Algar da Cheira
Vale Florido, São Bento
16 de Dezembro de 2016
Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Bruno Pais (AESDA)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Bruno Pais (AESDA)
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| Retirado do vídeo de Bruno Pais, gravado imediatamente antes de se marcar a abertura com o recurso ao Big Mike, por forma a ser identificado da superfície. |
Onde íamos mesmo? Ah, sim... tínhamos ficado a um palmo de passar o aperto no final da passagem principal.
O objectivo era simples, regressar ao reduto das argilas, vencer o aperto e continuar por ali fora, até onde a gruta nos permitisse, pois estava confiante que ainda havia caminho a percorrer. Secretamente pensava ser possível encontrar uma saída para a superfície e assim consubstanciar uma travessia.
Havia andado a estudar essa possibilidade durante a semana, atendendo à descoberta pela Florbela de um "pequeno" buraco nas imediações e no que poderia ser o possível enfiamento da Galeria dos Fantasmas. A implantação da topografia no mapa de satélite parecia confirmar essa possibilidade... veio a confirmar-se embora num local diferente, e diga-se em abono da verdade, ainda um mistério.
Mas lá chegaremos.
Numa equipa tão reduzida a carga acaba sempre por ser algo pesada. O material de equipagem, equipamento vertical, reforço de água e comida, ficou perto da Boca do Inferno. Para a ponta de exploração foi um kitbag com as ferramentas, água e uns reforços de energia.
Poderia ser tentado a dizer que nos pusemos lá em menos de dois tempos, mas com o capacete e o Big Mike numa mão, e o DistoX na outra para ficar com uma ideia aproximada da poligonal (ainda não foi devidamente calibrado pelo que o elemento mais certo é o desenvolvimento, e mesmo este com uma pequena margem de erro uma vez que o processo foi feito em regime de exploração e não de levantamento de dados topográficos, que implica um muito maior rigor), e o Bruno a empurrar o kitbag demorou algum tempo, com uma progressão feita, literalmente, de forma arrastada.
No capítulo do desenvolvimento respeitante à parte explorada, com início na Boca do inferno, que marca o ingresso no sector das estreitezas, até ao final da Galeria dos Fantasmas, medida na secção superior, apontamos para um valor na casa dos 68m.
Aí chegados preparámos o material a levar para a zona inferior e atacar o aperto bem como o expectável para a progressão daí em diante.
A Passagem da Dor continua chata, mas eventualmente conseguimos posicionarmo-nos entre as formações por forma a conseguir aceder ao espaço entre o bloco e a parede lateral oposta e ingressar na secção inferior. Para cima é pior... Na verdade é só preciso apanhar-lhe o jeito mas da primeira vez que a fiz parecia que me ia partir as pernas, que não foram feitas para dobrar naquele sentido e daquela forma.
Coube-me a mim atacar a Passagem do Purgatório. Sabíamos que não faltava muito para passar mas o ângulo apertado e em sentido ascendente numa passagem tão diminuta não tornava o feito muito fácil. Ainda tentei retirar um pouco mais de material no sentido de reduzir a subida mas as condições tornavam o esforço inglório. Estava na altura de tentar... tentar não, passar. Primeiro executei uma "dry run", uma esforço preliminar para sentir as dinâmicas, os possíveis pontos de alteração da posição dos braços e os pontos mais complicados, onde poderia ficar preso.
Deu para o coração bombar um pouco mais rápido.
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| Aqui já com a "auto-estrada" aberta. O "canal" que se pode ver no enfiamento da abertura simplesmente não existia. |
Mas sem mais opções, e com os movimentos estudados, lá ataquei o aperto de forma mais decidida. Digamos que foi "interessante", mas acabei por passar, acedendo a uma nova área um pouco mais ampla, que permitia agora atacar o aperto de uma perspectiva diferente, com maior margem de manobra. Com a picareta na mão comecei a abrir uma via na argila que permitisse ao Bruno passar sem ser necessário rodar para a direita e subir a rampa de argila que tantas dificuldades me criou.
Com os músculos dos braços "queimados" pelo esforço o Bruno tomou a dianteira. O caminho era evidente, logo após mais um aperto que necessitava de ser intervencionado.
Em menos de 5 minutos estava a passar e não se fez rogado.
Já só parou uns 30 metros mais à frente, por entre salas e mais estreitezas, num caminho que a certo ponto ganhou um sentido ligeiramente ascendente, até uma pequena sala que parecia ser o fim do caminho. O fim não porque ainda eu não tinha lá chegado já ele me falava numa mega desobstrução que tínhamos que fazer... Mas já lá chegaremos.
Todo este novo sector se apresentava muito molhado com um gotejar constante de uma miríade de estalactites e pequenas bandeiras. "Chovia" lá dentro.
Mesmo nas zonas onde a argila e a calcite dominava era possível, a espaços, vislumbrar as reais paredes da passagem por entre placas que haviam "descolado" das paredes.
E lá no final, bem na última sala, o Bruno olhava para uma rampa de terra e argila que parecia ter "escorrido" de algures, de algum espaço agora completamente obstruído, mas que aparentava ser a única forma de progressão.
Sim, porque aquele volume de material implicava uma passagem relevante, e atendendo ao sentido ascendente que se vinha a fazer sentir e à possibilidade de podermos estar perto do buraco que acima referi, estávamos convictos que se atacássemos aquela obstrução poderíamos acabar por encontrar uma via de acesso à superfície. E não nos esqueçamos da corrente de ar fresco que se continuava a fazer sentir.
Mas a rampa apresentava um outro elemento de interesse. Perto da sua base, no lado esquerdo, mais uma vez nos deparámos com um pequeno aglomerado de um material que constitui ainda um mistério. Originalmente pareceram-me pequenos caroços de azeitonas (o que, atento À localização não seria de estranhar) ou frutos secos encontrados no meio de dejectos de um qualquer animal não identificado, mas aqui fiquei com a impressão que poderiam mesmo ser em si dejectos em forma de caroço de azeitona... Não consigo, neste momento, dissipar estas dúvidas.
Mas de volta à rampa em si e as escolhas que poderia encerrar. O que fazer?
A decisão, na realidade, não foi difícil de tomar, não obstante termos tido a consciência que poderia ser uma "obra" de grande dificuldade, e mesmo risco objectivo de existência de derrocadas e deslizamentos de grandes volumes, ainda que sempre mitigado pela presença de raízes que ajudavam a fixar a terra e lhe empregava uma certa estabilidade, permitindo a remoção controlada de pequenos volumes com o recurso à picareta e posteriormente ao Big Mike, que foi imprescindível.
A consciência do risco esteve sempre presente, a espaços de forma mais premente, como quando nos enfiámos pela primeira vez dentro da abertura escavada na rampa, ou quando subimos pela primeira vez o primeiro troço da vertical, e alcançamos um nicho ligeiramente mais alargado. Quando o esforço físico e o impacto psicológico dos trabalhos começava a pesar um pouco mais trocávamos de posição, renovando as energias um pouco mais na retaguarda. Como trabalho de equipa tem sido ao mais alto nível, o que aliás, explica os progressos feitos.
A consciência do risco esteve sempre presente, a espaços de forma mais premente, como quando nos enfiámos pela primeira vez dentro da abertura escavada na rampa, ou quando subimos pela primeira vez o primeiro troço da vertical, e alcançamos um nicho ligeiramente mais alargado. Quando o esforço físico e o impacto psicológico dos trabalhos começava a pesar um pouco mais trocávamos de posição, renovando as energias um pouco mais na retaguarda. Como trabalho de equipa tem sido ao mais alto nível, o que aliás, explica os progressos feitos.
De referir que no início dos trabalhos de desobstrução a existência de uma chaminé por trás da terra era apenas uma possibilidade... Julgávamos que com uma probabilidade alta mas apenas isso, uma possibilidade.


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| Bruno a abrir caminho para a base da chaminé. |
Mas uma possibilidade que a pouco e pouco, à medida que retirávamos a camada superior da rampa e nos deparámos com um buraco na parede, e posteriormente percebemos que a terra continuava para cima ao longo de uma parede branca, se veio a confirmar.
As raízes eram omnipresentes. Umas de reduzida dimensão, outras um pouco maiores, mas prometiam ar fresco, prometiam o céu.
E foram estas raízes que fomos seguindo, não perdendo de vista as paredes do que seria certamente um poço, embora desta nossa perspectiva estava a ser tratado como uma chaminé.
E foram estas raízes que foram ganhando dimensão à medida que fomos subindo chaminé acima, que fomos conquistando espaço à terra, sempre com muito cuidado, mas sempre, sempre com muita determinação.
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| Captado pelo Bruno na base da chaminé. Acima, entalado numa posição muito pouco confortável, atacava eu secção seguinte da chaminé. |
O mar de terra que ia caindo parecia não ter fim. Enquanto um estava na ponta a furar como uma toupeira na retaguarda estava o outro a remover todo o material caído da base da passagem primeiro para a esquerda da rampa, depois para a direita, e por fim para baixo da rampa. Não sei quanta terra removemos, sei apenas que parecia não ter fim.
E do "buraco" que pensávamos poder estar a escavar vindos de baixo nem sinal.
A certa altura o Bruno pediu silêncio, para em seguida dizer que lhe parecia estar a ouvir algo, um barulho ritmado que poderia ser um motor, ou talvez o vento a soprar. Trocámos de posição e na verdade também a mim ficou essa sensação embora não conseguisse identificar a sua fonte. A convicção que estaríamos já perto da superfície foi aumentando, e no turno seguinte, após um falso "alarme" o Bruno finalmente exclama lá para baixo que o Big Mike havia furado o chão e estava já à superfície... já se via luz. Qual "Caving Dead", estaríamos prestes a emergir do âmago da terra bem mais apetrechados, mas também com mais fome certamente, do que um qualquer zombie vulgar. Estou aliás certo que a nossa visão não seria menos assustadora...
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| Gravado por Bruno Pais. Lá fora a luz do dia, e os ramos de uma oliveira. |
Trocar de posição implicava também uma descida de ambos à base da chaminé para de seguida voltar a subir. A perspectiva não era agradável de ponderar. A decisão foi tentar fixar o Big Mike por forma a que ficasse o máximo possível de fora, à superfície, para que assim pudéssemos identificar o local de saída. No meio disto tudo o Bruno consegue ainda alargar o buraco o suficiente para colocar um braço de fora, mas para mais não dava. E estávamos convencidos que não seria difícil encontrar o desgraçado do pé-de-cabra.
Video por Bruno Pais
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| Fotografia por Florbela Silva. |
Não conseguem imaginar o quão errado estávamos... É bem verdade que quando finalmente saímos já era noite cerrada, estávamos bem enlameados e molhados, e o vento e o frio que se faziam sentir não facilitavam a tarefa, mas do pé-de-cabra ou do buraco nada. Nem uma pista. Os "buracos" anteriormente identificados estavam lá, mas não eram esses. Do Big Mike nem um vislumbre... Vencidos pela fome e pelo frio abandonámos o campo de batalha convencidos que teríamos que retomar os trabalhos de dentro para fora na próxima saída.
De frisar que ontem, após o Workshop levado a cabo pelo Orlando Elias, numa iniciativa NEL (TOP btw), e a subsequente almoçarada, voltámos ao local na esperança de, em plena luz do dia, conseguirmos finalmente identificar o local... Nem o Unicórnio nos valeu. Corremos o chouso, e ainda espreitámos os contíguos. A única pista que tínhamos, o pouco que o Bruno havia conseguido ver pela abertura criada,consistia no facto de o buraco estar muito perto de uma Oliveira "grande" com o que parecia ser também pequenos rebentos pegados ao seu tronco. Perdi conta ao número de oliveiras que eu e a Florbela examinámos, todas sem sucesso. É verdade que centrámos os esforços na área que nos parece ser a mais provável mas acabei por percorrer o chouso em todas as direcções a partir do poço de entrada.
Parece que tudo fica adiado para a próxima semana. Certo, certo, é que estamos perante uma travessia. Falta apenas percorrer o derradeiro metro final e emergir da cavidade no segundo ponto.
Na próxima semana certamente...
Um abraço enlameado,
Alexandre Leal
















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