sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Algar da Arroteia

Chão das Pias, Planalto de Santo António

12 de Agosto de 2017




Coordenação-Alexandre Leal (NEL), Marco Dias (NEL)
Equipa 1 - Alexandre Leal (NEL),  Hugo Costa (NEL), António Fael (NEL) e 
                   Paulo Cardoso (NEL)
Equipa 2-  Marco Dias (NEL), João Fael (NEL)




António Fael na sua primeira tentativa na "Passagem da Concertina" 



Com a fasquia colocada bem alto pelos desenvolvimentos da exploração na semana anterior partimos hoje com a expectativa de poder bater esse desempenho e, quiçá, finalmente descobrir uma forma de progressão que nos permita baixar deste nível suspenso.

Com os objectivos traçados, a equipa da frente iria avançar de imediato até ao lago e progredir à partir desse ponto, tendo como objectivos secundários a verificação da segunda chaminé, enquanto o Marco e o João iria continuar os trabalhos de topografia.

Obviamente coisas não seriam assim tão fáceis (nunca são assim tão fáceis), e para começar em grande mais um balde de água fria à chegada ao sifão. 

Sim, adivinharam, estava novamente fechado... mais uma angustiante e lenta espera até que a água baixasse o suficiente para se poder passar, o que pareceu uma eternidade.

Enquanto isso, e para obviar, ou pelo menos reduzir riscos potenciais, colocaram-se as duas bombas a funcionar em simultâneo através da colocação de um "T" no quadro, tendo o Marco, posteriormente, colocado a bomba do sifão numa nova posição, mais estável, por forma a reduzir a chance da bóia ficar presa e comprometer a sua activação.

 E o nível da água ia baixando lentamente, muito lentamente... e assim que foi possível lá nos metemos pela água dentro e começamos a marcha até ao primeiro ponto crítico, a "Passagem da Concertina". 

A ordem de progressão lógica ditava que fosse o Hugo à frente, e eu logo atrás, uma vez que já havíamos passado na semana anterior. Restava saber se os restantes membros da equipa conseguiriam passar ou se seria necessário trabalhos de desobstrução suplementar com vista ao alargamento da passagem na sua parte final.

Coube ao Fael fazer essa tentativa, que se veio a revelar infrutífera. O peito teimava em não conseguir esgueirar-se por uma zona onde as formações de lama eram mais salientes. Um pequeno depósito de calcite no chão também não facilitava o trabalho.

Nada que não se conseguisse resolver com o recurso às ferramentas que tinha-mos no local, prontas exactamente para fazer face a estas eventualidades. Por uma questão de facilidade optámos por atacar a parede da esquerda (da nossa perspectiva) embora tenhamos também reduzido um pouco os pontos mais críticos do lado direito.

Em menos de 20 minutos o Fael estava a fazer a sua segunda tentativa, desta feita coroada de êxito, e logo atrás vinha o Paulo. Em menos de nada tínhamos toda a equipa para além da "Concertina" e pronta para se fazer às águas da galeria seguinte... que estava, bem, estava fria. Estou em crer que o Fael na próxima leva um neoprene completo.



Chegados ao lago, e com dois pontos de interesse para analisar, e após uma primeira abordagem do Fael ao lago, que indicava desde logo a possibilidade de desenvolvimento submerso, dividimos a equipa em dois. 

O Fael e eu fomos explorar a passagem da direita, que se designou por "Passagem dos Açores", e o Paulo Cardoso e o Hugo ficaram explorar os contornos do lago.

O acesso à  Passagem dos Açores é dominado pela presença de uma camada espessa de lama relativamente instável, que se desprende facilmente do seu bordo, embora nada que seja particularmente difícil de transpor. Na verdade antes de dar por isso já o Fael estava a caminho, rastejando por uma passagem de argila muito mole, fruto da água que escorre da salas superiores, e onde importava distribuir o peso para evitar ficarmos atolados.

Vista para a frente da passagem.

Olhando para trás, em direcção ao lago/sifão.

Da zona do lago vinha a confirmação da existência de uma passagem abaixo do nível da água na zona oposta à entrada, e que parecia constituir um grande sifão uma vez que o som que a água fazia ao ser agitada indicaria a possibilidade de uma zona a seco mais à frente.

Em sentido ligeiramente ascendente fomos avançando e à minha frente referiu o Fael que a passagem estava a afunilar, que talvez fosse necessário uma desobstrução. Avaliação  rapidamente alterada pela percepção de uma pequena passagem para uma zona que aparentava ser mais ampla. Pouco tempo   depois a sua voz projectada para testar o eco revela uma zona de dimensão bastante diferente das passagens e salas que encontrámos neste sector da cavidade.



É enorme referiu ele...

E de facto a passagem revelou uma sala dominada por uma enorme chaminé, com uma presença muito assinalável de lama e argila que formava uma rampa ao longo de uma das paredes de maior dimensão. Também de assinalar a presença bastante relevante de areia escura, com uma granularidade  relativamente fina, bastante mais fina do que, por exemplo, a encontrada na Galeria Spe66 na Gruta da Contenda.


Primeira visão da grande chaminé que domina a primeira sala.

No lado oposto uma estreita fenda daria acesso a uma outra passagem ou sala, e potencialmente forma de continuar a progredir.


Foi efectuada uma primeira tentativa de passar este ponto estreito, levada a cabo por mim, mas cuja abordagem não foi a mais indicada (tentei passar com os pés para a frente) o que acabou por determinar o seu insucesso.




 A solução era evidente, trazer o Hugo para a frente, e testar a estreiteza novamente. Estava confiante que ele conseguiria passar visto que por muito pouco não o tinha eu conseguido. E não me enganei.

Foi tirar o capacete, deitar-se,  um pequeno esforço e lá estava ele do outro lado. E fizera-o de cabeça para a frente... ora como não sou de me ficar atrás, pelo menos sem dar luta, lá me atirei de novo para a lama e lentamente fui forçando o peito até ser "expelido" pelo outro lado.

Chaminé da segunda sala.
E diante mim uma sala de forma arredondada, com cerca de metade da dimensão da sala anterior, mas com um teto bem lá em cima, a uma altura em tudo similar ao visto na chaminé da sala contígua. E na sua base acedia-se, mais uma vez, a um volume de água que desaparecia por uma pequena fenda submergida na sua quase totalidade... na verdade pouco mais de 3 ou 4 cm se mantinha acima do nível da água.




Restava perceber qual a via natural de progressão da água.

Seria a via principal a continuação da passagem encontrada na segunda sala ou seria a passagem na sequência do sifão encontrado no lago?

Estas grandes chaminés, tendo em conta, aliás, o grande volume de lamas e argila encontradas na base da primeira e na Passagem dos Açores, a sua dimensão e a sua localização,  debitarão um grande volume de água no inverno. Em carga, deverá cair uma enorme quantidade de água pelas paredes abaixo.

Estariam estas chaminés a engrossar o caudal da passagem submergida na sequência da segunda sala ou seria esta passagem e a água debitada pelas chaminés parte de um novo curso de água que se junta, no lago/sifão mais abaixo, ao curso de água que vem desde a Galeria do Rio, aos -58.

Tudo aponta para esta segunda hipótese, embora não se possa descartar a primeira, e muito menos se deve deixar de explorar esta passagem superior.

Estava na altura de centrar as atenções neste novo sifão, por forma a tentar definir os seus contornos, a possibilidade de progressão, bem como definir uma estratégia para atacar estes dois pontos de interrogação, nomeadamente formas e exequibilidade de drenar ou baixar o nível tanto do sifão como da passagem superior (na sequência da sala 2).

O volume de água presente no lago e na passagem submersa que dele parte é desconhecida mas aparenta ser massivo, atendendo aliás à profundidade que atinge naquele local em concreto. O Hugo refere que não tinha pé junto à parede de onde surge a passagem que constitui o sifão.

Será sempre mais fácil drenar a água da passagem superior para este sifão uma vez que estaríamos a utilizar a gravidade, mas também aqui desconhecemos a extensão da passagem submersa, e como tal o volume de água em causa.

A primeira opção afigura-se também logisticamente mais complicada, impondo a colocação de uma mangueira desde o sifão inicial até a este novo sifão, o que exigirá algo como 150 ou 200m, a ser estendida por passagem estreitas e complicadas de navegar, e com água na esmagadora maioria da sua extensão.

Mas será possivelmente esta que tentaremos implementar já no próximo sábado, havendo possibilidade equipa para tal. Não será fácil e em termos físicos a coisa vai ser dura mas não podemos fugir a ela. O potencial de progressão é real, especialmente se estivermos certos e ser aquele o ponto em que se juntam dois cursos de água distintos.

No regresso houve oportunidade para uma primeira abordagem na exploração da segunda chaminé deste novo troço da galeria principal (desde a Passagem da Concertina até ao Lago/Sifão). Primeiro eu e depois o Hugo tentámos subir um pouco, com o apoio de quem estava por baixo, no sentido de perceber se existe alguma forma de progressão ou acesso a um nível superior. Não foi completamente esclarecedor pelo que reservamos uma opinião definitiva após uma segunda tentativa.



Depois  o longo caminho de volta até à superfície, tendo-os reunido na sala na base do segundo poço para re-equipar e um repor energias.

Esperemos que a próxima semana nos traga mais novidades.


Um abraço,
Alexandre Leal 


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