domingo, 28 de agosto de 2016

Algar do Cabeço da Pedreira

Serra dos Candeeiros, Alqueidão

26 de Agosto de 2016





Equipa - Alexandre Leal (exploração), José Leal (controlo das operações à superfície/logística)








Esforço e dedicação, vontade férrea de descobrir onde a próxima curva nos pode levar, o que um novo poço pode revelar.

Missão cumprida.

Mas comecemos pelo princípio, por mais uma actividade no Algar do Cabeço da Pedreira, a terceira. 


Os objectivos eram muito claros. Já com o equipamento necessário era pegar onde tínhamos ficado, acabar de equipar a "cabeceira" do terceiro poço, avaliar a melhor forma de evitar o roço na borda do mesmo (utilizar o spit e improvisar ou colocar um spit já na vertical, para um fracionamento suspenso), descer e verificar a fractura que se via do topo.


Primeiro re-equipar tudo até lá chegar, o que se torna cada vez mais natural e fluído com a experiência que se vai adquirindo. 

Para atacar o terceiro poço, independentemente da forma como fosse abordar a vertical e a questão do roço, decidi colocar os dois pontos de segurança base na plataforma sobranceira. O primeiro já havia colocado na saída anterior. Restava encontrar a localização "indicada" para o segundo e furar. Estranhamente demorou um pouco mais do que antecipava, uma vez que as zonas que aparentemente se mostravam mais sólidas e resistentes, quando testadas, revelaram-se algo frágeis, fracturando-se em profundidade com alguma facilidade. Acabei por ter que limpar uma camada de calcite superficial, muito mole, e aplicar o spit no calcário por debaixo.  Foi aliás este tempo "morto" que me levou a desligar a GoPro, facto de que só me lembrei quando atingi a base do poço...

Com a cabeceira equipada era altura de ponderar a utilização do spit que uma equipa anterior havia colocado na berma do poço, o que iria originar um roço na corda, em particular no nó (Mental Note: Comprar uns Coudees, que minimiza esta situação, embora neste caso não evitaria na totalidade) ou passar para a vertical e um pouco abaixo da berma colocar um spit. 

A solução adoptada acabou por surgir de forma natural. Logo à partida coloquei uma plaqueta neste spit para o testar em si e um possível layout. Já na vertical apercebi-me que, embora fosse possível a colocação de um spit para um fracionamento, a verdade é que a aplicação de uma fita de dyneema, com a sua maior resistência à abrasão provocada pelo roço na rocha (e o seu menor volume também resultava numa menor pressão entre o mosquetão e a rocha) resolveria a questão. Facto facilmente confirmado por um teste rápido. 

Assim, a equipagem neste ponto ficou resolvida com a aplicação de uma plaqueta, um mosquetão, uma fita de dyneema "dobrada" em 4, com um mosquetão na ponta para colocar a corda. Fácil, rápido e eficaz.

A base do poço é dominada por uma fractura vertical na parede sensivelmente oposta à que descemos, e que dá acesso a uma rampa, algo instável, coberta por uma "cascalheira" de blocos de diferente dimensão. O ângulo de descida é acentuado e é necessário algum cuidado no sentido de evitar uma derrocada ou deslizamento desta camada. 

Esta é a zona "terminal" da cavidade. Ao fundo da rampa temos dois espaços bem definidos. O primeiro, no sentido de desenvolvimento da rampa é acessível através de um pequeno trepe em oposição de cerca de 1,5m, terminando, no entanto, cerca de 3m mais à frente.

Neste pequeno espaço encontramos o que poderá ser uma pista fundamental para deslindar um dos pontos controvertidos na descrição da profundidade que o algar alegadamente teria na visão dos habitantes de Alqueidão que me indicaram a cavidade.

Segundo eles era possível por vezes, durante o inverno, ouvir o som das pedras, que enviavam para dentro do poço de entrada (tentando julgar a sua profundidade), a bater em água. Estava um pouco céptico, confesso, mas a verdade é que a descoberta de um pequeno crânio nesta zona em particular, e partindo do princípio que não fora lá colocado por qualquer equipa anterior, não poderá ser facilmente explicado se não considerarmos a possibilidade desta zona ficar inundada. Esta parece-me, aliás, a única explicação plausível para a posição daquele crânio, numa zona mais elevada em relação à base da rampa, tendo aí sido depositado quando o nível da água baixou.

O segundo espaço, uma apertada fractura vertical localizada à esquerda da base da rampa, constitui um verdadeiro ponto de interrogação. Atento às dimensões do algar, e em particular do sector do terceiro poço e desta rampa "final", à forma como todo o algar se desenvolve, e à potencial carga hídrica que poderá receber, não coloco de parte, e considero aliás provável, que a "base" visível do espaço para além desta fractura, constituída por amontoado de blocos variados, seja na verdade uma obstrução de um poço que se desenvolve por baixo.

A dimensão da passagem, sem outros meios mais pesados ou um trabalho muito exaustivo de alargamento, não permite, no entanto, o ingresso e muito menos o trabalho de desobstrução e remoção dos blocos que constituem a "base" do pequeno nicho.

Foi visto uma outra reentrância a meio da rampa, sem nada a apontar, apesar de também se mostrar obstruída por blocos que aí se depositaram, bem como uma pequena fenda  na base do terceiro poço, entre a rampa e a parede de descida, também aqui sem hipótese de progressão.

Teremos que voltar para o levantamento dos dados topográficos, mas com base nos cálculos feitos apontaria desde já para uma profundidade na casa dos 35m ou 36m.

Com os trabalhos concluídos, e porque tinha como objectivo a documentação em video do X2, Algar da Rampa Falsa, estava na altura de inverter o sentido e ascender à superfície, desequipando a cavidade pelo caminho.



À saída o sol mostrava-se quente, "batendo" com renovado ardor, pelo que o caminho de volta ao carro não foi fácil. Aí chegados tempo apenas para arrumar o kit bag com o equipamento mais pesado  bem como a maioria do material de equipagem "espalhado" pelo arnês.

Para o X2, denominado de "Algar da Rampa Falsa", precisaria apenas de uma corda de 20m, 3 plaquetas e duas cintas, com os respectivos mosquetões, e um roçador. Para não perder tempo tirar arnês e fato, pegar no carro e dar a volta até ao outro cabeço, daqui segui directamente, e a pé, até ao Algar, mais cerca de quilómetro e meio (o Leal levou o carro até perto da encruzilhada dos quatro caminhos).

X2 - Antes do alargamento e desobstrução.
X2 - Depois dos trabalhos de desobstrução.




Avistar a entrada da cavidade foi uma benção. A escuridão prometia derrotar o calor e rapidamente me coloquei na corda e lá fui rampa abaixo. A equipagem da vertical exigiu a limpeza de um dos spits, que estava colmatado com terra seca (devo ter coloca a bota cheia de terra por cima da zona do spit ao subir a rampa na saída anterior. O espaço é apertado e não se consegue sequer olhar para trás).


Depois foi descer, revisitar a sala principal, em particular às belas formações encontradas na ponta  oposta, bem como a segunda área, que na prática seria um poço paralelo ao descido, com uma profundidade 2 metros superior.

A saída da vertical para a mini-rampa e posteriormente para a rampa de entrada foi um pouco mais custosa devido ao esforço acumulado. O espaço é confinado e o ângulo de saída não é o mais fácil, mas o trabalho estava concluído. Restava subir a rampa, desequipar e regressar ao carro... e o calor não dava tréguas.



Enfim, para a semana há mais, faça sol ou faça chuva.







 Um abraço,
Alexandre Leal

 

   

Sem comentários:

Enviar um comentário