terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Algar da Cheira

Vale Florido, São Bento

18 de Fevereiro de 2017





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Marco Dias (NEL)



Fotografia artística por Marco Dias.


Não se deixem enganar pelo caracter algo épico da fotografia tirada pelo Marco, porque este foi um labor duro, num local apertado,  com uma amplitude de movimentos perto do zero, e o raio de uma pedra que teimava em ser mais dura que o Stalone e o Schwarzenegger juntos.

O objectivo estabelecido para hoje era "simples", alargar o ponto 1 no Poço do Enxofre na zona dos nichos laterais e assim permitir a sua passagem, bem como a avaliação dos trabalhos seguintes, por forma desobstruir os pontos 2 e 3, até se atingir a base do poço.

Até então tínhamos centrado as nossas atenções na parede da esquerda (tal como encaramos o poço), tendo sido extensivamente intervencionada. Muitos blocos foram retirados, partidos, atirados para baixo, bem como uma quantidade enorme de argila e terra. A tal ponto que a eficiência dos nossos esforços tem vindo a decrescer, sendo certo que estávamos conscientes que teríamos que continuar os trabalhos também nessa "vertente".

A área assinalada marca o local intervencionado na
parede da direita.Foi retirado um ponto mais saliente que
impossibilitava a passagem.
Mas primeiro decidimos testar a parede da direita, atacando um ponto mais saliente, que nos parecia relevante para a passagem da estreiteza, dentro do que nos era possível intervencionar atento aos constrangimentos que nos limitavam a acção.

E foi uma excelente medida. Pode não parecer muito, mas de repente ganhámos ali um pouco mais de margem de manobra, e quase, quase que já dava para passar. 

Mas quase não chega, e o Marco tomou o meu lugar na frente e voltou a centrar as atenções de na parede da esquerda e naquela rocha manhosa que teimava em dar o peito às balas para de seguida mostrar que tinha um colete de kevlar. Tentámos e tentámos, e voltámos a tentar até a carga da bateria se esgotar, e mesmo assim voltamos a insistir um pouco mais.... e nada. O raio da pedra não partia nem por nada.

Mas como desistir é algo que não nos assiste a resposta foi pegar no "Mauler", no "Small Mike" e na Picareta e insistir, insistir,  e insistir um pouco mais. Ganhar um centímetro aqui, dois ali. O Marco parecia possuído, mas a verdade é que a pedra, a muito custo, ia cedendo e a abertura alargando. Marginalmente, é verdade, mas era tudo o que precisávamos. 



Com a ajuda do "Big Mike" ainda conseguimos mandar para baixo um bloco de calcite que dificultava, e muito, a colocação do braço e ombro nas tentativas que se seguiriam.


A área assinalada identifica o espaço que se ganhou com a queda
do bloco de calcite.
























E essa altura por fim chegara.  

Posicionando-me no apertado espaço, testando para um lado e para outro, enquanto o Marco perguntava de cima se eu já tinha passado (tinha subido à galeria principal), ainda tive oportunidade para fazer uns pequenos ajustes e retirar uns pequenos blocos e uns pontos salientes que dificultavam a manobra, e posteriormente retirar o capacete para fazer a derradeira tentativa. 

De "Tika" na cabeça e com o Marco já por cima preocupado com o meu capacete, que coitado estava a ser deixado para trás, lá fui descendo lentamente, manobrando de um lado para outro, como uma enguia a nadar contra a corrente,  aproveitando todo o pequenos espaço livre que ia surgindo, até que dei por mim "deitado" na rampa criada por todo o material que foi caindo durante os trabalhos de desobstrução. Tinha atingido o ponto 2.

Fotografia por Marco Dias.

Fotografia por Marco Dias.
Fotografia por Marco Dias.
A meio da progressão.



E este é o próximo objectivo a conquistar. Era visível a continuação do poço até ao ponto de obstrução seguinte, mas o espaço disponível era exíguo. A passagem deste segundo ponto exigirá a  remoção de todo o material, ou pelo menos um volume considerável, sendo certo que o ar fresco que vem do interior continua a ser perfeitamente perceptível, e que, atendendo ao que se sabe do poço, teremos mais uns 4 ou 5 metros para descer até atingir a base.

Para se tornar exequível será preciso, no entanto, alargar o ponto 1 um pouco mais por forma a permitir a passagem do balde que puxará todo o material para cima, para a galeria principal, trabalho que exigirá uma equipa mínima de 3 pessoas embora 4 fosse mais adequado.


Confesso que a passagem em sentido contrário foi menos complicado do que antecipara, apesar de não me ter livrada de algumas marcas no peito e nas costas, mas nada a que não estejamos já habituados. Sobretudo nada que nos faço equacionar algo que não seja progressão e descoberta. Exploração.




Como não havia grandes condições para darmos início ao passo seguinte demos por terminado o dia... quer dizer, dar por terminada a exploração porque ainda houve tempo para uma almoçarada tardia e muita conversa animada.

Um abraço e até breve.
Alexandre Leal





segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Algar Moita das Porcas

Mira De Aire, Porto de Mós

11 de Fevereiro de 2017





Coordenação - Marco Dias (NEL)
Equipa - Marco Dias (NEL), Alexandre Leal (NEL), Paulo Cardoso (NEL), Hugo Costa (NEL),       
                Celso Crespo (NEL), João Paulo (NEL), Filipe Cruz (NEL), Emiliana Oliveira (NEL).




Adaptando livremente um adágio popular de origem Anglo-Saxónica "Não há descanso para os desgraçados" aqui estão eles prontos para mais uma saída de campo no âmbito do Curso de NII do NEL.

Neste sábado a cavidade escolhida pelo Marco Dias foi o Algar Moitas dos Porcos, para os lados de Mira de Aire, e a escolha não poderia ter sido mais interessante, até porque estava traçado como objectivo secundário fazer uma breve exploração preliminar numa zona no seguimento do terceiro poço (P26), de que ele tinha já boas indicações.

A boa disposição estava garantida, e o grupo de 5 formandos devidamente enquadrados mostrava-se relaxado e pronto para a acção.

A equipagem do poço de entrada mereceu uma particular atenção uma vez que os spits na parede da direita não se mostravam nas devidas condições (demasiada matéria presa no interior e oxidação elevada) e foi necessário colocar um novo,  em local adequado a uma equipagem em Y, por forma a centrar a corda na abertura. Com o burilador dava, mas com a torna era mais rápido... Obviamente estava no carro!! Nada que uma mini-maratona em ritmo rápido não resolvesse, e em menos de 5 minutos já estava de volta.  O Marco colocou mãos à obra e o resultado foi uma equipagem eficiente e segura.
É visível o ponto de roço, posteriormente corrigido.

O primeiro poço (P17) apresentava, com esta configuração de equipagem, um ponto onde a corda roçava ligeiramente, cerca de 6 ou 7 metros acima de base. Como solução colocou-se um desviador muito bem improvisado pelo Marco após a análise da descida de três membros da equipa. Resultou na perfeição.


O paço seguinte era equipar a pequena vertical que se desenvolvia na sequência de uma pequena fenda numa das paredes da base do poço de entrada.

Cerca de dois metros mais a baixo temos uma rampa de grau acentuado que dá acesso à cabeceira do terceiro poço, um P26. No sentido ascendente, este seria o ponto mais crítico em termos de dificuldade (técnica) para os formandos. Facto que acabou por ser infirmado, uma vez que todos sem excepção fizeram uma transição rápida e segura entre os dois fracionamentos, passando para a corda de cima sem grandes complicações.

Marco Dias colocando um desviador no P26, bem lá em baixo...
O P26 foi equipado com um desviador relativamente a meio da vertical, por forma a garantir uma descida da segunda metade devidamente centrada e em segurança. Por outro lado acabava por facilitar a saída da corda na plataforma sobranceira à base do poço, uma rampa descendente. 

Como seria de esperar foi uma descida sem grande história, apesar de muito interessante.


Quer dizer, tudo corria bem até o Marco fazer das suas e tirar a concentração ao João Paulo, tudo para tirar uma fotografia. Estou convencido no entanto que foi propositado, uma manigância para depois incutir no formando o conhecimento da mecânica adequada à resolução do problema, que como podem facilmente adivinhar foi... WAIT FOR IT... sim, ficou "shuntado", mesmo já no final. Teste passado com sucesso.

Reparem na pose do Marco!! Mal sabia ele a sorte que teve alguns instantes depois... "Life´s a bitch"
Digamos que o Hugo, Eu e o Marco já tivemos a nossa vez, a próxima é à conta de outro ;)

Com a equipa toda cá em baixo os formandos tiveram oportunidade de ir explorar algumas zonas deste sector sob a supervisão do Paulo Cardoso, enquanto o Marco coordenava uma missão (Marco Dias e Alexandre Leal) de exploração preliminar de um sector muito interessante, com a ajuda do Hugo Costa. Um sector com muito potencial e tudo num espaço muito "concentrado", na sequência imediata da zona que podemos ver na fotografia supra (nas nossas costas).

Após uns pequenos trepes em oposição acedemos a dois poços  situados em sentidos opostos.

O primeiro, numa zona intermédia e que se desenvolve no outro lado da parede esquerda que podemos ver, mais uma vez, na fotografia supra, apresenta-se muito "activo", com a parede repleta de escorrências calcíticas brancas e bege, a reflectir a luz na humidade e água que pingava e corria pelas paredes.

A sua forma quase "perfeita" é um elemento promissor, e não foi possível encontrar qualquer indicação de equipagem colocada ou evidência que havia sido descido. 

O levantamento de dados topográficos levados a cabo durante o último curso de nível III da FPE (por André Soares, Marco Dias, Sandra Lopes e Rui Andrade) indicou uma profundidade de 13m, com a ressalva que tal medição poderá ter sido feita até à "ponte de pedra" que era visível mais ou menos a essa profundidade. Era também visível a possibilidade de continuação do poço em pelo menos um dos lados dessa formação (ou bloco caído). 

Uma dúvida a dissipar em breve.

Um pouco mais acima, e em sentido oposto, encontrava-se uma fractura que descia cerca de 5 ou 6 metros, e que daria acesso a uma outra vertical para a direita. Esta zona havia já sido equipada, bem como objecto de do levantamento de dados topográficos, como acima se referiu. Seria uma descida fácil, não fosse o facto de não haver mais plaquetas COM parafusos. 

MENTAL NOTE: Quando o Marco disser que não é preciso mais material IGNORA e reforça com o dobro.

Resultado, tivemos que improvisar umas naturais com umas fitas, utilizar um kitbag para evitar roçar, e lá fomos nós.

Claro está, nada poderia ser assim tão simples. Na base, bem na cabeceira do próximo poço (que era logo ali) o spit aí equipado também se apresentava relativamente oxidado e preenchido, e nem com a limpeza possível à altura se conseguiu equipar um plaqueta que entretanto lá se desencantou, graças ao Paulo Cardoso. 

Solução, colocar um novo spit, que, como é óbvio, foi mais complicado do que deveria ser, atento ao limitado espaço e amplitude de movimentos. Fomo-nos revezando para maximizar a eficácia dos movimentos e dar algum descanso aos músculos, e lá equipámos a corda para descer, tarefa levada a cabo pelo Marco num primeiro momento .


Passagem superior. Ponto 1.
Não esquecendo que mesmo à nossa frente, no outro lado do "buraco",  havia outra possibilidade de progressão a explorar numa próxima saída. (Passagem Superior, ponto 1)

Será necessário fazer uma progressão em oposição para lá chegar, provavelmente (e por questões de segurança) com a colocação de um spit pelo meio por forma a fazer um pequeno corrimão, sendo certo que lá chegaremos para ver onde aquela passagem nos poderá levar.

Para baixo o Marco rapidamente percebeu que tanto na base do poço como num pequeno nicho lateral não havia via de progressão. Na subida dei-lhe indicações para explorar uma fenda  a meia altura, na parede oposta a que me encontrava, que era possível ver da minha posição sobranceira. 

E lá se deparou ele com mais um poço, de grandes dimensões (diâmetro), na sequência de uma pequena parede logo após a fenda por onde entrara. E do outro lado do poço outra passagem se vislumbrava.

Cabia-me agora a mim descer para uma segunda análise e captura em video daquela zona.

"Bottomless Pit". Na verdade tudo perspectiva e sombras, bem como efeito de um afunilamento do poço.
Na verdade a profundidade a partir deste ponto não seria mais do que uns 5 ou 6 metros.
A passagem, a meia altura no poço, era apertada mas nada de transcendente. O importante mesmo era fixar a corda por forma a não sair fora do alcance quando nos tirássemos dela. Dentro do pequeno nicho, e após uma pequena parede, tal como o Marco havia descrito, um poço largo, mas de profundidade impossível de determinar do ângulo que tinha. 
Visível era um "anel" de corda vermelha colocado mais abaixo e para a esquerda que poderá ter sido utilizado como desviador ou fracionamento ao estilo de equipagem natural. O certo era que alguém já por ali havia passado e descido.


 Do outro lado do poço uma outra passagem podia ser vista (Passagem superior, ponto 2)... Um ponto mais que carecia de ser explorado numa futura saída.



Tínhamos conhecimento que uma outra equipa integrada pelo Paulo Rodrigues (para quando o regresso ao activo Paulo?!?!) teria já explorado e topografado esta cavidade, pelo menos até à zona imediatamente envolvente à base do P26, mas sem grandes detalhes sobre os resultados efectivos e até que ponto haviam conseguido avançar.

A presença da corda vermelha neste "último" poço indicava claramente que já havia sido descido.

Efectivamente, pela topografia que o Paulo teve a amabilidade de me enviar posteriormente, constata-se a existência de outros dois poços na sequência da progressão após o poço da "vermelha" (para além e não após a sua descida), a que terão acedido (pelo que me dá a parecer pela topografia) pela passagem  superior que designei como Ponto 1 numa fotografia supra, um dos pontos que tínhamos marcado para explorar.

Mas como o Paulo também referiu um novo olhar vale sempre a pena, e não esquecer que o poço "escorrido" não fora mesmo descido, sendo ainda território virgem. Ou seja, confirma-se o interesse num revisitar deste Algar em regime de exploração.

  

A subida à superfície decorreu em perfeita normalidade (à excepção de um "calhau" que me caiu no ombro de uma altura de  cerca da 26m), com todo o grupo já feito para uma almoçarada que virou petiscada no Dom Lambuças. 

Enfim, sempre a bombar, e para o próximo sábado está já marcado o regresso aos trabalhos na Cheira, com uma outra saída pelo meio,  para analisar o potencial de desenvolvimento de duas localizações entretanto descobertas por um grande amante da serra e das suas gentes, o Samuel da Costa, e pelo Filipe Santos.

Um grande abraço,
Alexandre Leal

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Algar Maria Emília

Moita do Açôr, São Bento

04 de Fevereiro de 2017





Coordenação - Marco Dias (NEL)
Equipa - Marco Dias (NEL), Alexandre Leal (NEL), Leonel Lavos (NEL), Hugo Costa (NEL),       
                Celso Crespo (NEL), João Paulo (NEL)






O que tem que ser tem muita força, e parece que o Poço do Enxofre está a recorrer a todas as artimanhas e manigâncias possíveis e imaginárias para não ser vencido.

Desta vez recorreu ao Marco para me desviar da Cheira e enveredar-me pelos caminhos do mal na Moita do Açôr, para mais uma saída de formação no curso NII do NEL. 

Como a actividade estava preparada para acabar por volta das 14h30m ainda tinha esperança de ter tempo para me entregar aos trabalhos na Cheira, e ver se finalmente conseguia alargar a abertura o suficiente para passar aquela ponto 1 no Poço. YEAH RIGHT...

Mas vamos ao que interessa. A actividade de hoje tinha por destino o Algar Maria Emília, uma das primeiras cavidades encontradas e exploradas pelo trio Orlando Elias, Marco Dias e Flávio Lucas, e deixem-me confessar que é um Algar terrivelmente interessante e que importa explorar ao pormenor. O potencial é grande, embora o desafio não seja pequeno.

De referir que a cavidade está ainda em regime de exploração, razão pela qual algumas passagens estão ainda um pouco "nuas", com um grau de exposição que importa mitigar no futuro por forma a tornar a progressão mais rápida e segura.

A equipa de formandos muito relaxada e muito à vontade, passou com distinção todos os desafios que a cavidade apresentava, tanto no que concerne à verticalidade como a passagens mais estreitas como também nos trepes e destrepes que exigiram alguma calma e muita atenção.




















No que à cavidade diz respeito de salientar as grandes dimensões de algumas das salas, galerias ou passagens, com a presença de chaminés altas e amplas, algumas das quais com comunicação até à superfície via pequenas fracturas, como testemunha a caruma encontrada na sua base, para aí trazida e depositada pela água que escorria e pingava.

Era frequente encontrar vários níveis nos espaços mais amplos, abrindo algumas oportunidades de progressão que importa confirmar.

Por outro lado era também por demais evidente as transformações violentas, despoletadas por grandes abatimentos, que operaram e foram uma força motora na evolução da cavidade. Alguns dos espaços foram já bastante mais amplos no passado, de alguma forma atafulhados por grandes blocos que formaram um caos já bastante consolidado. Esses abatimentos acabaram também por obstruir vários pontos que apresentam todas as características de terem sido poços. 

A presença de formações hipogenéticas em grande quantidade em vários pontos da cavidade bem como outros tipos de formações e relevos, indiciam uma presença relevante de água.

À saída o tempo estava particularmente desagradável, com uma ventania infernal. A missão, essa, foi cumprida e augura um futuro sorridente.



Quanto à Cheira... bem, tempo ainda havia para lá dar um salto, as condições físicas é que já não eram as ideais. A constipação estava a complicar ao nível do cansaço muscular e respiração, e para uma tarefa com aquela exigência física não se pode facilitar. A decisão foi mesmo ir aquecer ao sabor de umas moelas e uma conversa animada.

Um abraço,
Alexandre Leal