperatura da água começava já a ter um impacto real as nossas capacidades físicas. Os músculos estavam já muito "pesados" e a movimentação parecia feita em câmara lenta. O constante tremer não ajudava... e antes que a descida da temperatura corporal começasse a afectar o discernimento e capacidade de avaliação dei por terminado os trabalhos, até porque o caminho de regresso e a Passagem da Concertina seriam duros.
Neste ponto reencontrámos o Bruno, que confirmou não ter conseguido passar. Torna-se imprescindível alargar um pouco mais esta estreiteza por forma a permitir a passagem de um maior número de operacionais, até por questões de segurança.
Na sala das refeições fizemos uma pequena pausa para uma refeição rápida e necessariamente ligeira, e recuperar as forças para a subida à superfície, com o sentido de dever cumprido.
Não obstante um início algo complicado a exploração revelou-se um sucesso, com ambas as equipas a cumprir os objectivos traçados.
Estou bastante interessado em ver o que a poligonal revela, nomeadamente em termos de direcção da progressão.
O regresso está marcado para o próximo dia 12 de Agosto, com uma merecida semana de descanso pelo meio... pode ser que dê para recuperar as costas (ainda que ligeiramente), embora tenha muitas dúvidas!!
Um abraço encharcado e frio,
Alexandre Leal














Sem comentários:
Enviar um comentário