sexta-feira, 18 de março de 2016

Algar do Vento Atroz

Perto do Cabeço Renhal, Bezerra

Exploração, 14 de Março de 2016


Equipa - Alexandre Leal






Após uma pequena paragem eis que voltámos ao pequeno algar na encosta da Bezerra para o início, de forma focada e decidida, da desobstrução da pequena passagem descoberta na base do segundo poço (P5), que se julgava poder dar para um outro poço total/parcialmente obstruído com pedra e terra/lama.

Boca do algar.


Zona envolvente.

Carregado com dois kitbags cheios (um deles ficou na base do primeiro poço) e mais um pé de cabra em posição "improvisada", equipei e desci até à base do P5. Primeira tarefa preparar o local e o equipamento para a desobstrução, nomeadamente "escorando" melhor o material já retirado, e preparando zonas para vir a receber o material a retirar.

A (muito) pequena abertura tal como descoberta na primeira descida do segundo poço.

Com o pé de cabra e uma pequena pá de campo coloquei mãos à obra, sempre com cuidado redobrado não só com o que estava à minha frente, mas também com o material que ia depositando à minha volta, (e acima, em rampa) que ia tentando estabilizar o melhor possível. A posição não era nada confortável e a amplitude de movimentos e de trabalho por vezes muito reduzida. 

Imagem do espaço após trabalho de desobstrução de uma perspectiva superior
Foi importante, em termos anímicos, a primeira hora de trabalhos. Fazendo um uso ostensivo do pé de cabra (bastante mais do que da pá), consegui alargar e aprofundar a "boca" da passagem. A partir daí fui ganhando profundidade horizontal, sentido lato, ao mesmo tempo que ia retirando também material ao nível da base ganhando assim também alguma profundidade, esta em sito estrito (vertical). Os grandes ganhos ficaram-se a dever sobretudo à retirada de material das paredes interiores, que conjugavam acima de tudo lama já bastante consolidado com uma camada exterior de calcite, que lhe dava uma consistência já muito sólida. Nada que o meu fiel companheiro (Pé de Cabra) não conseguisse "descolar" e posteriormente retirar. Numa das paredes internas fui retirara um volume interessante de barro puro, de cor bastante alaranjada, uma tonalidade muito mais clara do que a terra/lama de tom castanho escuro que constitui a norma nesta cavidade..

O corrente de ar que se fazia sentir na saída anterior não era, agora, tão notória, e se alguma evolução teve ao longo da desobstrução, estranhamente, diria que foi no sentido de se tornar menos evidente. Em qualquer dos casos numa das posições de trabalho, quando me encontrava enfiado na abertura, de peito para baixo, utilizando os pés para ir soltando/removendo material da zona mais profunda, em particular quando estava com a face mais próxima da base (em rampa), era inegável o fresco que soprava. Devo assinalar também que a atmosfera ficou rapidamente saturada, e resultado do esforço e calor do meu corpo aliado à respiração. O vapor de água era facilmente visível, embora não tinha tido a capacidade para o apanhar em fotografia.

Um facto que me chamou a atenção, e que aliás me deixou durante algum tempo perplexo confesso, foi o som/vibração (não consigo definir melhor) que se começou a fazer sentir pontualmente a partir de certo momento. Ao principio cheguei a pensar que fosse um pequeno tremor de terra, depois passou-me pela cabeça que poderia ser, de alguma forma, o som de aviões a sobrevoar a zona. Depois percebi que era o som/vibração das descargas?/trabalhos na pedreira no outro lado do vale, e que se fazem sentir, e bem, no interior do algar.

O términus do trabalho não revelou qualquer hipótese ou forma de progressão para além do confinado espaço da area desobstruída. No entanto dois pontos deixam alguma esperança no sentido de progressão vertical, ou seja, que aquela zona seja efectivamente um poço obstruído por um rolhão de lama e pedra. Por um lado o som da base não se apresenta sólido. A muita lama ainda existente esconde rocha,  facto inegável, mas que se julga ser, à imagem da pedra até então retirada, fruto de blocos/pedras de variada dimensão que aí  terão sido sucessiva e progressivamente depositados.  Por outro lado, e por várias vezes, enquanto remexia o "substrato" da base com o pé de cabra, com o objectivo de soltar pedras para as remover, tive a sensação nítida de ouvir o som de pedras a cair, uns 3 ou 4 metros, vindo exactamente do interior, que presumo ocorrer na parte inferior do rolhão. Confesso que não posso confirmar esta minha sensação mas o som de pedras a cair era inequívoco, e não vinha de cima...

No total creio que o espaço terá, desde a abertura, uns 130/140cm de comprimento. É possível (facto a averiguar numa próxima saída) que possa haver alguma abertura (chaminé/fractura) ou um espaço mais amplo no sentido ascendente no final desta zona, deste nicho, uma vez que consigo identificar, com recurso aos meus pés, um espaço vazio acima daquela formação rochosa que se pode ver no topo da imagem supra.

O espaço interior é "bastante"maior. Com efeito conseguiria "enfiar-me" até bem ao peito.

São, enfim, muitos pontos de interrogação, a que urge responder... mas o esforço despendido ao longo de quase 6 horas já não permitia grandes ganhos ou progressão. As mãos em particular já se apresentava claramente desgastadas e a responderem mal às solicitações. Um claro caso de "diminishing returns".

Era hora de subir e sair, facto que não se apresentou particularmente fácil atento às características e dimensão da abertura. Isso e o facto de trazer abaixo de mim 2 kitsbags e na mão esquerda o pé de cabra... ;)



O dia cá fora estava bastante bom, com um sol muito agradável, que contrastava com os kilos de lama que trazia agarrado a mim... a fazer lembrar outras lutas.

Já em casa, aproveitei para actualizar o croqui da algar com a área já desobstruída.


Abraço e até à próxima,
Alexandre Leal


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