quarta-feira, 7 de março de 2018

Algar da Pia Carneira 5

Pia Carneira, São Bento

01 de Março de 2018





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Bruno Pais (NEL/AESDA).








O tempo ao longo de toda a semana mostrara-se particularmente agreste, com uma precipitação constante e muito forte. E neste dia em particular as coisas não estavam fáceis. Se é verdade que da parte da manhã as previsões, confirmadas pelo que se ia sentindo a cada minuto que passava, não apontavam para chuvadas intensas, não é menos verdade que a chuva que caía intermitentemente não ajudava em nada qualquer tipo de trabalho à superfície. Com esta limitação a escolha estava feita. Deixaríamos o Algar da Pia Carneira 12 para o final do dia, caso houvesse hipótese.

Principal zona de guano, e zona onde foi encontrado o maior número de ossadas.
Após duas saídas de exploração preliminar ao Algar da Pia Carneira 5, que permitiram avaliar a possibilidade de progressão para além da "Fractura Branca" (uma estreita, mas profunda, fenda branca de grande beleza que encontrámos num dos extremos na "Sala da Morte", assim designada pelo elevado número de ossadas de morcego aí identificadas em várias zonas de guano), estava na altura de atacar em força.

O objectivo era alargar uma pequena zona na parte superior da fenda, na ponta oposta,  por forma a aceder a um espaço que as imagens captadas na saída anterior indicavam ser de maior dimensão, permitindo assim equipar a vertical e descer.

Sabíamos que a fenda, após aquele ponto, virava para a direita, e apresentava-se mais larga. Por outro lado as imagens captadas deixavam em aberto a possibilidade de existência de uma janela que poderia dar acesso a outra zona, contígua a esta fenda.

Os trabalhos de alargamento da fenda, por forma a permitir a passagem, foram levados a cabo de forma muito célere, não obstante os constrangimentos de ordem física atento ao confinamento do espaço. Utilizando as técnicas adequados conseguimos primeiro fissurar o manto calcítico que cobria a "esquina" da fenda na parede direita, que posteriormente foi removido através da utilização de martelo e escopro. Por mero acaso parte do bloco que se soltou acabou por ficar encaixado na fenda um pouco abaixo, o que na verdade veio a facilitar a passagem deste ponto, feita em oposição e com muita atenção, especialmente atento à muita água que tornava a pedra escorregadia.


Do outro lado confirmou-se, em pleno, a existência de um espaço mais alargado (mais alargado ainda que não propriamente largo), bem como a janela que dava, efectivamente, acesso a uma outra zona, que prometia surpresas.

Janela para um outro troço da cavidade.
Fenda, mais alargada nesta secção.




























A posição em que me coloquei, sentado na referida janela com uma perna para cada lado, não era propriamente agradável mas era relativamente estável, e sobretudo permitia a equipagem da vertical, ainda que consciente que toda aquela zona se encontrava coberta por um manto calcítico de espessura relevante. E consciente dessa vicissitude foram colocados dois parabolts (o da esquerda, um pouco mais abaixo do primeiro, apresenta alguma fragilidade uma vez que roda muito ligeiramente) que permitiram fixar a corda e descer até à base da fenda, uns 7 ou 8 metros.

Na base podia ver-se a secção inicial da fenda em frente, que atingia uma profundidade maior do na zona onde me encontrava, e para a minha esquerda (tal como me encontrava posicionado) a fenda dava acesso a uma pequena sala com a base cerca de 2 metros mais abaixo.

Uma rápida análise identifica a existência de uma passagem, estreita e coberta de "dentes de cão", que exige um pequeno destrepe de cerca de 170cm, situada no canto imediatamente à direita da entrada, no sentido da secção inicial da fenda, como que andando em espiral.

Ultrapassado esta dificuldade, que dilacerou o que restava do meu fato, acedi a uma passagem que aparenta ser a base da fenda no seu troço inicial, embora tal precise, por estranho que possa parecer, de ser confirmado. Tudo assim indica mas a verdade é que, aparentemente, a minha luz não era visível ao Bruno que se encontrava, ainda, acima de mim, no topo da referida fenda. E se para a esquerda a passagem terminava, para a direita dava acesso a um novo poço, com cerca de 4m de profundidade. Não obstante ter apenas descido, por oposição, cerca de metro e meio, da posição onde me encontrava não era possível vislumbrar qualquer via de progressão. Havia atingido o terminus deste troço da cavidade.


Virámos então  as atenções para janela no topo da Fenda e no que estava para além dela.

E essa tarefa coube, em primeira mão, ao Bruno Pais. Com calma, e após se ter esgueirado através da estreita passagem, seguro por uma longe presa a uma natural (fita colocada em voltar de uma formação existente na orla da abertura), efectuou um pequeno destrepe até à base de uma nova sala, que apresentava uma base inclinada, que terminava numa estreita abertura que dava acesso a uma nova vertical. Este poço dava acesso a um espaço de forma relativamente arredondada e com várias poças de água na sua base.

Utilizando a equipagem feita para a descida até à base da fenda, puxando a corda para este lado da janela, e colocando apenas um desviador (feito com recurso a anel colocado em volta de um bloco sobranceiro à cabeceira do poço) para a centrar na abertura do poço, foi possível ao Bruno descer mais este poço.


Já base desta nova sala foram identificadas várias condutas/chaminés de pequena dimensão que permitiam um constante afluxo  de água a este nível. O pingar era constante, tal como era a escorrência pelas paredes, causa principal do extenso manto branco e cinzento que cobria parte relevante das paredes. Foi identificada uma muito pequena passagem que aparenta dar lugar a uma zona mais larga no outro lado, mas que, e atento à sua localização e direcção, não se pode descartar a hipótese de ser a base da Fenda Branca. É um ponto de interrogação que necessita ser resolvido.

Já na subida, numa pequena plataforma abaixo da zona onde foi colocado desviador, o Bruno identificou uma apertada passagem descendente que poderá ser uma via de progressão e dar acesso a uma zona até agora desconhecida, embora não se possa descartar a possibilidade, tal como acontece como a pequena passagem mais abaixo,  de vir a ligar com a sala que se encontra na sequência do local onde descemos a Fenda. É, no entanto, um ponto de interrogação promissor que será resolvido na próxima saída. E na próxima saída porque naquele ponto a condição física encontrava-se já algo debilitada, não só pelo esforço imposto pelas características da cavidade mas também, e sobretudo diria eu, pelo facto de estarmos completamente encharcados, fruto do constante gotejar, pingar e escorrer de água pelas paredes. A  decisão foi tomada. Era necessário desequipar e lentamente levar todo o equipamento de volta à superfície, o que implicou rastejar pelos estreitos pontos e rampas cobertas de lama nas passagens iniciais.


Croqui (esgalhado à má fila).


Escusado será dizer que chegámos à superfície, para sermos brindados por um vento cortante, não só encharcados como completamente enlameados.

Seria mais fácil, bem mais fácil, dirigirmo-nos directamente para o carro e vestir uma roupa quente e, sobretudo, seca. Seria mais fácil mas não seria a mesma coisa, e não é para nós.

Parados é que não podíamos ficar, sob pena de enregelar.

Antes de darmos por terminados os trabalhos tivemos oportunidade de começar os trabalhos de alargamento da abertura do Algar da Pia Carneira 12, que atacaremos muito em breve, bem como fazer uma visita rápida a uma outra gruta situada num chouso contíguo, a cerca de 40m do Algar da Sala Grande da Pia Carneira, conhecida por Caverna das Silveirinhas. Uma pequena cavidade dominada por dinâmicas de abatimento, constituída basicamente por duas salas de  dimensão relevante para a zona em questão, ligadas por uma curta passagem, com várias zonas com blocos caídos, em alguns casos de grande dimensão.  

Entrada, em destrepe, para o interior da cavidade.

Sala de entrada, na direcção da segunda sala.
Início da passagem entre as duas salas.















Finda a visita estava, agora sim, na altura de darmos por terminados os trabalhos, até porque se tornava imperioso vestirmos algo mais quente... reforçado com uma refeição quente para ajudar a repor a temperatura corporal.

A zona da Pia Carneira está a revelar-se uma zona surpreendentemente rica. Que surpresas nos esperam ainda na exploração das suas cavidades? O Algar da Pia Carneira 12 promete novas profundidades, mas por enquanto não mais que isso.

Um grande abraço,
Alexandre Leal

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