Algar da Cheira
Vale Florido, São Bento
22 de Dezembro de 2016
Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Bruno Pais (AESDA), Florbela Silva (AESDA)

Como primeiro efeito parece ter atraído a atenção da manada local, sempre muito curiosa com a actividade dos humanos que teimam em introduzir um pouco de emoção à sua pasmaceira habitual. Uma delas em particular, uma jovem vaca de tons castanhos, mostra-se particularmente atenta e curiosa, em especial quando se apercebeu da existência de frutos secos mesmo "à mão de semear". A controlar as actividades o sempre presente Unicórnio, uma avantesma de grande dimensão mas de trato fácil, muito plácido.
Não esquecendo os necessários trabalhos de levantamento de dados topográficos, a realizar num futuro próximo, e que assumem particular importância para a compreensão do sistema e de possíveis ramificações. Pelas características destes novos sectores não serão trabalhos fáceis, em particular na zona das estreitezas, que vai exigir uma análise mais apurada e sistemática para esgotar todas as possibilidades.
Já com com o resto da equipa à superfície foi colocada uma corda na oliveira no sentido de permitir um primeiro teste à resistência desta obstrução, tendo sido possível enviar alguns pequenos blocos mais poço abaixo, sem no entanto vencer o obstáculo principal.
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Bruno Pais (AESDA), Florbela Silva (AESDA)
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| The Core... |
Uma semana depois de termos "rompido" a superfície no seguimento de trabalhos de desobstrução da então designada Passagem das Raízes"encontrada no sala "final" deste sector do Algar da Cheira, sem que no entanto tivéssemos completado a travessia e emergido vitoriosos sob um radioso sol de Dezembro (ou fulgorosa Lua, como foi o caso), ou mesmo conseguido identificar o local em concreto, voltámos à carga com um objectivo muito claro, muito preciso. Concluir os trabalhos de desobstrução do ponto de saída, e efectivar a travessia do sistema da Cheira, entrando pelo Algar da Cheira e emergindo por um novo meio de acesso à cavidade.
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| Imagem aérea do Algar da Cheira, captada por Bruno Pais via drone. |
O plano traçado foi simples e apostava na mobilidade. Para a travessia a equipa constituída por mim e pelo Bruno, levaria apenas uma picareta e uma maceta, como ferramentas para fazer face a qualquer eventualidade e continuar os trabalhos na ponta final. O material para a vertical de acesso à cavidade (Algar da Cheira) seria deixado dentro de um Kitbag no poço de entrada para o terceiro membro da equipa, a Florbela Silva, recuperar e desequipar a vertical em seguida.

Num ritmo bastante elevado rapidamente atingimos a ponta de exploração e retomámos os trabalhos de alargamento do "buraco" de saída, ao mesmo tempo que tentávamos identificar o local para o nosso elemento no exterior, a Florbela, com recurso a um apito e um recurso da mais alta tecnologia humana, a garganta utilizada em plenos pulmões.
Como primeiro efeito parece ter atraído a atenção da manada local, sempre muito curiosa com a actividade dos humanos que teimam em introduzir um pouco de emoção à sua pasmaceira habitual. Uma delas em particular, uma jovem vaca de tons castanhos, mostra-se particularmente atenta e curiosa, em especial quando se apercebeu da existência de frutos secos mesmo "à mão de semear". A controlar as actividades o sempre presente Unicórnio, uma avantesma de grande dimensão mas de trato fácil, muito plácido.
Mas rapidamente, bem no limite da nossa audição, ouço a resposta da Florbela, que se vai aproximando do local guiada pelo estridente apito... "Nem sabem vocês onde estão?" ouvia eu a Flor exclamar em tom jocoso. Entre risos acabou por revelar que estávamos, nem mais nem menos, a uns passos do "Eureka".
Não sei como foi possível não termos identificado o buraco e/ou o pé de cabra tantas as vezes que passámos por aquele local. A verdade é que o destino final daquela passagem estava bem perto, não mais de 6 metros, do ponto que havia julgado, e entretanto descartado após buscas incessantes e infrutíferas pelo Big Mike, bem debaixo de uma oliveira que emprestou as suas raízes para nos servir de guia e dar maior estabilidade aos nossos trabalhos. Oliveira cujas raízes deram o nome ao novo alvar, o Algar das Raízes, que permite um acesso facilitado a este novo sector do sistema da Cheira.
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| Fotografia por Florbela Silva |
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| Fotografia por Florbela Silva |
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| Retirado de filme gravado por Bruno Pais |
A travessia estava completa, mas não o trabalho... Não, esse não estava nem ficou completo, com muito ainda por fazer no horizonte próximo, tanto no interior do sistema, com a exploração de pontos já identificados como o poço por desobstruir na passagem principal, ou a passagem lateral no nicho a que se acede pela Passagem da Dor ou Passagem do Purgatório, consoante o ponto de ingresso no sistema, como em seu redor, não sendo de descartar a ampliação do mesmo, através da ligação a outros algares, começando pelo buraco vizinho, o Algar Eureka, descoberto pela Florbela numa saída anterior. E um pouco mais distante, a cerca de 50 metros, o Algar do Unicórnio.
Não esquecendo os necessários trabalhos de levantamento de dados topográficos, a realizar num futuro próximo, e que assumem particular importância para a compreensão do sistema e de possíveis ramificações. Pelas características destes novos sectores não serão trabalhos fáceis, em particular na zona das estreitezas, que vai exigir uma análise mais apurada e sistemática para esgotar todas as possibilidades.
À direita podemos ver um estudo de parte da zona nova, desde a Boca do Inferno, que marca o ingresso na zona das estreitezas, ao final da Galeria dos Fantasmas, com base numa poligonal tirada em ritmo acelerado. Não é um exercício de rigor nem deve ser encarado como algo mais do que um esboço livre, feito de memória, com base nos pontos retirados. Serve apenas para ficarmos com uma ideia do desenvolvimento da cavidade neste novo sector.
Video por Bruno Pais
Video por Bruno Pais
Aproveitando o tempo de luz ainda disponível, e enquanto a Florbela seguia o Bruno para o interior do Algar das Raízes para um reconhecimento desse novo sector, fiz uma primeira abordagem mais sistemática ao Eureka, com o início dos trabalhos de desobstrução e alargamento da abertura, bem como a identificação de uma segunda abertura contígua, de menor dimensão.
A verdade é que este algar contíguo, a menos de 6 metros de distância do Algar das Raízes, com os seus cerca de 5,80m de vertical, apresenta uma profundidade muito semelhante, e colocará a sua base sensivelmente à mesma cota da passagem final da cavidade vizinha. Elemento que alimenta a esperança de se encontrar uma forma de comunicação, prolongando assim a dimensão do sistema.
A abertura apresenta-se algo apertada, embora nos parecesse passível de ser descida sem grandes intervenções não fora o facto de estar obstruída cerca de 180cm mais abaixo pelo que parece ser um bloco caído e encravado a meio da palhinha, que foi acumulando blocos de menor dimensão e muita terra que foi caindo.
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| Gravado por Bruno Pais via drone |
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| Gravado por Bruno Pais via drone |
Já com com o resto da equipa à superfície foi colocada uma corda na oliveira no sentido de permitir um primeiro teste à resistência desta obstrução, tendo sido possível enviar alguns pequenos blocos mais poço abaixo, sem no entanto vencer o obstáculo principal.
A desobstrução terá que ser um pouco mais sistemática por forma a possibilitar chegar a este bloco que impede a descida até à base, mas estou convicto que numa próxima saída tal será alcançado.
E aqui quero assinalar um elemento central, e sem o qual estes resultados não seriam de todo possíveis de alcançar, o grande trabalho de equipa. O trabalho de e em equipa, com abnegação, esforço, sacrifício e também, em alguns momentos, de coragem. Testámos por diversas vezes os nossos limites físicos, mas também, e sobretudo, psicológicos. Não é fácil lidar com a pressão de encarar pela primeira vez determinados obstáculos, determinados apertos ou passagens, determinadas dificuldades que nos aparecem pela frente.
Se objectivamente a dificuldade não se altera para quem vem a seguir a verdade é que testar, atacar, vencer estes elementos pela primeira vez apresenta uma dificuldade acrescida motivada pelo aspecto. emocional, pela pressão psicológica que impõem a quem se chega à frente e diz presente... se chega à frente e os encara, os desafia, de peito aberto (e muitas vezes, tantas vezes, apertado).
Uma imagem que se encontra indelevelmente "impressa" na minha memória é a visão das botas do Pica (Hélio Frade) como que encaixadas, espremidas, num minúsculo buraco na parede de fundo da passagem na ponta de exploração do Buraco Roto, na primeira vez que alguém tentava passar o que ficou posteriormente conhecido como a Passagem do S do Senna. A capacidade e força mental deste nosso espeleólogo de eleição é facilmente reconhecida por todos nós mas aquele momento, com a carga emocional vivida, que era palpável, foi um momento marcante para mim. Ali estava um colega a testar os limites e a demonstrar uma força, uma personalidade, digna de emular, não imbuído num qualquer espirito de competição mas antes de enorme respeito e admiração.
Foi essa experiência muito particular que me deu a capacidade para encarar estes desafios com mais calma, com um maior sangue-frio, e não queria deixar de aproveitar o momento para o reconhecer.
Mas esta é uma equipa em formação, com muito por aprender, tanto ao nível individual como ao nível do esforço conjugado, na percepção da valências de cada um e sua maximização, e a inclusão de sangue novo. Mas esta é também uma equipa que apresenta já uma dinâmica notável, que pelo seu esforço permitiu estar agora a escrever mais esta página.
Sim, o Algar da Cheira tem ainda muitos segredos por revelar... Mas alguns viram já a luz do dia, e muitos outros se seguirão.
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| Somos três ;) |
Um abraço, e amanhã, sim, já amanhã, haverá mais,
Alexandre Leal










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