sábado, 10 de dezembro de 2016

Algar da Cheira

Vale Florido, São Bento

08 de Dezembro de 2016




Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Bruno Pais (AESDA), Tiago Laurentino *








Com a descoberta da Galeria dos Fantasmas no passado sábado ainda muito presente este feriado de 08 de Dezembro foi aproveitado para rumar mais uma vez ao Algar da Cheira para dar continuidade aos trabalhos no âmbito do projecto de exploração deste Algar.

O dia estava particularmente solarengo, com uma luminosidade e temperatura muito boa para Dezembro. Como o resto da equipa estava ligeiramente atrasada deu para me despachar e começar a equipar o poço de entrada, para adiantar serviço e ganhar tempo. Pouco depois chegavam eles, o Bruno e o Tiago, que iria fazer a sua estreia aqui na Cheira, e logo com um desafio de monta. Desafio esse que veio a revelar-se ainda extemporâneo e prematuro.
A descida foi feita em passo acelerado, até porque a corda ajudava, e num instante estávamos perante a "Boca do Inferno", a abertura que dá acesso ao "Calvário", o sector das estreitezas... Uma breve pausa para retirar o equipamento individual de segurança utilizado na descida e preparar os sacos que ía-mos levar para a ponta de exploração, e estávamos "prontos" descer a rampa e atacar as estreitezas.
Prontos foi um exagero deliberado, uma artimanha pensada para desconstruir o oposto acto continuo e para realçar que até nos depararmos com as situações, com os nossos medos, com as nossas ansiedades, não sabemos como vamos reagir. Aconteceu isso com o Tiago. Se era certo que ele sabia que iria ter que negociar um sector complicado a este nível (fiz questão que ele tivesse ciente dessa realidade) para atingir a Galeria dos Fantasma, não menos certo é que independentemente da vontade e desejo de a conhecer e da racionalização sobre a nossa capacidade para lidar com os nossos medos, muitas vezes nos deparamos com uma diferença grande entre aquilo que queremos e o que efectivamente conseguimos superar.

A extensão e as características do sector foram fortes demais e o Tiago tomou a opção mais correcta. Avaliou as suas condições objectivas e subjectivas, ponderou continuar para sentiu que não tinha capacidade, naquele momento, de superar a provação. Uma reacção perfeitamente normal, em particular atento às dificuldades objectivas que o "Calvário" apresenta. Não é só uma questão de fobia, de reação perante o medo, é também uma questão de experiência adquirida, que pressupõe uma processo de aprendizagem progressivo, especialmente em matérias em que nos sentimos menos à vontade. O Tiago não conseguiu agora, mas irá certamente voltar no futuro para uma passagem triunfante pelo "Calvário".  E para isso ele sabe que pode contar connosco, pode contar com alguns treinos em passagens estreitas e tortuosas, por sítios apertados e claustrofóbicos, enfim, de locais aconchegantes. 

Enquanto eu atravessava o Calvário puxando a minha cruz (kitbag) o Bruno regressou com o Tiago ao poço de entrada para ajudar a controlar o aspecto emocional e assegurar uma saída em segurança.

Já na Galeria dos Fantasmas, logo na primeira sala, aproveitei para descansar um pouco enquanto esperava pelo Bruno. Por mero acaso, e depois de sacar umas imagens à chaminé que aí se encontra, sentei-me mesmo por baixo de uma pequena abertura secundária, e de luz apagada tentava repor o ritmo do batimento cardíaco. Na escuridão duas notas para assinalar a passagem de um morcego muito perto de mim, vindo do fundo da Galeria, e alguns minutos depois o impacto de três pequenos objectos  (pelo som pequenas porções de argila um pouco seca) no meu capacete vindo exactamente desta pequena abertura situada sobre a minha cabeça.

Com o tempo a passar decidi avançar um pouco na Galeria e começar os trabalhos de desobstrução de um dos pontos de interrogação, o mais relevante diga-se, identificados na saída anterior. Uma abertura na parede da direita junto à base parecia permitir o acesso a uma passagem sem grandes esforços de alargamento. E com efeito foram trabalhos relativamente rápidos, atendendo ao facto que também aqui o terreno intervencionado veio a demonstrar ser argila e terras secas, com pequenos blocos à mistura. Pelo meio chega o Bruno, ainda a tempo de captar o ingresso nesta passagem perpendicular. O acesso não é propriamente fácil e desconhecia-se a extensão da mesma, mas rapidamente deu para perceber que, à medida que me ia introduzindo, de pés para a frente e barriga para baixo, não encontrava resistência ou obstáculos que impedissem a progressão. 

A entrada para a passagem.
Gravado por Bruno Pais
A passagem veio a revelar-se um "beco sem saída", com cerca de seis ou sete metros, e bastantes formações, em particular nas paredes laterais, que apresentavam brilho assinalável. No final passagem afunilava em demasia, e encontrava-se bloqueada por várias formações e posteriormente, pelo pouco que se consegui ver, um monte de argila. Era possível ver ainda, após todos estes obstáculos, uma formação de um branco muito bonito, e que aparentava ser uma bandeira.

Com este ponto resolvido, houve tempo para filmar um dos vários exemplares de aranhas que temos visto nesta galeria, antes de seguir para a ponta de exploração. A sua pequena dimensão, no entanto, não permite a sua percepção nas imagens captadas. Um sério desafio ao estilo "Find Wally".


Depois seguimos directos para o extremo da Galeria para aí confirmarmos a possibilidade de progressão e analisar a melhor forma de o efectuar, com a escolha de uma via que implicasse o menor impacto possível nas formações existentes na zona.

Ao fundo da galeria, por detrás de grandes, e belíssimas, formações que surgem na frente e topo de um grande bloco coberto por um manto calcítico de espessura variada, bem onde este (o bloco") se vai juntando com o tecto, e efectivamente obstruinda a passagem pela presença de muitas pequenas formações, era possível ver uma pequena continuação. Para lá chegar era preciso "limpar" uma via, desobstruindo e alargando o ponto que se mostrava mais apto. Falando desta forma parece fácil, mas foi um esforço colossal, que deixou marcas no corpo e nos sugou muita energia. 

O espaço... wait for it... sim, era exíguo. Basicamente estávamos deitados sobre o bloco, tentando colocar os braços, a cabeça e as pernas em posições minimamente confortáveis por entre as restantes formações, blocos, ressaltos, e todo o tipo de objectos que parecia tirar um prazer doentio em se espetar ou cravar nas costelas, cotovelos, joelhos, etc. Uma verdadeira via dolorosa começada aqui em cima, para mais tarde transitar para baixo. Mas lá chegaremos.

Enquanto um estava a trabalhar neste ponto o outro assumia uma posição secundária de análise e trabalho de desobstrução de outros pontos que importava ver, começando por atacar um pequeno buraco na base da parede direita, por baixo do acesso ao bloco a ser intervencionado. Esta pequena abertura encontrava-se obstruída em cerca de 80% pela presença de formações hipogenéticas que cobria uma escorrência calcítica. Não foi fácil e por ora não merece maior atenção.

A pouco e pouco, ora com a marreta ora com a picareta lá fomos alargando a passagem, que se mostrava particularmente resistente  aos nossos esforços, até que finalmente num dos vários turnos o Bruno conseguiu passar o peito e avançar até onde, por entre umas pequenas colunas, se conseguia ver um buraco no "chão". Poderia ser um poço? Bem, a verdade é que a pedra não caia muito... 
Desgastado pelo esforço da passagem do ponto particularmente apertado trocámos mais uma vez de posições, momento particularmente feliz que nos bafejou com a descoberta da passagem que nos poderá permitir progredir. Ao invés de sair do bloco para então eu o substituir na frente, o Bruno acabou por optar em recuar um pouco e esgueirar-se para a esquerda, entre as formações, para permitir a minha passagem para a ponta, tendo percepcionado uma fractura onde o calhau se juntava à parede esquerda que parecia permitir o ingresso a um nicho por baixo do mesmo. Enquanto eu me esforçava para passar o raio do peito no aperto (e não foi fácil) ele desapareceu com um "Alexandre, acho que isto continua é para baixo...". 

Momento particularmente frustante, quando percebes que todo aquele esforço de desobstrução e posterior esforço para fazer passar o corpo por sítios dificilmente adequados para o efeito foi completa e totalmente inglório e irrelevante... Um misto, no entanto com a euforia da descoberta da possibilidade de continuarmos a progredir.

Num piscar de olhos (um claro exagero, mas dá a impressão de grande habilidade e capacidade de contorcionismo) me esgueirei pela fractura e acedi a um nicho dominado pela argila. Estávamos por baixo do enorme bloco que 2 minutos atrás "montávamos" como um cavalo indomável. Argila em baixo, argila em cima, argila nas paredes verticais, argila em pequenos blocos mais ou menos secos, argila em pequenos "ovos rolantes", argila reforçada (com e por calcite)... enfim um reino de argila.

Deste nicho central várias pontos se mostravam interessantes, apelavam à sua análise e exploração. 

Um primeiro ponto visto revelou-se um pequeno buraco na parede num dos pontos mais estreitos do nicho. Completamente obstruído por argila e de muito pequena dimensão foi rapidamente colocado de parte.

Enquanto recuava para o centro do pequeno espaço já o Bruno se preparava para entrar numa passagem que parecia seguir na direcção geral de progressão na Galeria dos Fantasmas. Esta passagem, cremos, ser a principal via de progressão, em particular atendendo ao ar fresco que é notório cerca de três metros mais à frente, onde a passagem, uma vez desobstruída, parece dar lugar a uma nova sala, também ela de dimensões modestas.
Foi aqui que centrámos os nossos esforços e onde chegámos já muito perto de conseguir ultrapassar este primeiro constrangimento. Acumulando com o esforço que despendemos na desobstrução do aperto na parte superior do bloco, com o esforço empregue na desobstrução desta passagem, com a retirada e recolocação de muita argila seca em posições mais adequadas para a progressão, acabámos completamente extenuados. A certa altura dizia o Bruno que conseguia ouvir o meu coração a bater no nicho onde aguardava a vez dele ir para a frente. Comprovei esse facto minutos mais tarde quando ele me rendeu na frente.

Retirada já dentro da passagem...

Obstrução no final da passagem. Do outro lado o espaço alarga,
aparentando criar uma pequena sala.
Vista por cima da obstrução no final dos trabalhos.
Gravado por Bruno Pais

Mas não ficámos por aqui. Enquanto estava um de nós na passagem principal, estava outro a descansar mas também a trabalhar numa zona lateral, uma área mais "ampla" mas completamente preenchida por uma grande camada de argila que não permitia qualquer tipo de progressão. Com o escopro na mão lá fomos abrindo caminho, e no final já se conseguia perceber melhor a possibilidade de continuação por umas pequenas passagens. Nesta altura não passam de possibilidades, e tal dúvida só se vai dissipar quando conseguirmos abrir caminho até lá. Por ora apenas metro ou metro e meio mas havemos de lá chegar.

Passagem lateral no seu estado originalmente obstruída.

Captado já no interior da passagem lateral, com enfoque nas aberturas
no seu final. Ainda muita lama por retirar.
Por questões de segurança, porque a nossa condição física já não conseguiria fazer face a qualquer incidente que pudesse ocorrer durante a passagem ou no secção nova, e porque tínhamos que salvaguardar níveis de energia suficientes para o regresso com o material, foi decidido abortar uma derradeira tentativa na passagem principal, e deixar estar barreira para ser vencida na próxima saída.

Num ambiente opressivo, com equipas desta dimensão, não há margem para erro.



Gravado por Bruno Pais


Quando saímos finalmente do Algar, e de notar que chegámos ao poço de entrada exactamente à hora prevista, completamente exaustos e a pensar exclusivamente numa refeição quente que nos devolvesse as forças, a Florbela trocou-nos as voltas... ainda houve tempo e forças para enterrar a cabeça na terra. É uma maldição esta que nos atormenta.

Fotografia por Florbela Silva

Depois, bem, depois o caminho guiou-nos ao Cantinho do Francisco para mais um repasto e conversa animada.

Para a semana voltamos à carga. 

There´s no rest for the Wicked.

Um abraço cansado,
Alexandre Leal 




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