Gruta da Pedreira I, Algar da Cabeça Gorda e Algar da Figueira
Cabeça Gorda, Serra dos Candeeiros, Alqueidão
01 e 07 de Junho de 2017
No passado dia 01 de Junho rumei à Serra dos Candeeiros para terminar a topografia da Gruta da Pedreira I, tendo aproveitado para fazer um périplo pelo cabeço ao jeito de prospecção.
O dia convidava ao "passeio", e sem grandes pressas lá foi subindo o cabeço pela esquerda do trilho principal, em direcção ao Algar das Figueiras, para depois descer para o flanco norte na zona do Marco.
Como ja referi numa outra ocasião esta é uma zona muito complicada em termos de percepção e avaliação de possibilidades ou localização de aberturas. O terreno encontra-se muito marcado pelas múltiplas prospecções e avaliação do potencial da zona para a abertura de pedreiras, a que se junta as que foram efectivamente exploradas, algumas (muitas?) de forma ilegal (ainda que, aparentemente, por muito pouco tempo). Grandes quantidades de pedra amontoada ao longo de rasgos feitos da terra, e muita pedra simplesmente revolvida e colocada de forma a chamar a atenção do olho para logo a seguir se revelar infrutífera.
Não raras vezes, no meio dos caos de blocos de variada dimensão, se vê um que pelas suas características chama a atenção, por vezes apresentando algumas concreções. Mas são pequenos tesouros num mar de desordem, que impossibilitam tirar conclusões ou identificar o local de origem, até porque fico com a ideia, com a percepção, da possibilidade de existência de uma quantidade relevante de pequenos "buracos", coisas de 1 ou 2 metros, na maioria dos casos tapados à superfície ou parcialmente colmatados por terras, e que paradoxalmente apenas acabam por ver a luz do dia exactamente graças as estas "dragagens".
A verdade é que o caminho que me levou até à Gruta da Pedreira I nada revelou de minimamente interessante, pelo que aí chegado foi colocar mãos ao trabalho... literalmente mãos ao trabalho porque havia perdido as luvas na saída anterior (e não me havia lembrado de comprar outras), o que, atento às características da cavidade, em particular neste troço, onde as "couves-flor" deram lugar a presença de cristais, não facilitou o trabalho.
A Gruta da Pedreira I é uma pequena cavidade, com cerca de 37m de um desenvolvimento "atribulado" e complicado de topografar, com vários níveis sobrepostos, com ramais em sentidos divergentes do ponto de vista da entrada inferior, e uma entrada ao nível da superfície que se encontra sobranceira à parte final da rampa de entrada. Vai ser "interessante" organizar a arte final por forma ser perceptível ao nível da planta.
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| Croqui - Perfil Desdobrado. |
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| Croqui - Planta |
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| Base da antecâmara do nicho terminal - Ramal 2 |
Com o trabalho de topografia concluído tracei um périplo de regresso ao carro pela vertente Este do cabeço, relativamente perto do seu topo, no sentido de uma abordagem de prospecção a este sector, atento, aliás, ao facto de ter indicações de uma possível abertura numa zona assinalada (de forma algo vaga, diga-se).
Por esta altura o calor apertava, e urgia hidratar bem como repor energias. Para o efeito aproveitei uma zona com blocos de maior dimensão, com uma vista panorâmica para o vale, e ataquei os frutos secos como gato a bofe, regados por uma bebida energética já a atirar para o morna. Enfim, não era o ideal mas era o que havia e ajudou...
Também neste sector a busca se mostrou infrutífera, não tendo sido identificados quaisquer cavidades ou pontos de interrogação.
Ao contrário da zona superior do cabeço, este sector apresenta-se com mais vegetação, e com uma vegetação mais densa em determinadas zonas, e menos tocado pelo "engenho" humano. Havia marcas, perturbações, mas em número bastante mais reduzido. O resultado, esse foi o mesmo, nada. Devo referir, no entanto, que as zonas a vegetação se mostrava mais densa não foram batidas, pelo que não se deve considerar esta zona como efectivamente verificada, sendo útil uma prospecção mais cuidada e sistemática.
Com os meios à disposição, sim porque tinha levado comigo o equipamento de desobstrução, lá coloquei as mãos ao trabalho, e debaixo da torreira do sol lá me "atirei" ao bloco.
A torna, o "Mauler" e o "Big Mike" não paravam, e em menos de três tempos já tinha saltado uma "lasca" bem interessante... diria que um 1/5 do bloco jazia ao lado, "moribundo" e ansiando por companhia.
E com um telefonema súbito tudo mudou... A actividade foi tempestivamente interrompida, o material arrumado e um rápido retorno a Lisboa para uma Consulta de Urgência com a Vet da minha menina...
Pela altura que gentilmente colocava-mos os kit-bags e o restante material na rocha adjacente ao "buraco", já o calor apertava, e a reduzidíssima humidade (qual humidade?!?!) não tornava as coisas mais fáceis.
Os objectivos traçados eram dois:
-Terminar a desobstrução do bloco que impedia o acesso ao poço de entrada do Algar da Cabeça Gorda, fazer uma abordagem e análise ao poço, em particular uma estimativa mais aproximada da sua profundidade e características, e se possível ou viável descer até à sua base.
- Topografar o Algar da Figueira.
No que concerne ao primeiro objectivo, e antes de retomar os esforços de desobstrução, era necessário equipar a aproximação e a cabeceira do poço, o que exigiu, atento ao estado dos spits aí colocados, algum trabalho de limpeza. Antecipando tal facto (até porque os spits estão colocados, todos, na vertical, e não são propriamente novos) havia levado algum material que me permitiu reduzir o tempo perdido com esta tarefa e rapidamente passar à acção.
Neste âmbito, e tal como previsto, os trabalhos foram relativamente rápidos, e numa vertigem assustadora o que restava do bloco (cerca de metade do seu volume original) fez-se ao abismo numa estrondosa queda livre. O som do impacto, bem ao longe mas ali tão perto, ribombou pelas paredes do poço acima acompanhado com um eco imponente. A queda, essa, era grande...
O DistoX havia marcado 42m numa saída anterior, mas, e atento às características do poço e sua dimensão, tal medição apresenta uma margem relevante de incerteza.
Devo dizer que a forma como a cabeceira se encontrava equipada (com dois spits - cravados algo juntos- a cerca de 10 ou 15 cm da borda do poço) exigiu alguns cuidados extra por forma a reduzir o risco de roço da corda. A solução encontrada foi a colocação de uma manga de roçamento meio aberta, por forma a proteger o Y, e a utilização de um spit por mim cravado em saída anterior, na parede oposta e já na vertical, para a colocação de um pequeno desviador.
Não era a equipagem ideal, mas para ora era a suficiente. Numa próxima saída o poço será equipado com um Y na vertical, por forma a ficar centrado e evitar ao máximo o risco de roços, o que importa a colocação de um spit na parede oposta ao já colocado (ficando assim por baixo dos dois spits que agora equipam a cabeceira).
Com base nas imagens anteriormente captadas pela GoPro estava à espera de um poço com um diâmetro mais reduzido. Cerca de metro e meio mais abaixo alargava sensivelmente para a minha direita, mantendo contacto com a parede à minha frente. Na verdade mantinha-se relativamente estreito nesta secção do poço, abrindo no entanto cerca de um metro para a minha esquerda para dar acesso a secção da vertical bastante mais ampla, numa configuração longitudinal.
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| Visão para a minha direita... |
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| ... e para a minha esquerda abria!!! |
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| Apresenta-se assim como uma fractura longitudinal de grande profundidade. |
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| Para cima a luz da saída. |
Lá bem ao fundo, fora da capacidade de captação da câmara, era visível uma plataforma na zona de maior amplitude, que me parecia ter uma ligeira inclinação no sentido do que parece ser a continuação do poço, algures por baixo de mim, mas agora com um diâmetro mais reduzido, que se poderá aproximar do diâmetro existente nesta secção do poço onde me encontrava, embora esta análise seja claramente prejudicada pela fraca visibilidade daquelas profundezas.
A imagem que tinha à minha frente corroborava a sensação que sempre me acompanhou. Este poço terá mais do que os 42m marcados no DistoX, o que poderá ser efectivamente correcto SE este for algar denominado como "Cabeça Gorda", que aparece mencionado na obra "Grutas e Algares de Portugal", do Christian Thomas, como tendo 61m de profundidade.
Com o objectivo principal concluído, e porque não tinha comigo o equipamento necessário para equipar o resto da vertical (deverá ser necessário a colocação pelo menos um fracionamento, possivelmente dois) e este é um trabalho para ser feito por uma equipa operacional (isso e o raio das luvas que faltavam - ainda hoje estou com mão direita esfolada e com uma queimadura? que teima em criar bolha) inverti e ascendi à superfície para desequipar e rumar ao próximo ponto da ordem de trabalhos, o Algar da Figueira.
... poderia, e deveria, ter sido fácil e rápido dar com o "buraco" se ao menos tivesse olhado para o ponto no GPS!! Mas não... com todo o equipamento às costas lá nos colocámos a subir a encosta no sentido em pensava correcto, pois mentalmente estava a localizar o Algar um pouco mais acima do ponto em que me encontrava.
Claro está acabámos por subir para logo a seguir descer, depois de confirmar o erro e ver a luz (leia-se ligar a App no Iphone e seguir as indicações), e finalmente lá estava ele, em toda a sua verde e envergonhada glória, escondido sob os ramos luxuriantes de uma figueira que se teima em agarrar à vida nas paredes do buraco, e que aparentemente (como me foi informado posteriormente. Obrigado Florbela) alberga ou é utilizado como zona de nidificação de Gralhas de Bico Vermelho, facto que desconhecia em absoluto.
Neste ponto de realçar não ter encontrado, in loco, qualquer indício da presença da espécie, ou mesmo de vestígios/resquícios de ninho, embora tal não seja, em si, uma análise muito relevante uma vez que, desconhecendo a sua presença, não estava particularmente sensível para esse facto.
Também aqui a equipagem exigiu a limpeza de um spit, utilizado como segundo ponto de segurança na aproximação à cabeceira, em conjunção com um parabolt de M8.
A exploração desta pequena cavidade (exploração, uma vez que não tinha qualquer conhecimento do seu desenvolvimento e das suas características) foi rápida e orientada para o levantamento dos dados topográficos, que não ofereceu grandes dificuldades, ainda que isto de topografar a solo é sempre mais complicado, especialmente nos troços verticais.
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| Zona terminal da cavidade, onde foi colocada a primeira estação topográfica. |
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| Chalcides striatus |
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| Bufo spinosus |
| Perfil |
| Planta |
Com os trabalhos concluído e os objectivos cumpridos, e porque o calor não dava tréguas, estava na altura de arrumar o equipamento, pegar no carro e rumar ao Cantinho para dar aprovar ao Leal um dos famosos "Molhinhos"... e que bem que soube. De notar, e não é de somenos importância, que de volta está a "Perdiz", um picante particularmente corrosivo ;).
E para a semana há mais.
Um grande abraço,
em particular a quem semana após semana se aventura na escuridão,
para iluminar um pouco mais deste nosso espaço desconhecido.
Alexandre Leal












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