Gruta do Meio
Cabo Espichel, Sesimbra
30 de Abril de 2016
Equipa - Rui Francisco, aka Loia (coordenação), Alexandre Leal
O regresso ao Cabo Espichel era inevitável após ter falhado a descida à Grande Falha durante o N2 (estado de saúde debilitado por virose, potenciado pelo esforço e desidratação ocorrido no dia anterior, durante a descida ao Fojo dos Morcegos).
Um desafio para mim, que não poderia passar sem uma resposta positiva e assertiva. Perante um convite do Meste Loia para uma actividade na Gruta do Meio, não se colocava outra resposta que não "A que horas e onde". Pois bem, o dia começou com uma conversa no café "Espiga", na Azoia. Uma verdadeira lição e aprendizagem sobre o mundo da Espeleologia, bebendo o conhecimento adquirido pelo Rui, decorrente da sua já longa experiência. Em particular de salientar a partilha sobre grutas e formações hipogenéticas, bem como cavidades marinhas.
Antes de mais devo dizer que é um prazer trabalhar com o Rui. Para além do factor aprendizagem, inegável, é um espeleólogo de uma dedicação inabalável e uma atenção assinalável ao detalhe, que coordena e dirige a exploração e trabalhos, no âmbito de um projecto continuado, de uma forma aberta, assente no trabalho de equipa, dando espaço para a progressão e "input" de todos os membros da equipa. E quando toca ao trabalho duro sempre na linha da frente...
Foram efectuados trabalhos de exploração e desobstrução fundamentalmente num sector, que se crê com ligação a um troço contíguo. Uma ligação foi comprovada logo nos primeiros momentos de trabalho.
Esta é uma cavidade, descoberta em 2007 por uma equipa de espeleólogos do CEAE-LPN, no âmbito de trabalhos de prospecção na área da parede exterior da Garganta do Cabo, com uma génese completamente distinta da que estou habituado a trabalhar no Maciço Calcário Estremenho, e as condições, bastante mais secas e quentes, têm um efeito muito relevante na forma como a argila se apresenta (para além de uma constituição manifestamente diferente). É omnipresente em todos os sectores explorados nesta saída, atingindo, em determinados troços, camadas profundidade muito relevante, o que acaba por facilitar, de certa forma, alguns trabalhos de desobstrução, sendo certo, também, que constitui uma dor de cabeça pois esconde e obstrui todo o tipo de passagens. Um verdadeiro quebra cabeças.
Uma cavidade que apresenta, nos sectores vistos, zonas de grande volume (Sala da Rampa), com passagens apertadas, e mesmo estreitezas, em sentido predominantemente ascendente. A rampa, com cerca de 15m (explorados) de extensão, vista a final, no âmbito do trabalho de levantamento de dados topográficos levada a cabo pelo Rui, de forma minuciosa, é uma via de progressão particularmente interessante, com uma inclinação muito assinalável, em algumas partes com pequenos troços verticais e/ou apertados, com a omnipresente argila seca. Sempre feita em oposição, o que requer atenção e e alguma destreza.
Pelo meio houve ainda tempo para dar uma breve visita à Falha Sul, logo ali ao lado.
No final a longa subida. O sol mantinha-se, mais fraco e mais baixo no horizonte. Já o vento, outrora calmo e fraco, adquiriu um fervor e força que ameaçava terror bem no topo. E devo confessar que, não obstante o meu conhecido receio de alturas, o vento sentido na zona da cabeceira da vertical, um pequeno ressalto/nicho que depois exige um pequeno trepe, a descoberto, para o topo, fez-me, verdadeiramente, esquecer a altura a que estava... O vento uivava, feroz, e teimava em puxar-me para aqui e para ali, mas sempre para fora... foi verdadeiramente assustador, e as forças já eram poucas (entre um joelho "lixado" e os resquícios de fadiga muscular motivado por uma gripe em processo de cura).
Trabalho feito mas sobretudo uma ideia clara que o Rui tem ali um projecto de grande interesse e complexidade, com muito trabalho pela frente e com um potencial de progressão enorme. Aquilo parece um queijo suíço. Quanto mais avanças, quanto mais "escarafunchas", mais "buracos" aparecem, escondidos, as mais das vezes, por argila.
Um trabalho em óptimas mãos.
E nós até à próxima aventura,
Alexandre Leal

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