Algar da Arroteia
Chão das Pias, Planalto de Santo António
03 de Setembro de 2016
Coordenação- Marco Dias (NEL)
Equipa - Marco Dias (NEL), João Ferreira (NEL), Alexandre Leal (GEM), Luís Meira (AESDA), Bruno Pais (AESDA/GEM)
O regresso à Arroteia era inevitável. A clássica onde fiz o exame de Nível II, com um poço de entrada (P45) que deixou alguns de nós um "pouco" apreensivos... e que agora reencontrei e encarei com a maior das naturalidades.
Inserido no âmbito da campanha levada a cabo pelo NEL (Núcleo de Espeleologia de Leiria) no Algar da Arroteia, um trabalho continuado, sistemático, e que procura aprofundar (pun intended) o nosso conhecimento sobre esta maravilha cársica, com a exploração de vários sectores, em particular nos pontos obstaculizados pela presença de água, sob a forma de sifões, tive o prazer de integrar a equipa que foi para o terreno no passado dia 03 de Setembro.
O dia estava quente, um lugar comum nos dias que correm bem sei, e também por isso a vontade de mergulhar na escuridão fazia-se sentir com maior acuidade. E foi um mergulho em "Warp speed"... um deslizar constante, fluído, a grande velocidade pelo poço abaixo, interrompido apenas por uma vez, para afastar a corda da tubagem. Digamos que o descensor estava "on-fire" na base do P45. Já a corda do segundo poço (P10) era menos "user-friendly", e a descida menos fluída.
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| Na "Sala das Refeições" um morcego solitário. |
Como compreenderão a descrição da actividade será um pouco mais concisa do que o habitual, focando apenas os traços gerais e a minha impressão da cavidade.
Com as bombas a funcionar, e a debitar água a bom ritmo, foi analisado o nível água em vários pontos da cavidade, com particular atenção aos dois sifões, tanto no final da Galeria do Rio, de onde resgatámos uma tubagem, como no final do meandro no nível inferior (no seguimento do Poço da Cascata).
Se é verdade que tenho estado a falar num "revisitar", num regresso a um Algar de fortes memórias, não é menos verdade que me pareceu estar a vê-lo pela primeira vez. A diferença abismal que um bom frontal faz. Desde o poço inicial, cujas paredes me pareciam estar lá longe, bem fora do meu alcance, escondidas por uma escuridão impenetrável ao "frontal" que usara então, até aos pormenores da cabeceira da cascata, a todos os pequenos detalhes que vamos aprendendo a ler e que agora foram revelados, de forma majestosa, pela luz da minha ElSpeleo.
Recordo-me perfeitamente de estar na base do P45, no meio da escuridão, e olhar para o pequeno ponto de luz lá em cima, bem longe, e entre mim e a saída, nada... vazio. Escuro como breu.
Confesso que adoro deitar-me na rocha (ou na areia quando tal luxo existe), desligar a luz, e relaxar, imerso num mundo que não obstante nos ser hostil me trás uma enorme tranquilidade. Na altura, no entanto, aquela escuridão transformava os 45m que me separava do mundo exterior numa tarefa hercúlea, num feito quase intransponível... Hoje, nem a escuridão é opressiva, nem a distância assaltava os meus sentidos.
Mas de volta ao presente.
O Poço da Cascata é uma vertical deslumbrante. Não impressiona pela sua dimensão antes pela forma como as suas paredes foram, são, esculpidas pela água, emprestando-lhes uma forma, uma textura, a cor de uma vela derretida impregnada num brilhante verniz. No seguimento surge-nos um meandro algo mais apertado e difícil de navegar do que o encontrei no nível superior, que desemboca numa zona mais ampla que dá para o sifão a "abater"... ![]() |
| Fotografia por Marco Dias (NEL) |

A Galeria do Rio, um sector que desconhecia, impressiona pela sua extensão "navegável" e pelos muitos gours, em algumas zonas sucessivos. As dimensões da passagem não são particularmente generosas, mas também não apresentam, agora, qualquer tipo de dificuldades. Os pontos mais apertados foram devidamente alargados, tornando a sua navegação confortável, se não tivermos em conta a temperatura da água, cristalina em grande parte do trajeto. O Sifão final apresentava-se fechado, mas ainda houve oportunidade para um pequeno mergulho para ultrapassar uma estalactite que dificultava a progressão. Não era estritamente necessário mas mostrava-se mais fácil do que tentar espremer-me, a mim e ao capacete, por entre o espaço disponível, e como molhado já eu estava...
A temperatura da água, após o choque inicial, só começou a "incomodar" com o prolongar da operação de remoção da tubagem, que exigiu ainda algum tempo, parte do qual sem grande actividade física. Nada que umas "braçadas" e uns 3 ou 4 metros de progressão não resolvessem.
Molhados, encharcados, mas com os trabalhos concluídos "restava" subir.... que deu, aliás, para repor níveis térmicos mais adequados. Saímos bem "quentinhos" para um sol que, já de si, torrava.
Para a semana há mais.
Um abraço,
Alexandre Leal




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