sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Algar da Cheira

Vale Florido, São Bento

10 de Novembro de 2016





Coordenação - Alexandre Leal
Equipa - Alexandre Leal




Fotografia tirada em Abril de 2016

Num deslumbrante dia de Novembro, com um radioso sol a manter o cinzento das nuvens bem à distância, aproveitei para dar um saltinho à Cheira  com um objectivo muito concreto, tentar confirmar ou infirmar a presença de um poço na sequência do segundo nicho.



Há muito que defendo a existência de uma segundo nível nesta cavidade. As pistas estão lá espalhadas um pouco por todo o lado, umas mais evidentes outras mais subjectivamente sentidas. A verdade  é que desde a minha primeira visita a esta cavidade em  finais de 2014, com a primeira abordagem, muito insipiente à altura claro está, ao sector das estreitezas, indicado já no final da visita pela Florbela Silva, e com a percepção posterior que esse sector não constava na topografia publicada nem havia sido explorado, que a Cheira me obrigou a um retorno, a um regresso já não de simples visitação ou treino técnico (como foi o caso na altura, inserido no curso de N2) antes com uma abordagem e numa perspectiva de exploração e aprofundamento do conhecimento sobre esta cavidade, que em termos de enquadramento e implantação se encontra numa área particularmente interessante.

Primeira vislumbre da passagem para o segundo
nicho. Antes de ser intervencionada.
Para compreendermos a dificuldade que esta cavidade encerra, tanto na sua análise como na sua exploração, temos que  perceber que uma das forças motoras no seu "desenvolvimento" foram os abatimentos. Estes são evidentes desde o primeiro olhar para o poço de entrada e a sua base em rampa numa sala ampla, e de grande beleza. Mas se neste caso as evidências saltam-nos à vista a verdade é que os abatimentos estão presentes em grande parte do corredor central da cavidade, criando verdadeiros caos de blocos, que em muitos casos, pela sua dimensão, escondem essa mesma realidade. E é essa natureza caótica, e em alguns casos instável, que cria um verdadeiro labirinto de pequenas passagens, em alguns (ou muitos) casos bloqueadas ou obstruídas por terra e argila, muito difíceis de navegar e acima de tudo muito difícil de distinguir das passagens "naturais", na sequência de fracturas ou erosão/corrosão de estratos. Esta dupla natureza é perfeitamente visível nos "Nichos", uma das pontas da presente exploração, situados no enfiamento da parede lateral sul, junto da estação 7 (topografia efectuada com base em dados recolhidos em 2011, com arte final por Vitor Amendoeira).

Durante os trabalhos de desobstrução da abertura para a passagem que
iria dar ao segundo nicho.
A mesma vista, mas com a passagem já devidamente desobstruída.
Esta é, no entanto, uma análise muito pessoal e sem o peso do rigor científico que pudesse decorrer de um conhecimento formal e/ou profissional na área. Vou deixar essa análise para quem tem conhecimentos específicos sobre a matéria. Esta minha análise é uma análise empírica, formulada e consubstanciada, na minha perspectiva,  pelos dados que foram sendo recolhidos ao longo das várias saídas à cavidade.

Visão da passagem agora da perspectiva do segundo nicho.
O segundo nicho apresentava uma grande quantidade de blocos aí depositados por efeito da gravidade, ou seja, que aí foram caindo, ou para aí arrastados.  De variada dimensão mas todos amontoados de forma caótica, impediam a progressão ou mesmo uma abordagem mais próxima ao substrato que era visível por baixo. Ao longo de várias saídas foram sendo retirados, com particular incidência para a actividade ocorrida no passado dia 05 de Novembro, mas desde cedo que detectei o que parecia ser uma pequena zona não bloqueada pelas terras e blocos que cobria a base do nicho. Não aparentava ter mais do uns uns 3 ou 4cm, um pequeno vazio negro junto a parede, protegida pelos contornos de uma pequena reentrância na rocha.

Exemplo de muitos dos blocos que tiveram que ser retirados.
Ontem, finalmente, consegui atacar directamente este substrato, que via como uma espécie de rolha mais ou menos compacta de terra e pedra que bloquearia uma passagem vertical num ponto mais estreito. O som, aliás, de uma pedra a cair algures por baixo na saída anterior era para mim já de si uma confirmação que de existiria um espaço vazio por baixo, facto que já experienciara aquando do Algar da Rampa Falsa e também no Algar do Vento Atroz (neste caso ainda sem confirmação uma vez que a desobstrução é particularmente complicada no espaço em questão. Espero, no entanto, que este inverno possa ainda dar uma ajudinha, e a chuva ajudar a desvendar este mistério).

Foi aliás com a experiência ganha no Algar da Rampa Falsa que a primeira iniciativa tomada ontem foi a colocação de um spit no segundo nicho para equipar uma plaqueta que me permitisse estar "alonjado" e em segurança no evento da derrocada deste rolhão, o que até ao momento ainda não ocorreu, embora creia que tal venha mesmo a acontecer à medida que se vai alargando o "buraco".

Com o "Big Mike" testei a profundidade e a constituição deste substrato, que se mostrava muito permeável em certas zonas, conseguindo mesmo penetrar em todo o seu comprimento. Apostando na zona central e na zona onde vislumbrei o pequeno "vazio", "rapidamente" consegui furar esta camada e comprovar a existência de um espaço aberto por baixo, embora não fosse, à altura, minimamente possível estimar a sua dimensão.

Com calma, até porque as dimensões do espaço de trabalho não permitiam grandes movimentos ou amplitudes (na verdade para me baixar e retirar as pedras e "bolas de lama" que ia formando com os movimentos do "Big Mike" tinha que retirar o capacete. De outra forma simplesmente não lá chegava) estes pequenos buraquinhos foram alargando e finalmente premindo uma melhor percepção da profundidade do poço que se estendia por baixo. Não que esta percepção se mostre particularmente correcta, uma vez que as pedras que iam caindo apontavam claramente para distâncias bastante maiores do que as que eram possíveis ver através da desobstrução.

No fim dos trabalhos a abertura apresentava-se já bastante maior, embora tenha acabado por ser parcialmente obstruída por um bloco que ficou preso durante a operação de o fazer passar por um ponto mais apertado um pouco abaixo. Atento no entanto a grande instabilidade de toda a área envolvente, mas também das paredes do nicho existe ainda muito a fazer até que se possa pensar em descer. Muita matéria precisa ainda de ser removida, e o nicho saneado, por forma a criar as condições de segurança necessárias para o próximo passo.

Matérias para próximas saídas.

O objecto principal, esse, estava plenamente atingido. Confirmou-se a existência de um poço que, não obstante a sua  profundidade seja ainda desconhecida mas que aponta para dimensões interessantes (dentro do contexto da cavidade),  poderá permitir aceder a um outro nível, até agora desconhecido, do Algar.  

Mais, não sei até que ponto este área não terá ligação ao sector das estreitezas, uma vez que, e apesar de arriscado sem dados topográficos que permitam fazer uma leitura mais precisa, a zona explorada também no passado dia 05 de Novembro parece apontar para essa direcção geral.

Um passo mais no desvendar dos mistérios deste Algar, com muito ainda por descobrir.

Um abraço, hoje um pouco menos argiloso
Alexandre Leal






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