segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Algares da Curraleira Sul  II e III

Curraleira, São Bento

16 de Dezembro de 2017





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa -Alexandre Leal (NEL), Filipe Santos.




Este sábado apresentava-se com o céu particularmente limpo, ainda que a temperatura fosse tudo menos agradável. Em qualquer caso sem ameaça de chuva as expectativas eram boas.

De volta aos trabalhos de exploração do Algar da Curraleira Sul II ainda antes da hora marcada já nos estávamos a equipar e preparar o material, e em menos de nada tínhamos o algar re-aberto e as ferramentas prontas a retirar um bloco que se encontrava algo instável no perímetro da abertura, e que  havia resistido aos nossos ataques no final da actividade anterior.

A história não se iria repetir e com uma abordagem um pouco mais musculada conseguiu resolver o puzzle, e retirar os blocos em causa por forma a sanear o poço.

O passo seguinte foi retirar uma quantidade considerável de blocos que haviam caído para a base do poço, o que exigiu, no casos dos blocos de maior dimensão, a utilização da marreta para as quebrar e tornar a tarefa exequível, até porque o poço não é particularmente largo.

Antes de dar o lugar ao Filipe re-iniciei os trabalhos de desobstrução do Poço 3, com a fractura de um dos cantos do bloco de maiores dimensões que estava a impedir a descida. Não foi um trabalho tão eficaz como na remoção do bloco no topo do poço mas abriu o caminho para o resto.

Depois foi subir  e passar pelo aperto da saída (sempre agradável) e deixar o Filipe libertar energia.

E após um começo tão complicado quanto a minha primeira abordagem conseguiu perceber o ponto fraco do puzzle, mais um, que nos desafiava e nos impedia de descer. Adequando a actuação a esta nova estratégia o trabalho começou a fluir e a mostrar resultado positivos.

Enquanto o Filipe trabalhava no II fui investigar o pequeníssimo buraco, o Algar da Curraleira Sul III, que mais não parecia do que a toca de um qualquer pequeno roedor, que havia identificado na saída anterior e que tinha já conseguido confirmar a existência de uma vertical na sequência de uma pequena rampa. O diâmetro da abertura mal dava para introduzir a minha mão, mas pouco a pouco, primeiro com a ajuda da uma pá e depois com o pé-de-cabra, lá ia conseguindo alargar a abertura, tentando perceber as suas dimensões, e sobretudo onde estariam as verdadeiras paredes do poço e não apenas mais esta amálgama de blocos mantido minimamente coeso pela presença da terra barrenta. E a verdade é que o Filipe reportou ter ouvido a queda de alguns dos blocos que caíram pelo poço abaixo...

E o Filipe continuava-lhe a dar com força na base do poço de entrada do II. A marreta caía e a pedra cedia.

Os trabalhos foram interrompidos para nos juntarmos por uns breves momentos à celebração na casa abrigo do NEL, afinal de contas era o dia da Associação. Houve tempo para provarmos o Javali  do Orlando, grelhado a gosto na brasa e outros petiscos (e beber um pouco de pólvora em forma de aguardente) e sobretudo falar e discutir um pouco sobre espeleologia. 


Mas os buracos chamavam por nós e lá nos pusemos a caminho. O Filipe de volta à marreta  no II e eu de volta ao pé-de-cabra e pá no III, que indicava uma vertical de cerca de 7 ou 8 metros....até que o Filipe deu por terminado o trabalho de desobstrução. E verdade seja dita não restava muito mais para desobstruir. Grande parte da base do primeiro poço havia desaparecido.

Garantindo que não havia pontos críticos que poderiam estragar o dia caso tivessem um encontro imediato com a gravidade, e como a corda se encontrava relativamente bem centrada, bastou apenas colocar uma manga de roço para garantir que a corda não sofria qualquer tipo de dano num ponto de contacto com a superfície da corda. A descida era pequena, não mais de 3m mas num algar com aquelas características todo o cuidado é pouco.

De referir que já neste  momento sentíamos uma pequena brisa de ar fresco, de que no entanto não era possível identificar a fonte. O mais que provável era  vir de cima, afinal de contas estávamos a cerca de 2,5 da superfície.
Na base deste segundo troço uma segunda sala de pequena dimensões, com várias reentrâncias pequenas a várias alturas nas paredes em meu redor, nenhuma das quais apresentando qualquer forma de progressão, com uma abertura para uma passagem relativamente estreita, a fractura que se via de cima pelo Poço 1 e 2.

Para a frente visão estava bloqueada na quase totalidade por uma saliência na parede da direita (que poderá ser um bloco caído já perfeitamente calcificado).
Para além deste ponto de estrangulamento a fractura parece ter a mesma dimensão do troço onde me encontrava, e subiste a dúvida se curva ligeiramente para a esquerda ou simplesmente afunila e termina.
Também logo após o ponto de estrangulamento existe um pequeno buraco na base junto à parede da direita que parece desenvolver-se em ligeira rampa mas por não mais do que 50 cm, domingo pela presença de formações hipogénicas. Do que me foi possível ver não existe continuação por esta via.

E a brisa parecia vir da frente. Aliás, tal parecia claramente confirmado pelo movimento de uma pequena raiz que pendurada na parede da esquerda mesmo à altura da visão. O seu movimento era contínuo e parecia vir da frente. Estranhamente as gravações efectuadas permitiram-me posteriormente infirmar estas conclusões e concluir pelo oposto.... aparentemente vinha mesmo de trás, e como tal, e com toda a probabilidade, directamente de cima, da abertura. 

Olhando para cima a visão era a da manifestação da violência sob a forma de caos. Blocos de variado tamanho, alguns com uma dimensão bem relevante, encontravam-se amontoados e a preencher várias zonas superiores da fractura, em alguns casos já aparentemente calcificados, mas sempre uma realidade   algo complicada para quem se encontra por baixo de tal potencial risco. 



Com os trabalhos concluídos, e aliás, com o teste feito (em Beta test) a uma nova ferramenta que muito nos ajudará em futuras acções de desobstrução à superfície, estava na altura de voltar a proteger o acesso aos algares, desequipar e colocar-nos à estrada.

Para a semana, em princípio, teremos outros dois algares, nas imediações, para ver, e retomar o ataque ao Algar da Curraleira Sul III. 

O trabalho não para, e nós também não.

Abraço,
Alexandre Leal
   






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