Prospecção e Exploração Preliminar
Carso Sul-Sudoeste de Portela do Vale de Espinho
Serra dos Candeeiros
23 de Maio de 2016
Equipa - Alexandre Leal, Alexandra Leal e Rodrigo Leal
Um domingo de Maio excepcional abriu-nos as portas para mais uma acção de prospecção no Maciço Estremenho, desta vez na zona de carso a Sul-Sudoeste da Portela do Vale de Espinho, na Serra dos Candeeiros. Esta é uma serra que se tem mostrado difícil de explorar, mas sobretudo de desvendar os seus segredos subterrâneos. Poucas são as cavidades encontradas e exploradas, pelo menos que se tenha pleno conhecimento, quando comparado com as áreas para Este, em particular o planalto de São Bento.
Tinha esta zona em particular marcada para prospecção há já bastante tempo. Uma zona muito bonita a que me "habituei" a desfrutar cada vez que rumava às encostas a Oeste da Bezerra. Com uns vales bem demarcados e bonitos penhascos e afloramentos rochosos, muitos dos quais criam a sensação, aos olhos ávidos por buracos e cavidades, de pontos de interesse escondidos entre arbustos ou sombras. Um ponto em particular tinha-me chamado a atenção enquanto viajava de carro numa das saídas anteriores e esse era o primeiro objectivo a atingir. Uma falha na encosta de forma particularmente rectangular, que parecia permitir o ingresso no seu interior. As sombras criadas davam esperança. E com efeito, do local onde estacionámos o carro e com a ajuda dos binóculos do Digo o interesse, as dúvidas, aguçaram-se e lá nos pusemos a caminho...
Bem, na verdade a estratégia original de fazer um corta-mato direto para aceder ao vale esbarrou com uma "muralha" impressionante de silvas e outra vegetação cerrada mesmo à entrada, e lá tivemos que regressar e seguir o trilho.
E em bom tempo o fizemos. Em pouco tempo tínhamos chegado ao penhasco marcado. Com os restantes membros da equipa dando informações e ajudando na localização de possíveis pontos de interesse lá fui eu subindo, meios escalando meio trepando, por entre rochas, vegetação e colmeias de abelhas colocadas estrategicamente em pequenas reentrâncias na rochas. Os vários pontos examinados, incluíndo aquele que nos chamara a atenção, não resultaram na confirmação de qualquer ponto de interesse real. Foram várias as pequenas fracturas encontradas, mas todas elas de pequena profundidade confirmada.
A cavidade era claramente conhecida das gentes locais. Cerca de três ou quatro metros após a entrada o pequeno túnel dá acesso a uma sala, cerca de duzentos e cinquenta centímetros abaixo do nível do túnel, de acesso vertical, com uma dimensão de, diria, uns oito metros por seis ou sete metros, com uma forma algo irregular, frutos de várias reentrâncias e nichos na sua periferia, e em rampa. Como forma de acesso à sala tinha sido colocada uma escada improvisada, feita de madeira, presa à cabeceira por uma fina guita azul, ao estilo de amarração natural. Esta escada estava claramente em estado muito degradado, com a maioria dos seus degraus em falta, apenas com pregos a denotar o seu lugar... por uma questão de segurança de quem pudesse sentir-se tentado em usá-la retirei o cordel e empurrei a escada (já partida) para o lado (a remover numa futura saída), e equipei a pequena vertical, na sua maioria em suspenso, com recurso a uma amarração natural, um pouco manhosa diga-se em abono da verdade, feita a um bloco perto da entrada, tendo depois colocado um roçador para proteger a corda no ponto em que esta deixa a parede e passamos a ficar suspensos.
A sala, como referi, dá acesso a vários pequenos nichos em toda a sua periferia, bem como umas pequenas estreitezas na zona mais baixa, junto à base da rampa. A roupa que envergava não se adequava muito bem a explorações mais duras em locais apertados (fazer estreitezas de manga curta é "chato") mas não conseguia sair de lá sem ter uma ideia minimamente consubstanciada sobre a possibilidade ou não de continuação da cavidade, razão pela qual lá "forcei a barra". O veredicto, esse, foi fácil de obter. Não consegui encontrar qualquer forma de progressão...
À saída da gruta houve ainda tempo para trocar umas palavras palavras com uns locais que quiseram ver quem se estava a aventurar pelo buraco "adentro". Andavam verificar o trilho e a preparar uma caminhada para as gentes da terra, com visita às lapas (ver mais à frente), e foi uma oportunidade para lhes perguntar sobre a existência de outras cavidades na zona. Na verdade pouca coisa conheciam para além de uns pequenos buracos (2 ou 3 metros) MAS um ponto muito interessante foi mencionado, a existência de um algar de grande profundidade "... 100m não chega, leva 300 metros de corda", manifestamente exagerado por desconhecimento (nenhum dos presentes afirmou ter alguma vez descido, apenas fundamentavam a afirmação pelo tempo que as pedras demoravam a cair até se houver o embate final), mas mais do que a profundidade foi o facto de terem mencionado ouvirem o som de água quando as pedras chegavam ao fundo. Ficou prometido levarem-me lá numa ocasião futura.

Depois foi pôr-nos a caminho, trilho a fora, e dentro da medida do possível, inspeccionando a vertente Norte do pequeno vale, sem frutos a apresentar, embora se deva dizer que não foi, de forma alguma, uma busca exaustiva, até porque a vegetação cerrada nalguns pontos a tornava quase impraticável. A vista, no entanto, era de grande beleza, e permitiu antecipar o que haveríamos de encontrar mais à frente, no fim do trilho. Bem lá ao fundo duas lindíssimas lapas na vertente norte da base de o que deve ter sido em tempos (e talvez ainda o seja) um "canhão" de água que limpou e esculpiu o calcário de forma particularmente bela.
Após uma breve pausa para hidratação pusemos-nos a caminho até às avistadas lapas, tendo notado a existência de um trilho que subia, enviesadamente, pela vertente sul do vale até ao planalto sobranceiro.
O fim do trilho não defraudou as expectavas criadas. Todo o cenário era de uma beleza crua, moldado pela força da água mas de uma serenidade absoluta. Como anteriormente observado de longe encontrámos duas lapas distintas, uma de maior dimensão e com dois níveis distintos e uma segunda, bastante mais pequena, situada um pouco mais acima e para o lado.
| Primeira lapa, um "Duplex" criado pela força directa do caudal da água. |
| Segunda lapa, bem mais pequena e simples. |
| Panorâmica da base e paredes circundantes. |
O percurso levou-me de volta ao vale esculpido pela força da água, até porque estava interessado em descer os vários patamares até à base, embora tivesse algumas dúvidas que fosse possível destrepar o último troço. Foi muita, aliás, a insistência por parte da Sra. Leal para que desse a volta por outro lado, atento à altura da vertical e a falta de pontos de apoio. Pois sim... A altura não era significativa, uns três metros diria eu, com a única dificuldade sendo o facto de que a base não era plana, antes ligeiramente arredondada e apenas um ressalto para o chão que se encontrava cerca de metro e meio mais abaixo. Nada que não se executasse com segurança...... Depois de passar o Kit-bag e o "Big Mike" foi destrepar um pequeno troço e preparar o salto para a base. Desafio superado.
Depois houve tempo para descansar um pouco na Lapa, comer e hidratar para em seguida regressar ao carro. Uma primeira abordagem à zona que tantos mistérios e segredos tem por desvendar.
Um domingo muito bem passado na natureza, ao lado da família.
Um abraço, e até a próxima.
Alexandre Leal


Sem comentários:
Enviar um comentário