sábado, 12 de dezembro de 2020

 

Algar da Moita dos Javalis 1

Mira de Aire, Moinhos Joguinhos

09 de Dezembro de 2020



Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Pedro Bernardes






Com todas as limitações que o panorama actual nos tem colocado não tem sido fácil conjugar agendas de uma equipa tão vasta mas onde há vontade arranjam-se soluções e lá voltámos à carga no Javalis 1 para terminar a jornada épica de desobstrução que havíamos começado na saída anterior entrando pela noite dentro...

Desta vez o trabalho estava já muito bem encaminhado, só era preciso voltar a equipar os poços e levar todo o material até à ponta de exploração (equipar o ponto estreito no poço de entrada com dois kitbags extra pesados à cintura não é muito "user friendly"), esse "brutal e amplo espaço", com uma largura para cima de 70cm de largura, com a agravante que não obstante chover mais lá dentro do que fora da cavidade a verdade é que já lá entrámos completamente encharcados... mas lá chegámos, com o Pedro a assumir os trabalhos na frente, comigo na "retaguarda", quer dizer cerca de 1,80 acima, meio preso à corda meio em oposição para ir variando de posição, assegurando o apoio (e tentar não esforçar muito as mãos, ou melhor, as articulações dos dedos, que têm andado um pouco "doridas").

E não é que me esqueci de carregar a bateria da GoPro?!?! Não só resulta numa falha em termos do registo visual dos trabalhos como revelou a sua importância operacional que nos teria permitido ter um primeiro vislumbre para dentro de um poço paralelo... mas isso mais tarde.

Onde ia eu?!?! Ahh, sim, os trabalhos de desobstrução, ou a luta entre o Pedro os os blocos que teimavam em ficar entalados 1,5m abaixo da cabeceira. E quando um jeitinho com o Pé de Cabra ou com os pés não chegava para "desentalar" outros meios mais pesados tinham que ser utilizados. Mas a verdade é que o trabalho complicado já havia sido feito na saída anterior, e a gruta sabia que tinha perdido esta batalha (a batalha mas não a guerra... obviamente). Depois do abertura ter sido alargada o suficiente e termos enviado para baixo 40toneladas (foi o que pareceu, a sério) de pedra que havíamos retirado do ponto em desobstrução (cuja "estabilidade" era tão segura quanto as arbitragens em Portugal), equipámos a vertical com um Y e descemos o segundo troço do terceiro poço, que terá cerca de 10 ou12m mais.

E lá de baixo vinha... "Alexandre, não estou a ver grande saída..." e eu a pensar, onde é que eu já ouvi isto?!?! Pois bem, foi chegar lá a baixo, olhar para o lado e dizer "Pedro, &%#$-#$, está aqui um poço paralelo a seguir a esta pequena janela na parede..." 

Confesso que esta primeira imagem acabou por ser mais impactante do que se veio a mostrar logo em seguida. De facto no outro lado de uma estreita janela estava o que parecia ser um poço paralelo, mas que na verdade neste nível era para nós, do que podíamos ver, mais uma chaminé do que um poço. A base estava sensivelmente ao mesmo nível que a base do poço que tínhamos acabado de descer, mas parecia ser completamente independente, sem ligação a qualquer parte que tivéssemos explorado. 

Por outro lado a área em si não era pequena, e saía para fora do nosso ângulo de visão pelo que ainda havia esperança de podermos encontrar uma via de progressão, uma pequena passagem, um pequeno "buraco" que nos permitisse sonhar com uma continuação após... sim, claro, após mais uma desobstrução.

Mas para lá chegarmos teríamos que... sim, sim, sim, desobstruir e alargar a pequena janela. E era aqui que a GoPro, se tivesse bateria por esta altura, nos poderia ter sido particularmente útil. A nossa cabeça não passava mas havia espaço suficiente para o capacete passar e dar-nos uma imagem mais competa do interior daquele espaço. Terá que ficar para a próxima... até porque já se estava a fazer tarde e ainda havia que arrumar o material e voltar a subir à superfície, até porque a nossa temperatura corporal já estava a baixar em demasia após termos terminado os trabalhos de desobstrução.

De referir que não é de excluir que a base do poço que descemos em si poder encerrar o acesso a um outro poço o problema é que "encerrar" assume aqui um significado muito direto... é que estava coberto não só pela muita pedra que mandámos para baixo como claramente o resultado de abatimentos ocorridos ao longo dos tempos. Por outro lado num das pontas desta pequena sala que constituía a base do poço que havíamos descido uma estreita fenda, parcialmente obstruída por estrados e blocos fragmentados, aparentava ter uma profundidade superior ao espaço que ocupávamos. Diria talvez uns 3 ou4 metros mais fundo.

Pode ser que se consiga chegar a esse ponto via poço paralelo...

PS: e perguntam vocês porque raio só coloquei duas fotos hoje. Bem, não sei se já havia mencionado o pequeno problema de não ter carregado a bateria da GoPro. 

Um abraço,
Alexandre Leal






quarta-feira, 7 de outubro de 2020

 

Algar da Moita dos Javalis 1

Mira de Aire, Moinhos Joguinhos

05 de Outubro de 2020



Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Pedro Bernardes




Time flies while you are having fun... embora nesta caso o "tempo" tenha mesmo voado na forma do relógio do Pedro poço abaixo. Mas lá chegaremos mais adiante.

O objectivo principal era explorar a base do terceiro poço e tentar perceber a viabilidade de uma desobstrução do acesso a uma "nova" vertical que estava escondido sob um manto de cascalho e pedra na ponta após uma "aba" que formava parte da parede de uma conduta forçada vertical.

Que essa vertical estava lá não havia dúvida, restava saber qual a sua dimensão e se iria permitir, ainda que com após um esforço mais ou menos intenso de desobstrução, aceder a este "novo" poço.

O principal desafio era a reduzida dimensão do espaço disponível, não só para trabalhar como principalmente para colocar a pedra que tivesse que ser retirada da zona intervencionada.


Como supra referido, antes de podermos começar a desobstruir e desimpedir o "entulho" que estava a bloquear o acesso ao poço era imperioso que conseguíssemos lá chegar, e para isso teríamos que abrir caminho... 

E por muito estranho que pareça desta vez tivemos sorte no que às características da pedra diz respeito.




Ainda antes de descer o terceiro poço alarguei um pouco o acesso à sua cabeceira, permitindo uma passagem mais facilitada, nomeadamente tendo em conta o material de desobstrução que seria preciso levar para baixo, e logo aí apercebemo-nos que a pedra neste sector era bastante rija e sem visíveis danos estruturais, sem fissuras, características que permitiram maximizar as técnicas aplicadas.






Depois foi ajeitar as pedras o melhor possível nas nossas costas (puzzle que fomos sempre tendo que ajustar à medida que os trabalhos iam avançando), e começar a analisar o trabalho que tínhamos pela frente.

Na saída anterior o primeiro indício de abertura para um poço obstruído tinha surgido no lado esquerdo da zona terminal. Após a remoção da aba conseguido-nos aperceber que no lado direito essa "passagem" não só estava também presente como parecia mais promissora em termos do ponto em que nos deveríamos focar. 

Com a ajuda do Big Mike (pé de cabra) lá comecei a pressionar o "tampão" de pedras, enviando progressivamente cada vez mais material pela pequena abertura que, lentamente, foi crescendo, crescendo.

Um trabalho que exige muita paciência e ponderação. Era fundamental que esta abertura não fosse bloqueada pois era a única forma que tínhamos de enviar o material lá para baixo, o que se mostrava indispensável para o sucesso da operação uma vez que não tínhamos espaço para de outra forma depositar o volume de pedras que teríamos que retirar para desobstruir aquele ponto.

Com o Pedro na base do segundo poço, e após o meu turno ficar concluído, estava na altura de trocar de posições. O que me permitiu esticar as pernas e descansar por um pouco... com enfoque no "pouco". É que já com o Pedro a trabalhar na ponta, e com a necessidade de se manter seguro na corda mas a precisar de ferramentas que estavam no meu nível a única opção viável era meter-me na corda e descer para lhe fazer chegar o que lhe fazia falta para continuar o trabalho... e por lá fiquei, preso à corda, umas vezes em oposição outras vezes com o peso no arnês, durante... sei lá, duas ou três horas, como apoio ao trabalho na ponta. Não havia espaço para outra opção...

E enquanto isto o Pedro dava-lhe com alma, ora com o Pé de Cabra, ora com o martelo e a maceta, e lentamente íamos avançando, e a abertura ficando cada vez mais visível... tanto deu, aliás, que às tantas se apercebeu que o relógio tinha sumido. A minha teoria é que perdeu a paciência e aproveitou a oportunidade para fazer a primiére e antecipar-se a nós. Ora se é verdade que "viu" o interior do poço antes de nós não é menos verdade que foi sol de pouca dura, com a quantidade de pedra que posteriormente lhe caiu em cima. 😁   

Aqui era já visível deste ângulo a abertura para a continuação do poço.

Os trabalhos continuaram durante um pouco mais, e embora o Pedro estivesse convicto que mais duas horas e estaríamos lá em baixo a verdade é que algo me dizia que estávamos já lá em baixo à algum tempo e que estava na altura de subir (o que levaria algum tempo tendo em conta que tínhamos que arrumar o material e "alombar" com ele para cima e retirar as cordas).... bem dito bem certo, tínhamo-nos "esticado" um pouco no tempo e ultrapassado a previsão que havia feito para a nossa saída. Em nossa defesa a culpa foi do relógio... 😁😈.

Agora é continuar o trabalho e ver o que este troço do poço, que parece ser claramente a continuação do terceiro poço e não um poço novo, nos irá revelar. Os indícios são promissores, nomeadamente o som que as pedras fazem ao tocar na sua base bem como a clara presença de formações (em virtude do som muito particular que algumas pedras faziam ao tocar em alguns pontos antes de atingir a base). Pelas nossas contas este terceiro poço deverá ter, na sua totalidade, perto de 20 metros. Resta saber o que vamos encontrar na sua base...




Um abraço cansado,
Alexandre Leal













sábado, 29 de agosto de 2020


Algar da Moita dos Javalis 1

Mira de Aire, Moinhos Joguinhos

24 de Julho de 2020




Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Pedro Bernardes






Puxando a fita do tempo para o dia de ontem, após duas saídas à cavidade em que se equipou e limpou/saneou (embora alguns pontos tenham ainda que ser  objecto de intervenção pontual) o poço de entrada, o objectivo desta saída estava bem presente nas nossas mentes. Atacar o segundo poço no troço que designámos como principal e ver onde nos levaria...

Tendo em conta as primeiras observações da base do poço de entrada neste lado da parede que separa os dois poços paralelos em que este primeiro poço se transforma cerca de 8m acima da sua base, base esta que se apresentava em rampa descendente no sentido da cabeceira do segundo poço, e cheia de cascalho, esperávamos uma tarefa cuidada de limpeza de toda esta zona envolvente para mitigar ao máximo a hipótese de incidente com pedras a rolar pelo poço abaixo. especialmente tendo em conta a existência de uma outra plataforma cerca de 1,5m mais abaixo que também acumulava muita pedra caída.















Em termos de equipagem tivemos que nos restringir um pouco ao que as paredes nos ofereciam tendo em conta os constrangimentos habituais numa saída de exploração. Eventualmente alguns dos fracionamentos serão reforçados a inclusão de um segundo ponto de segurança quando se julgar necessário.






A cabeceira e a parte superior do segundo poço em particular exigiu um esforço de limpeza muito atento, tendo sido enviado para baixo um volume relevante (incluíndo um bloco de dimensões razoáveis, mas a este voltaremos mais tarde pois encerra um "certo" mistério) de pedra que se "aninhava" em vários nichos periclitantes ao longo da vertical, um poço com uma profundidade estimada de cerca de 20m.

Visão a partir do meio do segundo poço (para cima).



Chegada à base do segundo poço. 







 E as boas notícias não paravam. Não só a base apresentava sinais claros de que estaria seria um mero tampão a obstruir a continuação natural do poço que acabávamos de descer, com uma pequeno buraco por onde facilmente pedras enviadas caíam vários metros, como era visível, através de uma estreita abertura numa das paredes  do poço cerca de 160cm acima da sua base,  um acesso a uma vertical. Restava saber se estes dois acessos (um aberto e outro por desobstruir) dariam acesso ao mesmo poço ou se efectivamente seriam duas verticais independentes.
Visão para dentro do terceiro poço pela abertura na parede do segundo poço.
 
O acesso a este terceiro poço que se mostrava minimamente viável sem um trabalho de desobstrução mais demorado era através da abertura na parede, ainda que sem material de desobstrução mais pesado para alargar este acesso a entrada seria sempre algo constrangida, ainda que com recurso ao martelo de equipagem tivesse conseguido alargar um pouco através da ablação de uma parte da camada de calcite que cobria as "abas" da abertura. Não foi muito mas o suficiente para facilitar um pouco.

Utilizando o corpo como desviador móvel e um pouco de ginástica do Pedro para conseguir aceder ao seu interior, lá acabámos por conseguir colocar um fracionamento na cabeceira do terceiro poço, que apresentava um diâmetro bastante mais reduzido que os anteriores ainda que sem constrangimentos de maior. Este menor diâmetro complica um pouco a avaliação da sua profundidade, dando a ideia de que poderia ser maior do que na realidade é mas diria que terá cerca de 12/15m.

E lá de baixo reportava o Pedro, em tom cabisbaixo, que aquilo não tinha continuação. Uma pequena fenda rampeada que parecia não ter continuação, apesar de sair para fora do ângulo de visão. Estava claramente desanimado. Eu não estava convencido.... algo me dizia que as coisas não seriam assim tão claras.

Após subir desci para analisar a situação e tentar identificar qualquer forma de progressão ou pelo menos indício dessa possibilidade.




A base deste terceiro poço de facto é relativamente apertada, como podemos ver na foto supra, mas não é fechada. A parede que se pode ver à minha frente esconde por trás um espaço também ele de forma arredondada (um tubo de pressão por onde escorria água vinda da superfície, carreada pelas muitas chaminés que fomos vendo), que afunila numa pequena fenda rampeada, cheia de cascalho que para ali foi caindo ou levado pelas águas, que vira ligeiramente para a esquerda para fora do nosso apertado ângulo de visão.

As primeiras pedras de teste não foram muito animadoras, mas a tarefa não era fácil. Na verdade acabavam por ficar presas nas que já lá estavam e sem nuca resultarem pela curva abaixo... até que uma saltou, e ressaltou, e caiu talvez uns 7 ou 8m até atingir a base com um som algo grave, como se tivesse coberto por argila.

Os trabalhos de desobstrução que permitiriam alargar a passagem e aceder a este novo poço apresentam algumas dificuldades atento ao muito reduzido espaço envolvente, nomeadamente por falta de espaço adequado para colocar a pedra partida mas creio que é exequível com uma gestão criteriosa dos trabalhos.

Durante a subida consegui identificar um pequeno buraco de forma triangular numa das paredes do algar, relativamente escondido por uma coluna de calcite que descia pela referida parede e aí  terminava. Do outro lado escuridão... Tentando focar a luz pela pequeno orifício fiquei com a ideia de um espaço relevante (talvez um metro, mas é possível que seja uma estimativa motivada mais pela vontade do que pela razão). Por sorte consegui encontrar uma pedra entalada numa pequena reentrância do poço com o tamanho exacto para caber. Fiquei com a ideia clara que a pedra caiu num poço paralelo e independente e não por uma tubo que abriria mais abaixo para a deixar cair na base do poço onde estava. Foi a ideia com que fiquei mas precisa de ser confirmada.

O troço secundário que parte do poço paralelo no final do poço de entrada precisa também de ser analisado mais profundidade.

Temos, pois, ainda muito trabalho pela frente... por ora o panorama é algo como isto.

Ahhh, acerca da misteriosa pedra que mencionei acima. Bem, isso é uma história para um próximo acto. Pode ser que a venhamos a conseguir encontrar...







Depois foi desequipar e subir até a superfície... e para a próxima teremos que trazer mais material, nomeadamente o kit de desobstrução para começarmos a atacar os pontos de interrogação já identificados, com particular enfoque na ponta do terceiro poço.

Um abraço espeleológico.
Alexandre Leal

domingo, 26 de julho de 2020

Algar Da Moita dos Javalis 1

Mira de Aire, Moinhos Joguinhos

24 de Julho de 2020




Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), José Leal




Poderei dizer que estive em "Radio Silence" durante algum tempo aqui no Blog mas, e ainda que as circunstâncias tenham ditado uma redução dos trabalhos de campo, não tenho estado nada parado.

Os trabalhos da encosta Oeste de Chão das Pias permitiram localizar um pequena, muito pequena, fenda à superfície, quase totalmente escondida por um manto de vegetação denso que por pouco não passou despercebida, e que veio a revelar, com o andamento dos trabalhos de desobstrução, ao longo de várias saídas, um poço estreito cujo desenvolvimento é ainda uma incógnita.












Estes trabalhos acabaram por ter uma pausa forçada quando a torna subitamente parou a meio dos trabalhos de desobstrução... pouco faltava retirar de um ou dois pontos estratégicos para tentar descer um pouco pelo poço até ao ponto em que um bloco caído tinha bloqueado a progressão quando a torna perdeu a percussão, impossibilitando a continuação dos trabalhos.

Paradoxalmente esta avaria viria a revelar-se instrumental para a descoberta seguinte, e que pode vir a revelar-se de valor elevado. Na verdade eu e o Pedro Bernardes já tínhamos abordado a possibilidade de fazer umas prospecções na zona da Moita das Porcas, e esta possibilidade veio a concretizar-se após ter marcado um encontro com o André Reis em Mira de Aire para lhe entregar a torna que ele gentilmente se ofereceu para tentar "arranjar" (valeu o esforço André. Grande abraço). E como lá fui, bem, pensei eu, porque não aproveitar para dar uma vista de olhos na encosta?!?! 

Com uma breve análise ao Cadastro de Federação, tremendamente facilitada desde que o Mapa das Cavidades está de novo operacional, fixei uma zona de trabalhos, e não é que em menos de 30m tinha já encontrado uma localização, perdida no meio da vegetação, muito interessante?!?! E não menos verdade é que mais uma vez se deu corpo a uma velha máxima da prospecção "Pitch Balck", "Se encontrares um buraco interessante no início dos trabalhos, nem que te %&$"# todo durante 5 horas seguidas, por entre silvas e carrascos, irás encontrar algo mais". Já deveria saber mas lá focei, focei, e focei, por entre.... sim, acertaram, silvas e carrascos, e lapiás (sim, lapiás.... perdidos entre silvas e carrascos), a tal ponto em que a paciência já era muito pouco e nem o sangue que escorria pelas pernas abaixo me fazia abrandar o ritmo. Já só queria era sair do meio de uma vegetação extremamente densa.

É uma área que pode esconder enormes tesouros, mas escondidos estão e bem, pela muita vegetação que cobre largos troços da encosta.

Mas de volta ao buraco... a que pomposamente designei Algar da Moita dos Javalis 1, que sempre fica mais interessante do que da Moita das Porcas. 



No meio da vegetação encontrei uma pequena clareira dominada por quatro grandes blocos, que criavam o quadro perfeito para um clássico poço em lapiás.... é claro que este quadro perfeito é 99,9% das vezes frustrado pela realidade, mas neste caso a sorte sorriu-me e por entre as sombras e a vegetação que se infiltrava pelas fendas laterais (espaços entre os blocos) consegui aperceber-me que havia uma real possibilidade de estar perante um poço com alguma penetração.

Nesta primeira visita só me apercebi de uma abertura num dos espaços entre dois blocos (uma vez que o poço se parece desenvolver na confluência de 2 fendas que se interceptam em cruz). E para apimentar a coisa as pedras atiradas para testar a profundidade revelaram...uma estranha ausência de som. Não consigo explicar... se é verdade que as pedras utilizadas foram de pequenas dimensão, até porque desconhecendo a dimensão lateral do poço não queria correr o risco de criar obstruções evitáveis, não é menos verdade que não deixava de ser estranho não ouvir qualquer som evidente delas a bater na base. Ouvia-se o som das pedras a salta de parede em parede durante cerca de 4m e depois nada... a ausência de som.

Mistério que teria que ser, necessariamente, resolvido numa saída posterior... que veio a revelar uma segunda abertura num outro "braço" da "cruz", escondida por baixo da vegetação.



Foram efectuados vários testes, com pedras enviadas para ambas as aberturas, que pareciam comunicar entre si, o que manifestamente fazia todo o sentido.

Seria um poço comum, restando apenas saber qual a sua efectiva dimensão, e sobretudo largura no âmbito do espaço entre os blocos "emolduravam" as duas fendas.

Com o DistoX consegui na abertura da esquerda (a vermelho na fotografias supra) uma leitura máxima de 13m, o que ainda assim me parecia pouco atendendo ao som que desta vez passara a ser perfeitamente audível, especialmente quando enviados pela abertura da direita (identificada a amarelo).

Era preciso começar a desobstruir o que parecia ser um "rolhão" que bloqueava o espaço no centro exacto da intercepção das duas fendas entre os quatro grandes blocos que dominavam o local, bem como alargar o espaço os dois blocos que limitavam a abertura da esquerda, por forma a possibilitar a posterior descida se esse fosse o ponto mais viável. E aqui estava o busílis da questão. Seria que a torna, após o esforço do André, aguentaria os trabalhos e o esforço?!?! Bem, aguentou precisamente um furo e meio até que fui forçado a parar por aquecimento extremo do aparelho... que posteriormente veio a perder novamente a percussão.

Ainda retirámos alguns blocos, que permitiram alargar um pouco mais a abertura da direita, mas a temperatura que se fazia sentir era um verdadeiro calvário para estar a trabalhar naquela pedra branca. 

Esta sexta-feira voltámos à carga, já com novo equipamento e os trabalhos desenvolveram-se a um ritmo muito acelerado e eficiente.

O novo martelo perfurador tem uma força superior ao antigo, dos 1,3j para os 1,7 e nota-se bem a diferença.... de tal forma que a força de batimento, que funciona na perfeição nos furos para desobstrução, acaba por dificultar a realização de furos mais precisos para equipagem (muito provavelmente irei ter que comprar um berbequim com percussão mais ligeiro apenas para esta tarefa), forçando um cuidado extremo para não quebrar a camada superior da pedra (o que veio inevitavelmente a ocorrer, o que forçou a trabalhos suplementares para tentar criar uma cama mais perfeita para as plaquetas). A pedra em si também não ajudava... quer dizer, não ajudava neste aspecto, porque no que tocava à desobstrução per se não tenho qualquer reclamação a fazer.


Por uma questão de segurança, e antes de atacar em força a desobstrução dos elementos na área central, coloquei um ponto de segurança e prendi-me à corda.

Em pouco tempo o ângulo de visão na abertura da direita permitia uma ideia mais apurada da profundidade do poço, ou pelo menos desta secção do poço, uma vez que é muito possível que na verdade o poço, que começa por ser comum, ainda que com um perfil estreito entre abertura da esquerda e da direita, venha dar origem a dois poços paralelos cerca de 8 ou 10 metros mais abaixo (resta saber se não se voltarão a reunir mais abaixo ainda, numa zona fora do ângulo de visão).

Numa nova medição com o DistoX, a secção da direita apresentava um valor de 26m de profundidade, que na esquerda me parece ser bastante mais reduzida (o que justifica aliás a leitura anterior de cerca de 13m). Esta leitura poderá não reflectir a verdadeiramente dimensão do poço, atento ao som que os blocos de maior dimensão faziam ao cair neste troço. Por duas vezes, bem no limiar da audição, e após o embate "inicial" do que deveria ser a "base" do poço (estes 26m lidos pelo DistoX), foi perceptível dois embates finais... 


Visão na secção da direita do poço

Com o andamento dos trabalhos, e a retirada consistente de pedra e/ou envio de blocos para baixo, ambas as aberturas ficavam cada vez mais expostas, altura em que equipei a cabeceira em Y por forma a permitir, caso fosse possível, a descida (ainda que se mostrasse evidente a necessidade de colocar um desviador ou mesmo um fracionamento cerca de 2m mais abaixo por forma a evitar um roço criado por um ressalto na parede do poço. 

Tornava-se cada vez mais evidente que a remoção de todo aquele material inevitavelmente iria unificar as duas abertura, permitindo abrir na totalidade um acesso comum a ambas as secções do poço.


A vermelho a protuberância que irá forçar a colocação de um desviador, e também
algum trabalho de estabilização, uma vez que parte dela está fracturada.
Deste ângulo é visível na secção da esquerda.


   
















Será necessário terminar o esforço de saneamento e estabilização da zona intervencionada bem como de alguns pontos na parede do poço, por forma a permitir uma descida em segurança, mas estou convicto que será trabalho que não nos roubará muito tempo da próxima saída. Depois é descer e ver o que o poço de entrada nos revela.... O algar está situado a uma cota que deverá andar muito perto dos 435m. Ora se é preciso "afundar" ainda "um pouco" para o objectivo final não é menos verdade que me parece mais fundamental, nesta fase, encontrar um desenvolvimento horizontal em sentido O, NO ou mesmo N, por forma a encurtar distâncias e permitir uma possível intercepção... o que seria verdadeiramente épico.

Um grande  abraço,
Alexandre Leal




terça-feira, 5 de maio de 2020

Algar do Mira

Vale Florido, São Bento

05 de Maio de 2020



Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL)




Sim, eu sei. Tenho neglicenciado um pouco o relato dos trabalhos desenvolvidos aqui no Blog mas não por desinteresse ou mero esquecimento. O trabalho no Algar Pena de Chão das Pias prosseguia (até ser interrompido pela Pandemia) e ainda não foi dado por concluído, tendo sido já realizadas várias saídas. E não é que seja minimamente supersticioso (que não sou) mas não quero azarar, pelo que estrategicamente não tenho elaborado nada de concreto sobre o andamento dos trabalhos de desobstrução naquela cavidade.... entretanto, e porque o Covid-19, que já deveria ir para Covid-20, não permite grandes veleidades em termos de trabalhos em equipa num espaço tão confinado como aquele buraco pelo que aproveitei a oportunidade para voltar às lides numa cavidade cuja localização tinha sido fornecida durante um dos muitos almoços tardios no Cantinho do Francisco, e que já tinha sido visto faz uns dois ou três anos, numa visita relâmpago com o João Ferreira (NEL).

A verdade é que tinha ficado com a ideia de um ponto que merecia uma segunda análise, mais calma e com mais tempo. A memória veio a revelar-se relativamente errada. Não, a pequena passagem não era um tubo horizontal, antes uma estreita fenda.... mas já lá chegamos. 


Em termos de equipagem coloquei dois pontos de aproximação numa árvore adjacente à abertura e reforcei a cabeceira com a colocação de um parabolt, a somar ao spit já existente, colocado numa posição mais sobranceira à vertical, colocando um desviador cerca de 1,5m mais abaixo, por forma a evitar roços logo no início. 

Atendendo à sua profundidade e à forma como se desenvolve, nomeadamente pelo facto da parede onde a descida é feita retroceder face ao plano da vertical, sob pena de criar a possibilidade real de criar um outro ponto de roço cerca de 5m abaixo da abertura, coloquei um fracionamento no ponto que me parecia mais adequado ainda que numa zona onde a rocha estava coberta por uma camada de calcite. Não sendo o mais indicado não me ofereceu grandes dúvidas e cumpriu os objectivos sem qualquer tipo de problemas.


 

Já na base do poço, que poderia caracterizar como um "Vadose Shaft", consegue-se ter uma melhor perspectiva da dimensão do espaço. Lá em cima, aquele ponto de luz muito pequeno (parece um pequeno pixel branco) é a abertura. Quase no cetro do  foco de luz da Scurion o fracionamento. 

Em termos de desenvolvimento horizontal é reduzido. O foco estava numa pequena área ao fundo de uma rampa coberta por blocos de pequena dimensão e uma camada de lama. 

Neste recanto foi identificado uma pequena quantidade de guano não tendo, no entanto, vislumbrado qualquer exemplar nas paredes desta enorme (em altura) fractura, paralela ao poço de entrada, ou em qualquer outro ponto da cavidade.





  









Este recanto apresentava duas pequenas fendas. Uma delas com não mais de 1 metro de desenvolvimento. 









A segunda, o ponto de interrogação que havia ficada da primeira saída e único objectivo desta actividade, apresenta um desenvolvimento visível de 2,5m, virando posteriormente para a direita, para fora do ângulo de visão. Não em forma de tubo horizontal mas sob a forma de uma estreita fenda  com cerca de 80cm de altura.  Mesmo o acesso ao seu início teria que ser objecto de intervenção para permitir qualquer tipo de trabalho de alargamento e desobstrução. 




Não apresentado qualquer indício relevante da possibilidade de progressão real e exequível (não foi detectado qualquer sopro, nem existência de acesso a qualquer vertical inferior ou a uma zona com maior volume) não se antevê, de momento, qualquer esforço a desenvolver  neste ponto.

 Depois foi subir de volta à superfície, desequipar e arrumar o material e voltar ao carro... mas como ainda era cedo aproveitei para levar a cabo uma pequena prospecção na zona, tendo identificado dois pontos com muito pouca penetração em profundidade, o "maior" dos quais com não mais de 2/2,5m (em foto à direita). 

É, no entanto, uma zona que merece uma atenção mais cuidada. Pode ser que tenhamos uma surpresa.





E foi assim o regresso à actividade, e agora é para continuar, dentro das restrições e limitações que o raio da pandemia impõe.

Grande abraço,
Alexandre Leal