terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Algar da Sombra das Pombas

Cabeça das Pombas, São Bento

14 de Janeiro de 2018





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Hugo Costa (NEL) e posteriormente Filipe Santos.






Após algumas semanas a explorar  e topografar cavidades na zona da Pia Carneira, e área a sul da Curraleira, algumas das quais ainda em exploração, proporcionou-se finalmente o regresso, oito meses depois da primeira abordagem à cavidade, aos trabalhos no Algar da Sombra das Pombas.

Não posso, no entanto, deixar de colocar aqui algumas fotografias a ilustrar os trabalhos realizados nas semanas anteriores, antes de partir para a descrição da exploração deste domingo.

Algar da Sala Grande da Pia Carneira

Algar da Sala Grande da Pia Carneira
Algar do Samuel 2


Algar do Samuel 2 - Terminus do Algar

Fraga da Pia Carneira

Fraga da Pia Carneira

Fraga da Pia Carneira

Fraga da Pia Carneira

Fraga da Pia Carneira
Fraga da Pia Carneira

De regresso ao presente tenho que confessar que já há muito esperava por este regresso. Mais do que confiantes tínhamos a certeza que do outro lado da passagem que havíamos começado a desobstruir e alargar, a "Passagem do Triângulo" (devido à forma que tinha quando fora descoberta), iríamos encontrar um qualquer tipo de poço. Não sabíamos a sua forma ou dimensão mas sabíamos que estava lá. 

Mas para além de confiantes estávamos também decididos a concluir o trabalho. Não ponderávamos outro cenário que não a abertura da passagem e a descoberta e exploração do espaço seguinte. Esse era o nosso espírito à partida, mesmo com um frio de rachar que se fazia sentir enquanto nos equipávamos e preparávamos o material para levar. A nossa sorte é que o céu se apresentava, àquela hora, limpo... cenário que se veio a alterar perto das 15h, mas já lá chegaremos.

Com o poço de entrada equipado e descido o plano traçado sofreu logo uma ligeiríssima alteração. O primeiro objectivo passou a ser o resgate de 5 salamandras e 2 tritões que encontrei na zona imediato local de descida, por entre pedras e algum lixo humano para lá mandado. Para o efeito o Hugo desceu com um saco, onde foram depositados os espécimes, alguns dos quais bastante magros, para voltar a subir à superfície e proceder à sua libertação em zona afastada da entrada do algar.

Enquanto isso fui levanto o material para a zona de intervenção para preparar o começo dos trabalhos, que não tardou a estar em pleno desenvolvimento. 

O cenário não era o mais fácil. O espaço era diminuto, sem amplitude de movimentos, e a pedra rija, difícil de partir. Ao som do martelo a vibração e o toque parecia, a dados momentos, chegar a ser metálico. 

No sentido de aumentar o espaço e assim permitir atacar a parte mais apertada da passagem tentámos em primeiro lugar alargar um pouco mais logo no início, mas sem grande sucesso. A pedra recusava-se a partir de forma minimamente significativa.

A solução era mesmo tentar partir a pequena aba inferior que impedia a passagem para o outro lado, por mais incómodo e difícil que fosse a posição para lá chegar, e para este trabalho o Hugo adequava-se bastante melhor, tomando ele a dianteira.

A pouco e pouco, utilizando uma série de recursos e técnicas diferentes mas complementares lá fomos enfraquecendo a pedra até que a dado momento a sentimos rachar... estava para breve o momento que tanto ansiávamos. 

Com o pé-de-cabra (Big Mike) e o martelo (Mauler) conseguimos finalmente forçar vencer o desafio. Parte da pedra que constituía aquele bloqueio foi enviado para o outro lado, outra parte trazida para traz. Maior, bastante maior, mas ainda não o suficiente para passar. Foi necessário mais uns 20m de trabalhos a partir umas quinas aqui e uns altos ali até que nos pareceu ser possível a sua passagem. E a verdade é que o Hugo, avançando lentamente, lá conseguiu passar para o lado de lá, para um pequeno nicho cujo a base se situava cerca de 1,70m abaixo da passagem... 

...e o regozijo não se fez esperar. Do outro lado o Hugo gritava de contentamento. Aparentemente haveria uma sala enorme do outro lado, e o eco das suas palavras parecia confirmar as suas observações.

Mas primeiro, e antes que tudo, seria necessário alargar um pouco mais a "Passagem do Triângulo", não só para permitir  que eu alcançasse o outro lado como para "simplificar" a passagem de volta, tarefa que se mostrava agora bastante mais facilitada, uma vez que do outro lado a liberdade de movimento e espaço de trabalho era completamente diferente, ainda que o raio da pedra, rija como aço, se recusasse a ceder facilmente. A vontade, essa, era indomável e mais esforço menos esforço, lá se alargou o suficiente para tentar a minha sorte.... mas só a segunda consegui passar. Foi preciso ajustar o equipamento e tentar virado de outra forma para, com calma, me juntar ao Hugo e vislumbrar, pela primeira vez, o que o havia deixado tão entusiasmado.

Menos de um metro para a direita da passagem a parede estreita, formando uma janela irregular e cheio de "dentes-de-cão" para uma sala de dimensões assinaláveis, cuja base ficaria uns 8 metros mais abaixo, formando uma rampa que se "precipitava" para uma zona dominada por 4 (os que eram visíveis) grandes blocos que haviam caído do tecto. Toda aquela zona havia sofrido vários e massivos abatimentos, com estratos horizontais relativamente bem definidos nas paredes e com alguns blocos  "em lista de espera".


Era fácil perceber a excitação do Hugo, especialmente depois de perceber-mos que por debaixo dos blocos no final da sala havia uma outra vertical. As pedras a rolar assim o indicavam de forma clara e inequívoca.  

Era preciso equipar pontos de segurança para permitir iniciar o alargamento da passagem de acesso ao poço, mas com as baterias da minha torna no nível zero, após os trabalhos de desobstrução da "Passagem do Triângulo", e atendendo também às horas, foi decidido interromper os trabalhos para almoço bem como para possibilitar que o Hugo fosse buscar um berbequim e baterias para fazer face os trabalhos que se seguiam.


No regresso à superfície encontrámos o Filipe à nossa espera à boca do algar, que se juntou à equipa após uma passagem rápida pelo "Cantinho do Francisco" para uma moelas quentinhas...

O céu limpo da manhã deu lugar a um céu carrancudo e pesado que viria a abrir as comportas quando saímos voltávamos ao buraco. Mais um incentivo para descermos às profundezas da terra.

Com berbequim e carga suficiente (três baterias disponíveis dava muita margem de manobra) começamos por equipar um ponto de segurança logo antes da passagem, para permitir descer em segurança para o nicho inferior mesmo quando tivéssemos aberto a janela para a sala seguinte. 

Em seguida o Hugo, já do outro lado, terminou de alargar a "Passagem do Triângulo", que agora mais parece uma auto-estrada.

Antes de começar a limpar a janela para a "Sala dos Blocos Rolantes"  coloquei um spit, a meio caminho entre a "Passagem do Triângulo" e a janela, como ponto de aproximação, por forma a dar não só uma maior segurança no trabalhos como permitir, posteriormente, equipar a vertical já no outro lado da janela, suspenso sobre o vazio. Depois foi "partir pedra" e esbater arestas.

Não concluímos esta parte dos trabalhos mas foi aberto o suficiente para conseguir encontrar um ponto minimamente adequado à colocação de um fracionamento (em modo de exploração, que será reforçado com um outro na próxima saída) sobre a vertical, por forma a permitir descer até à base da sala, e ficarmos com uma melhor ideia do que nos espera na próxima saída.


Parte das pedras que constituem a rampa descendente apresenta-se já relativamente "estabilizada" por uma pequena camada de calcite cinzenta escura. Teremos no entanto que sanear o resto da rampa, em particular a zona  perto da cabeceira do terceiro poço, por forma a reduzir ao mínimo o risco da queda de pedras enquanto descemos a próxima vertical.


Visão o tecto da sala, bem lá em cima- Visíveis alguns dos blocos
"em lista de espera".
Grandes blocos que bloqueiam parcialmente o acesso ao terceiro poço.

Visível o pequeno espaço (à direita da sombra na rocha) entre o bloco
e a berma da rampa por onde as pedras rolam e caiem.
Em princípio, com base nos dados até agora recolhidos e que terão que ser confirmados na próxima saída, a opção para a equipagem deste terceiro poço será na parede oposta, para além dos blocos caídos, uma vez que se nos afigura, até prova em contrário, ser essa a via mais directa, muito ao jeito do segundo poço no Algar do Maroiço. 

Para o efeito deveremos equipar um pequeno corrimão de segurança, que permita alcançar o local sem perigo de queda, mas vamos deixar esses pormenores para a próxima actividade. 

Com o sentido de trabalho concluído com êxito, e até porque a hora tardia já se fazia sentir, estava na altura de ir subindo e desequipando.


Agora é preparar a próxima saída e ver onde o terceiro poço nos leva. A zona  (Cabeça das Pombas) é propícia a algares de média profundidade. Pode ser que este nos surpreenda, ainda mais, quero dizer.

Um abraço,
Alexandre Leal





























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