Algar Da Moita dos Javalis 1
Mira de Aire, Moinhos Joguinhos
24 de Julho de 2020
Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), José Leal

Nesta primeira visita só me apercebi de uma abertura num dos espaços entre dois blocos (uma vez que o poço se parece desenvolver na confluência de 2 fendas que se interceptam em cruz). E para apimentar a coisa as pedras atiradas para testar a profundidade revelaram...uma estranha ausência de som. Não consigo explicar... se é verdade que as pedras utilizadas foram de pequenas dimensão, até porque desconhecendo a dimensão lateral do poço não queria correr o risco de criar obstruções evitáveis, não é menos verdade que não deixava de ser estranho não ouvir qualquer som evidente delas a bater na base. Ouvia-se o som das pedras a salta de parede em parede durante cerca de 4m e depois nada... a ausência de som.

Poderei dizer que estive em "Radio Silence" durante algum tempo aqui no Blog mas, e ainda que as circunstâncias tenham ditado uma redução dos trabalhos de campo, não tenho estado nada parado.
Os trabalhos da encosta Oeste de Chão das Pias permitiram localizar um pequena, muito pequena, fenda à superfície, quase totalmente escondida por um manto de vegetação denso que por pouco não passou despercebida, e que veio a revelar, com o andamento dos trabalhos de desobstrução, ao longo de várias saídas, um poço estreito cujo desenvolvimento é ainda uma incógnita.

Estes trabalhos acabaram por ter uma pausa forçada quando a torna subitamente parou a meio dos trabalhos de desobstrução... pouco faltava retirar de um ou dois pontos estratégicos para tentar descer um pouco pelo poço até ao ponto em que um bloco caído tinha bloqueado a progressão quando a torna perdeu a percussão, impossibilitando a continuação dos trabalhos.
Paradoxalmente esta avaria viria a revelar-se instrumental para a descoberta seguinte, e que pode vir a revelar-se de valor elevado. Na verdade eu e o Pedro Bernardes já tínhamos abordado a possibilidade de fazer umas prospecções na zona da Moita das Porcas, e esta possibilidade veio a concretizar-se após ter marcado um encontro com o André Reis em Mira de Aire para lhe entregar a torna que ele gentilmente se ofereceu para tentar "arranjar" (valeu o esforço André. Grande abraço). E como lá fui, bem, pensei eu, porque não aproveitar para dar uma vista de olhos na encosta?!?!
Com uma breve análise ao Cadastro de Federação, tremendamente facilitada desde que o Mapa das Cavidades está de novo operacional, fixei uma zona de trabalhos, e não é que em menos de 30m tinha já encontrado uma localização, perdida no meio da vegetação, muito interessante?!?! E não menos verdade é que mais uma vez se deu corpo a uma velha máxima da prospecção "Pitch Balck", "Se encontrares um buraco interessante no início dos trabalhos, nem que te %&$"# todo durante 5 horas seguidas, por entre silvas e carrascos, irás encontrar algo mais". Já deveria saber mas lá focei, focei, e focei, por entre.... sim, acertaram, silvas e carrascos, e lapiás (sim, lapiás.... perdidos entre silvas e carrascos), a tal ponto em que a paciência já era muito pouco e nem o sangue que escorria pelas pernas abaixo me fazia abrandar o ritmo. Já só queria era sair do meio de uma vegetação extremamente densa.
É uma área que pode esconder enormes tesouros, mas escondidos estão e bem, pela muita vegetação que cobre largos troços da encosta.
Mas de volta ao buraco... a que pomposamente designei Algar da Moita dos Javalis 1, que sempre fica mais interessante do que da Moita das Porcas.
No meio da vegetação encontrei uma pequena clareira dominada por quatro grandes blocos, que criavam o quadro perfeito para um clássico poço em lapiás.... é claro que este quadro perfeito é 99,9% das vezes frustrado pela realidade, mas neste caso a sorte sorriu-me e por entre as sombras e a vegetação que se infiltrava pelas fendas laterais (espaços entre os blocos) consegui aperceber-me que havia uma real possibilidade de estar perante um poço com alguma penetração.
Nesta primeira visita só me apercebi de uma abertura num dos espaços entre dois blocos (uma vez que o poço se parece desenvolver na confluência de 2 fendas que se interceptam em cruz). E para apimentar a coisa as pedras atiradas para testar a profundidade revelaram...uma estranha ausência de som. Não consigo explicar... se é verdade que as pedras utilizadas foram de pequenas dimensão, até porque desconhecendo a dimensão lateral do poço não queria correr o risco de criar obstruções evitáveis, não é menos verdade que não deixava de ser estranho não ouvir qualquer som evidente delas a bater na base. Ouvia-se o som das pedras a salta de parede em parede durante cerca de 4m e depois nada... a ausência de som.
Mistério que teria que ser, necessariamente, resolvido numa saída posterior... que veio a revelar uma segunda abertura num outro "braço" da "cruz", escondida por baixo da vegetação.

Foram efectuados vários testes, com pedras enviadas para ambas as aberturas, que pareciam comunicar entre si, o que manifestamente fazia todo o sentido.
Seria um poço comum, restando apenas saber qual a sua efectiva dimensão, e sobretudo largura no âmbito do espaço entre os blocos "emolduravam" as duas fendas.
Com o DistoX consegui na abertura da esquerda (a vermelho na fotografias supra) uma leitura máxima de 13m, o que ainda assim me parecia pouco atendendo ao som que desta vez passara a ser perfeitamente audível, especialmente quando enviados pela abertura da direita (identificada a amarelo).
Era preciso começar a desobstruir o que parecia ser um "rolhão" que bloqueava o espaço no centro exacto da intercepção das duas fendas entre os quatro grandes blocos que dominavam o local, bem como alargar o espaço os dois blocos que limitavam a abertura da esquerda, por forma a possibilitar a posterior descida se esse fosse o ponto mais viável. E aqui estava o busílis da questão. Seria que a torna, após o esforço do André, aguentaria os trabalhos e o esforço?!?! Bem, aguentou precisamente um furo e meio até que fui forçado a parar por aquecimento extremo do aparelho... que posteriormente veio a perder novamente a percussão.
Ainda retirámos alguns blocos, que permitiram alargar um pouco mais a abertura da direita, mas a temperatura que se fazia sentir era um verdadeiro calvário para estar a trabalhar naquela pedra branca.
Esta sexta-feira voltámos à carga, já com novo equipamento e os trabalhos desenvolveram-se a um ritmo muito acelerado e eficiente.
O novo martelo perfurador tem uma força superior ao antigo, dos 1,3j para os 1,7 e nota-se bem a diferença.... de tal forma que a força de batimento, que funciona na perfeição nos furos para desobstrução, acaba por dificultar a realização de furos mais precisos para equipagem (muito provavelmente irei ter que comprar um berbequim com percussão mais ligeiro apenas para esta tarefa), forçando um cuidado extremo para não quebrar a camada superior da pedra (o que veio inevitavelmente a ocorrer, o que forçou a trabalhos suplementares para tentar criar uma cama mais perfeita para as plaquetas). A pedra em si também não ajudava... quer dizer, não ajudava neste aspecto, porque no que tocava à desobstrução per se não tenho qualquer reclamação a fazer.
Por uma questão de segurança, e antes de atacar em força a desobstrução dos elementos na área central, coloquei um ponto de segurança e prendi-me à corda.
Em pouco tempo o ângulo de visão na abertura da direita permitia uma ideia mais apurada da profundidade do poço, ou pelo menos desta secção do poço, uma vez que é muito possível que na verdade o poço, que começa por ser comum, ainda que com um perfil estreito entre abertura da esquerda e da direita, venha dar origem a dois poços paralelos cerca de 8 ou 10 metros mais abaixo (resta saber se não se voltarão a reunir mais abaixo ainda, numa zona fora do ângulo de visão).
Numa nova medição com o DistoX, a secção da direita apresentava um valor de 26m de profundidade, que na esquerda me parece ser bastante mais reduzida (o que justifica aliás a leitura anterior de cerca de 13m). Esta leitura poderá não reflectir a verdadeiramente dimensão do poço, atento ao som que os blocos de maior dimensão faziam ao cair neste troço. Por duas vezes, bem no limiar da audição, e após o embate "inicial" do que deveria ser a "base" do poço (estes 26m lidos pelo DistoX), foi perceptível dois embates finais...
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| Visão na secção da direita do poço |
Com o andamento dos trabalhos, e a retirada consistente de pedra e/ou envio de blocos para baixo, ambas as aberturas ficavam cada vez mais expostas, altura em que equipei a cabeceira em Y por forma a permitir, caso fosse possível, a descida (ainda que se mostrasse evidente a necessidade de colocar um desviador ou mesmo um fracionamento cerca de 2m mais abaixo por forma a evitar um roço criado por um ressalto na parede do poço.
Tornava-se cada vez mais evidente que a remoção de todo aquele material inevitavelmente iria unificar as duas abertura, permitindo abrir na totalidade um acesso comum a ambas as secções do poço.
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| A vermelho a protuberância que irá forçar a colocação de um desviador, e também algum trabalho de estabilização, uma vez que parte dela está fracturada. |
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| Deste ângulo é visível na secção da esquerda. |
Será necessário terminar o esforço de saneamento e estabilização da zona intervencionada bem como de alguns pontos na parede do poço, por forma a permitir uma descida em segurança, mas estou convicto que será trabalho que não nos roubará muito tempo da próxima saída. Depois é descer e ver o que o poço de entrada nos revela.... O algar está situado a uma cota que deverá andar muito perto dos 435m. Ora se é preciso "afundar" ainda "um pouco" para o objectivo final não é menos verdade que me parece mais fundamental, nesta fase, encontrar um desenvolvimento horizontal em sentido O, NO ou mesmo N, por forma a encurtar distâncias e permitir uma possível intercepção... o que seria verdadeiramente épico.
Um grande abraço,
Alexandre Leal














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