segunda-feira, 24 de julho de 2017

Algar da Arroteia

Chão das Pias, Planalto de Santo António

22 de Julho de 2017




Coordenação-Alexandre Leal (NEL), João Ferreira (NEL)
Equipa 1 - Alexandre Leal (NEL) e Hugo Costa (NEL);
Equipa 2-  João Ferreira (NEL), Filipe Cruz (NEL), António Fael (NEL) 







Com o Verão a prometer uma temporada auspiciosa de exploração em cavidades freáticas ou com zonas (parcialmente) submersas o NEL voltou à carga para mais uma temporada de exploração no Algar da Arroteia.

Muitas são as tarefas a realizar, passando pelo levantamento topográfico para posterior produção da topografia da cavidade, verificação de pontos de interesse ou sectores que levantem ainda algumas dúvidas, e sobretudo a continuação do ataque na ponta de exploração no seguimento da "Pedra do Demo", logo após a estreiteza desobstruída pelo Orlando Elias, nos -70 (sector após o sifão).

A actividade começou com algum tempo de atraso sobre a hora prevista, com as equipas a sofrer algumas alterações ao plano previsto (não me vou alongar neste ponto). 

O plano de actuação estava delineado, a Equipa 2 iria explorar uma passagem colocada a seco pela descida do nível da água num poço da zona fóssil, enquanto a Equipa 1 iria prosseguir com os trabalhos na ponta de exploração, tendo em atenção que a semana passada se verificou que o nível de água nesta zona estava mais alto do que o verificado no ano passado quando lá chegámos pela primeira vez (embora se ressalve que tal foi alcançado bastante mais tarde na temporada).

Com uma equipa de dois, sem margem para grandes manobras e com "alguma" atenção e preocupação ao nível da segurança, lá nos colocámos a caminho, na vã esperança de encontrar o sector mais seco, ou que pelo menos permitisse a passagem até à zona do "Lago", realidade que não foi possível concretizar na semana anterior.

O percurso, embora não muitos extenso, não é particularmente fácil quando feito com um kit bag bem preenchido, mas sem grandes dificuldades atingimos o ponto em que a equipa da semana anterior ficou, a "Pedra do Demo". 

Do outro lado... água!! 

Restava saber se preenchia toda a passagem ou se permitia a progressão. Não restava grande alternativa a não ser "saltar" para dentro de água e verificar se tínhamos caminho "aberto" ou se estávamos condenados a esperar mais uma semana até que o nível baixasse... o suficiente.

A verdade é que apesar do nível estar muito acima do verificado o ano anterior era já possível progredir, pelo menos neste troço e ultrapassar a primeira estreiteza (desobstrução feita por mim e pelo João Ferreira no passado ano de 2016). 
Era preciso então preparar o material para levar para a frente de exploração, reduzido ao mínimo indispensável, ficando o resto para trás na passagem a seco (sector desobstruído pelo Orlando, agora uma verdadeira auto-estrada). "Armados" com o "Big Mike", dois martelos e uma pá, fomos avançando pela estreita passagem alagada por uma fria água cristalina.


Após a estreiteza (uma curva apertada à esquerda) cerca de 2 metros de passagem a seco e logo após a curva à direita a água fazia nova aparição. Neste sector ficou deixámos uma garrafa de água e o "Big Mike" e seguimos para a frente com os martelos/picaretas para a frente.



Avançando por mais esta passagem alagada alcançámos mais à frente um segundo ponto a seco, que na verdade marcava a fronteira com o Lago (embora tal  não fosse perceptível à altura), o único ponto com água encontrado no decorrer da temporada de exploração de 2016, cuja "margem oposta" foi atingida na derradeira saída pelo Flávio Lucas.
In loco, com a esmagadora maioria da passagem alagada, que colocava em causa a imagem mental que trazia do ano transacto, as dúvidas instalavam-se. Teríamos nós já alcançado o lago ou estaríamos nós ainda a meio caminho? A solução, a única solução, era continuar a avançar pela gélida (sim, por esta altura era já gélida) água, indo analisando a progressão, tentando identificar novos pontos que indiciassem a chegada a uma zona virgem. 

Tal confirmação veio no final deste terceiro troço alagado. 




A passagem diante de nós subia subia suavemente acima do nível da água e apresentava formações hipogenéticas luxuriantes e incólumes, sem marca de passagem ou desobstrução não obstante se transformar cada vez mais apertada. 
Este era o ponto que procurávamos, o ponto que  marcava a fronteira do nosso conhecimento. Para lá era "terra incognita". E com a energia redobrada metemos as mãos ao trabalho, primeiro eu, numa análise preliminar do ponto e começo da desobstrução e alargamento da passagem, para depois o Hugo, com um corpo mais adequado aos trabalhos neste posição e no exíguo espaço disponível, assumir o esforço principal.

Com o Hugo à frente a fuçar e eu atrás a dar suporte, indicações e continuar o trabalho de alargamento da passagem, fomos lentamente avançando. O Objectivo era alcançar uma pequena lomba que se via por entre o ponto mais estreita da passagem, acima do qual se encontrava a continuação, o que parecia ser um espaço um pouco mais amplo (o que não seria difícil de imaginar), com uns blocos (caos de blocos?) visíveis um pouco mais à frente. 

Confesso que não consigo precisar quanto tempo tivemos nesta posição. Eu em particular, como estava com parte do corpo dentro de água tive que recuar para o ponto seco por duas vezes para restabelecer alguma mobilidade. Desta posição, e porque já estava a sentir os movimentos do Hugo já bastante laboriosos, e cada vez mais intermitentes, não obstante a sua vontade de prosseguir, determinei um período final de trabalho de 5 minutos para a passagem do ponto estreito ou interrupção dos trabalhos para inverter o caminho até à sala das refeições. 



Temos que dosear o esforço e perceber que ainda nos falta fazer o caminho inverso.

Numa última tentativa, frustrada, o Hugo apercebeu-se da presença de um secção de tubo de PVC preto, preso entre umas rochas, e já parcialmente coberto com uma camada de calcite. 

Um "artefacto" de anteriores esforços de exploração, arrastado para aqui pela força da água? 

Com a estoicidade que se exigia lá nos metemos de novo dentro de água e fizemos o caminho inverso... de volta à sala das refeições e depois à superfície, após um breve descanso. 

No cômputo geral, e atendendo às limitações impostas por uma equipa de apenas dois elementos a trabalhar num contexto complexo e difícil, foi um bom recomeço dos trabalhos na ponta de exploração. 

Para a semana há mais...

Um abraço molhado e gélido,
Alexandre Leal

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