segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Algar do Calhorda, Algar da Oliveira e 

Lapa das Fontainhas

Fontainhas, São Bento

08 de Outubro de 2019





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Pedro Bernardes (GEM)






Uma semana depois da descida ao fundo do Algar Alto (P51) voltámos para a exploração dos dois algares que nos tinham sido identificados pelo "Calhorda", o Sr. Manuel Alves, o Algar do Calhorda, situado num terreno sua propriedade, e o Algar das Oliveiras. Se houvesse tempo iríamos tentar localizar uma lapa de que o Sr. Manuel falou, e de que nos deu uma direcção muito geral.

Para começar o Algar do Calhorda, com uma pequena abertura e não menos pequeno poço de entrada (P3). Por uma questão de segurança colocou-se uma corda numa oliveira situada perto da boca da cavidade, uma vez que se desconhecia a solidez da base do poço. 

Com efeito, este pequeno espaço parecia ser constituído por terras acumuladas e blocos caídos, mas pouco consolidados, especialmente tendo em conta que na sua continuação era visível uma rampa de grau de inclinação acentuada.

Esta primeira descida foi, aliás, a única feita com recurso à corda uma vez que toda a cavidade se fazia com grande facilidade com recurso a técnicas de evolução em oposição.

Na base do poço a progressão mostrava-se possível apenas via a rampa descendente, mas em primeiro lugar importava analisar e sanear toda a zona, removendo terras para perceber exactamente o estado de estabilidade daquela "plataforma", e que levou à retirada de vários blocos, de dimensão variada.




Para progredir mostrava-se necessário desobstruir a pequena passagem de acesso à rampa. 

Foram retiradas várias pedras mas um bloco de maior dimensão encontrava-se "entalado"de tal forma que a única opção viável era parti-lo, fracturar de forma a conseguir retirar ou acabar por enviar rampa abaixo, o que acabou por não levar muito tempo, apesar de se ter mostrado mais resiliente do que o esperado. Mas a pedra era boa, e "partia" bem.

Com este contratempo vencido estava na altura de descer e ver o que esta cavidade nos revelava... e como se antecipava, tendo em conta a tipologia e a experiência em pequenas cavidades semelhantes, a base da rampa dava acesso a uma pequena sala, onde terminava este pequeno algar.

Visão do final da rampa.


Zona terminal.
















Depois de levarmos todo o equipamento utilizado na desobstrução para a superfície, e atento à dimensão reduzida da cavidade, acabei por efectuar de imediato o levantamento topográfico, e finalizar assim a intervenção no local.
























Depois de um almoço rápido no Cantinho do Francisco voltámos à carga para a exploração do Algar da Oliveira, cujo poço de entrada (e único, como se veio a revelar) encontrava-se "camuflado" entre a vegetação. 



Após a "limpeza" do acesso ao poço foi instalada a corda numa oliveira (com utilização de uma cinta) para permitir a descida até à plataforma, constituída por vários blocos de grande dimensão, situada cerca de 2m abaixo da superfície. Para além dos blocos e da terra eram bem visíveis ossadas de animais espalhadas por toda a plataforma.

Em dois pontos, entre os blocos e a parede do poço era visível a sua continuação, com a base cerca de  5 ou 6 metros mais abaixo, mas o espaço era claramente demasiado reduzido para permitir a nossa descida. Mais uma vez seria necessário desobstruir  para progredir.


Analisada  a plataforma decidimos atacar o bloco que se encontrava sobranceiro ao maior e mais directo dos pontos de passagem. 

Por uma questão de segurança, e antes de darmos início a estes trabalhos de desobstrução decidimos equipar o poço com a aplicação de dois parabolts para uma colocação da corda em Y, e prevenir surpresas desagradáveis em caso desabamento da plataforma, até porque esta equipagem teria sempre que ser feita para permitir a descida. 

Com a equipagem feita os trabalhos de desobstrução realizaram-se de forma simples e célere, tendo o bloco intervencionado sido fracturado em vários blocos de menor dimensão e enviados para o fundo do poço.  O caminho estava assim aberto, restava apenas analisar a estabilidade do outro grande bloco que constituía a plataforma.  Para o efeito foram efectuados vários exames e empregue força tanto com o nosso peso como através da utilização de ferramentas, e a indicações eram positivas...

Estava na altura de descer, ainda que fosse necessário usar "alguma" cautela, o que aconteceu sem qualquer percalço ou complicação, apesar de nos termos apercebido, já na base do poço, da existência de alguns elementos superiors "algo" perigosos, como se pode ver na foto infra.
















E tal como aconteceu no Algar do Calhordas também este não teve grande surpresa... na base do poço  uma parede cerca de 1,5m mais à frente marcava o fim da cavidade, sendo de relatar a existência de um pequeno nicho lateral onde se desenvolvia uma chaminé com altura significativa, apesar de muito estreita, paralela ao poço de entrara.



Para além dos blocos que foram enviados para baixo encontrámos ossadas de vários animais, um deles de grande dimensão (muito provavelmente de uma vaca).




O levantamento topográfico deste algar acabou por não ter sido efectuado por se ter verificado a falta de bateria do PDA...  Terá que ficar para uma próxima vez.


Uma vez que os trabalhos acabaram por ser mais rápidos do que o antecipado acabámos por tentar a nossa sorte e procurar identificar a Lapa das Fontainhas, algures no meio da vegetação para além de um grande chouso.

E como não podemos ter sempre azar, e a experiência que se vai ganhando nestas andanças também ajuda, acabámos por conseguir identificar a referida Lapa, com uma pequena entrada escondida no meio da vegetação na base de um pequeno mas longo afloramento rochoso  que cria dois níveis destintos, numa zona de vertente que caminha de forma acidentada para um pequeno vale que rasga a área. E mesmo sem qualquer tipo de equipamento, e munidos apenas com a luz gerada pelos nossos telemóveis, acabámos por fazer uma primeira abordagem de exploração preliminar...

























... e esta sim foi uma agradável surpresa. Uma pequena lapa mas com várias salas  e um modelo de desenvolvimento amplo que não obstante apresentar várias formações delapidadas apresentava ainda alguns nichos com formações e colunas intactas. Impõe-se um regresso, devidamente equipado, para uma avaliação de alguns pontos por forma a despistar possíveis pontos de progressão. 

Algo a realizar muito em breve.

E Pedro, vê se consegues voltar as lides em breve. Cá estarei à tua espera.

Um grande abraço,
Alexandre Leal

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Algar Alto

Fontainhas, São Bento

03 de Outubro de 2019





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Pedro Bernardes (GEM)








Após muita, MUITA, prospecção, verificação e re-avaliação, levada a cabo em duas saídas anteriores, e com a indicação in loco levada a cabo pelo Ângelo (Cantinho do Francisco) e por quem conhecia com mais afinco o "maldito e perdido" buraco, havia finalmente conseguido identificar o Algar Alto.

Confesso que umas quantas horas antes devo ter passado poucos metros ao lado, se não mesmo por cima de uma das possíveis "bocas" de acesso ao poço, mas as sombras criadas pelas árvores e a morfologia do local conjugado pelos musgos presentes e ramos que dificultavam a "navegação"  não me permitiram localizar a cavidade.


Atendendo a estas dificuldades não admira que a localização do Algar se tenha mantido, de alguma forma, na obscuridade da história, perdido e achado mas nunca esquecido.



É possível que seja o Algar Alto, descrito no Livro "Ensaio da Espeleologia Portuguesa - Portugal Subterrâneo - Colecção Natura (obra que me foi referenciada pelo Nuno Rodrigues, Alto Relevo-Clube de Montanhismo), obra de 1925. 

As diferenças que poderia apontar, para além dos 3 ou 4 metros face à medição levada a cabo ontem com recurso ao DistoX, podem ser explicadas pela orientação do corte e "liberdade artística", por um lado, e por outro quase 100 anos que separam as explorações, com possíveis abatimentos pelo meio e certamente pedra enviada desde a superfície, nomeadamente durante os esforços para "fechar" a entrada, e impedir quedas acidentais de gado. 

E a verdade é que, ainda assim, foram encontradas ossadas na base do P51.






Eu apontaria mais para algo como isto...



Mas voltando ao início. Hoje era o dia que finalmente iríamos descer e perceber se lá em baixo, na base do profundo poço, haveria alguma forma de continuação, alguma forma de desenvolvimento.

Mas primeiro era preciso perceber como entrar, ou seja, qual a forma de acesso que mais facilmente permitir o ingresso, de forma viável e segura, ao interior do poço. Foram analisadas duas localizações principais, recaído a escolha sobre a opção que primeiramente foi sopesada, ainda que necessitasse de alguns cuidados e critério na desobstrução e avaliação de risco atendendo aos vários blocos de grande dimensão colocados em posições cimeiras, e mesmo "suspensos" no vazio.

Por estas razões quer a desobstrução quer a equipagem da cabeceira do poço acabou por levar mais tempo do que de outra forma levaria, se bem que a minha condição física um pouco debilitada (a recuperar de uma gripalhada) também não tenha ajudado.
















A escolha acabou por recair num primeiro ponto de segurança numa natural colocada numa pequena árvore sobranceira ao bloco escolhido para a equipagem, com dois parabolts colocados no cimo do referido bloco e um terceiro colocado na vertical, no local que, do ângulo que foi examinado, parecia oferecer uma descida sem roço até cerca de metade do poço. 

Com estes trabalhos preliminares terminados, que colocaram a nu a minha fadiga muscular, o Pedro tomou a dianteira, meteu-se na corda e iniciou a descida do poço que, de acordo com uma primeira leitura com o DistoX teria 41m.

Uns 10 metros mais abaixo começámos a procurar um ponto para a colocação de um fracionamento que permitisse evitar um possível roço num ponto mais acima quando ficasse suspenso, afastado da parede e também para evitar o roço que iria surgir em virtude de um rebordo na parede do poço. O problema era a qualidade da pedra, ou melhor, a falta de qualidade da pedra disponível àquela profundidade. Muito fraca, coberta por uma manto calcítico que se esfarelava e partia com muita facilidade, o Pedro foi progressivamente descendo em busca de melhores condições, que acabou por encontrar a cerca de -20 na parede oposta do "canto" direito, que exigiu uma certa improvisação para equipar (necessidade de se "fixar" no local para assim poder furar e colocar o parabolt).
















Mas por esta altura já o Pedro dizia que ainda não tinha chegado ao meio do poço, afirmação que me causou espanto, até porque dizia ele não sabia se a corda chegava efectivamente até à base do poço. "COMO ASSIM", exclamei eu, ao mesmo tempo que fazia contas... ora se a corda tinha 60m e o poço 41, mesmo com a corda consumida pela equipagem, não poderia deixar de chegar até à base....

Algo de muito estranho se passava e não era só a minha mente atordoada pelo esforço de tosse por vezes compulsiva motivada pela gripe e o muito pó da terra seca à superfície. "Tens a certeza?!?!" perguntava eu da superfície... "Acho que aquilo está a cerca de meio metro... acho que dá para sair. Vou descer", acabou por gritar da escuridão mais abaixo.

  
Pouco tempo depois a águia tinha aterrado, não na superfície da lua mas na base do grande poço. "Livre" gritou ele da distância quase inaudível. 

O som do vento nas árvores, as gralhas e de toda a natureza que me envolvia dificultava a comunicação... Tentava eu gritar lá para baixo "Vê se têm continuação", a minha mente a ponderar a necessidade de descer, ao mesmo tempo que peguei no DiztoX para uma nova medição, agora com mais um ponto de referência, a luz do Pedro, um pequeno ponto de luz na escuridão... e, bem, dos 41m passámos para os 51m. O que um pequeno desvio para a esquerda ou direita pode fazer numa poço com aquelas características. A corda de facto foi mesmo no limite...


E lá de baixo a confirmação do que "temia"... "Sem continuação"!

Estávamos perante um P51 sem mais desenvolvimento.


Reparem que a saída não é o foco maior de luz, antes ao ponto mais pequeno um pouco mais acima e para a direita ...;)



















E depois foi subir, desequipar e proteger a abertura com uns ramos.

Com este "buraco" no meio do nada, e com algum tempo pela frente, batemos a zona "envolvente" em busca de mais alguma surpresa. E andámos, saltámos muros, vasculhámos, e nada. Nem o raio de um buraco que desse para meter uma perna dentro... Era certo que eles lá estavam mas eram tão elusivos quanto os golos para o RDT (sorry, mas é mais forte do que eu 😂).

Numa reviravolta épica, entre a confirmação que os Sportinguista têm uma força interior que não está ao alcance de outros (sim, a "força" está connosco e até as varetas de oliveira tornadas em mágicas ferramentas para a descoberta de água - e se ao menos isso "funcionasse para grutas - se vergava à minha "energia" -  INCHA PEDRO  😂- sob a orientação do senhor Manuel Alves, AKA o "Calhorda"), acabámos por ser guiador até dois pequenos buracos, o Algar da Oliveira e o Algar do Calhorda, que serão objecto de exploração na próxima saída.

Se é verdade que não parecem prometer muito não é menos verdade que podemos ser surpreendidos. E depois ainda nos foi referida uma outra lapa nas imediações.. é só uma questão de procurar. 







Grande abraço de um furão em recuperação ,
Alexandre Leal