segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Algares da Curraleira Sul  II e III

Curraleira, São Bento

16 de Dezembro de 2017





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa -Alexandre Leal (NEL), Filipe Santos.




Este sábado apresentava-se com o céu particularmente limpo, ainda que a temperatura fosse tudo menos agradável. Em qualquer caso sem ameaça de chuva as expectativas eram boas.

De volta aos trabalhos de exploração do Algar da Curraleira Sul II ainda antes da hora marcada já nos estávamos a equipar e preparar o material, e em menos de nada tínhamos o algar re-aberto e as ferramentas prontas a retirar um bloco que se encontrava algo instável no perímetro da abertura, e que  havia resistido aos nossos ataques no final da actividade anterior.

A história não se iria repetir e com uma abordagem um pouco mais musculada conseguiu resolver o puzzle, e retirar os blocos em causa por forma a sanear o poço.

O passo seguinte foi retirar uma quantidade considerável de blocos que haviam caído para a base do poço, o que exigiu, no casos dos blocos de maior dimensão, a utilização da marreta para as quebrar e tornar a tarefa exequível, até porque o poço não é particularmente largo.

Antes de dar o lugar ao Filipe re-iniciei os trabalhos de desobstrução do Poço 3, com a fractura de um dos cantos do bloco de maiores dimensões que estava a impedir a descida. Não foi um trabalho tão eficaz como na remoção do bloco no topo do poço mas abriu o caminho para o resto.

Depois foi subir  e passar pelo aperto da saída (sempre agradável) e deixar o Filipe libertar energia.

E após um começo tão complicado quanto a minha primeira abordagem conseguiu perceber o ponto fraco do puzzle, mais um, que nos desafiava e nos impedia de descer. Adequando a actuação a esta nova estratégia o trabalho começou a fluir e a mostrar resultado positivos.

Enquanto o Filipe trabalhava no II fui investigar o pequeníssimo buraco, o Algar da Curraleira Sul III, que mais não parecia do que a toca de um qualquer pequeno roedor, que havia identificado na saída anterior e que tinha já conseguido confirmar a existência de uma vertical na sequência de uma pequena rampa. O diâmetro da abertura mal dava para introduzir a minha mão, mas pouco a pouco, primeiro com a ajuda da uma pá e depois com o pé-de-cabra, lá ia conseguindo alargar a abertura, tentando perceber as suas dimensões, e sobretudo onde estariam as verdadeiras paredes do poço e não apenas mais esta amálgama de blocos mantido minimamente coeso pela presença da terra barrenta. E a verdade é que o Filipe reportou ter ouvido a queda de alguns dos blocos que caíram pelo poço abaixo...

E o Filipe continuava-lhe a dar com força na base do poço de entrada do II. A marreta caía e a pedra cedia.

Os trabalhos foram interrompidos para nos juntarmos por uns breves momentos à celebração na casa abrigo do NEL, afinal de contas era o dia da Associação. Houve tempo para provarmos o Javali  do Orlando, grelhado a gosto na brasa e outros petiscos (e beber um pouco de pólvora em forma de aguardente) e sobretudo falar e discutir um pouco sobre espeleologia. 


Mas os buracos chamavam por nós e lá nos pusemos a caminho. O Filipe de volta à marreta  no II e eu de volta ao pé-de-cabra e pá no III, que indicava uma vertical de cerca de 7 ou 8 metros....até que o Filipe deu por terminado o trabalho de desobstrução. E verdade seja dita não restava muito mais para desobstruir. Grande parte da base do primeiro poço havia desaparecido.

Garantindo que não havia pontos críticos que poderiam estragar o dia caso tivessem um encontro imediato com a gravidade, e como a corda se encontrava relativamente bem centrada, bastou apenas colocar uma manga de roço para garantir que a corda não sofria qualquer tipo de dano num ponto de contacto com a superfície da corda. A descida era pequena, não mais de 3m mas num algar com aquelas características todo o cuidado é pouco.

De referir que já neste  momento sentíamos uma pequena brisa de ar fresco, de que no entanto não era possível identificar a fonte. O mais que provável era  vir de cima, afinal de contas estávamos a cerca de 2,5 da superfície.
Na base deste segundo troço uma segunda sala de pequena dimensões, com várias reentrâncias pequenas a várias alturas nas paredes em meu redor, nenhuma das quais apresentando qualquer forma de progressão, com uma abertura para uma passagem relativamente estreita, a fractura que se via de cima pelo Poço 1 e 2.

Para a frente visão estava bloqueada na quase totalidade por uma saliência na parede da direita (que poderá ser um bloco caído já perfeitamente calcificado).
Para além deste ponto de estrangulamento a fractura parece ter a mesma dimensão do troço onde me encontrava, e subiste a dúvida se curva ligeiramente para a esquerda ou simplesmente afunila e termina.
Também logo após o ponto de estrangulamento existe um pequeno buraco na base junto à parede da direita que parece desenvolver-se em ligeira rampa mas por não mais do que 50 cm, domingo pela presença de formações hipogénicas. Do que me foi possível ver não existe continuação por esta via.

E a brisa parecia vir da frente. Aliás, tal parecia claramente confirmado pelo movimento de uma pequena raiz que pendurada na parede da esquerda mesmo à altura da visão. O seu movimento era contínuo e parecia vir da frente. Estranhamente as gravações efectuadas permitiram-me posteriormente infirmar estas conclusões e concluir pelo oposto.... aparentemente vinha mesmo de trás, e como tal, e com toda a probabilidade, directamente de cima, da abertura. 

Olhando para cima a visão era a da manifestação da violência sob a forma de caos. Blocos de variado tamanho, alguns com uma dimensão bem relevante, encontravam-se amontoados e a preencher várias zonas superiores da fractura, em alguns casos já aparentemente calcificados, mas sempre uma realidade   algo complicada para quem se encontra por baixo de tal potencial risco. 



Com os trabalhos concluídos, e aliás, com o teste feito (em Beta test) a uma nova ferramenta que muito nos ajudará em futuras acções de desobstrução à superfície, estava na altura de voltar a proteger o acesso aos algares, desequipar e colocar-nos à estrada.

Para a semana, em princípio, teremos outros dois algares, nas imediações, para ver, e retomar o ataque ao Algar da Curraleira Sul III. 

O trabalho não para, e nós também não.

Abraço,
Alexandre Leal
   






terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Algares da Curraleira Sul I e II

Curraleira, São Bento

09 de Dezembro de 2017





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa -Alexandre Leal (NEL), Filipe Santos.








Estava eu, a meio da semana, a ponderar os planos para mais uma saída de campo, a ver quem estava disponível e o que se estava a pensar fazer ser, quando o Filipe Santos me falou num buraco que tinha ido ver, um pouco para cima da zona onde tínhamos estado a trabalhar na semana anterior (Paiã). 

Estava tão entusiasmado que até foi comprar uma GoPro para conseguir obter imagens do interior e avaliar a possibilidade de progressão. Confesso que as imagens não me deixaram particularmente  empolgado, mas a verdade é que só podemos tirar conclusões minimamente acertadas após a exploração efectiva da cavidade, ou no mínimo a captação de outras imagens que permitissem ter uma visão mais completa e clara de alguns dos pontos que levantavam algum interesse. 

Era, em qualquer dos casos, um "buraco" novo, que necessitava ser identificado, referenciado e intervencionado, com uma desobstrução e alargamento da pequena entrada visível para que pudesse ser descido. E se este não desse em nada tínhamos outros ali bem perto para ir explorar.

Marcámos para sábado à hora do costume, num pequeno espaço adjacente à estrada imediatamente em frente ao portão do chouso onde se encontrava o algar. Do portão ao buraco não devem ser mais de 100m, e lá como nós com o material às costas, prontos para meter mãos à obra.

E a abertura do algar era assim, como a fotografia à direita mostra. Grande o suficiente para passar o capacete utilizado para filmar o seu interior mas para nada mais. A profundidade ficou estabelecida, "ab initio", em 11,91cm, com a utilização do DistoX. Era, no entanto, necessário alargar a abertura para permitir o nosso ingresso. 

E como ela alargou.

Primeiro começamos por retirar a terra em forma da abertura, por forma a expor a rocha. E foi aí que as surpresas começaram. Os blocos que nos iam surgindo eram de pequena dimensão, mantidos no local por efeito da compactação com a terra. À excepção de uma zona que parecia mais estável, leia-se, rocha firme e de dimensão grande o suficiente para constituir a parede "real" do poço, tudo o resto ia-se mostrando "preso por arames" e tinha que ser retirado para garantir um mínimo de segurança. 

A parede de rocha "maciça" permanecia escondida atrás de um amontoado de rocha e terra, fruto de dinâmicas de abatimento, que parecem relativamente comuns nesta zona circunscrita. Esse facto era bem visível através de uma "janela" situada cerca de 1 metro abaixo da abertura e que permitia ver rocha lisa e maciça 80 ou 90cm mais à frente.




Os trabalhos não foram particularmente demorados mas a descida foi adiada duas vezes pela constatação de elementos de risco que tinham que ser saneados e que se tornavam visíveis apenas quando vistos de determinado ângulo, e num dos casos já na corda. Ainda assim foi um risco calculado, atendendo ao enorme volume de pedra que se encontrava "compactada" em toda a volta da abertura e até uma profundidade de aproximadamente metro e meio, facto que se tornou ainda mais visível durante a subida.

















Atendendo à fragmentação da pedra, à sua dimensão, firmeza e fraca resistência, a utilização do tripé para equipagem da corda sobre a abertura foi inestimável, utilizando-se a oliveira que se encontrava a cerca de 4 ou 5 metros como primeiro ponto de segurança.

Durante a descida foi identificado um nicho a meia altura que deixei para análise aquando da subida, mas que me pareceu dar acesso a um pequeno troço paralelo ao poço (o que se veio a confirmar posteriormente). No fundo, de forma relativamente circular, encontrei uma fenda numa das paredes, coberta com uma densidade considerável de formações hipogénicas, que terminava cerca de um metro mais à frente. Era visível uma continuação vertical muito estreita junto à base mas que não aparenta ter mais de 30 ou 40cm.

Croqui feito de memória, entretanto ligeiramente corrigido com
recurso às imagens captadas. Afunilou-se a base do poço,
e adicionou-se o troço paralelo que parte do nicho a meia altura,
e que efectivamente tem ligação ao poço perto da base.

Atendendo à relativa insegurança potenciada pela presença de muitos blocos e pedras instáveis, algumas presas apenas por terra compactada, no teto do algar em redor da abertura do poço, decidi abortar a descida por parte do Filipe. O trabalho a fazer estava feito, não se justificavam riscos acrescidos.

A última etapa, e que não pode ser, em caso algum,  descurada, passa por garantir o mínimo de segurança e protecção de queda inadvertida, nomeadamente diligenciando-se por bloquear a abertura, sinalizando-se também por esta forma a presença de um "buraco". Utilizaram-se as pedras retiradas bem como alguns galhos e ramos que se conseguiram encontrar. Deverá ser reforçada numa saída posterior.

Como o relógio se mostrava sorridente e marcava apenas 11h10 tínhamos ainda algum tempo antes do almoço. Em cima da mesa tínhamos uma ida a um Algar conhecido na zona pelo Algar das Vacas, que fica ali perto, mas atento às características que a zona envolvente apresentava e de que nos fomos apercebendo durante os trabalhos de exploração do Algar da Curraleira Sul I bem como numa análise rápida após  o término destes, decidimos efectuar uma prospecção mais profunda e num raio mais alargado.

E não demorou muito a identificar um pequeno, muito pequeno, buraco no chão a não mais de 30m de distância. Poderia muito bem ter passado por um pequena toca, mas uma análise rápida parecia indicar a possibilidade de ser vertical após uma pequena rampa. Ficou assinalada e continuámos a nossa busca, o Filipe um pouco mais acima e eu mais para baixo, junto do limite do chouso, sobranceiro à estrada. 

Enquanto me dirigia para um abatimento visível, já muito perto do muro, um pequeno afloramento rochoso chamou-me a atenção. Entre a face de maiores dimensões e uma pequena "barbatana de tubarão", um espaço negro parecia anunciar a possibilidade de um vazio, o que se confirmou com uma pedra que rolava pela escuridão dentro. O espaço era muito reduzido mas tendo em conta que a pedra parecia ter rolado algures para debaixo de mim, decidimos afastar um pouco a terra e expor a base da "barbatana".

Rapidamente percebemos que também deste lado o chão se abria e dava acesso a uma pequena vertical, ainda que de profundidade indefinida. Na verdade as várias pedras atiradas pareciam indicar profundidades contraditórias. Ora não caíam mais de 3 ou 4 metros ora rebolavam para além desta profundidade e indicavam uns 8 ou 10m de possível queda no total.

A decisão era evidente e em menos de três tempos tínhamos transferido a base de operações para esta nova localização, que se designou como Algar da Curraleira Sul II.

À medida que afastávamos a terra, e íamos expondo os blocos que aí se escondiam, percebemos que estávamos a lidar com o mesmo tipo de fenómeno que havíamos encontrado no algar anterior. Parede sólida era coisa de que não havia indício em grande parte do perímetro da abertura, antes um amontoado, um puzzle, constituído por blocos de variada dimensão e forma, que se encaixavam mas sem grande estabilidade, ou dito de outra forma, sem oferecer garantia que não iriam ceder ou cair na pior das ocasiões. Em qualquer dos casos haveria sempre a necessidade de retirar alguns blocos por forma a criar espaço suficiente para se conseguir descer.

Ora se a missão começou bem e a ritmo acelerado de um momento para o outro deparámo-nos  com dois blocos um pouco maiores que bloqueavam o buraco e não obstante se moverem um pouco a verdade é que impendiam a saída um do outro, independentemente dos nossos esforços com o pé-de-cabra. A tal ponto que decidimos interromper os trabalhos para retemperar as forças no Cantinho do Francisco... e não, ainda não foi desta que comi a mão de vaca.

No regresso aos trabalhos a luta com o duo demoníaco continuou durante cerca de quarto de hora mais até que se optou por uma abordagem um pouco mais "pesada", e em menos de nada havia conseguido rachar um dos blocos, o que permitiu ir retirando uma parte aqui, outra ali, até conseguimos limpar aquele "nível", para descobrir-mos um outro nível um pouco mais abaixo que teria que ser também retirado.

A questão, no entanto, complicava-se substancialmente uma vez que a área a intervencionar estava cada vez mais profunda, dificultando os movimentos e tornando as posições muito desconfortáveis. Ou teríamos que alargar a circunferência por forma a conseguirmos ter mais amplitude de movimento e facilidade em alcançar a zona a desobstruir, ou teríamos que encontrar outra opção.

E se bem pensámos melhor executámos... enquanto eu ficava a debater-me com a pedra o Filipe foi buscar reforços na figura de uma grande broca de pedreira, basicamente uma barra de metal com cerca de 2m de altura, que nos iria permitir atacar a pedra de mais força e impacto. Tática que deu um bom resultado alternando com a aplicação de força em alavanca através do pé-de-cabra.


A pouco e pouco lá fomos vencendo os obstáculos até que finalmente conseguimos abrir o suficiente para tentar-mos a sorte. Seria apertadinho, e pouco confortável, e inclusive foi preciso ablar um pouco mais alguns dos pontos mais salientes, mas após algumas tentativas (era preciso encontrar a forma mais segura de descer sem ficar preso numa posição pouco confortável) lá consegui ingressar na primeira câmara da cavidade, uma pequena sala cuja base se encontrava coberta com a muita terra e blocos, alguns de dimensão relevante, que foram caindo durante a desobstrução.

Imediatamente visível era uma pequena passagem para a minha esquerda, que dava acesso a um nicho muito pequeno mas sem saída aparente, e à minha frente o que se veio a revelar serem dois poços estreitos e de difícil acesso, com uma distância entre eles não superior a 80 ou 90cm.

Acesso ao Poço I.

Poço II ligeiramente para a direita do I.

Dada a proximidade dos dois poços, e sobretudo a direcção das fracturas em ambos os casos parece-me pacífico dizer que na verdade são apenas suas aberturas que dão acesso a um espaço vertical comum, ainda que na zona visível do Poço II a profundidade pareça maior, apesar de bloqueada a meio por um bloco caído.

Fiz ainda uma breve prospecção na zona oposta, por baixo da abertura, utilizando o pé-de-cabra para testar entre os blocos, e pela terra dentro. Não encontrei nada que me chamasse a atenção pelo que estava na altura de subir e deixar o Filipe descer para também ele analisar este espaço.

A subida, apesar de algo lenta e chata, não apresentou dificuldades de maior, apesar do capacete ser sempre um elemento desestabilizador.


E se eu não encontrei nada naquele canto o Filipe não estava tão certo disso. Na verdade ele desconfiava que algumas das pedras que havíamos atirado anteriormente do entrada durante o processo de desobstrução haviam rolado para esta área e caído por um qualquer buraco que agora estaria obstruído. E  assim que desceu meteu mãos à obra e não demorou muito a identificar o ponto exacto onde uma pequena abertura se encontrava tapada por vários blocos que para aí rebolaram (Poço III), dando início aos trabalhos de desobstrução e alargamento do acesso a esta vertical.



É possível que também este poço dê acesso à mesma zona  comum que se poderá acender pelos Poços I e II. É possível, aliás, que toda a zona por baixo desta primeira sala seja oca e constitua a base original do poço de entrada, que entretanto, por efeito de abatimento(s), tenha ficado obstruído neste nível por vários blocos caídos, consolidados no local pela terra e outros sedimentos através de uma dinâmica de compactação gradual.

O esforço do Filipe permitiu ir alargando esta abertura a pouco e pouco, ainda que não tivesse dado para introduzir o capacete com a GoPro para permitir obter imagens do seu interior.

Um trabalho a concluir na próxima saída.

E por falar em saída o regresso do Filipe à superfície foi algo mais complicado que a sua descida. Foram precisas várias tentativas, muita persistência e sobretudo muita calma para concluir a tarefa com êxito. Foi épico.





Depois foi arrumar o equipamento, tapar a entrada do algar  com recurso aos blocos retirados durante a desobstrução e aos ramos de um carrasco para garantir que não haveria incidentes ou quedas acidentais.

E para o próximo sábado os trabalhos continuam, antes e depois de um intervalo para o almoço-convívio anual realizado no dia do NEL. Ouvi dizer que vamos ter javali para o menu... ;)

Um  grande abraço,
Alexandre Leal 









segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Algar da Ponta

Paiã, São Bento

02 de Dezembro de 2017




Coordenação - Alexandre Leal (NEL)

Equipa -Alexandre Leal (NEL), Orlando Elias (NEL), Filipe Santos.
Suporte exterior - José Leal.




Algar da Ponta, "Bottomless Pit".




Após uma actividade de prospecção na zona da Paiã, São Bento, levada a cabo na semana passada pelo casal Leal, a que se juntou o Filipe (com resultados muito positivos, atento o seu conhecimento da zona), onde foram identificados alguns algares (alguns dos quais se confirmou posteriormente já estarem cadastrados) e pontos de interesse que importa aferir com mais atenção (um dos casos deverá ser um Pia inutilizada e intencionalmente obstruída), regressámos hoje ao local para atacar o buraco mais pequeno encontrado. O mais pequeno, e talvez também por isso, mas um dos mais interessantes.

Pouco mais de um palmo de escuridão no meio das pedras e de uma terra rica, castanha e "fofa", mas que engolia pedras com um som que prometia espaço vazio para descer. As primeiras estimativas apontavam para os 10m, mas tínhamos a consciência que era um exercício um pouco extemporâneo e certamente difícil atendendo ao facto de as pedras não caírem a pique, antes rebolando e passando por zonas onde o impacto indicava não rocha dura mas terra, que amortecia o som e por vezes paravas os "projecteis".

Ao contrário do esperado encontrámos um dia solarengo e ameno, muito ameno atendendo à época do ano em que estamos. Uma vez que o dia começou com um pequeno incidente com o meu despertador (o raio do iPhone "falhou" e não deu sinal de vida à hora marcada), foi chegar ao local, vestir e começar a trabalhar, ainda que com a equipa reduzida, uma vez que o Orlando chegaria mais tarde.

Com as condições do local a ajudarem rapidamente começamos a alargar o "buraco", e de um palmo de diâmetro, tirando pedra daqui, bloco dali, terra de acolá, a verdadeira dimensão da boca do algar lá ia surgindo, se bem que sempre com a presença de muita terra "solta" no perímetro, e que, não obstante os nossos esforços, lá ia caindo a jorros pelo poço abaixo.



E no meio, bem no centro do buraco, um enorme bloco nos desafiava... Fomos escavando à volta, retirando outros blocos que se encontravam posicionados em sua volta, alargando ligeiramente o perímetro, mas sempre com bastante cuidado.

O risco de ele cair e poder bloquear o poço era para nós, com a informação que tínhamos, bem real, por isso fomos avançando com calma, tentando reduzir a sua dimensão com recurso ao martelo e ponteiro, com calma e paciência, e posteriormente com a mega-maceta do Orlando (que tinha aparecido e desaparecido num piscar de olhos), até que chegámos à conclusão que aquele era mesmo um trabalho indicado para o Orlando. 


Só teríamos que aguardar um pouco mais... e entretanto chegara o dono do terreno, que entre conversa puxa conversa lá nos disse que a 10 ou 20m de nós havia mais uns quantos algares, "o terreno é muito algarento aqui em cima". Ui, e lá como nós ver do que falava ele.

Um dos algares era supostamente muito fundo e largo o suficiente para "engolir" uma bezerra de 1 ano que lá terá caído, mas que se encontrava agora bloqueada com uma chapa e terra por cima (e que posteriormente confirmamos estar mesmo entulhada com terra), Algar 2. Perto estavam duas pequenas aberturas gémeas (Algar 3) e um pouco para o lado, já muito perto do muro do chouso, um outro algar com claros indícios de ter já sido descido (identifiquei pelo menos um spit colocado na cabeceira do mesmo), Algar 4.

Algar 2.

Algar 2, plano mais aproximado.
Algar 3.



Algar 4.
Com grande probabilidade estarão todos interligados, ainda que não seja humanamente possível estabelecer a passagem entre todos. Durante a parte da tarde, quando retomámos a exploração, e enquanto eu e o Orlando estávamos a discutir vários pontos relacionados com exploração, incluíndo o andamento do projecto da Arroteia, no fundo do algar, foi-nos dito à saída que nos conseguiam ouvir não da boca do Algar da Ponta, onde estávamos, mas de um dos outros algares acima identificados. O som vinha claramente de lá, até porque atendendo às características do poço de entrada do Algar da Ponta, com muita terra acumulada nas paredes, e com um caminho pouco directo para a superfície, o som muito dificilmente chegava lá acima, mesmo quando gritávamos alguma instrução lá para cima.


Mas isso ficaria para depois que entretanto o Orlando havia chegado e colocámos mãos à obra no sentido de remover a pedra e desbloquear o caminho.

Com persistência, e utilizando uma variada de técnicas de desobstrução, o bloco acabou por ser reduzido a uma pálida sombra do que havia sido, e com calma lá se foram retirando os vários blocos que daí resultaram, fazendo uso do tripé construído pelo Filipe, e que fora aliás depois utilizado como ponto de amarração colocado sobre o buraco para facilitar a primeira abordagem ao algar.

Deixaríamos para depois a equipagem mais permanente.

Fazendo uso de uma ponte de pedra sobranceira ao buraco e o tripé para posicionar e centrar a corda, já equipado, estava na altura de descer e ver o que a sorte nos traria.



Cerca de dois metros mais abaixo tornou-se necessário recentrar a corda, o que se acabou por fazer não colocando um desviador no poço mas no próprio tripé, com a utilização também de uma manga de protecção para proteger a corda de um roço bem identificado.

Lá dentro o ar estava bastante seco e sobretudo muito poeirento, resultado da muita quantidade de terra que foi caindo durante os trabalhos de desobstrução, e também com a minha descida. Tanto que o efeito que tinha na luz do frontal era similar ao sol no deserto, desfocando e dificultado a percepção em termos de detalhe e de profundidade. Tanto que a dado ponto me tive de socorrer de uma pedra para tentar perceber quanto mais o poço de estendia para baixo de mim. Da minha perspectiva e com a visão distorcida por aquele névoa de poeira e terra, parecia não ter fundo, quando na verdade o fundo estava "já ali".

Na base, uma pequeno espaço arredondado coberta pelo grande volume de terra que, como havia já referido, havia caído durante os trabalhos de desobstrução, uma estreita abertura dava para um pequena passagem perpendicular, a fractura que parece controlar estruturalmente não só esta cavidade como os outros algares supra referidos.  Para a esquerda a fractura reduzia-se e quase desaparecia, mas para a direita prometia possibilidade de desenvolvimento.

Enorme quantidade depositada na base do "Bottomless Pit".
Abertura da base do poço que dá acesso à passagem perpendicular.

Vista para a esquerda na passagem.

Vista para a direita.

Pequeno nicho situado sob o bloco um grande bloco caído sobre a fractura.
Além do bloco visível no final da passagem a fractura afunilava e tornava-se bastante estreita, demasiado estreita para se poder passar. Mas a esse facto juntava-se a certeza que a fractura se estendia também na vertical. A pedra atirada por cima do bloco caiu talvez uns 10m...

Restava perceber se a fractura que aqui estreitava não alargava um pouco mais à frente, permitindo ter alguma esperança real de progressão, tanto na horizontal como sobretudo na vertical. 

Tendo em conta a hora e a possibilidade muito real de  vir a ser necessário uma intervenção mais musculada no sentido de alargar a passagem e equipar a vertical, decidi subir e dar por terminado os trabalhos na parte de manhã. 

Estava na altura de ir recuperar as forças para o Cantinho do Francisco, que para mal dos meus pecados, que devem ser legião, voltava a não ter mão de vaca...

De regresso o Orlando equipou o poço já sem ser necessário a utilização do tripé, tendo colocado um fracionamento a cerca de, sensivelmente, 4 ou 5 metros da base.

Um dos pontos que o Orlando relatou ao iniciar a sua descida, e que eu na altura não atribui particular importância confesso, foi que o buraco estava mais quente, facto que confirmei aquando da minha descida, logo após a entrada do Filipe. A cavidade apresentava-se efectiva e significativamente mais quente do que a tínhamos encontrado de manhã. A tal ponto que me veio à cabeça estar a entrar numa sauna, ainda que muito seca, tal era o diferencial de calor para a superfície.

Lá em baixo já o Orlando dissecava as hipóteses de progressão, e o veredicto não era positivo. De facto a fractura, apesar de afundar após o bloco caído, não apresentava grandes hipóteses de progressão. O esforço seria considerável sem grandes probabilidades de "retorno" uma vez que não se conseguia vislumbrar, com alguma certeza, qualquer zona um pouco mais larga, nem tão pouco que o poço em si tivesse alguma possibilidade de continuação. 

Visão da fractura a partir do nicho situado sob o bloco no final
da passagem. 
Aliás, a profundidade da fractura não era sequer uniforme, uma vez que as pedras atiradas umas vezes caiam não mais que 4 ou 5 metros, enquanto que noutros casos pareciam cair o dobro ou o triplo da distância, especialmente quando encontravam um pequeno espaço para a direita. No cômputo geral a avaliação feita foi a de que neste momento, e sem mais informação relevante, não se justificava tentar desobstruir e alargar a fractura por forma a testar a possibilidade, remota, de progressão.




Será ainda necessário efectuar a topografia esta cavidade E explorar os restantes algares situados no enfiamento desta fractura, que claramente parece ser a falha que determina e controla a existência dos mesmos.

Restava-nos apenas subir, desequipar o poço e cobrir a abertura, o que fizemos com o recurso às pedras retiradas durante a desobstrução e a um conjunto de ramos de oliveira que foram recolhidos do chão naquela parte do chouso, sob o olhar atento mas ainda desconfiado da matilha do Samuel da Costa, que entretanto havia chegado.

Mais um dia de exploração, mais um dia de experiência no terreno, mais uma aprendizagem. E com o Orlando há sempre muito para aprender. O Filipe esteve cinco estrelas, mas isso já não é novidade para mim, e o seu tripé é uma ferramenta que pode dar muito jeito não só em trabalhos de desobstrução como para equipagens em aberturas muito estreitas e mesmo em salvamentos.

E para já sabem, para a semana há mais... Acho que o Orlando tem um Algar em vista, um que precisa de ser desobstruído. 

Um abraço,
Alexandre Leal