quarta-feira, 15 de março de 2017

Algar da Laje e Algar do Patelo

Patelo , São Bento

12 de Março de 2017





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Filipe Santos, Rodrigo Leal



Algar da Laje



Chegara, finalmente, o dia marcado a exploração preliminar de duas cavidades que me foram referenciadas por Samuel da Costa e Filipe Santos, que as identificaram numa das suas constantes deambulações e caminhadas pelas serras e vales da região.

O dia ameaçava chover, mas creio que até a chuva se amedrontou perante as saraivadas incessantes de um vento que fustigava tudo e todos. As nuvens a baixa altitude pareciam bólides de formula um, tal era a velocidade com que passavam por cima de nós.


Em primeiro lugar apontámos a mira ao Algar da Laje, que se desenvolve sequência de uma grande diacláse, que tem numa grande laje (já bastante fracturada no seu lado inferior) a sua "pedra angular".


Equipada em regime de exploração, foi colocado um spit como ponto de amarração principal, tendo sido colocado uma natural de aproximação e ponto secundário num tronco próximo. 








A descida faz-se rápida num poço de entrada que deverá ter cerca de 6m (profundidade a conferir numa próxima saída), dando acesso a uma sala com uma base ligeiramente inclinada, coberta de blocos de pequenas e médias dimensões.  No final, a inclinação acentua-se à medida que a sala vai afunilando até ao seu terminus. 




No lado oposto, na zona mais elevada da sala de entrada, por detrás de uma grande laje que se desprendeu do teto, encontrámos um poço (designado Poço 1) com cerca de 6 a 7 metros de profundidade (P3+P3), que terá que ser descido e explorado, em particular atendendo ao facto de que parte dele se encontra fora do ângulo de visão da sua cabeceira ao cimo da sala.

Poço 1

Desobstrução em curso...
Na parede da esquerda (atendendo ao sentido da equipagem na boca do algar), ligeiramente abaixo do local de descida, verificámos a existência de uma fenda junto à base, que se encontrava parcialmente obstruída por vários blocos, e que dava acesso a um outro poço (designado Poço 2).

Após uma breve desobstrução e saneamento da passagem, por forma a evitar deslizamentos "indesejados" de blocos e facilitar o ingresso, mas sobretudo, a saída, utilizei a corda que vinha de cima, assegurando que o roço era menor e perfeitamente irrelevante, desci até uma pequena plataforma, composta por blocos que haviam caído e aí se encravado, cerca de 2m mais abaixo.

Deste ponto foi possível não só verificar com mais acuidade o poço que era visível pela abertura superior como também perceber que este se estendia, através de uma pequena passagem, para uma zona situada sobre a sala superior. Zona esta, aliás, que seria a zona de acesso directo a este nível inferior antes da passagem ser obstruída por grandes blocos que terão caído e rolado até aí se fixarem, momento partir do qual a passagem possível passou a ser feita pela fenda na parede, tal como descrito acima.   




Uma vez que se tratava de uma exploração preliminar, e havia ainda uma outra cavidade para ser observada, optei por descer o capacete na ponta da corda por forma a captar, através da GoPro, imagens do interior deste nicho, o que veio a revelar a existência de uma passagem que se desenvolvia, sensivelmente (e impressão que terá que ser confirmada posteriormente), no sentido do Poço 1.

Sem elementos de escala que permitam fazer uma análise mais consubstanciada, as imagens parecem apontar para uma fenda vertical relativamente alta e estreita, que ainda assim não deverá constituir obstáculo para a progressão.

Com três pontos de interesse identificados, que terão que ser explorados numa saída subsequente (Poços 1 e 2, bem como a passagem supra referida), demos por terminados os trabalhos, prontos a rumar à cavidade seguinte, o Algar do Patelo, "já ali à frente".




E o vento não dava tréguas... a sorte é que num instante nos colocámos lá, e dentro da cavidade estávamos abrigados.

O Algar do Patelo estava referenciado (pelo Samuel e pelo Filipe) como uma pequena cavidade, colocada a descoberto pelas obras no Caminho do Patelo. Aquando da sua identificação tinham inclusive entrado e explorado até a uma passagem estreita que dava acesso a uma sala via destrepe com cerca de 2 metros. 

Atendendo à especificação do destrepe, uma vez que não era possível visualizar a zona imediatamente por baixo da passagem, e uma vez que esta, atendendo às suas dimensões, não permitiria uma saída sem a colocação de uma corda, esta sala ficou por ser vista, e era esse o objectivo da exploração de hoje.

A entrada do Algar é algo apertada, e uma vez que a base fica a não mais de 2m, sendo facilmente descido em oposição, optámos logo à partida por retirar o arnês. Todo o material foi colocado no interior, na base do poço de entrada. Não que o "buraco" fosse muito maior. A base do P2 dá acesso a uma pequena rampa, no fundo da qual, no sentido inverso, encontrámos a passagem referida.

Com umas tentativas preliminares verificou-se que era efectivamente possível transpor este ponto para o outro lado, embora levantasse muitas dificuldades, uma vez que apenas era possível passar de forma oblíqua. O caminho inverso seria particularmente difícil de fazer, razão pela qual se optou por alargar ligeiramente a base desta pequena "janela", por forma a ser possível a sua passagem com o corpo na horizontal. 

Ainda assim, o destrepe mostrava-se complicado pela forma arredondada da rocha e pela ausência de "presas" suficientes que possibilitassem a sua descida. A solução encontrada, para evitar "desperdiçar" spit, e uma vez que não se vislumbrava alguma possibilidade de amarração natural, foi improvisar um ponto de amarração humano, colocando um cabo preso ao arnês (via "demiround") do Filipe, por forma a auxiliar a descida. 


De salientar que enquanto se procedia ao alargamento deste ponto era sentido, de forma itermitente, um ligeiro, muito ligeiro, sopro.

Do outro lado, no entanto, a sala parecia ter muito pouco para oferecer. Foram identificadas várias chaminés de muito pequena dimensão, que podem explicar o sopro, promovendo  uma ligeira circulação de ar, bem como dois pontos que me chamaram a atenção e levantaram algum interesse.

Do ponto de vista da imagem acima, à direita da corda junto à base, encontrava-se um nicho de muito pequenas dimensões, colmatado por uma camada de argila. Estranhamente também aí senti um pequeno sopro, mas que pode ser explicado pela existência de pequenas condutas que terão transportado a argila e água que aí se encontravam. Efectuei alguns testes, em particular com o Big Mike (pé de cabra), e embora não possa descartar definitivamente a possibilidade de alguma pequena passagem obstruída, não creio que haja algo minimamente relevante aí "escondido".

Desobstrução em curso.
Directamente oposta à entrada identifiquei um pequeno buraco na parede, a cerca de 70cm de altura, numa zona de calcite bastante "seca" e estalada. Em poucos minutos consegui alargar o suficiente para perceber que havia uma pequena sala, mais um pequeno nicho, do outro lado ligeiramente para baixo. Pouco depois conseguia colocar o capacete por forma a captar imagens do interior para serem posteriormente analisadas.

Confesso que neste caso não guardava ilusões e, de facto, as imagens vieram a confirmar a inexistência de qualquer via de progressão no interior deste pequeno espaço.

Foram registadas algumas formações, em vários casos observando-se o mesmo tipo de calcite "seco" e estalado, muito frágil, verificado na zona desobstruída, mas sem qualquer tipo de via aberta ou, ainda que obstruída, se mostrasse minimamente relevante. Um beco sem saída.

Tínhamos chegado ao fim deste pequeno "buraco" à beira da estrada, e estava na altura de saírmos, pegar no material e rumar ao carro para uma refeição merecida.



De referir que já na parte da tarde houve ainda tempo para marcar várias cavidades na zona do Ladoeiro, uma das quais se veio a confirmar posteriormente estar muito bem entregue e em plena exploração, com um potencial "doido" de progressão.

O regresso ao Algar da Laje está prometido, e talvez para muito breve.

Até lá um abraço,
Alexandre Leal












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