Algar do Corvo 1
Azelha, São Bento
08 de Abril de 2019
Coordenação - Alexandre Leal.
Equipa - Alexandre Leal, Leo Mendes
Um pouco mais tarde do que é habitual, mas por volta das 10h45 lá estacionámos o carro e começamos a preparar o material necessário para os trabalhos, incluindo uma verificação do equipamento pessoal do Leo, que ia ter a sua estreia em acção fora de "ambiente controlado".
Obviamente assim que nos começámos a dirigir para o "buraco".... sim, adivinharam, começou a chover!! Não que a chuva fosse particularmente forte, ou a caminhada longa, mas deu para "refrescar" as ideias. Ainda se fez um pequeno compasso de espera, preparando a cabeceira e zona envolvente, antes de tirar e dar uso ao material pesado, o suficiente para abrandar a chuva e posteriormente parar.
Perante a exiguidade da abertura digamos que o Leo não partilhava propriamente o meu optimismo (facto que obviamente desculpei - HEREGE - 😈😂) acerca do sucesso de uma rápida desobstrução. Em abono da verdade não creio que ele acreditasse que iria conseguir descer ao fundo do poço... (Já lhe chamei de HEREGE?!?!).
Por uma questão de segurança coloquei logo a corda numa árvore sobranceira ao trilho para garantir uma maior liberdade de movimentação acautelando qualquer eventual risco.
As dúvidas e a descrença que o assaltavam duraram... para cima de 3 minutos. Com um começo auspicioso na desobstrução e alargamento da entrada logo à primeira "martelada", o buraco foi alargando, de forma consistente. Ora se a largura era reduzida, e foi esse o foco dos trabalhos, verdade é que a abertura se estendia ao longo de cerca de 1m/1,20m ao longo de uma pequena parede formada por um afloramento rochoso, extensão essa que teve que ser limpa e saneada por questões de segurança, uma vez que se encontravam vários blocos aí "encalhados", um dos quais com alguma dimensão, o que obrigou a uma trabalho suplementar para retirar.
Bem mais depressa do que o Leo antecipava (HEREGE 😈) e já eu estava a avaliar a rocha e a pensar na melhor forma de equipar o poço, tendo optado por colocar dois parabolts por forma a garantir que a corda chegasse à base sem tocar em ponto algum, o que se conseguiu com grande sucesso.
Efectuei uma descida rápida para uma análise preliminar do poço e da sua base, não só em termos de segurança, assinalando possíveis pontos mais críticos (a parede oposta, cerca de 1m abaixo da entrada é um ponto de preocupação, que se tem que evitar tocar), como para identificar possíveis pontos de desenvolvimento e progressão e o grau de dificuldade de saída. Neste ponto apesar de chata consegue-se fazer sem grande dificuldade.
Com a segurança garantida estava na altura de "mandar" o Leo para a sua primeira descida em terras do Maciço Central Estremenho, que o fez de forma bastante calma e hábil, atendendo aos constrangimentos normais decorrentes da utilização de um "Stop" com muito pouco uso. A corda por vezes teimava em não correr com a fluidez que se esperava, mas rapidamente tocou no solo, 12,6m mais abaixo.
Já na base, e após uma segunda análise da área, iniciou-se a desobstrução de uma estreita passagem que aparentava ligar a uma segunda sala de pequenas dimensões, mas que o ângulo de visão não permitia fazer tirar grandes conclusões. Tudo levava a crer que uma outra passagem na parede da base do poço iria comunicar com esta zona, precisávamos apenas perceber se haveria forma de progressão para além... e para tal mais não nos restava do que "escavar" a nossa passagem até lá.
E de facto, para nossa sorte, a passagem estava obstruída, na sua base, por uma camada de argila meio seca meio rija, que nos permitiu uma progressão relativamente rápida, especialmente tendo em conta que o material de desobstrução havia ficado todo à superfície à excepção do martelo (deveria dizer "martelinho") de equipagem.
Trabalhando por turnos, e não foram precisos muitos, conseguiu-se alargar a passagem o suficiente para eu me conseguir "espremer" e aceder à segunda área, onde identifiquei algumas zonas com pequenas quantidades de guano (muito residual) e umas pequenas ossadas.
Com uma maior amplitude de movimentos, uma vez que este espaço, apesar de pequeno, permitia-nos estar de pé e movimentar-mo-nos sem restrição alguma, alarguei a secção final da passagem por forma a permitir o ingresso do Leo pela estreiteza.
Nesta segunda sala confirmámos que, de facto, também tinha acesso ao poço de entrada pela segunda passagem supra referida, e que importa referir tem um sub-nível cerca de um metro mais abaixo, onde se encontravam retidos cerca de 2 a 3 cm de água, e ao qual não conseguimos aceder por se encontrar obstruída a passagem (facto que importa resolver numa saída futura). No lado oposto o espaço parecia prolongar-se para uma terceira sala contígua a que se acedeu após uma muito breve desobstrução... OK, Ok, estou a ser um pouco pedante. Bastaram três marteladas e estava do outro lado, mas vocês percebem o que eu quero dizer.
E aqui aguardávamos a "jóia da Coroa"... numa zona inferior um manto de calcite cintilante, ainda que acinzentado, cobria a base da parede à nossa frente, com algumas estalagmites ainda incipientes e conjunto mais assinalável de estalactites.
Mais acima, em paredes castanhas de argila "trabalhada" e recortada pelo efeito da água, assaltava-nos os sentidos verdadeiras pérolas de uma calcite pura e translúcida "derretida", que parecia brotar das paredes. As fotos não fazem jus à sua beleza. Se aqui parece cera derretida no lar de uma bruxa esquecida "in loco" parecia gelo formado pela súbita descida de temperatura que apanhara de surpresa uma pequena camada de água que almejava escapar-se pelas profundidades da terra.
Para a esquerda um pequeno nicho que forma um gour que ali reterá no inverno uma boa quantidade de água.
Para a direita a segunda incógnita, o segundo ponto de interrogação...
Escondido por um conjunto de belas formações, entre estalactites, estalagmites, colunas e bandeiras, a passagem continuava, pelo que me era possível verificar, por mais cerca de 2m, estreitando pelo que parecia ser a acumulação de argilas. Era impossível, daquele prisma, perceber se existia uma real possibilidade de progressão efectiva para além do que era visto, e não foi detectado qualquer corrente de ar.
Sem indícios claros, ou minimamente sustentados, que permitissem concluir por essa possibilidade (de progressão) a opção tomada foi de manter o estado prístino daquela passagem de grande beleza.
Resta-nos pois desobstruir o acesso ao sub-nível para garantir que não existe ali qualquer forma de progressão (que não creio existir) e efectuar o levantamento topográfico, actividades que ficarão para uma próxima saída.
Estava na hora de voltar à superfície, tapar bem a abertura do algar, até porque se situa a cerca de um metro de um trilho, e levar o Leo ao Cantinho do Francisco para uma refeição mais do que merecida e três dedos de conversa sobre tudo e mais alguma coisa.
Welcome to the Dark Side Leo. 😈🤘
Para terminar aproveito apenas esta publicação para juntar as topografias entretanto finalizadas.
Algar do Alicate, na Pia Carneira
Gruta do Além, em Casais de Além
Até à próxima ,
Alexandre Leal




















