sábado, 15 de abril de 2017

Algar da Cheira

Vale Florido, São Bento

12 de Abril de 2017





Coordenação - Alexandre Leal (NEL)
Equipa - Alexandre Leal (NEL), Filipe Santos



O outro lado do Purgatório...



Após algumas datas falhadas finalmente regressámos à Cheira para retomar os trabalhos de exploração.

Os objectivos estavam traçados: 

- Em primeiro lugar numa re-avaliação da metodologia utilizada na desobstrução do Poço do Enxofre, e desequipagem do poço (para limpeza do material);

- Em segundo lugar atacar o ponto de interrogação que persistia na zona das novas galerias, mais especificamente no "Reino da Argila". 



O dia não poderia ter começado melhor. A temperatura  ideal, com um sol a brilhar sem queimar, e depois vejo o Filipe a sair de trás do carro, equipado "a rigor" para uma saída fisicamente exigente (para não dizer dolorosa). 

Foi fim da macacada, mas serviria de lição (para além de diversão). Na verdade nunca mais será o mesmo.... (começa a fazer a lista de aquisições em termos de vestuário e protecção).

O todo o material às costas lá nos pusemos a caminho do "buraco" para o equipar e descer.

Não que o poço de entrada seja particularmente grande mas a passagem da parede para o vazio e a visão, pela primeira vez, da sala de entrada na sua plenitude é sempre um momento que causa um certo  impacto, e a beleza do local sob a luz filtrada pela vegetação que esconde o algar dos olhos mais indiscretos ajuda a fixar o momento na nossa memória.


Na zona dos nichos laterais foi re-equipado a cabeceira e efectuados dois testes no ponto 1 (ponto estreito, objecto de extensiva desobstrução), na zona que tem sido intervencionada, e que confirmaram as dificuldades experienciadas em saídas anteriores. A pedra, pelas suas características, recusa-se a partir com as técnicas aplicadas, e a utilização do martelo e escopro tornou-se obsoleta /ineficaz atendendo às condições específicas de trabalho. 

A parede oposta aparenta ser uma opção bastante mais viável, ainda que em termos práticos seja mais complicada de trabalhar.

Neste sentido, e pesando todos os factores e considerações, parece-me ser de testar uma nova abordagem, interrompendo os trabalhos de desobstrução neste ponto 1, e passando desde já a atacar o ponto 2, removendo todo o material que aí se fixou, puxando-o para cima até à galeria principal. 

Apesar de complicada a passagem do ponto 1 É exequível por operacionais com estatura física apropriada. A utilização de baldes neste ponto não é uma opção, pelo que serão utilizados meios de remoção não rígidos, que permitam a passagem pela zona apertada. Para o efeito serão utilizados dois sacos (tipo IKEA, um dentro do outro para reforçar a resistência, sobretudo nas asas) para transportarem as pedras durante esta primeira etapa, sendo posteriormente transferido, o material, para baldes que serão puxados para cima com recurso a uma corda.

Boca do Inferno
Implica uma equipa mais vasta, com um mínimo de quatro membros, sendo que  cinco seria o ideal. 

Com a análise concluída estava na altura de desequipar o poço, retirar o equipamento individual de progressão vertical, hidratar e dirigirmo-nos para a Boca do Inferno. 

O sector das estreitezas esperava por nós, e esta seria a primeira vez do Filipe numa progressão por passagens tão apertadas. Um desafio mais psicológico do que físico, ainda que também neste parâmetro seja algo exigente.

Um teste superado com distinção, demonstrando muita calma perante a adversidade e um grande à vontade mesmo nos momentos "mais apertados". Avaliou  e identificou a melhor opção de progressão que passava pela "ablação" de um ponto que impedia a sua passagem no "Portão". Com uma pequena desobstrução criou as condições para progredir.
















O nosso destino era um pequeno espaço designado como "Reino da Argila", situado por baixo de um grande bloco no final da "Galeria dos Fantasmas". Para lá chegarmos  tínhamos ainda que ultrapassar a "Passagem da Dor", uma passagem que implica uma movimentação relativamente coreografada,  e algo complicada, sobretudo no sentido inverso.

Mostrou-se mais complicada para o Filipe do que o antecipado, atento à sua altura, pelo que teve de se proceder a uma intervenção cirúrgica e um alargamento do espaço de passagem vertical.

Acesso à "Passagem da Dor".

Passagem no momento da sua descoberta.
Ultrapassado este último desafio estava na hora de colocar mãos à obra e abrir caminho por entre uma espessa camada de argila, agora mais seca e granulada, que obstruía parcialmente uma passagem adjacente à Passagem do Purgatório, na esperança que esta se desenvolvesse, como parecia indicar, em sentido divergente, permitindo o acesso a uma nova zona.

O espaço apertado, diminuto (é já um lugar comum, bem sei, mas não menos verdade), com uma amplitude de movimentos muito reduzida, e sobretudo a existência de pequenos afloramentos ou zonas cobertas com um manto calcítico, que não obstante ainda muito incipiente dificultava a progressão, bem como alguns pontos mais "rijos" na base da passagem que íamos abrindo, tudo conjugado tornaram os trabalhos algo penosos mas não impossíveis. 

Com calma e trocas constantes na linha da frente (era necessário dar algum descanso aos músculos e  permitir ao corpo esticar-se, a cada vinte ou trinta minutos), fomos abrindo um "rasgo" na camada de argila acumulada, e progredindo até ao "arco" que constituía o primeiro marco. Era após esta formação que pensava que a passagem abriria e se desenvolveria para a direita... o que veio a ser claramente infirmado a meio dos trabalhos. 

A passagem parecia então desenvolver-se, após um ponto que obstruía a visão, em frente, e em sentido ligeiramente ascendente.

O que, mais uma vez, não se veio a confirmar... A sorte é madrasta, e desta vez fez-nos fisgas.  


Os trabalhos progrediam progressivamente mais lentos, na medida inversa do desgaste que aumentava, mas conseguimos finalmente atingir um ponto que nos seria possível visualizar para além do ponto que anteriormente nos limitava a visão. 

O espaço era apertado e o ângulo de visão não era o melhor MAS o pouco que podia ser visto não deixava margem para dúvidas. A passagem, após um pequena rampa ascendente, alargava à medida que virava à esquerda. Sim à esquerda, facto que num primeiro momento, entre júbilo e alívio, não levantou qualquer dúvida ou fez soar os alarmes.... 

Mas depressa passei do gáudio e euforia pela descoberta de uma nova passagem à desilusão de perceber que virando à esquerda (e construído um mapa mental do sector), atendendo ao reduzido desenvolvimento, a passagem só poderia ir dar ao pequeno espaço que se encontra no final da "Passagem do Purgatório", e como tal todo o esforço não resultou numa passagem para terra incognita, antes para um sector por várias vezes navegado.

Bruno Dias a transpor Passagem do Purgatório em saída anterior. A
passagem ora desobstruída situa-se sensivelmente um metro à esquerda.
Para confirmar deixei o capacete no local, recuei e inverti para a referida Passagem do Purgatório ("chata" de fazer após horas a dar no duro e com o fato cheio de argila que dificultava a progressão)...  a meio caminho já era visível um foco de luz que vinha algures da direita. Enfim, qualquer dúvida que ainda subsistisse foi violentamente dissipada por entre gargalhadas  e profanidades proferidas a um ritmo particularmente interessante. 





Estava na altura de "arrepiar caminho", regressar à Galeria Principal, arrumar o material e equipar para a subida... e se ao menos fosse tão fácil. 

Digamos apenas que, já à superfície, com tudo arrumado e já a caminho dos carros, me apercebi que apenas eu alombava com kitbags... pelas minhas contas faltava um!! E já estão a ver onde a história vai dar. Exacto. Toca a re-equipar o poço, descer, pegar no saco em falta, subir, desequipar, bloquear o acesso, e agora sim, tratar de ir para os carros. E como a fome era já negra, a solução estava ali ao virar da esquina. 

E no final o Filipe estava assim. Uma jovem promessa com a qual se pode contar em cenários de exigência operacional. 



Com os próximos fins-de-semana ocupados em formação "resta-me" preparar um plano de ataque para as próximas saídas.

  Um abraço dorido,
Alexandre Leal




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