segunda-feira, 24 de junho de 2019

Algar do Cabeço Renhal 5

Bezerra, Serro Ventoso

19 de Junho de 2019






Coordenação - Alexandre Leal.
Equipa - Alexandre Leal




... e aqui ficámos a semana passada, com uma passagem por desobstruir.

E desobstruída foi, ainda que num processo mais complicado do que antecipado. Mas vamos por partes, porque antes de arregaçar as mangas ao trabalho primeiro foi preciso remover para lugar seguro alguns espécimes encontrados na base do primeiro poço.

Uma vez que tinha encontrado dois exemplares de Salamandra s. na saída anterior, assim que desci, com cuidado para não haver incidentes, tentei localizar-las para as colocar no lado oposto da área de intervencionar. Para além das duas salamandras encontrei ainda um Tritão Ibérico (Lissontriton boscai),  e um pequeno sapo bem escondidinho numa pequena fissura numa das paredes laterais.
O sapo era mesmo pequeno.

O que parecia uma missão fácil veio a demonstrar ser um processo contínuo de remoção das suas malucas pintalgadas que insistiam em trepar a pequena parede de pedras que fiz para as proteger e persistentemente caminhar na minha direcção... Salamndras com desejos suicidaste-te. Perdi conta ao número de vezes que tive de as remover da zona de perigo até que uma delas trepou para cima da corda e aí ficou quieta, e a outra "estabilizou" debaixo de um bloco de maior dimensão, posição que ia controlando pontualmente.

Depois veio a desobstrução e alargamento da passagem. O que parecia ser uma tarefa simples e relativamente rápida veio a mostrar-se mais complicada e morosa. A altura a que a passagem se apresentava na parede de fundo em relação à base do poço dificultava, e muito, os trabalhos, principalmente na zona mais alta. O ângulo de ataque em alguns pontos também complicava as coisas, especialmente quando tinha que estar "empoleirado" em oposição nas paredes laterais, numa forma pouco convencional, e à medida que ia avançando pela passagem as coisas iam-se complicado pela exiguidade do espaço conjugado com os factores anteriores.
















Depois a pedra não estava a colaborar... bem, na verdade alguns pontos estavam bastante renitentes, mas com calma lá fui progredindo, acabando por conseguir alargar o suficiente para conseguir passar. Por uma questão de segurança coloquei um parábola a meio da passagem, no único ponto em que apresentava largura suficiente para conseguir utilizar a torna. 

O acesso em si à passagem não fácil e exige muita ginástica e esforço para nos colocarmos numa posição adequada para progredir, tanto que a meio do processo de alargamento e tentativas de passagem já estava com as costas todas rebentadas, razão pela qual designei a passagem por "Quebra-Costas".

Mas por fim estava em condições de fazer a primeira passagem e ver o que me esperava do outro lado.

A passagem do "outro" lado.

Embora não seja visível tive que colocar uma manga de protecção um pouco mais acima para evitar
roços em zonas complicadas.

 Esta zona apresentava uma teto bastante alto, em forma de chaminé, que não deverá ficar muito abaixo da superfície, e apresentava alguns pequenas fracturas e nichos laterais, mas sem grande progressão, embora um pequeno nicho na base do poço mereça uma nota uma vez que apresentava também uma chaminé de altura assinalável.


Mesmo antes de descer já se podia ver que num dos lados o poço parecia ter uma maior profundidade, o que se confirmou na base ao encontrar-se uma pequena abertura de acesso a um terceiro poço, qua na verdade mais não é do que uma abertura no teto de uma terceira sala com cerca de 5 metros de altura. 
Mas melhor que esta surpresa foi facto de uma das pedras enviadas para baixo cair bastante mais do que a base da sala facilmente visível por baixo de mim. Mesmo no limite da minha visão, situado directamente por baixo de mim parecia existir uma abertura, de dimensão impossível de averiguar do ângulo que me era possível, que daria acesso a um outro poço, o quarto, de dimensão similar tanto ao segundo como ao terceiro.  



A possibilidade de continuação é assim bem real, a verificar na próxima saída com o alargamento da abertura para o terceiro poço e a sua descida... já esta semana.

Abraços espeleógicos,
Alexandre Leal





segunda-feira, 17 de junho de 2019

Algares do Cabeço Renhal

(Algar do Muro do Cabeço Renhal  1 e Algar do Cabeço Renhal 5)

Bezerra, Serro Ventoso

14 de Junho de 2019






Coordenação - Alexandre Leal.
Equipa - Alexandre Leal, Alexandra Leal






No regresso ao Cabeço Renhal, em mais uma saída de exploração,  os objectivos traçados eram dois. Em primeiro lugar descer e explorar ( e se possível topografia) o algar designado por Algar do Muro do Cabeço Renhal 1, e posteriormente partir para a exploração do Algar do Cabeço Renhal 5, anteriormente identificado numa saída de prospecção, relativamente perto do Algar da Rampa do Cabeço Renhal 1.

Chegados ao local, e desta feita estacionando o carro muito perto do primeiro objectivo, até porque o algar que se encontra murado fica situado muito perto da estrada de gravilha que sobe o cabeço, o primeiro desafio foi equipar a vertical. 

A primeira escolha seria colocar uma natural num ou mesmo nos dois pequenos pinheiros que se encontram situados a cerca de 2 ou 3m da pequena abertura mas a presença do muro dificulta esta opção operacional, pelo que este primeiro ponto serviu apenas de aproximação para a equipagem da cabeceira... que como antecipado se mostrou algo complicado. A verdade é que não havia qualquer afloramento rochoso quer nas paredes do algar quer na cabeceira ou adjacente que se mostrasse minimamente sólido e estruturalmente seguro. A rocha que podemos ver na foto supra são, na verdade, vários blocos de pequena dimensão, que se encontram relativamente soltos. À excepção do primeiro, mesmo por cima do meu joelho direito.

Não que seja particularmente grande, ou estável (e mesmo a solidez é algo duvidosa em algumas das partes), MAS era a única opção minimamente viável. Foi colocado um parabolt, que com o primeiro ponto de segurança colocado no pinheiro, teve que servir para descer, com atenção redobrada do membro da equipa de exterior, uma certa espeleóloga "renitente" (ainda não perdi a esperança de a voltar a ver no interior de cavidades) que "estranhamente" apresenta um nome muito parecido com o meu, Alexandra Leal. 

A exploração ocorreu sem qualquer sobressalto, à excepção da ingestão involuntária de alguns mosquitos dos muitos, MUITOS, que gozavam a frescura e humidade oferecida pela penumbra da cabeceira do algar. 

Sem grande história esta pequena cavidade é constituída por um poço com cerca de 7m de profundidade, algo apertado, que termina numa pequena rampa, da base da qual, a cerca de 1,6m de altura abre uma pequena passagem com cerca de 2m. Em seguida foi realizado o levantamento topográfico, que entretanto deu origem à produção de uma topografia final, embora se deve referir que existe uma pequena hipótese, a confirmar numa próxima saída, da pequena passagem ter continuação para a direita, fora do ângulo de visão, uma vez que não foi possível, pela presença de um pequeno morcego, confirmar tal possibilidade.



É possível ver, ao fundo, o solitário morcego (desconhece-se a espécie) que esvoaçou um pouco para
fora do ângulo de visão. 
























Após uma "pequena" pausa para o almoço estava na altura de atacar em força o Algar do Cabeço Renhal 5. O primeiro passo, necessário para poder aceder no interior da cavidade, era desobstruir a cabeceira que se encontrava bloqueada pela presença de vários blocos de dimensão relevante. A escolha recaiu na remoção de um bloco situado numa posição estratégica, que daria acesso facilitado à vertical, tendo como ponto de partida uma natural colocada num eucalipto sobranceiro à vertical.

Trabalho esse que se veio a revelar mais fácil e rápido do que o antecipado. Na verdade em menos de 4 minutos tinha a abertura desobstruída, e pouco depois devidamente saneada.


Em seguida procedeu-se à equipagem da cabeceira, em Y, por forma a descer de forma segura, afastando a corda de qualquer eventual roço nas paredes. O que à partida parecia rápido veio a demonstrar-se mais moroso uma vez que a zona que mais se adequava num dos lados, identificada a vermelho na fotografia supra, apresentava um "som" que colocava em causa a sua integridade e resiliência. Com efeito apresentava uma fissura na sua parte anterior, o que, com a evidência do som, colocava em causa  a sua utilização. A solução encontrada foi a remoção do bloco marcado pelo círculo verde para a colocação de um dos parabolts na face do grande bloco que se encontrava por trás.


















Depois foi descer até à base do poço, com uma paragem numa pequena plataforma superior para verificar a estabilidade de um grande bloco sobranceiro à vertical, e examinar o perímetro da sala... que rapidamente veio a revelar uma estreita abertura na parede oposta.







Na aproximação à referida passagem foram identificados dois exemplares de Salamandra s., uma das quais foi removida para outra zona por uma questão de segurança do animal. 



A passagem em si mostrava-se demasiado apertada para ser "negociada",  em particular com o arnês colocado, pelo menos nesta primeira abordagem de exploração, mas revelou a existência de um pequeno espaço aberto no outro lado, e principalmente a existência de uma vertical que poderá ter mais de 5m. 

Na verdade estes são os dois únicos pontos que podermos dar como certos: a existência de um espaço mais largo do que a passagem, e a existência de verticalidade.





Pela sua dimensão, e pela existência de uma vertical no outro lado, será necessário desobstruir e alargar esta passagem por forma a poder aceder a esta nova zona, de forma segura, e com capacidade para equipar a cabeceira deste novo poço (ou sala inferior), por forma a ver o que este novo espaço nos dará.

Mas isso terá que ficar para uma próxima saída.... já, já à porta.

Grande  abraço,
Alexandre Leal

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Algares do Cabeço Renhal

(Algar do Cabeço Renhal Norte 1, Algar do Cabeço Renhal 2 e

Algar da Rampa do Cabeço Renhal 1)

Bezerra, Serro Ventoso

21, 26 de Maio e 02 de Junho de 2019






Coordenação - Alexandre Leal.
Equipa - Alexandre Leal (21 de Maio)
Equipa - Alexandre Leal, Alexandra Leal, José Leal, Guilhermina Leal, Rodrigo Leal, João
                  Leal (26 de Maio)
Equipa - Alexandre Leal, José Leal (02 de Junho)







Na continuação dos trabalhos de exploração das cavidades do Cabeço Renhal foram realizadas saídas  nos dias 21 e 26 de Maio, e também neste domingo que passou, dia 02 de Junho.

Na primeira data, e trabalhando a solo, comecei por efectuar uma primeira abordagem de prospecção à zona a norte da estrada utilizada para subir até ao Cabeço Renhal. Escusado será dizer que, atendendo à humidade e chuva caída nos dias anteriores, ainda a prospecção não tinha chegado a meio já estava completamente encharcado... Mental Note: Equipar-me devidamente para o efeito ajuda a permanecer "simpaticamente" seco!

Como resultado identifiquei uma micro fenda com penetração relevante (+3m) e algar, designado por "Algar do Cabeço Renhal Norte 1, que foi explorado em seguida.

Com um poço de entrada com cerca de 7/8m e um segundo poço com cerca de 3/4m, e alguns nichos/pequenas passagens em vários pontos, a pequena cavidade permitiu aceder, após uma rápida desosbtrução, a uma rampa apertada que terminava no que parece ser a cabeceira obstruída de uma terceira vertical, que aparenta ter uma dimensão ainda relevante (8/10m)





Desobstrução em curso.

Cabeceira obstruida do 3º poço.

No dia 26 o Clã Leal foi para a serra numa saída realizada após um almoço no Cantinho do Francisco. Em modo"light" equipei uma pequena cavidade designada como "Algar do Cabeço Renhal 2", com recurso a uma natural (cinta colocada em volta de um bloco sobranceiro à cabeceira), que se esgotou na sala de entrada situada na base do poço, e uma pequeno nicho a meia altura na parede de fundo.





No final da actividade foi identificada uma pequena depressão cujo interior estava completamente obscurecido por uma vegetação cerrada. Após uma breve investigação, leia-se afastar os carrascos entre muitas interjeições em calão, acabei por identificar uma pequena abertura na base no seu ponto mais profundo. Coisa pouca, na realidade. Diria mesmo que não mais do que 30 ou 40cm... até uma pedra mais bem colocada rolar "um pouco mais" por uma rampa abaixo. Havia ali algo que claramente valia a pena investigar mais a fundo

A vermelho a localização da abertura identificada.
A amarelo a zona intervencionada na saída seguinte para aceder à rampa.

Obviamente na saída seguinte estava lá batido... e chegamos a dia 02 de Junho.

Apesar da temperatura no Cabeço Renhal estar um pouco mais baixa do que em Lisboa, a verdade é que os 29º/30º que se fizeram sentir teve um custo elevado em termos de esforço acrescido e consequente baixa de rendimento físico. Aquele "mono" é uma ferramenta da maior utilizada para perder peso... ou pelo menos carradas anormais de líquidos, especialmente sob o sol. Quando finalmente chegámos à zona da depressão já estava completamente "encharcado"...

Em primeiro lugar foi mostrou-se necessário limpar a zona de intervenção, com a remoção de vegetação por forma a expor e facilitar o ingresso e os contornos do acesso à rampa.

Ao acesso originalmente identificado na saída anterior  (a vermelho na foto supra), com a remoção da vegetação na zona demarcada pela oval amarela, identificou-se uma pequena abertura mais acima que iria dar directamente ao início da rampa.

Começou-se por remover os blocos encontrados na base da depressão na zona da abertura, que permitiu colocar " a nu" o acesso à rampa situado sob a zona a amarelo. Em termos práticos as dimensões desta abertura impossibilitavam o acesso ao interior da cavidade, pelo que se gizou um plano de ataque, a ablação de uma secção da parede da depressão entre a pequena abertura superior e a entrada original, com posterior alargamento para permitir o ingresso à rampa.




O processo decorreu de forma bastante célere até ao momento em que, após a remoção de um bloco  da parede intervencionada, que se encontrava em contacto com o grande bloco (a vermelho na foto supra) dei conta, pela minha visão periférica, de um pequeno abatimento do referido grande bloco, e por consequência também do bloco identificado a amarelo (talvez uns 7cm, com uma pequena incriminação para a frente - no meu sentido).

Os reflexos colocar-me fora do caminho dos blocos, que também pareceram "assentar" naquela posição, obrigou a uma paragem dos esforços de desobstrução e uma análise mais apurada desta zona... e o que parecia ser uma zona de rocha maciça na verdade veio a revelar-se uma laje vertical, em forma de cunha imperfeita, completamente solta do maciço anterior, facto que estava escondido por uma camada de terra e vegetação que preenchia os espaços vazios entre estes elementos. 

O bloco verde foi retirado, e o vermelho testado com vários movimentos e também com a utilização do pé de cabra, não apresentando qualquer movimento ou oscilação (o que também não é de estranhar atento à sua dimensão e peso). O amarelo encontra-se assente no vermelho mas, e não obstante a sua dimensão, "mexe" se for exercida.

O plano traçado foi de reduzir o peso, massa e inclinação do bloco vermelho, por forma a reduzir a tendência para resvalar, utilizando-se o posicionamento do bloco amarelo para o estabilizar. 

Como podemos ver na fotografia à direita o volume foi reduzido significativamente e após mais alguns testes mostrou-se relativamente estabilizado, o suficiente para pouco a pouco, e com cuidados redobrados (nomeadamente com o elemento de superfície a dar apoio no controlo de possíveis movimentos) concluir o processo de desobstrução do acesso à rampa e posteriormente equipar o acesso com a colocação de dois pontos de segurança. Um no exterior, na parede da depressão à direita do acesso, e outro já dentro da cavidade por forma a permitir a descida para exploração.

Não obstante o esforço desenvolvido para garantir níveis mínimos de segurança na estabilização deste bloco tenho que alertar para a necessidade de manutenção de elevados índices de atenção no acesso e saída da cavidade, nomeadamente para não se exercer qualquer tipo de força nesta zona.

Visão para a rampa, tirada a partier do acesso ao interior da cavidade.

No final de rampa encontrei uma pequena vertical de acesso à base de uma sala, com uma ligeira inclinação descendente, dava acesso a várias passagens/aberturas para espaços/pequenos poços colmatados com todo o tipo de blocos caídos.... à excepção da passagem que se desenvolvia no ponto mais baixo da sala, no fim da qual uma pequena nesga na parede de fundo (para a esquerda) parece dar acesso a uma pequena sala que terá uma base ou um pequeno poço com cerca de 2 ou 3m, como pareceram indicar as pedras enviadas a título de teste. De referir que também na base da parede de fundo, desta feita junto à parede da direita, por um pequeno buraco entre a parede e os vários blocos que preenchem o chão da passagem, várias pedras caíram cerca de 2 a 3m. 

O acesso à sala supra mencionada necessitará de uma intervenção de desobstrução por forma a permitir alargar a pequena nesga, o que será feito numa próxima saída.












Cansado e desidratado, não obstante a muita água bebida durante toda a actividade, mas com a convicção do trabalho feito, estava na altura de arrumar a "tralha" e voltar ao carro para um descanso e repasto merecido.

Esta semana há mais...

Grande abraço,
Alexandre Leal