domingo, 16 de outubro de 2016

Algar da Arroteia

Chão das Pias, Planalto de Santo António

15 de Outubro de 2016




Coordenação-Flávio Lucas (NEL)

Equipa - Flávio Lucas(NEL), João Ferreira (NEL), Alexandre Leal (GEM);




Até onde o rio nos levar...




Onde é que íamos mesmo?!? Ah sim, exploração de passagens apertadas, com formações que agarram tudo e todos e têm uma apetência particularmente irritante de estraçalhar fatos... Check!

Bem, a semana passada tínhamos conseguido aceder à passagem após a fenda (e que agora parece uma auto-estrada graças à intervenção do Orlando), tendo progredido até nos ser impossível, à altura, avançar mais devido à presença de formações hipogenéticas (couve-flor), constituídas por lamas secas, abaixo da linha de água visível ao longo das paredes.

O objectivo para hoje era relativamente simples. Uma intervenção de alargamento da passagem, pela eliminação dos constrangimentos colocados pela presença destas lamas secas que impediam a passagem até à curva que se vislumbrava alguns metros mais à frente.

Em teoria seria uma tarefa relativamente simples e fácil, mas a exiguidade da passagem e a pouca amplitude de movimentos possível forçava a adopção e posições muito pouco confortáveis, e em alguns casos bastante ineficientes, exigindo muito esforço para pouco rendimento. 

Com persistência, e uma alternância constante na linha da frente, fomos lenta mas inexoravelmente avançando até finalmente atingirmos a curva e confirmarmos que a passagem não terminava ali. 

Havia ainda muito por fazer, com um aperto final que tínhamos que vencer até passarmos mas sabíamos agora que a passagem continuava, embora não revelando muito, pois 2 metros à frente tornava a curvar, desta vez para a direita.

Momento em que o João Ferreira consegue passar a curva.
Alguns minutos depois, talvez 10 ou 15 minutos embora o tempo passe de forma estranha nestas condições, e o João, com um trabalho assinalável,  conseguiu ultrapassar o constrangimento final e alcançar o outro lado, dando-nos uma primeira impressão da zona para além da curva seguinte. O esforço físico, no entanto, havia sido grande, e para não correr riscos desnecessário retrocedeu, cedendo o lugar na ponta, cabendo-me a mim tarefa de explorar a passagem entretanto aberta.






A zona imediatamente a seguir à curva abria ligeiramente, muito ligeiramente, mas qualquer alívio  naquelas condições parece sempre uma benção.  

Não que se mantivesse pois logo após a curva seguinte a passagem voltava a apertar um pouco mais, com a progressão dificultada pela presença, aliás, com a omnipresença, das formações do tipo "couve-flor". 


 
Zona mais apertada desta secção da passagem
Naquelas condições é muito difícil termos uma percepção minimamente correcta das distâncias envolvidas mas diria que terei progredido cerca de 20 metros, tendo passado por uma estreiteza final que permitiu o acesso a uma zona da passagem um pouco mais confortável, mais larga e alta, o que permitia, aliás, colocar-me em pé, ainda que ligeiramente curvo. 

À minha frente era visível água... A primeira sensação que tive foi de que nos tínhamos deparado com um novo sifão, mas rapidamente me apercebi que talvez fosse possível a sua passagem, que talvez houvesse um pequeno espaço entre o tecto  e o nível da água que permitisse continuar a progredir sem exigir uma intervenção logisticamente mais complicada. Não me restava grande alternativa a não ser meter-me dentro de água para tentar perceber as reais possibilidades e fazer uma avaliação um pouco mais ajuizada. 

E a temperatura da água não ajudou muito.


A água estava fria... pessoalmente pareceu-me estar gelada, embora acredite que tal tenha sido apenas a minha percepção. A verdade é que os músculos, já cansados do esforço de desobstrução, ressentiram-se bastante (e de que maneira) e após uma avaliação inicial voltei para "terra firme" e mais seca.






Impunha-se, no entanto, equacionar o que tinha já sido feito, e o que restava ainda fazer, pois tínhamos muito material (e pesado) para trazer para a superfície. Por outro lado o aperto final nesta passagem mostrou-se demasiado exigente para o João (era de facto apertado), exausto após o seu esforço na desobstrução e conquista da estreiteza anterior. 

Tudo pesado e ponderado era altura de voltar para traz, até porque o trabalho ainda não acabara... e não foi menos exigente em termos físicos. Com entreajuda foi superado com sucesso.


Interessante de salientar que ao longo de toda esta passagem, e apesar de só ser visível a espaços em virtude das formações hipogenéticas, se estende para cima, por vezes com uma altura difícil de percepcionar, uma longa fenda, como é bem visível na fotografia à direita. O facto é que esta cavidade é "assolada" pela presença de muitos meandros cujos contornos exactos são muitas vezes difíceis de perceber. O meandro da passagem fóssil, por exemplo e como relatou o Flávio, atinge em determinados locais profundidades bastante consideráveis, inacessíveis uma vez que a dimensão da fenda (na sua dimensão largura) é muito diminuta. Neste caso invertem-se os papéis. Estamos na base e a fenda estende-se para cima. 

E para acabar "bem" uma subida do P45 muito "emocionante". O Croll achou certamente que não tinha havido emoção suficiente e teimou em deitar gasolina ao fogo, ou, dito de outra forma, a esquecer-se muito regularmente, e de forma estranha, de bloquear a ascensão. Enfim.... por questão de precaução coloquei um Shunt na outra via, mantendo assim, e em caso de falha do Croll, dois pontos de segurança. Testarei o set-up com outro Croll na próxima semana para perceber se a falha é deste equipamento ou se a utilização do Patin no pé esquerdo força uma posição na corda que coloca em esforço a mola do Croll não permitindo que este bloqueie de forma eficaz.

E sim, porque ainda há muito por explorar para a semana lá estaremos, prontos para atacar a próxima dificuldade, e avançar para onde quer que o rio nos leve.

Um abraço,
Alexandre Leal   


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