terça-feira, 12 de julho de 2016

X3 e X2

Cabeça Gorda, Serra dos Candeeiros, Alqueidão

11 de Julho de 2016





Equipa - Alexandre Leal, José Leal







O dia apresentava-se quase perfeito. A temperatura mais amena quando comparada com a torreira do passado dia 04 de Julho, e o vento que se fazia sentir dava um certo respaldo quando a temperatura e o esforço físico aumentava e a necessidade de um breve descanso e hidratação se fazia sentir com maior insistência.  E dura foi de facto a jornada... não deve haver neste momento nenhum músculo que não se manifeste de forma particularmente desagradável. E com uma ajuda imprescindível do Leal (sempre pronto e presente ;) ) na desobstrução do X2.


O destino estava traçado e de hoje o pequeno X3 não passava sem ser devidamente descido e confirmada a ideia já criada pela penetração inicial via GoPro. 

Depois a grande incógnita do X2. E sobre este "menino" muito ainda haverá por explorar e escrever.


Mas começando pelo princípio, lá no pusemos a caminho do X3, desta vez mais leve, com o equipamento distribuído por dois. A equipagem, que facilmente se verificou ser despicienda, foi feita com uma natural num grande bloco, com recurso a cinta de maior dimensão para evitar um roço. E lá desci eu... bem mais fácil e rápida do que as minhas tentativas anteriores, fruto claro da exaustão que me afectava então. E sem grande surpresa confirmou-se não haver margem para progressão não obstante a existência um ponto de interrogação que não se conseguirá dissipar sem recurso a meios mais "pesados". Em qualquer dos casos não se verifica a presença de qualquer sopro ou sensação de passagem de ar, o que reforça a ideia de uma certa inutilidade na continuação dos trabalhos neste ponto, dando por conseguinte por finda a exploração do X3.









Foi efectuado o levantamento dos dados topográficos desta pequena cavidade para possibilitar a execução posterior de uma topografia, bem como o levantamento necessário de pontos "chave" na única, e pequena, sala no "fundo" da entrada.

Croqui provisório

Ponto A - ponto de interrogação. Passagem muito estreita
bloqueada a meio por um grande bloco que se nos afigura completamente
impossível de retirar.
Ponto B
Ponto C
Ponto D
Ponto D1. 
   
Com o primeiro ponto da agenda concluído pegámos no equipamento e migrámos cerca de 40 metros para sudoeste em direcção ao X2. A pequena abertura foi descoberta acidentalmente aquando da primeira saída para indicação de alguns pontos conhecidos por habitantes da localidade de Alqueidão, e que mereceu uma primeira abordagem na saída posterior, revelando um enigma digno de ser investigado e resolvido. Pois bem, a saída de ontem permitiu perceber que as duas possibilidades aventadas na altura se confirmaram, tendo sido amplamente confirmada a existência de um poço no fundo da rampa, que se encontrava parcialmente obstruído... 

Para percebermos as profundas alterações resultantes da intervenção importa comparar a entrada como a descobri e a amplitude da mesma após a desobstrução e alargamento da entrada e rampa de acesso ao poço.




Com a percepção da existência de um poço, ou melhor dizendo, de um espaço vazio algures no fim da rampa ou mesmo por baixo da rampa, na mencionada primeira abordagem efectuada ao X2, o primeiro passo foi colocar uma corda que permitisse descer a rampa em segurança, tendo para o efeito utilizado duas ancoragens naturais, em dois blocos de dimensão adequada. Equipado com o arnês e toda a parafernália que a situação exige o ingresso tornou-se muito complicado logo após a abertura, na zona de maior constrangimento verificada pela existência de um bloqueio parcial a meia altura (bloco que se projecta da parede esquerda e uma protuberância na parede direita. Sem este equipamento e sem o capacete havia passado na saída anterior mas com estas condições impunha-se uma pequena desobstrução prévia, alargando a zona superior a este bloqueio por forma a permitir a passagem. Posteriormente, quando as condições de trabalho o permitiram, após a remoção de muita pedra e terra na abertura e inicio da rampa, foi mesmo alargada a passagem pela ablação de parte dos blocos em ambas as paredes como se pode ver já na foto à direita.

Mas um passo de cada vez. A verdade é que com esta primeira desobstrução foi possível a descida até ao funda da rampa e com os pés procurar passagens ou pequenas fendas que explicassem a forma como uma pedra tinha caída, a julgar pelo som, cerca de 8 ou 9 metros quando, pelo que se podia ver, a rampa terminava menos de um metro abaixo do ponto em que tinha rolado. 

E não foi difícil perceber. A "base" da rampa apresentava no seu lado esquerdo (da perspectiva de quem observa da entrada, e como se pode ver pela fotografia acima) um pequeno espaço vazio, um pequeno buraco. Tateando com os pés , tentando perceber as suas dimensões, foram sendo enviadas pequenas pedras pelo percepcionado poço, até que de um momento para o outro deixei de sentir esse espaço e as pedras deixaram de cair. Temendo que tivesse, de alguma forma, bloqueado a passagem redobrei os esforços, o que resultou numa derrocada parcial da base da rampa, expondo assim, e de uma forma clara e inequívoca, o vazio negro e apelativo de um poço para a escuridão fresca de profundidades maiores.

O passo seguinte, e que se impunha, era subir à superficie, avaliar as alterações provocadas pelo abatimento e formular um plano de ataque. Rapidamente se mostrou claro a necessidade de alargar toda a passagem por forma a facilitar a abordagem à vertical, pelo que pusemos mãos à obra, e com a ajuda do "Big Mike" lá fomos alargando, abrindo e aprofundando a entrada, retirando blocos (alguns bens  pesados) e muita terra. Com algum espaço criado que permitiu atacar o "constrangimento" era altura de sacar o "Mauler" e o "Small Mike", e "abrir" caminho.

Com margem de manobra ganha fizemos uma primeira tentativa de ingressão no vazio via GoPro mas não se revelou fácil. As condições eram complicadas, com uma abertura ainda pequena e com uma progressão que não era completamente vertical. Temendo que o capacete ficasse preso não se forçou a sua progressão.

Após uma pequena pausa para hidratação voltámos ao trabalho. Era necessário continuar a aprofundar a abertura bem como a rampa, não só para se ganhar espaço como para tentar perceber os contornos reais da passagem que se encontrava tapada por um grande volume de terras e pedras soltas. A posição de trabalho não era fácil mas com o Leal sénior  à superfície e o "júnior" na rampa mais abaixo e com a utilização de ferramentas improvisadas (havia deixada a minha pá no carro) para além da ajuda inestimável do "Big Mike" para perfurar e revolver terra, soltar e alavancar pedras, lá fomos retirando material atrás de material, tudo sem na verdade conseguir alcançar pedra sólida. No fundo da rampa um grande bloco que ao principio parecia solidamente preso começou a dar sinais de se poder tornar móvel... Atento à sua dimensão o risco era enorme. Ele tinha que sair mas era manifestamente impossível puxá-lo para cima, e empurrando para baixo havia uma preocupação muito real  que pudesse bloquear, de forma irremediável, o acesso ao poço. A verdade é que a escolha se impunha de per si e, primeiro com a alavancagem do "Big Mike" e depois com a força das pernas, lá se conseguiu, com sucesso, enviar o bloco poço abaixo com um enorme estrondo.

Com mais espaço foram feitas mais algumas tentativas de filmagem, que continuaram a se mostrar muito complicadas devido ao caracter complexo da passagem "pouco" vertical neste seu primeiro troço e o ângulo de ataque. Com as forças físicas já em níveis baixos a capacidade para lidar com situações de risco era bastante mais diminuta pelo que acabei por fazer apenas mais uma ingressão até ao que fora em tempos a base da rampa, agora apenas uma pequena plataforma que dava acesso a uma outra pequena rampa e sentido oposto ao da entrada, efectuada de forma a colocar o peso o mais distribuído possível, de preferência nas paredes. O espaço e a forma como estava colocado não me permitiu visualizar o espaço abaixo deste segunda rampa mas ainda antes de subir enviei mais uns blocos instáveis para baixo. 



Esta tarefa de saneamento, tanto da rampa como da zona de acesso ao poço, vai ser ainda demorada e constantemente avaliada. É uma passagem que apresenta sinais de instabilidade, e qualquer exploração de zonas inferiores exige a verificação de níveis mínimos (mínimos mas elevados) de segurança. Seria importante perceber os reais contornos da passagem ainda cobertos por terras. Por outro lado, e atento à forma fragmentada como se apresenta o teto da rampa em algumas zonas, sendo constituído por pequenos blocos amontoadas que ganhar alguma coesão pela força do peso exercido pelos blocos superiores, não se descarta a possibilidade de abrir esta passagem à superfície, o que iria exigir um grande esforço e tempo.

Na próxima saída, e já com o DistoX plenamente operacional, será possível ficar com uma melhor ideia das dimensões do "buraco".

Com o corpo já muito moído e com um concerto que ainda me esperava à noite lá partimos. Cansados mas satisfeitos, muitos satisfeitos com o trabalho feito. A ver os desenvolvimentos que nos aguardam em próximas actividades de exploração.

A caminho do carro ainda houve tempo para "bater esta chapa". O enquadramento não é o melhor (efeitos do cansaço) mas o objectivo está lá.


O passado recente e um futuro ao longe que se faz sentir já hoje no presente.


Um abraço cavernícola,
Alexandre  Leal

   




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