sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Algar do Muro 3

 Paiã, São Bento

21 de Agosto de 2019





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Pedro Bernardes (GEM)







Com o ponto de encontro marcado para o Cantinho do Francisco, entre dois dedos de conversa, lá nos colocámos a caminho da Paiã.

O verão, que de tão tímido que tem estado, parecia querer-se vingar das críticas que lhe têm vindo a ser dirigidas, e apontava os seus raios através de uma azul límpido para "castigar" os incautos. Carro estacionado quase em frente ao "buraco",  e ainda antes de atravessar a estrada para subir o muro que dá o nome ao algar já eu pingava por todo o lado... O que valia é que o algar era "já ali" (e neste caso era mesmo já ali à beira da estrada).

Enquanto o Pedro retirava a palete de madeira e os blocos que bloqueavam a boca do algar e impediam novos incidentes (com o gado) eu equipava a corda numa oliveira adjacente. O Parabolt já equipado iria ser utilizado apenas na eventualidade de uma descida pela fenda (não querendo entrar no campo técnico, que não domino, mas, e tendo em conta o que já encontrei no vizinho Algar do Muro 1, é possível que haja aqui uma pequena falha, ou uma família de diaclases sistemáticas, num contexto complexo).

Mas até lá o trabalho ainda seria árduo, moroso e possivelmente complexo. As perspectivas, com base na saída anterior, eram, ainda assim, positivas, tendo em conta a pedra encontrada até ao momento. Se a pedra continuasse a "colaborar" poderia ser que viéssemos ainda hoje a descer, isso se essa descida fosse exequível, o que ainda faltava determinar.


Se as condições de trabalho dentro eram apertadas e duras à superfície eram piores. A temperatura alta, sem qualquer tipo de aragem (até por volta das 16h30), o tempo completamente seco, condição a que acrescia o muito pó alaranjado que se fazia sentir à nossa volta e dificultava tanto a respiração como a visão, complicava os trabalhos, o que obrigou mesmo a uma paragem obrigatória para almoço a horas decentes... decentes, pasme-se.





















Mas o trabalho ia avançando paulatinamente. Com maior ou menos sucesso ía-mos conseguindo criar espaço na zona do primeiro "degrau", por forma a poder atacar a fase seguinte, ou seja, a fenda que parecia estender-se para a parede da esquerda, embora não fosse, à altura, possível determinar se havia também continuação para a direita.

À medida que íamos ganhando mais espaço fomos tentando deitar mão a alguns dos blocos que entretanto haviam resvalado e ficado entalados na fenda. Este alargamento do espaço de trabalho foi fundamental para se conseguir obter uma primeira imagem para dentro da fenda, em concreto direccionada para a esquerda, uma vez que um dos blocos caídos para dentro da fenda imediatamente por baixo dos nossos pés ainda nos bloqueava a visão dessa zona (e não fora ainda possível retirar atento à sua dimensão).

Essas primeiras imagens foram conseguidas via GoPro, com o posicionamento do capacete o melhor que conseguíamos à altura, e não obstante não terem sido conclusivas davam alguma esperança  quanto à dimensão da fenda cerca de 1m/1,5m mais à frente.

Essa informação foi decisiva para focar o trabalho de alargamento e desobstrução num ponto particular, a parede esquerda anterior à fenda, com o objectivo de cortar o ângulo e permitir assim atingir o ponto em que a fenda tem uma dimensão suficiente para permitir descer sem qualquer dificuldade.

O problema desta opção é que nesse exacto local a rocha apresentava-se coberta com manto calcítico entre os 10 e os 15cm, que iriam dificultar e atrasar o andamento dos trabalhos, facto que se veio progressivamente a constatar ser uma realidade.






O caminho está traçado ainda que comporte alguns riscos e ainda muito trabalho até alcançar o objectivo. A redução do bloco que se pode ver no centro da imagem supra poderia dar uma ajuda preciosa MAS qualquer intervenção neste elemento exige um cuidado acrescido atento ao impacto que este pode ter na estabilidade do grande bloco que constitui a parece central do poço.


Com calma chegaremos lá para descobrir até onde a fenda nos permitirá descer...


Um abraço especial para o Pedro que se juntou hoje aos trabalhos, e que sabe ter a porta aberta sempre que quiser vir partir pedra e sofrer um pouco (sofrer mas com estilo, sempre com estilo 😈).



E para o resto  do pessoal um abraço alaranjado,
Alexandre Leal 

sábado, 17 de agosto de 2019

Prospeção Zona do Algar Eureka 

e

Algar do Muro 3

Vale Florido e Paiã, São Bento

14 de Agosto de 2019





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Rodrigo Leal






Com base neste modelo virtual, e porque de facto importava fazer uma busca mais apurada na zona envolvente ao Algar Eureka, bem como à zona de ligação entre a Galeria Clássica e as estreiteza que dão acesso à Galeria dos Fantasmas, tirámos a manhã para ver se conseguia-mos identificar pontos de interesse.

Sabia à partida que a existirem pontos de penetração à superfície seriam de muito pequena dimensão visível, o que de facto se veio a constatar, com a identificação de 2 pontos sensivelmente 30m para sul e um outro para Norte.

Estes pontos apresentavam uma pequena abertura, entre 5cm e 10cm, com uma penetração directa do pé-de-cabra em toda a sua extensão em determinados ângulos. A remoção de uma ou duas pedras à superfície, alargando o perímetro da abertura inicial, veio a revelar um espaço vertical obstruído com terras e blocos soltos, com pequenas "condutas" verticais de forma "orgânica" como determinado pela influência principal de terra. Aqui importa referir que é muito provável a presença nesta zona de poços completamente consolidados por terra como era, aliás, o caso do Algar das Raízes, aberto de baixo para cima, com a retirada de um grande volume de terra até termos atingido a superfície.


















Dos três pontos identificados fiz uma primeira abordagem de desobstrução no X3 no sentido de averiguar a possibilidade da existência de um algar com dimensão suficiente para permitir o acesso a um nível inferior.

À superfície, como podemos ver pela foto infra, duas aberturas contíguas de muito pequena dimensão acabaram por revelar um espaço mais amplo, repleto de blocos que à medida que foram sendo retirados reforçavam a possibilidade da existência de uma via de comunicação com uma profundidade mais significativa.






É possível que a base que aqui se vê seja toda ela apenas um tampão constituído por terra e blocos. Em qualquer dos casos é possível identificar uma pequena abertura (centro um pouco para a direita da fotografia supra) através da qual uma pequena pedra caiu cerca de 2 a 3m (profundidade estimada).

No chouso contíguo não foi possível identificar qualquer ponto de interesse, em particular sobre a zona de confluência da Galeria Clássica e Galeria dos Fantasmas, tendo apenas sido identificado um ponto de interesse para Nordeste do Algar da Cheira (mas ainda dentro do mesmo chouso), que terá que ser melhor visto.

Uma chamada de atenção para um outro ponto que terá ainda que merecer uma atenção mais dedicada, até pelas parecenças com o Algar das Raízes, situado a Sudoeste deste, o Algar do Unicórnio, que necessitará de um trabalho persistente de desobstrução e retirada de terra do interior de uma dupla boca de entrada.

E com os trabalhos estipulados para a parte da manhã concluídos com sucesso estava na altura para uma breve pausa para almoço no Cantinho do Francisco. Da parte da tarde avançaríamos para a Paiã, com o objectivo de fazer uma primeira abordagem ao Algar do Muro 3, ou Algar do Bezerro (em virtude da morte acidental de um bezerro aí ocorrida).

Confesso que ao rever a abertura muito estreita e a dimensão/volume de pedra que teria que ser retirada até atingir o ponto em que o poço curva e sai fora do ângulo de visão fiquei algo apreensivo. Não se afigurava nem fácil nem rápido o trabalho que tínhamos pela frente.

Não se afigurava MAS, e para variar um pouco, a pedra colaborou e, com mais ou menos esforço, até porque alguns dos blocos não eram propriamente pequenos, lá conseguimos alargar o poço o suficiente para perceber se existia possibilidade de progressão.

Aqui já depois de ter sido retirado um enorme bloco
da parte superior esquerda.

Visão para dentro do aperto antes de ser alargado

O primeiro grande "naco" a tirar, e que necessitou de ser posteriormente fragmentado
para permitir a sua retirada. Ver foto seguinte.







De facto, após a colocação de um parabolt para servir de ponto de segurança na cabeceira do poço (que tinha um outro ponto anterior numa natural colocada numa das oliveiras que se situam nas imediações da cavidade), foram feitas duas tentativas para descer, que encontraram  como obstáculo intransponível dois pontos salientes que, sendo muito úteis como base para colocação no limite da vertical, impede a passagem para a zona onde a passagem curva um pouco para a frente.




Para permitir a progressão terá, pois, que ser alargado o espaço naquele ponto, retirando um pouco de volume tanto na parede dianteira como anterior, bem como a ablação destes dois pontos salientes, sendo posteriormente necessário também a retirada ou, se exequível, enviar os dois ou três blocos que caíram e obstruíram a passagem em frente.  

O volume de pedra retirado foi significativo ainda que num trabalho de desobstrução bem mais fácil do que o antecipado, o que permitiu também, em conjugação com a "palete" de madeira que já bloqueava a entrada e evitada novos incidentes, tapar em segurança a boca agora bem mais alargada.




Um trabalho a continuar, até porque ainda preciso de perceber se esta abertura não terá ligação directa com a sala de maiores dimensões do algar contíguo, Algar do Muro 1.

Um grande abraço,
Alexandre Leal




quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Algar Eureka

Vale Florido, São Bento

07 de Agosto de 2019





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL)







O plano traçado era atacar a exploração desta cavidade durante a época de verão, esperando assim que as condições de humidade fossem significativamente mais baixas após um período relevante de tempo seco, que permitisse reduzir a presença de lamas e assim reduzir a dificuldade dos trabalhos de desobstrução. 

Fazendo fé no Winguru ontem era suposto não chover naquela zona... obviamente estava errado, ainda que a ameaça preconizada pela chuva que caiu durante todo o percurso até Vale Florido fosse amenizada pelos chuviscos miudinhos que se faziam sentir quando estacionei o carro. A pluviosidade parecia ter sido mínima, com reduzida capacidade de infiltração, facto confirmado pela centrada do algar, que apresentava uma terra seca e fina.

Depois de equipar o primeiro poço (natural na oliveira sobranceira ao Algar das Raízes", e limpar as muitas teias de aranha que estabeleciam uma "segunda linha de defesa", estava na altura de atacar o aperto e fazer-me ao interior do Eureka.

No segundo poço encontrei uma muda (de pele) de uma pequena cobra (menos de 50cm) numa das paredes, "presa" numa zona com argila. Enquanto equipava o Y para descer até à base desta segunda vertical lá ia tentando vislumbrar outros indícios da sua presença e perceber se estava numa situação que necessitaria de "extração" para a superfície, mas sem sucesso. Pode ser que tenha conseguido sair, embora acredite mais plausível que tenha continuado a descer...

Na ponta de exploração, a desobstrução do terceiro poço, cerca de 2/2,5m abaixo da base do segundo poço, as condições, as condições de trabalho não são fáceis. Espaço limitado para a colocação do material e ferramentas de desobstrução, espaço limitado para colocar a pedra que resulta deste esforço de desobstrução, espaço limitado que dificulta os trabalhos, e a presença de lama que não ajuda (ainda que desta feita muito menos presente e sem água a pingar copiosamente pelas paredes abaixo como aconteceu na saída anterior, em Dezembro passado).


Esta primeira saída do ano tinha como objectivo principal permitir fazer, in loco, uma nova análise ao ponto de situação e possibilidade de progressão em condições um pouco mais favoráveis.

Confesso que num primeiro momento, e perante o que era visível através da pequena abertura que se havia conseguido abrir na saída anterior, a possibilidades de progressão relevante me pareciam limitadas. Pensamento negativo ultrapassado quando em virtude do andamento dos trabalhos alguns blocos teimavam em cair muito mais do que aquilo que era visível.

Com o espaço muito limitado, que tornava quase impossível atacar a zona mais profunda da obstrução, mostrava-se necessário alargar a zona envolvente, e permitir uma maior amplitude de movimentos e assim, com algum contorcionismo (que será sempre necessário nestas situações), continuar a desobstrução e alargamento do poço.

A pedra, para variar um pouco, ajudou e consegui retirar um volume significativo da parede "direita" (do ponto de vista de ataque ao buraco), e num por to estratégico da parede esquerda, o que permitiu recomeçar a "partir" pedra na zona circundante à abertura, nomeadamente na parede da direita.

Início dos trabalhos.

Após início da "ablação" de ponto estratégico na parede direita.

Esforço de alargamento da abertura após ter ganho alguma margem de manobra.















Este será um esforço que necessitará de, pelo menos, mais duas saídas de trabalho de desobstrução para permitir ter alguma esperança de alargar a vertical o suficiente para poder ambicionar descer até um ponto que permita perceber se a profundidade que as pedras caiem é exequível alcançar em termos humanos.

A dimensão real do poço, tendo em conta as dimensões do espaço em que me encontro, em termos abstratos, dá alguma esperança de encontrar uma forma de progredir. O espaço está lá, o risco, bem real, é que esteja obstruído ao longo de todo o poço com blocos como aqueles que obstruíam o acesso à vertical, objecto do presente esforço de desobstrução.

Há que insistir, há que continuar a lutar, até porque o resultado pode ser muito, muito, interessante.

Grande abraço,
Alexandre Leal