Algar da Cheira
Vale Florido, São Bento
21 de Março de 2016
Equipa - Alexandre Leal, Rodrigo Leal
Algar da Cheira, um regresso há muito esperado... Visitei o algar no âmbito de uma das aulas práticas (neste caso uma aula extra de treino de manobras verticais) dada durante o Curso N2, na qual foi identificado o acesso a uma zona estreita perto da zona "terminal".

Na altura, ainda bastante maçarico (não que o estado tenha alterado de sobremaneira), meti-me no "buraco" com uma colega de actividade, tendo avançado um pouco até que a progressão se mostrou impossível, pelo que na altura me pareceu um bloco que vinha da parede do lado direito, se bem me recordo. Um dos elementos que importa referir é que a imagem mental que guardava da altura ficou indelevelmente marcada, limitada diria eu, pela falta de qualidade da luz utilizada. Com a pouca luz disponível a nossa visão, e como tal compreensão, do que estava à nossa frente E à nossa volta foi, olhando agora em retrospectiva, claramente incorreta.
Mas já lá chegamos, primeiro uma análise mais geral da actividade.
O objectivo traçado passava por:
- Encontrar o local anteriormente identificado;
- Uma análise da zona;
e
- Uma primeira abordagem de exploração, identificando possíveis vias de progressão e necessidade de desobstrução.
Secundariamente, dar a conhecer o algar ao Diguinho, possibilitando-lhe mais uma experiência subterrânea, tanto em termos de verticais como de progressão em espaços mais confinados, registando, ao mesmo temo, tanto em suporte fotográfico como através de vídeo o Algar, e por essa via dar a conhecer alguma da sua beleza, nomeadamente ao nível das concreções e espeleotemas.
Tivemos a sorte de encontrar um tempo muito agradável à chegada, que facilitou os trabalhos de equipagem e preparação. O temporal chegou mais tarde, mas nessa altura já estávamos no carro, a caminho do "Bigodes" para uma revigorante Sopa da Pedra e uma Bifana.
O Algar encontra-se bastante bem protegido, com um muro de pedra à sua volta, e uma abertura coberta por tábuas e troncos, por forma a evitar incidentes, nomeadamente com animais. A boca do Algar, muito verde, e o ataque à vertical facilita também, em si, os trabalhos de ingresso.
Neste aspecto de referir a facilidade com que o Rodrigo lida com as questões relacionadas com alturas e utilização dos equipamentos e manobras verticais. Obviamente, ainda cometendo alguns erros, e sobretudo tendo consciência que as questões de segurança, especificamente colocação na corda e passagem de fracionamentos não poderá ser feita por ele em algares com estas condições (não obstante ser de dificuldade baixa estamos a falar de um P13, sem grandes ressaltos ou plataformas que permitam maiores veleidades), a verdade é que a calma e a responsabilidade com que aborda estas manobras permite-lhe uma progressão muito estável. Está, aliás, bastante mais confortável que o pai.
Já na base do poço, numa sala bastante ampla e iluminada pela luz que entrava pela abertura 13m acima, retirámos o arnês e o restante equipamento individual de segurança (não era previsível ser necessário), e deixando para atrás o kitbag de equipagem, começámos a explorar a cavidade.
Foi detectado um pequeno número de morcegos (muito reduzido mesmo), bem como pequenas concentrações de guano, mas nada de particularmente relevante. Estranhamente não vi qualquer salamandra, tão comum na zonas iniciais de algares com estas características.
Foram identificados alguns pontos que merecerão uma análise posterior, nomeadamente um caso onde aparentemente um poço se encontra obstruído à superfície por blocos, alguns dos quais de grande dimensão) que caíram do tecto.
Sensivelmente a partir do meio da zona conhecida da gruta as concreções começam a surgir numa quantidade e "qualidade" cada vez mais relevante, atingindo proporções dignas de nota em zonas com uma densidade muito acima do normal.
Fácilmente demos com o objectivo, o ponto de acesso, em rampa, à zona estreita, situada num nível inferior, embora confesse que na primeira abordagem à zona estreita, com base na imagem mental que guardara da primeira visita, tivesse ficado com dúvidas. A zona parecia-me bastante mais ampla, ainda que verticalmente muito "apertada", do que esperava encontrar. Esta primeira incursão permitiu-me ver também que qualquer esperança de progressão exigiria a remoção do capacete, que limitava, de forma particularmente grave, a progressão, a manobrabilidade e capacidade de visualização.
Situação essa resolvida na segunda incursão, que me permitiu uma progressão bastante razoável, após um pequena desobstrução num local mais complicado. De referir que a base de toda esta zona apresenta uma camada de terra/barro bastante importante, apresentado em algumas zonas uma primeira camada mais húmida e barrenta, e uma segunda camada mais seca e granulada. E é esta camada de terra que, de alguma forma, facilita qualquer pequena desobstrução necessária para ultrapassar zonas menos complicadas. A minha progressão foi feita com o capacete na mão direita e um pequeno escopro na mão esquerda, que me foi muito útil num primeiro momento (remoção de uma quantidade maior de terra para permitir o acesso à plataforma horizontal superior). Nesta zona foram identificadas duas, possivelmente três, vias de potencial progressão, na zona "terminal" (enquanto zona máxima que atingi), num sentido ligeiramente ascendente, e a meio da área explorada, do meu lado direito, em sentido descendente, parecendo dar acesso a outra zona horizontal extremamente estreita. O vídeo realizado creio ser elucidador das condições e factores encontrados.
Claramente trabalho a realizar em próximas saídas, num Algar que pode esconder alguns segredos bem interessantes. Veremos num futuro próximo que se vai descobrir
E aqui fica o vídeo da actividade, que permite ter uma ideia geral deste Algar.
Até à próxima, numa Gruta perto de ti
Alexandre Leal





