sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Algar do Descanso

Cabeço Gordo, União de Freguesias de Arrimal e Mendiga

16 de Agosto de 2018


Coordenação - Alexandre Leal
Equipa - Alexandre Leal, Rodrigo Leal (apoio à superfície)




Após termos identificado dois pontos na prospecção levada a cabo no Cabeço Gordo na passado dia 12 de Agosto, estava determinado em atacar um ponto em particular, um pequeno buraco encontrado por Alexandra Leal (espeleóloga mor cá de casa), que acabou por ditar a designação dada de "Algar do Descanso", e que pela som da pedra a cair indicaria um poço com profundidade superior a 15m. 

O potencial para se tornar o segundo mais profundo do Cabeço era uma possibilidade real, o que aliás se veria a confirmar, mas deixamos isso mais para a frente.

O dia estava estranhamente cinzento, com a serra coberta por um espesso manto de nevoeiro que só horas mais tarde viria a levantar.

Os objectivos estavam, no entanto, traçados, e com o equipamento às costas lá nos fizemos cabeço acima. Este esforço inicial rapidamente nos fez esquecer o estranho tempo.

Alguns minutos depois estávamos uma vez mais diante do pequeno buraco, situado num pequeno  declive de terra, meio escondido por entre vegetação, adjacente a um trilho secundário que serpenteia até à coroa do cabeço.

Uma breve análise do buraco reforçou a ideia com que tinha ficado do momento em que foi descoberto.

Todo o bordo da abertura aparentava ser constituída principalmente por uma camada de terra seca de dimensão não identificada. Por uma questão de segurança, uma vez que iria estar a trabalhar, em potencial, numa zona instável ou pouco resistente, sobre um vazio bastante profundo.

Com tanta rocha à nossa volta a verdade é que junto à abertura não se encontrava nenhum elemento que permitisse colocar um ponto de segurança, forçando o recurso a bloco de maiores dimensões situada a cerca de 6 ou 7 metros, no qual foi colocada uma fita, que serviu de "natural"  e me iria permitir começar os trabalhos de alargamento já devidamente "preso" à corda.

E com efeito rapidamente se confirmou que todo o perímetro era constituído, esmagadoramente, por uma camada de terra muito seca, suportada no local, sobre o vazio, por uma rede extensa de raízes das plantas que se desenvolviam paredes meias com o buraco.

A visão para dentro do poço indicava um diâmetro que facilmente permitiria a sua descida, ainda que não oferecesse grandes oportunidades para a sua equipagem ao nível da cabeceira. À medida que ia retirando terra fui ganhando a consciência da natureza das paredes, sobretudo nos primeiros 2 ou 3 metros, com várias zonas constituídas não por rocha sólida e firmemente implantada mas sobretudo por pequenos blocos amontoados, por vezes criando verdadeiros puzzles.

Com cuidado e muita atenção fui limpando  e saneando a abertura e as paredes do poço ao meu alcance por forma a permitir um ingresso minimamente seguro ( após um segundo ponto de segurança, através da colocação de um parabolt num outro bloco), esforço que continuou acentuado ao longo dos primeiros metros, mas de forma contínua até à base do mesmo.



Já no interior tentei encontrar rocha que permitisse colocar um fracionamento, e assim descer até à base sem o risco de roçar em algum ponto mais saliente. A verdade é que as paredes, mesmo quando aparentavam uma maior firmeza, por uma razão ou outra não ofereciam a segurança necessária ou quando pareciam mais sólidas tais pontos pontos não resolviam potenciais zonas de roço.

Colocando uma segunda manga de protecção na corda numa ponto em que era incontornável o roço ao descer, mas sobretudo ao subir, optei por seguir directo até à base, que alargava ligeiramente para formar uma pequena sala ligeiramente arredondada, com o chão coberto por vários blocos caídos e uma camada de lama relativamente seca a que se juntou a terra que havia entretanto caído durante os trabalhos de alargamento da abertura.



Da parede contra a qual desci surgia uma passagem para um segundo poço, entre 2 e 3 metros de profundidade, com as paredes cobertas de pequenas formações hipogénicas, bem como, através de uma janela sobranceira a este poço, o ingresso a uma outra zona que se desenvolvia após um destrepe, interrompida por um enorme bloco que abateu do teto. Do outro lado a passagem terminava 2 metros mais à frente, numa área coberta por grande blocos mas sem que fosse minimamente aparente estar perante um possível poço obstruído.

Segundo poço.

Visão da janela sobranceira ao segundo poço.

Visão da janela para o outro lado. Um pequeno, mas traiçoeiro destrepe,
dá acesso a uma pequena rampa.

Visão  da zona superior deste sector, com o grande bloco proeminente no meio da imagem.

Espaço entre o mega bloco e a parede da sala.

No outro lado do bloco caído...

Por baixo do destrepe um pequeno nicho com formações.
















Da sala na base do poço de entrada, em sentido contrário, uma pequena abertura junto ao chão permitia aceder a uma pequena passagem  que progressivamente ia afunilando até impossibilitar a progressão.



  Olhando para cima, envolto num vapor fantasmagórico, o Sol finalmente parecia estar mais forte...


O levantamento topográfico teria que ficar para uma segunda visita ao algar mas o DistoX não enganava. O poço de entrada media 19.60m, para uma profundidade máxima da cavidade estimada de 23 ou 24, o que a torna efectivamente na segunda cavidade mais profunda do Cabeço Gordo.




Atendendo às dimensões do buraco resultante dos trabalhos de desobstrução e alargamento da abertura, e à localização do mesmo, foi criado um pequeno muro e colocados alguns ramos (muito secos, e como tal pouco resistentes, mas que criavam volume para tapar o vazio) por forma a mitigar o risco de quedas acidentais de animais. Neste ponto de salientar terem sido encontradas ossadas no interior da cavidade, algumas das quais de animais de um porte maior ao que a pequena dimensão do buraco tal como o encontrei permitiria supor.



Houve ainda tempo para uma abordagem inicial a um outro ponto descoberto, muito perto, aliás, do Algar da Estrada do Cabeço Gordo, mas cujo potencial permanece algo duvidoso, especialmente tendo em conta a intervenção que poderá necessitar.

Mas isso fica para outro dia.

"Buraco" tal como o encontrei.
"Buraco" após a intervenção inicial.


Sim, por agora o que apetecia mesmo era uma Sopa da Pedra e uma bifada no Bigodes para repor as forças.

E para a semana há mais... ou se calhar já amanhã.

Grande abraço,
Alexandre Leal 

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