Algar da Alfarroba
Serra de Santo António
26 de Outubro de 2016
Coordenação - Bruno Pais (AESDA)
Equipa - Bruno Pais (AESDA), Alexandre Leal.
Primeiro passo Rio Maior, pegar o Bruno, e lá fomos nós por estradas serra acima e serra abaixo até ao trilho que levava ao Algar. Logo aí, bem juntinho à estrada, foi vestir, equipar e preparar os kitbags com o equipamento necessário para levarmos para dentro do algar. Não tardou muito e lá íamos nós a caminho, passando o Algas das Couves, rodeando o chouso até ao ponto das vacas curiosas, bem junto à oliveira sobranceira ao robusto muro de pedra, já com o buraco à vista, ainda que devidamente tapado e protegido para evitar quedas acidentais.
A equipagem da cabeceira é a parte mais fácil, não apresentado qualquer tipo de dificuldades. Já o resto... bem o resto exigia uma atenção constante e a adopção de posições, roçados e mesmo um fracionamento para negar ou mitigar situações em que a corda roçasse na rocha, em muitos dos casos aguçada ou laminada. Mas vamos por partes.
Logo abaixo da cabeceira temos um constrangimento que limita as movimentações, uma pequena estreiteza vertical, que se torna um pouco mais difícil quando transportamos kitbags e material de equipagem. Nada, no entanto, que se apresente particularmente difícil de ultrapassar, diga-se em abono da verdade. A partir deste ponto começam as preocupações com os roços, o que torna a descida de quem vai à frente um pouco mais lenta. Como medida preventiva foi colocado um fracionamento acima da "Encruzilhada", por forma a prevenir que a corda roçasse de forma particularmente agressiva numa zona mais complicada, ao mesmo tempo que nos dava mais segurança nas manobras e trabalhos mais abaixo.
Ao contrário do seu vizinho, o Algar das Couves, o Algar da Alfarroba não é, do que foi até ao momento possível explorar, um algar bonito, com formações ou espeleotemas particularmente interessantes. Na verdade parece ser um buraco... um "simples" buraco, mas um buraco muito interessante, de grande complexidade estrutural, e que nos pode vir a surpreender pelas suas dimensões. Os indícios estão lá, tanto no interior como à superfície, como aliás se compreende pela indicação original da presença de um algar no local, tal como consta do Cadastro de São Bento (ponto 614), que se encontra cerca de 2 metros ao lado desta entrada, descoberta pelo Bruno (e equipa) após muita insistência e trabalho de desobstrução em saídas anteriores. De facto, a marcação original, que se encontra obstruída, acaba por ligar ao poço de entrada, via fractura consolidada com muita terra, fractura essa de contornos e dimensões ainda desconhecidas. Aliás, toda a estrutura do algar é ainda um mistério, adensado com indícios que apontam para espaços amplos e comunicantes, que permitem "ouvir" (pelo solo) o bater do martelo na rocha a cerca de 10 metros da boca, ou pedras a caírem...
E por dentro o panorama não é diferente.
![]() |
| Via lateral esquerda e central da "Encruzilhada" |
![]() |
| Via direita da "Encruzilhada". Via utilizada para progredir |
O Bruno designou dois pontos de trabalho para esta saída. A mim caberia-me "atacar" o fundo do algar, no que se designava como Poço Principal, o segundo poço que permitiria a continuação da progressão, enquanto o ele iria explorar e analisar um outro ponto que havia ficado por ser visto na saída anterior, numa pequena zona paralela... aliás visto de dentro tudo parece ser pequeno (apertado) e paralelo. Este segundo poço pensava o Bruno ser um poço secundário... Os trabalhos de ontem, parecem-me impor uma re-avalização desta ideia, como concluímos a final.
Os trabalhos em ambos os pontos não se mostravam fáceis atento às condições particulares do algar. Espaços pequenos, muita terra, ora solta e mole, ora molhada e barrenta. A pedra tanto se apresentava rija, vidrada, como extremamente mole e "podre".
![]() |
| Abertura da passagem que dá acesso ao poço. |
Do meu lado rapidamente me apercebi que teria que abrir e alargar o inicio da pequena passagem horizontal que permitia o acesso ao segundo poço. Tal como se apresentava não permitia alcançar a parte posterior da passagem que continha ainda vários pontos que criavam constrangimentos e dificuldades ao ingresso ao poço.
![]() |
| Vista do poço após a passagem. O ângulo não é o melhor. |
Lentamente fui desbastando a pedra e retirando terra da área envolvente, até que me permitiu, ainda que para tal tivesse sido necessário retirar o capacete, curvar o suficiente para colocar a cabeça na passagem e captar as primeiras imagens da vertical.
Aproveitámos esta altura para testar a possibilidade de comunicação entre este poço e o poço onde o Bruno estava a trabalhar. Foram atiradas algumas pedras por ele e não obstante o som ser perfeitamente audível não foi possível ver qualquer das pedras atiradas. Mais, o som produzido pelas pedras atiradas para o outro poço pareciam cair mais do que as atiradas neste poço, sendo que em alguns casos terminavam num som particularmente grave, indicando ou uma camada de terra relativamente densa e/ou numa plataforma instável ou com um espaço vazio por baixo.
O passo seguinte era atingir a cabeceira do poço, e a única maneira que se afigurava exequível era progredir com os pés para a frente. Após uma primeira tentativa, frustrada pela existência de elementos que haviam resistido ao martelo, e que teimavam em impedir a passagem prendendo o arnês, o que exigiu uma segunda ronda de desobstrução, consegui finalmente ultrapassar este pequena passagem estreita. Do outro lado, e numa posição muito pouco confortável ou estável, permitiu, por breves instantes, ter uma imagem mais compreensiva (ainda que de ângulo complicado atento à posição possível) das dimensões do poço, mas sobretudo das dificuldades que apresentava a sua descida. Com efeito este segundo poço vai estreitando ligeiramente à medida que vai descendo, apresentando constrangimentos e obstáculos (pontes e arestas laminadas, blocos caídos, etc) em vários pontos, e isto atinente apenas ao que era visível de uma posição algo periclitante.
Com este ponto visto trocámos de posições para ficarmos com uma ideia mais abrangente dos trabalhos e da estratégia a seguir.
Assumindo os trabalhos no ponto em que o Bruno havia estado a laborar, continuei com os esforços de alargamento do acesso a um outro poço, paralelo ao que havia acabado de aceder, embora este com um aparente maior potencial de progressão. Por entre marteladas e troca de ideias com o Bruno, do outro lado da parede, começámos a explorar a possibilidade de comunicabilidade entre as duas zonas (havia detectado a luz dele quando estava a explorar o ponto anterior, através de um pequeno buraco na parede atrás de mim).
![]() |
| Retirado do video gravado pelo Bruno. Abertura inferior de de acesso ao que deve ser o poço principal, 2º poço. Eu alargava um outro acesso cerca de 75cm acima da cabeça dele. |
Com muita persistência o Bruno foi esburacando, alargando, o pequeno buraco e em menos de nada conseguia ver uma bota a sair da parede do poço cerca de 75cm abaixo da obstrução que tentava, a custo, vencer, e que veio a revelar-se a forma mais indicada para aceder a este poço. No final, quando já eu estava com a torna em modo de "martelo pneumático" (yeah right... muito pouco eficiente. A bateria desaparecia a olhos vistos), a abertura criada abaixo de mim permitia atacar directamente esta segunda vertical, não fosse a dificuldade com que nos deparámos para encontrar um local minimamente adequado para equipar a cabeceira. A pedra na zona envolvente tem uma qualidade muito duvidosa e apresenta-se ou fracturada ou constituída por pequenos blocos/blocos com relevo complicado.
Video do Bruno Pais
Enquanto estudávamos esta questão acabei por me deparar, ao olhar para cima e de um ângulo muito particular, com uns blocos que haviam caído da boca do algar aquando do esforço inicial de desobstrução, e que patenteavam algum risco de queda. Tendo em conta as dimensões envolvidas, e por uma questão de segurança, decidimos subir, retirar as cordas, e sanear a situação. Alguns dos blocos foram de facto enviados para baixo, tendo o Bruno certificado que o maior estava, de facto, confortavelmente encaixado e sem risco de cair.
![]() |
| Fotografia por Florbela Silva |
E a verdade é que lá fora já a noite imperava. Lá nos esperava a Florbela, que nos deu uma valiosa ajuda na desequipagem e depois no contacto com o dono do terreno, que havia sido avisado que estariam uns tipos a "atacar" as azeitonas com umas luzes na cabeça... Um senhor muito simpático, tio do Orlando, que rapidamente se acalmou assim que percebeu que "os tipos com luzes na cabeça" eram os tipos "dos buracos", com quem estava habituado, naturalmente, a conviver.
Uma muito boa tarde de trabalho, e sobretudo um muito bom trabalho de e em equipa. O caminho está aberto para a progressão no Algar, que certamente acontecerá de forma célere e agilizada.
O equipamento, esse, estava como há muito não o via... aquela terra entranha-se de forma particularmente perniciosa. Confesso que gosto de sensação de "chafurdar" no interior de um buraco. Sair de uma gruta com o fato limpo não me deixa particularmente agradado, como que um anátema da figura de um explorador. O pior é o dia seguinte...
Um abraço bem sujo de terra,
Alexandre Leal









Sem comentários:
Enviar um comentário