segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Algar da Cheira

Vale Florido, São Bento

14 de Janeiro de 2017





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Bruno Pais (AESDA), Florbela Silva (AESDA)







Após uma semana de interregno, e a publicação de um artigo no jornal "Região de Leiria" sobre a exploração e descobertas no Sistema da Cheira (travessia Algar da Cheira/Algar das Raízes, e algares na sua envolvência imediata), a equipa voltou à carga na Galeria Inicial (Galeria Clássica) do Algar da Cheira.

O dia estava relativamente frio (embora não tão frio quanto seria de esperar atento ao que vinha a ser propagado pelos meios de comunicação social), mas com um céu límpido, e após uma breve passagem por Alvados para levantar material de desobstrução que seria fulcral para o sucesso da missão, rumámos a Vale Florido com um objectivo bem traçado, desobstruir e descer o poço encontrado no segundo nicho (nicho lateral principal - Galeria Inicial).

Estávamos cientes que não seria tarefa fácil, até porque mesmo após a desobstrução do ponto inicial iríamos ter que lidar com uma segunda desobstrução uns 5 metros mais abaixo, ainda antes de atingir-mos a base, ou melhor dizendo, o que se nos afigura ser a base do poço.

Mas para compreendermos a magnitude dos trabalhos já realizados importa comparar o segundo nicho no final do dia em que foi descoberto e a mesma área tal como hoje se encontra. As diferenças são abismais.
Segundo nicho, após trabalhos preliminares na primeira descida.










Segundo "nicho", agora já assumindo a configuração de poço, após os trabalhos desenvolvidos
durante o dia de hoje.
Como podemos ver na primeira imagem a zona a que se acedeu após a desobstrução da passagem que encontrámos no primeiro nicho tinha uma dimensão muito pequena, e apresentava a base completamente obstruída por vários blocos de dimensão relevante bem como muita terra e argila. A sensação de possibilidade de progressão vertical estava claramente em cima da mesa atento a todos os sinais, mas era ainda uma possibilidade remota, que necessitava, e isso era evidente, de uma grande intervenção para se consubstanciar, ou, por outro lado, se infirmar a sua continuação.

Ao longo de várias saídas, com muito persistência, e em posições algo complicadas atento às dimensões bastante reduzidas do espaço disponível, bem como a complexidade inerente à relativa instabilidade estrutural das paredes em algumas zonas, fomos procedendo à desobstrução da base que veio a confirmar a tese da existência de um poço que julgamos ter, no total, uma profundidade dentre 10 a 12 metros, embora seja uma análise complicada de fazer com alguma exactidão. O ângulo não é o melhor e a abertura é ainda reduzida, a que acresce o facto do poço, em vários momentos distintos e em virtude dos trabalhos e do muito material que foi caindo, ter-se fechado em dois pontos, um dos quais se conseguiu abrir  entretanto (ponto 1), não o sendo possível visualizar na íntegra. 






 Os trabalhos desenvolvidos no dia de hoje permitiram alargar a área em torno do ponto que impedia a progressão por se mostrar demasiado estreito,  e que se encontrava fechado cerca de um metro mais abaixo (ponto 1), tendo sido retirado uma quantidade de calcário, calcite e argila bastante significativa, parte da qual acabou por ser enviada para baixo.  

Ponto 1 - após desobstrução.
Esta maior amplitude, não obstante ser ainda bastante relativa, permitiu desobstruir o ponto 1, como acima se referiu, com  recurso ao Big Mike (pé de cabra), bem no limite do alcance e com recurso a alguma improvisação. A pouco e pouco fomos furando a camada de argila e blocos e criando o espaço suficiente para enviar pequenas quantidades de material pelo poço abaixo, permitindo assim alargar a abertura o que veio progressivamente a permitir enviar blocos de maior dimensão que aí se encontravam presos.

Não obstante o esforço não nos foi possível ultrapassar aquele ponto. Apesar de um pouco maior, de um pouco mais amplo na zona superior, o espaço disponível era ainda demasiado estreito para, com segurança, ser ultrapassado, e permitir descer um pouco mais no poço. Na verdade ficámos perto, muito perto, de o conseguir fazer, mas a bateria da torna havia-se esgotado, o que ditou o fim, prematuro, dos trabalhos de maior impacto. Foi algo frustrante mas são as contingências da exploração. 

Com toda a certeza este ponto será vencido numa próxima saída, permitindo descer  e atacar a próxima obstrução, cerca de 5 ou  6 metros mais abaixo no poço.

Um elemento se mostrou particularmente perceptível a partir do momento em que conseguimos furar a camada que obstruía o poço neste ponto. O sopro de ar fresco que vinha das profundezas era inegável, o que nos dá bastante alento para os trabalhos que se seguem. Estou convicto, embora a espeleologia neste aspecto seja constantemente madrasta, que esta via nos permitirá aceder a um segundo nível desta cavidade, até agora completamente desconhecido. 

Mais, tenho a sensação que tal nível poderá ter ou dar acesso a uma outra cavidade contígua, mas lá chegaremos.

Fotografia por Bruno Pais. Os trabalhos de desobstrução mais duros não conseguem ofuscar a grande beleza  do
sector das agulhas, onde as cores ocre estabelecem um pano de fundo que dá vida as formações aguçadas de um branco prístino.

É necessário alargar a passagem para verificar o interior deste pequeno nicho.
Antes de subirmos houve ainda tempo para fazer uma primeira abordagem a um ponto  de interrogação identificado pelo Bruno, no seguimento da "Passagem da Cartola", e que poderá ser uma enorme surpresa... porque a verificar-se, e é literalmente um tiro no escuro com pouca probabilidade de se vir a revelar uma via de progressão, seria como tirar um coelho do tamanho de um elefante de uma cartola feita para uma criança de 2 anos. Mas nunca se sabe...



Depois foi subir, desequipar o poço de entrada, arrumar o material e mudar de roupa sob um frio que àquela hora já incomodava. O chão estava particularmente gelado... a resposta foi aquecer no Cantinho do Francisco, tarefa que ainda assim se mostrou mais demorada do que o antecipado. O frio entranhara-se de forma particularmente insidiosa. 

Para a semana estou certo que irão haver novidades.

Um abraço,
Alexandre Leal


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